Uma Dose de Clichê

5 ♡ 5 “Sobre mentiras que salvam”


Notas iniciais
Olá! Boa noite! Agradeço a todos que acompanham e comentam ♥ Sairenjii, luanfelix, Deby Costa e Miau, cêis são lindos! E claro, agradecer muito a querida nilla que recomendou a história, muito obrigada, linda, amei forte a recomendação ♥ Espero que gostem. Boa leitura!

5 "Sobre mentiras que salvam"

— Eu não 'tô a fim de números e toda essa porcaria, Ogawa.

De mãos nos bolsos da jaqueta velha e encostado na parede, Bruce não tinha a melhor das expressões e muito menos vontade de entrar naquela casa, embora soubesse que a mãe o olhava pela janela naquele fim de tarde. Ter uma hora de aula sobre matemática com o vizinho rechonchudo e nanico, não era algo que estivesse disposto a enfrentar.

— Alguma vez nessa sua vida, você já esteve a fim de estudar? — Kyle cruzou as pernas, mas não ergueu os olhos do livro que estava lendo antes mesmo de o loiro irritante chegar para as aulas combinadas. Nem parecia que tinham conversado durante o caminho da escola de volta para casa. E muito menos parecia que o Riley havia proposto uma espécie de amizade entre eles. Aquilo não daria certo nem daqui a um milhão de anos.

— Nessa vida de doze anos? Estudar pra quê? — Bruce retrucou, aproveitando para se sentar ao lado do japonês e tomar o livro “interessante” que ele fingia ler. — Que porcaria é essa? O Hobbit? — O nome até quis fazer algum sentido, mas parecia complicado se recordar.

— Porcaria é você não conhecer um clássico e ainda insultá-lo. — Kyle pegou de volta o livro, protegendo-o como um tesouro. — Se não conhece, não ofenda!

Se não conhece, não ofenda. — A voz irritante veio ao imitar o asiático. — Cara, 'cê é muito chato. — O corpo foi para trás, caindo no gramado em frente a casa do vizinho.

Os tons de rosa, laranja e azul, pareceram bem mais interessantes do que o rosto de Bruce Riley. Eram tão opostos que chegava a doer. O loiro era um rebelde sem causa que abominava os estudos e vivia se metendo em confusão, enquanto ele, tinha como objetivo, estudar e se formar para ser alguém independente. Uma amizade entre eles, jamais daria certo.

— E por que veio aqui, então? — Oras, se ele não queria ter aulas, que ficasse em casa ou longe de suas vistas.

Era uma ótima pergunta. Por quê? Bruce desviou os olhos do céu colorido e encarou o vizinho. Era quase um adulto e não compreendia certas coisas a respeito de Kyle Ogawa. Muito menos o motivo de querer fazê-lo sorrir, mas acabar o irritando com seu gênio difícil e implicâncias que ele não conseguia controlar. Reparou nos óculos ridículos que ele usava, deixando-o parecido com um personagem de algum famoso filme. É, não podiam mesmo se misturar. Mas…

— Vamos logo pra essa aula maravilhosa, Ogawa. — Se ergueu de supetão e respirou fundo, fazendo uma espécie de alongamento e entrando antes mesmo de o dono da casa se manifestar.

A Kyle só restou revirar os olhos e bufar, mas quando um cheiro conhecido e irritante o atingiu, ele tratou de entrar e ir questionar ao loiro o que raios ele tinha na cabeça.

— Pai…

A voz sonolenta e baixa de Sam, não impediu o avanço do pai. Assim que a porta se abriu e David passou por ela, o barulho da mesma porta batendo com força, despertou o ruivo que quase pulou da cama, levando a mão ao coração e preparado para tudo, menos para a realidade.

— Pai, eu—

— Cale a boca, Samuel. — David interrompeu o filho e o pegou pelo braço, quase o derrubando do colchão. — O que eu disse sobre se encontrar com esse moleque?

E foi nesse momento que Edward abriu os olhos, sobressaltado com os gritos. Tinha o sono pesado e, segundo a mãe, a casa poderia desabar que ele não acordaria, mas ao ouvir a voz do senhor Mackenzie, o sentido de alerta apitou e ele logo estava de pé.

— Larga ele! — Se enfiou entre o amigo e o monstro que parecia querer arrancar o braço do ruivinho.

— Some daqui, garoto. — David alertou, cerrando os dentes, ameaçando o amigo do filho com o olhar afiado. O ruim é que não poderia bater naquele garoto, pois seu lado se complicaria.

— A culpa é minha! — Edward não saiu da frente de Sam, empurrando-o para trás com o corpo. Se alguém tinha que receber broncas ali, esse alguém era ele. — fui eu que insisti pra entrar. — Não se importava em mentir para livrar o ruivo daquele pai maluco.

— É claro que a culpa é sua! — Era tão óbvio que aquele garoto queria levar seu filho para o mau caminho, que vivia jogando isso sobre a esposa. A “amizade” daqueles dois, parecia mais que suspeita aos seus olhos. Onde já se viu, dois homens viverem grudados, enfiados no quarto, compartilhando a mesma bicicleta ou até mesmo dando comida um na boca do outro? Samuel já era por si só, delicado demais para que enxergasse aquilo com inocência. — Enfiando-se no quarto do meu filho pra dormir na cama dele! Moleque abusado! — Com mais força que o necessário, Edward foi afastado e suas mãos puxaram novamente Sam pelo braço. — Respeito, Samuel, sabe o que é isso? — Rosnou, sentindo ainda mais raiva ao vê-lo com os olhos brilhando por lágrimas. Ele havia feito um filho frouxo igual a uma menina. — Eu não quero que volte a ver esse moleque, entendeu?

Sam comprimiu os lábios e foi incapaz de impedir o choro. Estava assustado, mas o fato de ser impedido de ver o melhor amigo, era algo que não suportaria. E por um momento, antes de fechar os olhos, encarou os azuis cheios de raiva por toda aquela situação. Com um profundo respirar, ao abrir os olhos, encontrou o olhar irado do pai e um bolo se formou na garganta. Aquele homem era seu pai, por mais que palavras ou gestos de carinho, não existissem e somente insultos fossem direcionados a si, devia respeito a ele, mas não aceitaria se afastar de Edward. Não dele.

— Eddie é meu amigo e eu não vou me afastar dele. — Estava decidido e nada o faria voltar atrás em sua decisão. Tinha a mãe e tinha Edward também.

E por um rápido momento em que o coração se acelerou, percebeu os lábios do amigo se curvarem em um sorriso, porém, no segundo seguinte foi empurrado e caiu de bunda no chão, arregalando os olhos ao ver aquela cena.

A mão de David parou a milímetros do rosto de Edward, somente porque alguém conseguiu impedi-la de alcançar o objetivo. Duas pessoas adentraram o quarto, a que segurava o pulso de David e a outra que foi logo defender os pequenos.

— Se encostar um dedo no meu irmão, eu te denuncio. — Os olhos castanhos da adolescente o desafiavam a ir em frente. Era uma garota e ainda muito jovem, mas qualquer um que mexesse com sua família, conhecia um lado super protetor de Emília Logan. Era uma leoa quando o assunto era seu sangue. — E se bater no seu filho, a ameaça continua. — Ajudou Sam a se erguer e o abraçou junto ao irmão, averiguando se estavam mesmo bem.

— Dois pivetes que se acham os donos do mundo. — David puxou o pulso e observou os adolescentes intrometidos. Tratou de puxar Sam para perto e apontou para a saída. — Fora, os dois. Essa é a minha casa e esse é o meu filho. Peguem esse moleque e sumam daqui.

Jon Riley, o rapaz de cabelos loiros que estava sempre acompanhado de Emília, segurou a mão da garota.

— O senhor ouviu. Se tocar no menino, 'tá ferrado. — Jon também tinha um pai rígido e não era a primeira vez que defendia alguém, já que vivia fazendo isso com o irmão mais novo.

— Invadem a minha casa e ainda me ameaçam. — David queria rir, mas estava mais que irritado com aquela intromissão. — Ferrados estão vocês. Eu não vou mandar de novo. Sumam daqui.

— O Sam. — Edward falou ao ser puxado pela irmã, recusando-se a ir embora e deixar o ruivinho a sós com aquele homem mau.

Emília queria levar o ruivinho junto, mas os responsáveis por aquele menino, eram os pais e não eles três. Abaixou-se na altura do outro menino e ignorou o chiado de irritação do senhor Mackenzie.

— Onde está a sua mãe, Sam?

— A minha mulher está descansando. — David a respondeu com rispidez. — Vão logo embora de uma vez.

— Mano, o Sam tem que ficar com os pais dele. Não vai acontecer nada. Esse homem não é louco de tentar alguma coisa. — Emília olhou para o mais velho de maneira incisiva.

Samuel mordeu os lábios e quis se despedir do amigo, mas o aperto que recebia do pai, o impedia de dar sequer um passo. Contentou-se em apenas sorrir e passar alguma confiança ao trio que logo foi embora. Mas antes, os olhos novamente se encontraram com aqueles tão azuis.

— Eu vou ficar bem. — Não, ele não ia, mas era preferível mentir e tranquilizar os amigos.

E quando a porta do quarto se fechou, Sam recebeu uma das piores surras ao ter o couro do cinto do pai, castigar a pele nua.

No entanto, o pior, o que mais o magoava, eram as palavras.

E para todos os efeitos, ele diria que estava bem.

— Você fede! E fede a cigarro!

Kyle apontou um dedo acusatório para o loiro assim que entraram em casa, fazendo careta e logo levando a mão ao nariz. Tinha alergia a vários tipos de cheiros e aquele era praticamente um veneno para que começasse a espirrar por seguidos minutos sem parar.

— Além de não ter um pingo de inteligência nessa cabeça desbotada, ainda fuma? Isso é coisa de adultos! — E adultos que pretendiam morrer mais cedo.

— Cala essa boca, Ogawa. — Bruce bagunçou os cabelos dourados, enroscando os dedos nos fios que desciam até abaixo da nuca. Devia ter ao menos trocado a jaqueta antes de ir se enfiar na casa daquele povo certinho e que era um verdadeiro saco. — Sua voz me irrita. — E não só a voz, a forma como ele o tratava também, mostrando-se sempre superior com aquele nariz redondo apontando para o alto.

— Seus pais, eu vou contar pra eles. — Kyle sabia que não adiantava grande coisa ameaçar aquele delinquente mirim, mas o conhecia desde que se entendia por gente e não podia deixar aquela má conduta impune. Quem sabe não o colocassem de castigo e o proibissem de ter aulas particulares, seria um grande alívio para si não ter que aturá-lo mais.

Bruce respirou fundo e apertou as mãos em punho. Não era a primeira vez que fumava. Era algo bem banal entre os garotos mais velhos e dava um ar interessante a quem olhasse. Ele não era um viciado, era só por curiosidade e havia colocado um cigarro na boca, não mais que cinco vezes. Precisava dar um jeito de silenciar aquele pirralho de olhos puxados. Se o pai descobrisse o que andava fazendo, levaria uma surra capaz de fazê-lo perder a memória.

— Se você não contar... Eu te dou uma coisa. — Foi algo que surgiu como um raio na mente turbulenta. Algo que surgiu no momento em que olhou no rosto redondo e transtornado do japonês. E era de fato, um rosto bonito.

Com a agilidade de um felino e sem esperar por resposta, Bruce se aproximou e segurou o japonês pelos ombros, parecendo prestes a aplicar algum golpe no vizinho.

E foi o que Kyle pensou, pois chegou a fechar os olhos e pedir aos céus que alguém chegasse e o impedisse de ter o rosto desfigurado ou algum osso quebrado.

No entanto, o que sentiu não foi a dor de um chute ou um soco, foi algo irreal demais para sua pouca idade: A pressão dos lábios de Bruce sobre os seus como se o loiro o beijasse. E o pior é que era mesmo um beijo!

Um calorzinho nunca antes sentido, desceu pelo corpo de Kyle e o fez estremecer. O coração saltou dentro do peito e a respiração do loiro tocou o rosto. Quis chutá-lo entre as pernas, mas não conseguiu se mover. O aroma de alguma colônia se fez presente e curiosamente não irritou sua alergia, mas fez um pânico maior o invadir. A boca de um garoto havia tocado a sua! A boca daquele garoto todo errado, certamente lhe passaria uma dúzia de germes. Ficou apenas entre a parede e o corpo de Bruce, com os olhos arregalados e vesgos pela proximidade em que estavam, quase se fundindo ao castanho das íris do mais velho que o encaravam de volta. E quase foi ao chão quando ele se afastou, levando o calor e o cheiro de cigarros para longe.

— Agora, Ogawa, você também tem um segredo. — Bruce entortou um risinho e cruzou os braços. — O que seus pais diriam se soubessem que você anda beijando garotos por aí?

O choque ainda estampava o rosto do asiático, mas logo as bochechas e orelhas queimaram com intensidade. A primeira coisa que fez ao voltar a realidade, foi pegar o objeto mais próximo e lançá-lo em direção ao loiro, errando feio ao ouvir o vaso milenar se partindo em caquinhos pelo chão.

— Você devia usar óculos. — Bruce assobiou e debochou da péssima mira do vizinho, admirando o estrago naquele item horrível de decoração. O que ele não esperava era ser abruptamente puxado pela gola da jaqueta por um baixinho furioso.

— Você vai colar, cada um desses cacos ou eu—

— O que está acontecendo aqui?

Kyle se afastou de Bruce ao ouvir a voz da mãe, atônito por ter quebrado um item tão valioso. Tudo por culpa do idiota do vizinho!

— Meu vaso… — As mãos delicadas cobriram os lábios vermelhos e uma ruga se formou entre as sobrancelhas. — Kyle—

— Fui eu. — Era só uma mentirinha salvadora.

Kyle já estava preparando uma desculpa convincente quando foi surpreendido pela fala de Bruce. Era difícil de acreditar que o garoto mais idiota e irritante do país, estivesse o ajudando para que não levasse uma bronca.

A senhora Ogawa ainda encarava com pesar os destroços de seu vaso, mas desviou os olhos para o caçula dos Riley quando o menino assumiu a culpa. Um suspiro pesado partiu os lábios e os dedos longos deslizaram pelos fios negros e lisos. Crianças…

— Desculpe, eu vou trabalhar e pagar. — Bruce apertou os lábios e encolheu os ombros, parecendo muito arrependido, fazendo a melhor carinha de cão sem dono. Quem não o conhecia, facilmente acreditava.

— Tudo bem, querido. — A asiática afagou os cabelos dourados do menino, sorrindo em compreensão. — Era apenas uma réplica.

Kyle franziu as sobrancelhas, estranhando a fala da mãe. Ela sempre dizia para que ele ficasse longe daquele vaso, pois era muito valioso e estava há anos na família. A mãe era tão convincente em mentir, quanto o boboca Riley.

— Eu vou limpar essa bagunça. — E com a fala, retirou-se para buscar pelos utensílios de limpeza.

— Eu já vou indo. — Bruce enfiou as mãos nos bolsos e seguiu para a saída ao se ver a sós com o japonês. Era melhor ir antes que Kyle inventasse de lhe dar a fatídica aula de números e coisas incompreensíveis.

— Espera. — Kyle o segurou pelo braço, soltando-o ao perceber o que fazia. — Assumir a culpa de um vaso quebrado, não vai te livrar de explicar… De explicar o que foi aquilo que você fez.

— Aquilo? — Bruce se perdeu por um momento, mas logo se lembrou ao que outro se referia. — O beijo?

— É… — As orelhas de Kyle queimaram uma segunda vez e ele desviou os olhos. Onde é que já se viu? Dois garotos se beijando? Ele ainda era só uma criança e Bruce estava no início da adolescência, sendo facilmente considerado uma criança também.

— Sei lá. — Ele realmente não tinha muita ideia sobre o motivo, mas… — Foi só pra você não me dedurar. É o nosso segredo, Harry Potter chinês.

— E pra isso precisava—

— Tchauzinho, Ogawa. — Interrompeu a fala do vizinho e acenou de maneira debochada, passando feito uma raposa pela porta e a batendo.

A verdade é que havia beijado uma garota naquele mesmo dia mais cedo, e quis comparar uns pontos. Agora precisava de alguém para conversar sobre esses tais pontos. A mãe, provavelmente desmaiaria. O pai usaria o melhor cinto para lhe arrancar aquela vontade de beijar garotos.

E desde quando essa vontade havia surgido, mesmo?

Quando os olhos se ergueram, encontraram a figura do irmão que acabava de descer do carro e se despedia da namorada.

Jon seria a pessoa com quem se abriria.

Notas finais
O Sam é um dos personagens mais amorzinhos, como alguém pode bater nele? :/ E podemos dizer que rolou o primeiro beijo da fic? Podemos! Ah, essas crianças, sabem nem o que tão fazendo. Mas foi bem inocente né, espero... Eu espero mesmo que estejam gostando da história. Logo eles crescem sim, guentem aí :D Bjuss