Uma Dose de Clichê
6 ♡ 6 "Sobre estar ao seu lado"
Notas iniciais
Capítulo 6 — Sobre estar ao seu lado
— Será que eu quebrei?
Alguns pássaros cantaram ao levantar voo, invadindo o quarto em tons de azul, e sobrepondo as falas de um filme de terror na tevê.
O cômodo estava perfeitamente arrumado e dois garotos estavam deitados de maneira preguiçosa sobre a cama. Nas paredes, ainda havia o papel de bolas de futebol e a prateleira com a coleção de carrinhos.
— Eu quebrei ou não? — O pé coberto por uma meia colorida quase acertou o amigo no rosto, já que estavam em lados opostos no colchão.
— Se tivesse quebrado, não aguentaria a dor. — Edward, ainda assim, tocou o pé do ruivo e fez uma massagem despreocupada na região onde ele insistia estar doendo. — Da próxima vez, é só não sair correndo feito um idiota.
— Eu estava jogando queimado. — Samuel argumentou, puxando o pé e sentando-se na cama. Não era bom em nenhum esporte, mas as vezes arriscava. E quase sempre acaba machucado. — Eu tenho que ir. — Suspirou ao buscar pelos tênis após visualizar as horas no relógio sobre a cômoda. Ainda usava o uniforme do colégio e deveria estar em casa há horas. Embora tivesse avisado a mãe, o problema era sempre o pai...
Quando o pai de Samuel Mackenzie o castigou por encontrá-lo em uma soneca inocente com o melhor amigo, o ruivo foi proibido de se encontrar com Logan e ameaçado de que mudariam de cidade caso ele persistisse naquela ideia, mas estavam ali, tão firmes na amizade quanto sempre foram. Mesmo que para isso, ele tivesse que passar pelas regras do pai e fazer o que tanto recriminava; desobedecer os responsáveis. De qualquer maneira, ele não existiria sem poder compartilhar os bons e os maus momentos ao lado do garoto de cabelos negros e revoltos e o olhar azul como o céu de primavera lá fora.
E Edward havia realmente crescido e se tornado ainda mais bonito do que já era. E ele sempre se pegava babando no físico do melhor amigo.
— Ô, Mackenzie! Eu falei com você.
Sam piscou, voltando a realidade ao se encontrar muito próximo do rosto apático do amigo. Edward era o capitão do time de futebol, além de ser um ótimo aluno e muito cobiçado pelas garotas do bairro e do colégio. As líderes de torcida faltavam morrer pelo moreno.
— Falou? — Um sorriso sem graça surgiu e o rosto corou, misturando-se as sardas que contornavam bochechas, nariz e testa. Agora, seis anos depois, os cabelos alaranjados estavam maiores e cobriam as orelhas de abano em ondas suaves e macias. Podia orgulhar-se de ser exatos dois centímetros mais alto que Edward e sempre fazia questão de lembrá-lo quem era maior e mais velho por ali. Mais velho por um mês de diferença. Porém, era também mais magro e não possuía força para intimidar nem ao menos um cachorro vira-latas.
— Eu perguntei se você não quer dormir aqui. — Edward voltou a se deitar, jogando-se de costas no colchão com a cabeça no travesseiro. — A gente inventa uma desculpa pro seu pai, depois. — Deu de ombros, trocando de canal e parando em outro filme de terror. Não eram seus favoritos, mas Sam gostava e sempre acabava se aninhando em si quando os acontecimentos sobrenaturais preenchiam a tela. Gostava daquela parte em específico, pois gostava de cuidar do ruivo como se ele fosse um irmão mais novo.
— Não sei... — Sam mordeu o lábio inferior e enrolou uma mecha vermelha nos dedos. Queria sim dormir ali e conversar boa parte da noite com o melhor amigo, mas o pai faria um escândalo e provavelmente o arrastaria dali a pontapés.
— Tive uma ideia.
O celular foi retirado do bolso da bermuda e Edward discou um número conhecido. E Samuel entendeu o que ele ia fazer. Um sorriso moldado pelo aparelho ortodôntico surgiu e o peito se aqueceu. Era tão bom saber que o amigo apreciava tanto assim a sua presença.
Mariah era a garota mais legal e a mais forte do colégio, a única que andava com eles no intervalo e também fazia parte do grupo de amigos. Se o ruivo estivesse com uma garota, tudo bem para o senhor Mackenzie. Na verdade, tudo ótimo, pois David desejava que o filho apresentasse logo uma namorada e deixasse de ser aquela criatura frágil que corria atrás do capitão do time de futebol. E Mariah era uma ótima cúmplice para qualquer situação.
— Pronto. — Um quase sorriso se desenhou nos lábios de Edward, mas não chegou a se completar. — Agora a gente pode maratonar aquela série que eu te falei. — Rolou na cama, ficando de barriga para baixo e com o rosto pressionado no travesseiro.
— É tão feio mentir. — Sam murmurou acusatório, rindo em seguida da expressão do amigo. — Mas eu sei que você me ama e faz de tudo pra dormir comigo. — Falou convencido, empinando o nariz, não percebendo de fato o que havia falado. Não no sentido malicioso, é claro.
— Presta atenção no que fala, Mackenzie! — E com toda a paciência da qual era dono, jogou um travesseiro no rosto do ruivo. — Que história ridícula essa a de dormir com você. — Imagina...
Se Samuel parasse para pensar, não era nada ridículo, mas jamais verbalizaria algo tão vergonhoso quanto aquele pensamento.
— Mas você vai dormir comigo, né?
Custava arriscar e levar outra almofada no rosto? Não. E mesmo que Edward insistisse em jogar um colchão ao lado da cama para dormir, Sam não se importava de rolar e cair no colchão junto ao amigo, dormindo daquela maneira confortável que havia feito quando ainda eram apenas crianças.
Era tão bom...
Era sobre a amizade, sobre o amor que sentia pelo capitão do time de futebol e sobre sempre estar ao lado dele.
E dessa vez, o pai não entraria de surpresa para tentar separá-los.
♡
— Você podia ir lá torcer por mim e…
Os cotovelos do rapaz loiro se apoiaram na mesa de estudos que estava uma verdadeira bagunça. Livros abertos e farelos de biscoito espalhavam-se pela madeira escura em uma confusão de tarefas e tentativas de aprendizado. Mas já estavam ali há mais de uma hora e nenhum estudo havia sido concluído. Para a infelicidade de um certo japonês.
— Nem que me colocasse em uma coleira. — Kyle retrucou antes mesmo de Bruce terminar a frase. Sabia o quanto aquele loiro era insistente e enfadonho. — Você fez errado. De novo. — Mudou o assunto ao ver a equação no caderno do loiro. — Será que dá pra prestar atenção em vez de fazer convites que eu nunca vou aceitar? — Porque o tempo que gastaria vendo o idiota loiro perder no jogo de futebol, ele usaria para adquirir conhecimento ou assistir a sua querida Netflix. As séries precisavam ser colocadas em dia.
— Isso é muito chato, que saco! — Bruce jogou os pés sobre a mesinha, controlando a vontade de acender um cigarro e ouvir os chiliques e ataques alérgicos do Ogawa. Não podia beber, fumar ou falar palavrões sem ser repreendido. Gente certinha também era um saco. Qual era o problema em xingar, ter as roupas fedidas a cigarro e beber até cair?
— Pode até ser pra você, mas se não aprender, vai repetir o último ano. — Kyle ajeitou os óculos de descanso sobre o livro de álgebra e bebeu um pouco do chocolate quente na caneca azul onde em letras e corações, formava-se o próprio nome. Um presente que não combinava com quem o havia dado. — Você quer repetir o ano uma terceira vez? Olha só o seu tamanho, Bruce. — Mediu o loiro com os olhos. — Já era pra estar na faculdade, mas não consegue nem sair do ensino médio.
— Certo, Shakespeare asiático. — Bruce rodou os olhos e bufou. Tinha todo aquele tamanho, mas, as vezes agia feito um moleque mimado e birrento. — Mas as matérias não gostam de mim. — Simples assim. A culpa não era dele, oras!
— Eu ainda me pergunto se existe alguém, além da sua família, é claro, que goste de você. — Kyle alfinetou. E antes que pudesse desviar, recebeu uma almofada no rosto.
— Eu conheço uma galera que me adora. — Ele deu de ombros, mas logo sorriu, cheio de pretensão. — Tenho os nomes na ponta da língua, quer ouvir?
— Essas pessoas são problemáticas, não contam. — E eram mesmo, todas elas.
— Ah, é? — Bruce ergueu as sobrancelhas claras. As chamas da lareira dançavam em cores alaranjadas e azuis pelo rosto descoberto, já que os cabelos, mais compridos que antes, estavam ajeitados para trás. — Porque você também 'tá nessa lista…
— Eu? — Kyle pareceu ultrajado e devolveu a almofada ao loiro que conseguiu pegá-la no ar. — Eu não gosto de você. — De onde aquele rebelde tirava aquelas ideias?
— Claro, não consegue nem disfarçar. — Bruce deslizou da poltrona de couro branca para o chão, esticando as pernas por cima dos livros abertos que ele próprio havia jogado. — Somos como pasta de amendoim e pão, Ogawa; inseparáveis. — Um dos braços envolveu os ombros do japonês, trazendo-o desleixadamente para perto.
— Como você é ridículo. — Kyle balançou a cabeça, mas não repeliu o toque, muito pelo contrário, até mesmo se aconchegou contra o loiro, apoiando a cabeça no ombro alheio. — Ainda bem que sabe cantar, jogar futebol e… Brigar. — E esse último, ele fazia com maestria.
— Sei fazer umas outras coisas muito melhor do que tudo isso aí. — O tom malicioso não passou despercebido e ele recebeu uma cotovelada em resposta.
— Eu me recuso a responder. — Kyle se afastou, puxando um livro sob as pernas de Bruce. — Vamos voltar para o que realmente é importante aqui.
— Eu desisto! — Bruce o puxou de volta, dessa vez pela gola do suéter listrado, fazendo-o cair sobre seu colo. — Eu preciso de um incentivo, baby. — Tocou os lábios rosas com o polegar e sorriu de maneira descarada, cantarolando no ouvido do menor.
— Se acertar todas as equações, eu te dou um prêmio, mas só se acertar. — Kyle colocou o indicador nos lábios, impedindo o contato quando Bruce se aproximou.
— Mas todas? — Bruce pareceu horrorizado. Aquilo sobre a mesa, não eram contas, era filosofia russa escrita em chinês. — Eu não entendo nem as mais simples!
— Mas eu sou um ótimo professor. — Kyle falou com ares de convencimento. Acabou sorrindo ao ver a carinha de cão sem dono que Bruce fazia. — E lembre-se, tem o prêmio… — Enrolou uma mecha loira nos dedos. O cabelo do mais velho era uma confusão de ondas douradas que alcançavam até os ombros. — O prêmio, Bruce.
— Eu espero que esse tal prêmio, seja melhor do que o da última vez. — Bruce alfinetou, espantando a mão de Kyle de seu cabelo.
— Como assim? — O asiático se indignou. — Foram bolinhos de chocolate e da melhor qualidade! — Retrucou e torceu os lábios. Era ótimo em usar comida para incentivar o mais velho, mas sempre acabava comendo a comida do incentivo.
— Mas eu prefiro os de morango… — Bruce resmungou com um risinho e olhou para o prato quase vazio e depois para o rosto de Kyle. — Ou isso aqui… — Ele se aproximou sorrateiro e encostou os lábios próximos a boca do japonês. — Tem um gosto muito melhor do que biscoitos ou bolinhos. Os dedos tocaram a nuca de cabelos negros e, no momento em que ia beijá-lo, Kyle se afastou. Como era difícil! — Certo, de volta as equações. Nossa, adoro essa merda toda. — Continuou resmungando e abrindo um livro qualquer.
— Isso é geografia, Riley. — Kyle puxou o livro das mãos do loiro e suspirou. — Como pode ser tão burro?
— Ah, Ogawa, vai se foder! — Bruce o empurrou pelos ombros. — E não dá pra ser tudo, também. Dá um desconto, né. — Já era gostoso, sexy e o futuro vocalista de maior sucesso da América do Norte, jé estava de bom tamanho. E claro, poderia ser um jogador de futebol muito famoso também.
— O Edward consegue ser um ótimo aluno, além de ser charmoso e o capitão do time. — A maneira despretensiosa como se referiu ao colega, fez Kyle ser fuzilado por um par de olhos castanhos que se estreitaram em sua direção. Oh, certo, havia falado demais.
— Então o senhor acha o estúpido e engomado do Logan um cara... Charmoso? — Bruce quis rir, mas guardou o riso para quando ouvisse algo ainda mais engraçado do que um elogio com a palavra “charmoso”. — Ele vai adorar quando eu quebrar as fuças dele por motivo nenhum... — As mãos buscaram pelos cigarros nos bolsos da jaqueta.
— Não vai fumar e muito menos bater em alguém somente por um comentário bobo. — Kyle avançou contra o loiro, impedindo que ele impregnasse a sala com a porcaria do fedor da fumaça.
— E vai fazer o quê pra impedir? — As mãos maiores e mais hábeis seguraram as menores, impedindo que a cartela de cigarros fosse roubada também. Bobo, charmoso, Kyle era uma graça falando daquele jeito. — Anda, professor, eu não tenho a noite toda.
— E nem eu tenho a noite toda. — Kyle devolveu, puxando as mãos e conseguindo a liberdade. — Imagina, passar a noite com o caçula dos Riley. O garoto mais problemático do país.
— Você bem que gosta, seu safado. — Bruce lançou um sorrisinho cínico ao japonês. — Agora vem aqui e me ensina de pertinho. Bem de perto...
Os dedos longos e mornos contornaram a face pálida e macia e deslizaram para a nuca de fios negros em um corte repicado, aproximando os rostos novamente para beijar o bico que os lábios carnudos formavam.
— Um incentivo? — Perguntou baixinho, sorrindo também ao envolver o pescoço do loiro com os braços, desfazendo o bico emburrado e cedendo espaço a língua de um Bruce ansioso e pronto a mostrar quem era o charmoso daquela história.
Há seis anos, o garoto mais rebelde e idiota o havia beijado pela primeira vez, ameaçando-o para que não dissesse nada sobre os cigarros que fumava escondido.
E nesses seis anos, eles tinham desenvolvido uma espécie de amizade envolvida por um colorido e brilhante arco-íris, já que nenhum pedido formal havia sido feito. O fato é que estavam juntos, brigando, descordando de tudo e enroscando-se no banheiro do colégio ou na sala de estudos, como faziam agora.
No final das contas, o nerd e o popular não se davam tão mal assim.
♡
— Trânsito desgraçado.
Parecia uma superpopulação de carros, todos aglomerados na mesma avenida, esperando o sinal abrir como se suas vidas dependessem disso. Uma chuva de buzinas insistentes, tornava a tarefa de continuar parado, algo ainda mais desesperador.
Dante Aloisius Morgan, estava escorado, quase deitado sobre a Hollister Excite negra, batucando os dedos tatuados no painel como forma de distração. Tudo o que queria, era chegar em casa para poder sair de novo e aproveitar a noite.
Quando o sinal estava prestes a abrir, depois de ele já ter desperdiçado o vocabulário especial em xingamentos a desconhecidos e ofensas ao trânsito que parecia não ter fim, foi que ele viu algo bem interessante atravessando a avenida.
Que um raio caísse em sua cabeça se aquele, o garoto que caminhava despercebido e com os cabelos ao vento, não era a criatura mais bonita que andava por aquela cidade. Mesmo que estivesse longe, ele tinha uma boa visão e era certo que o menino desconhecido fazia e muito o seu tipo. Na verdade, o homem ou a mulher que tivesse um bom papo e fosse atraente, entrava para sua lista.
O sinal abriu e os veículos finalmente se puseram a andar, mas Dante foi calmo, esquecendo-se da pressa de antes e acompanhando os passos do garoto na calçada. Não era um stalker ou algo do tipo, ele só quis mesmo pegar o cachecol que o garoto havia deixado cair.
Não que acreditasse nas baboseiras de livros românticos que a mãe costumava ler, mas quem sabe não encontraria aquele belo garoto em algumas das andanças pela cidade. A sorte podia estar ao seu lado e não custava tentar.
Então agora ele seria tipo o príncipe e o desconhecido seria sua Cinderella? Que ridículo... Mas de qualquer forma, que perfume delicioso aquele garoto usava.
Precisava beber, ensaiar com a banda e ainda se preparar para que no dia seguinte, tivesse alguma disposição para ir ao colégio e precisava também, descobrir quem era o menino bonito e cheiroso.
Bruce o encheria até a morte quando descobrisse sobre o fetiche por cachecóis.
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