Notas iniciais
Olaaa, voltei para mais um capítulo :)

Logo que chegou ao estábulo, Hermione não encontrou Viktor. Os cavalos estavam calmos e pareciam tranquilos com a chuva que começava a cair. Ela começou a dar meia volta, no entanto, um barulho lhe chamou a atenção. Parecia como um bicho, um gato talvez. Ela havia assumido não ser quando um barulho um pouco mais alto se fez ouvir. Parecia um lobo. Olhando para trás, Hermione viu que não tinha ninguém que pudesse chamar, então ela própria adentrou o estábulo, caminhando por entre as baias até encontrar a origem do barulho.

Primeiro, ela viu a cabeleira de Pansy. Ela tinha os olhos semicerrados e os lábios entre abertos, enquanto emitia ruídos. Seu vestido azul havia sido erguido até a cintura e o tecido estava enrugado, expondo os seios e as pernas. Entre elas, estava o cavaleiro que fazia Hermione suspirar há meses. Ela tapou a boca ao reconhecer Viktor. No entanto, no mesmo instante, Pansy abriu os olhos. Os orbes maldosos e carregados de luxúria encontrando os da castanha. E então ela sorriu, satisfeita. Um sorriso de completa felicidade enquanto gemia o nome que durante os últimos tempos fizera Hermione suspirar.

As lagrimas caíram e Hermione se virou, correndo para fora do estábulo e correndo para longe da propriedade. Ela correu e correu como se não houvesse amanhã. Correu como se o peito dela fosse explodir de tristeza se não saísse de perto daquela cena grotesca o mais rápido possível. E ela chorou. E a chuva lavava seu rosto e Hermione desejou que ela lavasse seus pensamentos e que lavasse seus olhos e levasse junto aquela imagem que se repetia em sua mente sem parar, para que ela não se lembrasse do que havia visto.

O vestido se embolou em seus pés e ela caiu, e nem mesmo a dor de quando seus joelhos foram rasgados pelas pedras pontiagudas a fizeram se esquecer do que havia visto. Ela se manteve no chão, desejando que ali pudesse ficar até que a chuva passasse e que, com sorte, quando voltasse, Pansy já teria escolhido Viktor como seu pretendente. Talvez a chuva durasse até o casamento e ela não teria que lhe arrumar para o seu dia e assistir Viktor e ela ao altar...

No entanto, contrariando os planos em meio aos devaneios de Hermione, ela ouviu o som do trotar de um cavalo e então sobressaltada se ergueu, se sentando sobre a lama. Um cavalo negro se aproximava, mas Hermione não conseguiu ficar de pé. Os joelhos latejavam. Ela esperou que com a chuva, quem quer que fosse não a notaria, mas ao invés disso, ela viu um homem alto descer do cavalo, caminhando cuidadoso até ela.

— Está perdida? – o homem questionou, olhando ao redor procurando de onde havia surgido aquela mulher. Os ataques dos vikings ainda eram constantes naquela região e ela poderia ser alguma armadilha para atrai-lo.

— Não preciso de ajuda – Hermione disse, tentando novamente ficar de pé e desta vez conseguindo, mas sentindo uma dor irradiar de seu tornozelo esquerdo. Ela provavelmente o havia torcido durante a queda, quando rolara por alguns metros – Urgh! – gemeu, mancando e então caindo novamente, gritando de dor quando os joelhos já feridos se chocaram outra vez ao chão.

O homem caminhou até seu cavalo, tirando de uma bolsa presa a ele uma capa preta que o pertencia e então caminhou até a mulher.

— Com licença, senhorita – ele disse, jogando a capa sobre ela e então passando um dos braços por sua cintura e outro por suas pernas, para ergue-la no alto.

Hermione protestaria, mas a dor latejante em seu tornozelo e joelhos era um lembre para admitir a si mesma que não podia seguir sozinha. Ela ergueu o rosto, para agradecer, e então estacou reconhecendo as feições.

Era Draco Malfoy que a sustentava em seus braços. Ela tremeu, de frio e medo, pensando que ele a levaria de volta para a casa dos Parkinson e lhe entregaria de bandeja para que Pansy a castigasse.

Mas ao invés disso, Draco apenas a olhou, notando o rosto inchado e as feições delicadas. De onde é que ela havia saído?

— O que faz fora de casa nessa chuva, senhorita? – Draco questionou, caminhando para seu cavalo com Hermione em seus braços – Para onde devo levá-la?

Hermione se calou, olhando ao seu redor e não sabendo mais distinguir para onde era a direção de Emory e nem querendo voltar para lá. A imagem de Pansy e Viktor revirava seu estômago e lhe dava vontade de colocar tudo o que estivesse nele para fora.

— Já ouvi sua voz antes, senhorita. Sei que não é muda – a voz de Draco o levou de volta a realidade.

Hermione engoliu a seco. Ele não havia a reconhecido. Talvez porque nas vezes em que estivera na propriedade dos Parkinson seus olhos estiveram mais voltados para sua senhora.

— Não posso voltar para casa – Hermione disse por fim, dizendo uma meia verdade – Estou ferida e... e – ela fez uma pausa, pensando no que diria. Mentir nunca havia sido uma grande habilidade sua – E meus pais me matariam se eu chegasse neste estado e na companhia de um homem.

Draco pensou por um instante. Não podia deixa-la ali, e tampouco coloca-la em maus lençóis com sua família. Sem dizer que isso poderia chegar aos ouvidos do seu pai com quem já havia tido uma discussão mais cedo naquele dia. O pai provavelmente pensaria que ele estava metido com a moça e não aceitaria suas explicações. Acabaria por se ver forçado a ir, mais uma vez, a um entediante banquete de alguma donzela para fingir buscar uma pretendente.

Se dando por vencido, Draco suspirou.

— Está certo! Há uma velha cabana abandonada perto daqui, é um lugar seco. Podemos nos abrigar lá e logo que a chuva cessar te levo em segurança para casa.

Hermione concordou, sabendo que a cabana abandonada pertencera antes a ela e sua mãe, antes desta falecer e ela ter de morar com os Parkinson quando começou a os servir em troca de um pouco de alimento.

Com cuidado, Draco colocou Hermione sob o cavalo, e então guiou o mesmo por algum tempo antes de chegar a tal cabana. A porta rangeu quando foi aberta, O telhado de palha ainda estava bom e lá dentro não tinha muita poeira. Vez ou outra Hermione visitava o lugar em busca de um pouco de paz e sossego.

Ela se sentou ao chão quando Draco fechou a porta após ter prendido o cavalo ao lado da porta, em um pedaço tampado de madeira para que ele não tomasse ainda mais chuva.

Draco caminhou até a lareira que tinha um pouco de lenha velha e tentou acender o fogo, demorando um pouco já que não era acostumado aquela tarefa. No entanto, sorriu com triunfo quando conseguiu um pouco de fogo que logo começou a crepitar.

Ele tirou sua túnica, ficando com o peito a mostra e se sentou ao lado da lareira, esfregando as mãos para se aquecer, Hermione estava de olhos fechados e se assustou quando os abriu, notando o tronco desnudo.

— Não se importe com minha presença – Draco disse virando seu pescoço para olhá-la. Os músculos de suas costas se tencionaram e Hermione virou o rosto para esconder a vergonha em ver um homem parcialmente desnudo – Tire suas roupas e venha para perto do fogo. Vai acabar tendo uma gripe forte desta forma.

Hermione retirou a capa molhada do seu redor e então meio caminhou, meio mancou até perto da lareira, se sentando ao lado de Draco.

Ele a observou. Tinha algo que lhe era familiar, mas não saberia dizer o quê. Será que já havia a visto em alguma das casas que visitara nos últimos meses em busca de uma noiva a sua altura? Provavelmente não. Hermione o encarou de volta quando percebeu que Draco tinha seus olhos nela.

— Procurando por algo, lorde Malfoy de Avondale?

Definitivamente não. Ele se lembraria se já tivesse visto aqueles olhos astutos e ferinos igualmente a língua.

— Conhece-me, então? – Draco questionou, vendo que ela o havia chamado pelo título de sua família.

Hermione balançou a cabeça, assentindo.

— Eu reconheci pelo brasão na cela do seu cavalo.

Os Malfoy eram conhecidos por marcar o que era sua propriedade. Eram uma família abastada e Hermione já ouvira falar sobre como eles eram próximos de Sua Majestade. Eles também tinham a fama de serem ambiciosos e de sempre conseguir o que queriam. A qualquer custo.

Draco iria respondê-la, quando foi atraído para a única joia que a moça a sua frente usava.

Era um medalhão e tinha alguma coisa escrito ali. Eram como diversas espadas em várias direções. Teve a impressão de que já havia visto algo como aquilo antes.

— Onde conseguiu? – Draco se aproximou, tocando o objeto com a ponta dos dedos e a pele de Hermione se arrepiou, surpresa pelo contato repentino.

Era a segunda vez que ele lhe tocara.

— Minha mãe deixou para mim quando faleceu. É a única coisa que me sobrou dela

Hermione levou a mão até o medalhão, o tocando com cuidado e seus dedos roçaram nos de Draco, que recuou a mão. Ele olhou de volta para seu rosto. Ela não tinha outras joias. E ele não era nenhum tolo. Sabia que donzelas de famílias reconhecidas não ficavam a correr por aí sem destino e sem uma serva lhe acompanhando. Desconfiando, Draco olhou para os sapatos que haviam ficado descobertos e estes eram surrados e sujos.

— De que casa você é?

Hermione engoliu a seco. Não pertencia a nenhuma casa. Criada pelo clã dos Parkinson desde os 7 anos de idade quando sua mãe faleceu de cólera, Hermione se mantinha como uma perfeita serva: leal, obediente e grata pela bondade da família que a acolhera.

— De uma distante – Hermione respondeu, e então colocou os braços ao redor de si mesma, sentindo frio. O cabelo grudava em sua testa e pescoço e ela balançou a cabeça, fazendo com que ele se agitasse.

— Diga o nome – Draco insistiu e quando ele tomou uma respiração, um cheiro doce o inebriou – Não me lembro de nenhuma que tenha uma senhorita tão...

Hermione o olhou quando notou o tom de voz interessado. Seus olhos estavam fixos no dela e ela esperou que ele terminasse a frase, mas ele não concluiu.

Ao invés disso, Draco lhe tomou uma das mãos e Hermione tremeu, não sabendo se de frio ou pelo contato. Era a primeira vez que um homem a tocava por tantas vezes e com tanto cuidado. Hermione se lembrou que ele só agia da forma como agia por acreditar que ela era de valor. O jovem lorde acariciou a mão que estava presa a sua, notando os calos e ferimentos esfolados.

— Não sou de nenhuma casa – finalmente admitiu – Sou uma criada, se realmente lhe interessa. Sirvo na casa dos Parkinson de Emory. Você já me viu algumas vezes, na verdade. Servindo a você e aos outros.

Draco não soltou a mão, mas Hermione a puxou de volta e então se levantou, indo até a pequena janela da choupana e vendo que a chuva já havia diminuído substancialmente.

— Agradeço pela ajuda, milorde, mas eu tenho que voltar. Milaide deve estar a minha procura.

Draco se levantou, se colocando a sua frente.

— Vou levá-la de volta – se ofereceu, notando que ela ainda mancava.

— Não é necessário – Hermione disse, lhe entregando a capa de chuva.

— Não perguntei, estou dizendo o que farei – Draco respondeu de volta em um tom arrogante que Hermione notara.

— Não preciso de favores, lorde Malfoy. Não é meu senhor e não quero que me acompanhe de volta!

Draco piscou, surpreso. E então a ofensa o ultraje o atingiu pelas palavras ásperas. Os olhos eram igualmente desafiadores.

— Devia ter cuidado com o que diz! – ele desceu seus olhos pelo corpo de Hermione antes de voltar a olhar em seus olhos – De onde eu venho você teria a mão decepada por ousar se vestir como sua senhora para tentar enganar um homem como eu.

Hermione abriu a boca varias vezes, tal como um peixe fora d’agua quando ouvira o disparate. Ela não o havia tentando engana-lo! Ela nem ao menos havia se vestido daquela forma para chamar sua atenção. Diabos, ela nem ao menos queria ter visto-o.

Como em um ápice pela tristeza e a raiva provocada pela acusação, Hermione desceu as alças de seu vestido empurrando o tecido que se amontoou aos seus pés.

Draco observou o vestido ao chão, confuso, e então subiu seus olhos. Primeiros pelas pernas, subindo pela região do baixo ventre onde Draco engoliu a seco quando notou a região marcada, passando pela barriga e então os seios, marcados pelo tecido branco e molhado ligeiramente transparente. Hermione cruzou os braços em frente ao peito, sentindo-se repentinamente arrependida pelo gesto de rebeldia e mais exposta do que já havia estado em toda a sua vida. Draco encarou os lábios perfeitamente desenhados e então os olhos, como se ela o desafiasse.

Se perguntou como uma serva podia ser tão graciosa.

— É isso o que as pessoas são, para você e todos os outros estúpidos! – bradou, fazendo um gesto para o vestido ao chão – Uma carcaça cara e pesada. E quando alguém não está assim, é simplesmente tratado como um nada! Como o esterco do cavalo – as lagrimas correram enquanto Hermione apontava o dedo para o rosto de Draco – E vocês pensam que não temos sentimentos. Que não nos importamos com nada além de servir a vocês e aos seus caprichos.

Draco segurou o dedo que ela apontava para seu rosto e então a empurrou até a parede ao lado da lareira. A afronta havia acordado seu lado audaz. Se antes ele estava encantado pela postura atrevida da jovem dama, agora ele estava enraivecido com as palavras da criada que o insultara.

— Cuidado com a língua. Você não quer ver o que acontece quando eu resolvo castigar serviçais como você.

Hermione tremeu com a ameaça, mas devolveu ao olhar de forma atrevida e arrogante.

— Agora sou você? O que houve com o “senhorita”? – ela cuspiu, e então se soltou do aperto e se lembrou da cena que havia culminado naquela situação. Antes que pudesse impedir, novas lagrimas rolaram por suas bochechas – Ou esse tratamento é só para as suas escolhidas que se deitam com seus cavaleiros?

Draco deu um passo para trás, não entendo bem o que a mulher a sua frente havia dito, mas antes que tivesse a chance de questionar, Hermione caminhou até onde o vestido ficara esquecido, o enrolando em seus braços e saindo da cabana com dificuldade.

A dor em seu tornozelo era latejante, mas ela não continuaria ali por um momento mais. Também não dependeria da ajuda daquele homem asqueroso para voltar para casa.

Agradeceu pela chuva ter diminuído e aproveitou para ir por dentro da floresta e se apoiando nas arvores até chegar a propriedade dos Parkinson, onde ela foi até o estábulo. Pansy e Viktor não estavam mais ali.

Hermione se deitou em uma das baias mais escondidas e então esperou que as lagrimas viessem novamente, mas isso não aconteceu. Seu peito já havia colocado a mágoa para fora e o que ficara era a sensação de que fora traída.

Por que Pansy havia feito aquilo? Por que havia ficado com o alvo de sua paixão se ela podia ter o senhor que quisesse? Era bonita, rica, bem-educada e tinha sangue nobre. Era tudo o que Hermione não era e, ainda sim, havia destroçado o único anseio que Hermione tivera em sua vida.

Notas finais
Espero que tenham gostado do nosso jovem lorde e nossa donzela quase-em-perigo, até a próxima :*