Uma Estranha No Meu Quarto

45 Capitulo 39 - Na Estrada


Notas iniciais
Boa noitee gente!! tudo bem? cheguei com o capítulo de hoje... A terceira parte do final!Não vou me prolongar não, boa leitura :)

É quase dia e os primeiros raios de sol despontam no horizonte quando enfim cruzo a fronteira com a Escócia. Os ponteiros da Ferrari marcam 300km que é quase seu máximo de velocidade. Jaynet veio o caminho inteiro brigando comigo por conta disso, mas simplesmente não consigo desacelerar. Também nem posso nas condições de seu corpo.

A viagem que já dura cerca de quase quatro horas e meia, foi interrompida apenas uma vez; quando eu parei num posto, fui no banheiro e jogamos o conteúdo de um dos cilindros de nitrogênio no corpo dela. Jaynet disse que nem de longe é o ideal, que inclusive se ela reviver pode ter sérias sequelas, mas nós não tínhamos outra alternativa. Na metade do caminho sua temperatura já marcava dez graus negativos.

— Meça de novo seu corpo, faltam umas duas horas ainda.

— Está em trinta e cinco graus negativos. — Ela me responde e observo seu reflexo brilhante pelo retrovisor central, distraída com o braço do próprio corpo. — Estou nervosa...

— Eu também, meu amor.

Jaynet desliza para o banco da frente e somente ao ver seus olhos travessos que percebo a merda que acabei de dizer. Pela segunda vez no mesmo dia, digo que a amo. Eu nunca, nunca havia dito isso antes, para ninguém. E ela nem é minha namorada, mas fico feliz quando digo. Espero ela soltar alguma de suas piadas e me surpreendo quando ela acaricia minhas mãos pelo volante, totalmente sem graça. Sinto a atmosfera mudando completamente ao nosso redor.

— Eu não pude te responder mais cedo, lá no instituto do meu pai... Mas eu... — Encosto o carro no acostamento, meu coração acelerado. Sei exatamente o que ela vai dizer e não quero perder esse momento. Me viro para minha fantasma favorita, lhe dando toda minha atenção. — Eu te amo também, Christian.

Seu sorriso enquanto diz que me ama ilumina minha vida. Sem conseguir me conter por mais um segundo sequer, puxo-a pela cintura e colo meus lábios no seu, beijando-a com volúpia. Um ardor maravilhoso percorre meu corpo, se sobrepondo a estranha sensação de fraqueza que sempre me acomete sempre que a beijo. Percorro livremente minhas mãos por suas costas e sinto Jaynet passar os braços pelo meu pescoço, me prendendo a ela deliberadamente como nunca havia feito antes. Sua espontaneidade me enlouquece e deixando escapar um gemido, acabo trazendo-a pra meu colo.

Sei que a situação é totalmente esquisita, com seu corpo no banco de trás... O ideal seria esperar mais um pouco, beijá-la depois do ritual, em carne e osso. Porém sua declaração mexeu com todos meus hormônios e bagunçou toda minha cabeça. Ser correspondido por ela me traz um imenso sentimento de alívio. Ainda tinha receio dela me rejeitar.

Sinto meu telefone vibrar no bolso e logo “Like i would” do Zayn preenche o ambiente. Solto um suspiro de frustação e Jaynet se afasta um pouco, contudo permanece em meu colo. Faço menção de beijá-la novamente, no entanto ela franze o cenho e me encara com uma expressão preocupada.

— Atende, pode ser os meninos.

Prendo minha respiração enquanto tateio o bolso em busca do celular. Desde que nos separamos frente ao prédio do pai de Jaynet os meninos não deram mais notícias. Tento ser positivo, dizer para mim mesmo que está tudo bem, mas fico com medo de que eles não tenham conseguido despistar os seguranças. Muito apreensivo, toco o touch sem sequer olhar o visor e atendo.

— Alô?

— Christian??

Puta que pariu! Ninguém merece.

— Heather?!?!?!

Jaynet imediatamente se empertiga em meu colo, alarmada. Seu rosto fica sombrio e ela me encara com raiva. Dou de ombros e lhe lanço um olhar de suplica, que espero que deixe bem claro que eu não estava esperando por essa ligação.

— Christian... — Ouço sua voz receosa do outro lado da linha. — Fui à sua casa antes de ontem, queria conversar com você, mas a empregada disse que você viajou por tempo indeterminado... para a Escócia.

— Viajei. — Revirei os olhos. Esperava nunca mais falar com ela depois de nosso último desentendimento na escola, mas parece que ela é do tipo ex que não aceita o fim do relacionamento. Respirei fundo e tentei não soar grosseiro. — O que você quer?

— Eu queria conversar. Da última vez que nos encontramos acabamos brigando e não era isso que eu esperava. Mas as coisas saíram de controle. Você fez acusações sobre mim, eu fiz acusações sobre você e não consegui pensar com clareza. — A linha ficou muda por um tempo e então ela acrescentou: — Você não foi para esta viagem por causa disso, foi?...

— O que ela está dizendo? O que ela quer?

— Está dando uma de prepotente de novo. — Cubro o telefone com as mãos, abafando minha voz. — Acredita, Jay? Ela acha que vim para cá por causa de nossa última briga na escola. Quer conversar comigo.

— Pois ela vai conversar com a minha mão assim que eu voltar para o meu corpo!

Jaynet cruzou os braços e beijei a ponta do seu nariz lisonjeado com seu acesso de ciúmes, tão distraído que quase esqueci Heather do outro lado da linha.

— Christian? Christian?

— Estou aqui. — Suspirei. — Olha Heather, eu não vim para a Escócia por sua causa, quanto a isso pode ficar tranquila. Vim na companhia de minha nova namorada. Não quero me desentender com você de novo. Eu te perdoo por ter me traído, e espero que me perdoe também por qualquer coisa. Que você seja muito feliz.

Um silencio incomodo se prolonga. Sei que Heather ainda está na linha pois ouço sua respiração. Espero que com minhas palavras ela dê o assunto por encerrado. Olho pro corpo de Jaynet no banco de trás e fico preocupado com o tempo que estamos gastando no acostamento. O sono começa a pesar em meus olhos e em breve terei que parar de novo para tomar café. Quero que ela desligue logo, contudo não tenho coragem de desligar em sua cara então apenas solto outro suspiro, dessa vez mais pesado e demorado.

— Está me dizendo que arrumou uma namorada de um dia para o outro? É aquela que você beijou no baile não é? — Fico mudo tentando repor minha paciência. —Responda Christian, eu tenho o direito de saber!

— Você não tem direito algum de saber nada que eu não queira dizer, mas sim Heather, é ela.

— Você está com ela agora, não é? — Sua voz aumenta uns três tons. — Por isso não está no hotel! Está dormindo com ela é?! Eu sou uma otária de vir até aqui me acertar com você!

Esfrego os olhos e bocejo. Olho no relógio e este marca quatro e quarenta da manhã. O sono, cansaço e perda de sangue que tive fazem com que eu demore a assimilar suas palavras. Mas assim que percebo o que ela acabou de falar me endireito no banco, apavorado.

— Você está na Escócia??

Jaynet abre a boca e arregala os olhos em choque.

— Estou. A sua empregada falou o nome do hotel. Achei seu quarto e subornei o camareiro para subir, queria fazer uma surpresa, mas sua cama está impecável. E quer saber? Eu duvido muito que você tenha mesmo uma namorada, duvido até mesmo que essa namorada fantasma tenha ido ao baile. — Sorrio com o termo “namorada fantasma” e por ela não saber o quanto é apropriado. — Para mim você está na farra com os idiotas dos seus amigos e não saio daqui enquanto não aparecer para falar comigo. Eu fiquei horas no aeroporto, tive de fazer uma escala na Irlanda, enfrentar turbulência, tudo para conversar com você, e não admito ser tratada assim!

— Ela quer fazer as pazes com você, Christian. Para depois te humilhar. Conheço esse tipo de garota, sabia que ela não ia engolir tudo que você disse para ela da última vez. Lembra? Ela mesma disse que não ia ficar assim.

Esfrego as têmporas, me sentindo frustrado. Não sei o que fazer, Heather parece um zumbi; sempre que penso que acabou ela levanta do túmulo que é o nosso relacionamento e volta com alguma merda. Se ela pudesse ver Jaynet com seus próprios olhos, quem sabe ela não me deixaria em paz...

Mas ela pode!!!

— Se não acredita simplesmente me espere aí! — Digo um pouco mais animado com a ideia que tenho. — Dentro de umas horas levarei ela para que você conheça e então você me deixa em paz de uma vez, certo? Pode ficar à vontade, pegue uma bebida no frigobar. Daqui umas cinco horas estarei aí com ela.

— Cinco horas? Para de brincadeira Christian! Me diz onde você está...

— Não estou brincando. Espere. Tchau.

— Christian...

Desligo o telefone e ligo novamente o carro. Tudo que importa é levar Jaynet até Roosevelt e Ana, e então se tudo der certo a Heather vai acabar por vê-la e me deixar em paz.

Dirijo por mais meia hora e minhas pálpebras começam a fechar. Verifico no painel o tanque de combustível e ele está praticamente zerado.

— Vou ter que parar no próximo posto para abastecer. — Informo a minha acompanhante, que assente dando de ombros. — Também preciso muito de um café ou um energético.

— Seu braço parece infeccionado, seria bom pararmos em uma farmácia também.

Nem me dou o trabalho de olhar meu ferimento, não preciso ver para saber o verdadeiro estado em que ele se encontra. Sinto a dor a todo instante, a cada virada de volante, cada troca de marcha, mas como não estou mais sangrando consigo ignorar.

— Está bem Jaynet, se tiver uma farmácia no posto eu procuro alguma coisa que sirva. Mas eu não vou procurar uma farmácia por conta disso.

— Christian, você levou um tiro. A bala ainda deve estar aí, estou muito preocupada.

Eu também.

— Não é nada Jaynet, eu vou ficar bem. Temos que priorizar o ritual.

Ficamos discutindo por mais um tempo até que enfim avistei um posto do outro lado da via. Liguei a seta e fiz o contorno enquanto Jaynet cobria a versão real de si mesma com um pano e alguns materiais de escola. Vesti minha jaqueta, escondendo o sangue em meu braço e desci do carro, entregando a chave para o frentista. O posto era grande e possuía algumas lojas de conveniência com um restaurante e assim que ele encheu o tanque voltei ao carro e parei no acostamento.

— Não vou demorar Jaynet. Vou no banheiro e depois vou no restaurante beber algo.

— Ok, vou te esperar no restaurante então.

Encontro o banheiro do lado de fora e entro. O local é bastante desagradável, mal iluminado, fedorento e um pouco sujo, mas ignoro tudo e tiro a jaqueta, soltando um gemido de alívio em ver o tecido para de roçar no ferimento. Sem Jaynet por perto posso parar de bancar o forte. Vou até o espelho e me escoro na pia, desenrolando a faixa improvisada e libertando o pequeno buraco enegrecido por onde a bala entrara. Tento vislumbrar algum sinal dela, mas não enxergo nada além de sangue seco e algo meio amarelado nas bordas que presumo ser pus. O machucado está com um relevo e uma aparência péssima, e sem saber como lidar, abro a torneira, molho um pano na água e limpo o sangue em suas redondezas, criando coragem. Fico um tempo repetindo esse processo até que finalmente crio coragem e coloco meu braço em baixo da água. Mordo os lábios contendo um grunhido de dor conforme a água corrente bate em minha carne. A sensação é tão angustiante que fecho meus olhos tentando pensar em outra coisa. Por fim, rasgo a manga da outra blusa e amarro no braço, jogando o pedaço sujo na lixeira.

— Uma farmácia até que não seria má ideia.

Lavo meu rosto antes de sair, ignorando meu reflexo no espelho e recoloco o meu casaco. Estou péssimo, cheio de dor. Precisava ao menos de um analgésico, ou anestésico. Até mesmo uma agua oxigenada de dez volumes já seria de grande ajuda. Dou a volta no terreno procurando o estabelecimento e como não o encontro, acabo entrando no restaurante.

O estava praticamente vazio pro tamanho que possuía, somente com alguns caminhoneiros que conversavam em uma mesa do canto. Bem decorado para um restaurante de posto, tinha o ambiente todo climatizado e as mesas quadradas feitas de uma madeira rústica eram envoltas em uma toalha vermelha e lindos vasos de flores. Corri os olhos procurando Jaynet e a encontrei sentada no balcão cor de mogno, assistindo a enorme TV de plasma pendurada ao teto. Me ajeitei no banco ao seu lado, tomando o cuidado de não dizer nada, e a atendente veio voando em minha direção com um sorriso exagerado no rosto.

— Boa noite.. — Seu sorriso se alargou enquanto ela pegava um pequeno caderninho e uma caneta. — Quer dizer, bom dia, não é? — Ela riu com entusiasmo e senti os olhos de Jaynet sobre mim. — O que o senhor deseja? Se é que posso chamar de senhor, um rapaz tão jovem e lindo!

A moça morena debruçou sobre o balcão, exibindo o decote por trás da blusa branca social. Mantive o olhar em suas íris castanhas, tentando não dar atenção ao seu corpo.

— Um café extra forte sem açúcar... — Ela fez uma careta, mas anotou em seu caderninho. — Com chantilly. — Acrescentei. — Ou então um energético. Ou os dois, café e energético, se possível. Quero um para tomar agora e uns três para viagem.

— Está com sono? — Ela pousou sua mão sobre a minha.

— Bastante. — Sorri sentindo meu rosto corar com seu flerte, ciente que estou sendo fuzilado com os olhos pela minha fantasma.

— Ok gato, vou mandar a cozinheira caprichar. — Ela piscou para mim e saiu rebolando com sua saia social preta e desaparecendo na porta restrita aos funcionários.

— Você não vai pedir nada para comer?

— Não, Jaynet estou sem fome...

Espero ela brigar comigo, no entanto Jaynet apenas volta sua atenção para a TV. Não demora muito e a atendente retorna com uma grande xícara de café quente em mãos. Agradeço e seguro a caneca pela alça, quase me engasgando quando viro para a TV. Uma foto de Jaynet preenche metade da tela e vejo que ela se esforça para ouvir o que o repórter da BBC na outra metade do visor está dizendo.

— Pode aumentar a TV por favor.

Peço a atendente que solícita, atende meu pedido. Logo os caminhoneiros e funcionários se juntam próximo ao balcão, todos tentando entender a notícia. Na parte de baixo do visor a chamada “Sequestro bizarro de corpo no Instituto Becker” em letras vermelhas tem total destaque. Me concentrei na voz grave do âncora:

“[...]Questionado sobre o assalto, o presidente do instituto Enrique Becker, anunciou apenas que o corpo pertencia a ninguém menos que sua filha, Jaynet Marshall Becker.

Segundo nossas fontes, Becker a mantinha congelada desde a invasão em sua casa, há três anos atrás; onde quatro homens a fizeram refém e assassinaram, não só a jovem de dezesseis anos, como todos os funcionários presentes no local. Na época um dos homens foi preso e outros três permaneceram foragidos. Roberto Salles fugiu do presidio o qual cumpria pena depois de um ano e agora também se encontra livre.

Ainda não temos confirmação da ligação dos dois casos, mas já podemos adiantar que o roubo no prédio também foi executado por quatro homens e que o furgão ao qual eles fugiam, foi perseguido pelos seguranças até a Ponte da Torre, onde perdeu o controle e despencou, caindo na água.

As buscas seguem intensas no local. Os bombeiros estão tentando remover o furgão da água e tentando encontrar os corpos dos assaltantes e da Senhorita Becker..

Segundo nosso repórter, há ainda a possibilidade do corpo de Jaynet ter sido transferido para um segundo carro antes do acidente. O presidente do instituto Enrique Becker ofereceu a quantia de cem mil euros a quem tiver informações sobre o paradeiro do corpo de sua filha... E ainda, dez milhões a quem devolver o corpo intacto ao instituto. Segundo o assessor, o corpo de Jaynet Becker seria imprescindível para o avanço de pesquisas que já se encontravam em andamento.

Outros corpos estão congelados no instituto Becker par pesquisas. No entanto o assessor de imprensa se negou a fornecer maiores detalhes sobre os experimentos praticados.

[...]

Ouço o barulho de minha caneca indo ao chão. O café quente respinga em minha perna e pela primeira vez, quero sucumbir a dor e desmaiar. Tudo que eu consigo pensar é nas imagens do furgão sendo perseguido e caindo na água. Peço desculpas a atendente e puxo imediatamente meu celular do bolso, buscando alguma chamada que eu tenha perdido, uma mensagem de texto ou de voz, qualquer indício de notícia dos meninos e não há nada ali além de uma mensagem de Heather insistindo que não vai embora. Então passo as mãos por meu rosto sentindo o desespero crescer em minha garganta, e as poucas palavras que não consigo pronunciar, dançam de forma vívida em minha mente.

Os meninos morreram!!

Notas finais
Vish, os meninos morreram ou não morreram? E a CHATA da Heather, heim, incomodando logo numa hora dessas!? Christian nas últimas forças com seu ferimento.. Senti uma aflição até de escrever a cena do banheiro Amanhã tem mais! bjbjbjbjbj ♥