Uma Dose de Clichê
14 ♡ 14 "Sobre conclusões precipitadas"
Notas iniciais
Capítulo 14 — Sobre conclusões precipitadas
— Olha, eu nem entendo de moda, mas ele se veste meio…
O falatório dos alunos não impediu que Dante compreendesse a fala do amigo. Ora, que ultraje! Bem, nem tanto assim, afinal, o menino bonito usava umas combinações esquisitas, mas não negava que tudo ficava bem naquele garoto. A jaqueta azul combinava com aqueles olhos incríveis. As calças… Ele não sabia bem o motivo de escolha daquela cor.
— Ele nem precisa se vestir bem, ele é bonito demais pra essas coisas tão fúteis. — Dante deu de ombros. Não demoraria para que se levantasse e fosse cutucar o colega de classe e convencê-lo de se enturmar. Como queria que aquela personificação da beleza se enturmasse com ele. — Mas tem um assunto muito mais importante aqui. — Desviou o olhar do Pretty Boy e estreitou-os em direção ao amigo. — A gente acabou de fazer a merda da prova de física.
— E daí? — Bruce continuou rabiscando uma letra no caderno. Até poderia se tornar uma canção, quem sabe. Estava inspirado.
— Como assim e daí? — Ele não era ruim com os números, mas sabia o quanto Bruce se ferrava quando o assunto era aquele. O fato é que o loiro estava calmo depois do teste, algo muito estranho. — Não tá preocupado com a nota?
Bruce ajeitou os cabelos que nem sequer havia penteado por sair atrasado – e por não ser muito fã da escova – e também deu de ombros.
— Cara, 'tá escondendo alguma coisa de mim? — Dante se mostrou horrorizado com aquela ideia. — É sério que você não confia mais no seu melhor amigo? O seu amigo pra todas as horas? Aquele que te apoia em tudo? — Ah, não! O mundo tinha que parar porque ele queria descer.
Que drama! Bruce ia comentar alguma coisa sobre a veia artística de Dante, mas os olhos encontraram algo bem mais interessante no processo. Kyle ficava muito bem enquanto escrevia no quadro-negro. Era bonitinho como ele tinha que se esticar para alcançar uma parte mais alta.
— E nem faz questão de manter o contato visual. — Dante soltou a cômica frustração. — Olha pra mim e não pra bunda do Ogawa!
— Eu nem 'tava olhando nada. — Bruce se ajeitou na cadeira. E se estivesse olhando, não faria mal algum a ninguém. Era até um incentivo, embora perdesse tempo olhando para o traseiro do professor em vez de copiar a matéria. — E sobre a prova; eu só estudei.
Uma banalidade no fim das contas. Claro, banal se não fosse Bruce Riley ali. No entanto, Dante entendeu que talvez ele realmente tivesse estudado.
— Ah, sei. “Estudou”. — A malícia não podia faltar naquele suposto entendimento.
— Eu fui estudar física e não anatomia. — Bruce rolou os olhos. Seria o paraíso se a segunda opção estivesse valendo, mas era só a porcaria da física mesmo. — Kyle me passou tudo bem resumido e eu decorei. — Se referiu ao papel que o Ogawa havia enfiado no bolso de sua jaqueta pouco antes de ir embora. Não precisou ler muito. Era como Kyle dizia, precisava se esforçar para concluir o ano sem notas vermelhas.
— Chocado… — A mão foi ao peito ao continuar a dramatização, mas não era como se não estivesse mesmo surpreso. — Acho que isso foi um avanço. Dos grandes. — Agora estava falando sério.
Bruce não sabia muito o que pensar. Não era como se entendesse tudo o que Kyle fazia, mas estava grato porque ao menos teria uma nota melhor no boletim. Mas ainda queria saber os motivos e queria ter a confiança do baixinho de olhos puxados, porém, se insistisse, provavelmente acabariam brigando.
— Ânimo, cara! — Dante deu tapinhas de encorajamento nas costas do amigo. — Não tem quem torça mais por vocês do que eu.
Dante sendo fofo… O mundo ia explodir ainda naquela manhã. E sabia que o amigo falava aquilo de coração. Não, não ia ficar sentimental com amizade, não ia mesmo! Era tudo o que não precisava.
— Pode voltar pro seu lugar. — Kyle praticamente o enxotou.
Estava demorando para o anão sem barba voltar para a carteira. A mesa da frente era dele e Dante foi fazer o que já queria ter feito desde o começo das aulas. Não seria um empata casal e, bem, aqueles dois só precisavam dar um passo para que fossem realmente um casal, muito mais fácil do que ele e Miles, infelizmente.
— Hey? — Sussurrou. — Menino bonito? — Agora a sala havia silenciado para que o professor comentasse sobre as passagens do livro.
Conversar na aula era o cúmulo! Em sua antiga escola, havia regras bem graves para a falta de atenção dentro das salas, mas ao que parecia, não se importavam muito com esses detalhes por ali. O que era uma lástima! Mas sua curiosidade também não era das melhores.
— O que foi? — Aquela coisa idiota de chamá-lo de menino bonito… Não que ele não fosse, mas era incômodo.
— Vai ter uma festa na sexta, aí eu pensei que—
— Que eu iria com você? — A pergunta veio mais alta do que deveria e o arrependimento veio logo em seguida.
— Vocês dois! — O professor interrompeu a leitura e mirou os dois alunos. — Vamos manter o silêncio ou terei que pedir que continuem a leitura ou se retirem.
— Foi mal, professor. — Dante se desculpou com um sorriso nada culpado. Não dava para falar alto com o senhor ouvido de tuberculoso por perto, então, ele se aproximou mais. Era bom naquilo, em invadir o espaço pessoal de Miles Turner. — É uma festa com a galera. Nós vamos tocar por lá. Sabe, eu tenho uma banda. — Ah! O orgulho que tinha daquela banda, não cabia no peito.
A expressão de Miles não foi menos que debochada. Claro, uma banda.
— E você é o quê? A mascote? — Zombou e teve que se controlar para não rir ao pensar que ele nem mesmo precisaria de fantasia para o papel. Os olhos, no entanto, foram para a mão tatuada e que estava muita próxima da sua: No Future, ele leu.
— Você é tão engraçado. — Dante implicou, mas estava sorrindo com a atenção daqueles olhos. Eram verdes ou azuis? Sempre se perguntaria isso. Eram bonitos pra cacete! — Eu sou o baterista. — Quase estufou o peito.
Não houve nenhuma surpresa com aquela informação. O cargo combinava bem com aquele garoto esquisito. E já o havia visto batucando os dedos nas pernas ou usando as canetas como baquetas. Era bem a cara dele tocar aquele instrumento. Talvez ele fosse bom.
— Eu gosto muito de música. — Comentou ao retornar os olhos ao professor e diminuir ainda mais o tom. — Seria legal ouvir uma banda nova. — Se fossem mesmo bons como Dante fazia parecer, seria interessante de ter numa playlist. Bandas independentes eram bem bacanas.
— Então isso é um sim? — A esperança não podia morrer e ele estaria sempre tentando arranjar um “encontro” com aquele anjo na terra. Era bem clichê e meloso, mas Miles o deixava um pouco mais bobo. Só um pouco.
— Não sei ainda. É festa de quem? — Uma mecha do cabelo foi colocada atrás da orelha.
E o simples gesto fez Dante se atrapalhar por uns momentos. Que orelha bonita! O garoto tinha sido desenhado por algum dos escultores gregos, só podia.
— Do Bruce e do Sam. O Sam é aquele menino ruivo e alto.
Miles não precisou forçar a mente. Bruce era o loiro que não desgrudava do garoto asiático e Sam, bem, Sam era o único ruivo do colégio que não era tingido. Não tinha intimidade com nenhum dos dois, muito menos com o insistente filhote da Família Addams, mas poderia pensar no assunto. Aquela cidade não teria nada além de festinhas bobas para ir. Se forçaria a acostumar.
— E é a fantasia. E com tema. — Dante se adiantou. Finalmente o bendito sinal havia tocado e iam agora para o intervalo.
— Nunca fui a uma festa à fantasia. — Os lábios e o cenho se franziram. Não era algo que achava legal. Parecia muito coisa de Halloween e o dia das bruxas estava longe.
— Pode ser a sua primeira vez. — E Dante queria muito que fosse.
— Essa é com certeza a primeira vez que uma conversa menos estúpida ocorre entre a gente. — O comentário veio tão natural quanto o absurdo daquela cena.
— É que você sempre me ofende e nem me dá espaço pra uma conversa decente. — Dante alegou. Claro que estava gostando daquilo, mas a culpa não era sua se o esquentadinho não o deixava se aproximar.
— Porque soltar um elogio idiota e invadir o meu espaço pessoal é muito decente. — Miles alfinetou. Havia trazido uma maçã e suco de laranja para o lanche, já que não confiava na comida da cantina e buscava ser sempre saudável.
Dante ia soltar um dos famosos elogios estúpidos, mas o olhar foi capturado pela bela mordida que Miles deu na maçã. Não era para ser tão sexy quanto sua mente havia entendido, mas, novamente, não era sua culpa se aquela boca maravilhosa desviava sua atenção.
— Quer? — Miles ofereceu. Papai havia ensinado a dividir com os menos afortunados. — A maçã. Foi isso o que eu ofereci. — Os olhos se estreitaram para os possíveis pensamentos naquela cabeça pervertida.
— Ah, não. A maçã eu dispenso. — O sorriso cretino só confirmava que havia sim pensado besteira. Bem, ninguém poderia julgá-lo por isso.
— Escuta aqui. — O tom mudou e toda a possível conversa “decente” que poderiam ter, ruiu em questão de segundos. — Se eu for nessa tal festa, não vai pensando que pode chegar com essas liberdades que eu não te dei. Tenta ser espertinho comigo e eu te viro do avesso. — Não era a primeira vez que o ameaçava, mas parecia que enquanto não quebrasse algum daqueles ossos, o abusado não pararia com as gracinhas.
Miles era bem uma contradição. Ele era muito o típico garoto riquinho e mimado que precisava do pai para se defender, mas Dante estava botando fé naquelas ameaças. E isso só o deixava ainda mais interessante. O garoto era bonito e sabia como quebrar um nariz.
— Longe de mim pensar essas coisas. — Defendeu-se. — É só um convite sincero mesmo.
Sincero… Miles ainda o observou por algum tempo em desconfiança.
— O azar vai ser seu. Posso quebrar o seu nariz, mas posso fazer pior e em um lugar muito mais sensível. — Dessa vez, a ameaça havia surtido um maior efeito e o fez sorrir ao ver a expressão de dor no rosto de Dante. — Agora volta pra sua turma e não me segue. — Decretou ao caminhar para fora da sala.
Dante bem queria segui-lo, mas preservava muito aquela parte do corpo em específico para desobedecer. E teria tempo para um momento a “sós” durante a festa.
♡
— Dia ruim?
Sam não conhecia aquele tom de voz e se surpreendeu ao ver quem agora estava ao seu lado na mesa do refeitório. Acabou olhando para os lados, buscando por alguma confusão a respeito daquela abordagem. Há poucos minutos, ele estava somente pensando nos acontecimentos daquela manhã, mas, de repente, o garoto novo resolvia puxar assunto e ser simpático.
— Ah… — Constrangeu-se ao encará-lo nos olhos de uma cor tão bonita e distinta. Ele era muito bonito e poderia ser facilmente um modelo com aquele rosto e cabelos. Um dos maiores fatores para sua surpresa, afinal, a pessoa mais bonita com quem conversava – a perfeição aos seus olhos – era o melhor amigo, justamente aquele o qual estava pensando. — Só mais um dia normal. — Respondeu sem graça. Não era tão bom em socializar. Tinha somente um grupo seleto de amigos e era custoso para que se aproximasse de desconhecidos. — O seu nome é Miles, não é? — Seria melhor se fosse menos travado para novas amizades. E sim, sabia o nome do garoto por ter ouvido Dante mencionar mil e uma vezes aquele nome.
Miles mordeu uma maçã muito vermelha e apoiou um dos cotovelos à mesa para observar melhor o garoto ruivo e tímido. Estava entediado naquele colégio cheio de gente esquisita, mas não era como se não estivesse aberto a pelo menos conversar com quem parecesse menos delinquente em meio àqueles tipinhos suspeitos. Aquele garoto cheio de problemas tão óbvios, era, talvez, o menos ruim de tudo aquilo.
— E você é o Samuel. — Abandonou a maçã pela metade e continuou observando o ruivo. — Ou Sam. Posso te chamar de Sam? — Porque ao contrário de certos por ali, ele não inventava apelidos ridículos ou invadia o espaço das pessoas. A questão foi que sentiu que o garoto ruivo precisava de alguém para conversar.
Foi impossível não se sentir acanhado com a atenção que recebia e Sam levou os dedos aos cabelos, buscando disfarçar qualquer desconforto.
— Claro. Tudo bem. — Encolheu os ombros e novamente sorriu sem graça. Devia ter algum manual de como se portar diante de gente bonita e extrovertida. Certo, qual assunto deveria puxar? — O seu cabelo… Ele é muito bonito. — Estava apenas sendo sincero. Seus fios não eram muito comportados e admirava aqueles que conseguiam mantê-los no lugar.
Diferente de Dante, Sam não o elogiou com aquele tom de endeusamento ou mesmo a perversão que era clara nos gestos do garoto tatuado. Miles havia gostado. Talvez com ele tivesse uma conversa decente. Ele com certeza era mais decente que o colega de turma.
— Eu também gosto do seu. — Retribuiu, mas gostava mesmo daquela cor. Não havia tido a sorte de nascer com os cabelos ruivos e só restava apreciar os fios naturais já que nunca teria coragem de pintar o cabelo.
— Eu uso os meus pra cobrir as orelhas. — Agora Sam estava menos retraído. Não pelo elogio em questão, é só que o garoto rico parece bacana. — As vezes eu uso chapéu, mas não combina muito.
— Não vejo problemas com as suas orelhas, mas acho meio impossível gostar de tudo no nosso corpo. — Comentou displicente e franziu o cenho ao ter os olhos escuros do ruivo o encarando com certa surpresa. — Falei algo de errado?
— Não! — Sam balançou as mãos. Ele só havia falado como Edward, mas claro, encontrava o moreno em todas as pessoas quando estavam longe. Era só isso. — Mas você não tem nada que não goste. Quer dizer… Não parece.
— É que é algo que não dá pra mostrar. — Miles sugou a laranjada com pouca vontade ao levar o canudo aos lábios.
— Ah, claro, eu entendi. — O rosto estava como uma pimenta. Não imaginava que, bem, que aquele garoto tão bonito, que ele não fosse bonito por baixo das roupas. E não! Não estava pensando nele dessa maneira! Só pensava assim de alguém.
— São as minhas canelas. — Miles arqueou as sobrancelhas. — Eu uso duas meias grossas e as calças, aí fica complicado de mostrar, mas são finas e eu não gosto delas. O resto do corpo vai muito bem, obrigado. — Acabou sorrindo do constrangimento que se alastrava pelas bochechas do ruivo. Havia mesmo se simpatizado com ele.
— Claro, as canelas. — Sam conseguiu respirar, mas os olhos estavam na bandeja intocada.
Um momento de silêncio se passou e talvez tivesse perdido o ânimo do início da conversa. Ou talvez um deles só estivesse esperando para fazer uma certa pergunta.
— Vocês brigaram? — Foi bem direto. Queria saber e não simpatizava com rodeios. — Você e o garoto do time de futebol. — Era bem perceptível a maneira como ele olhava para o refeitório, como se buscasse por alguém.
Sam ergueu os olhos, mas apertou os lábios. Era tão óbvio assim? Mas tinham mesmo brigado? Edward havia deixado claro que estavam bem, embora estivesse muito sério e preso aos próprios pensamentos, não era como se ele o houvesse tratado mal. Só havia sido um pouco distante.
— Não. Nós nunca brigamos. — Forçou um sorriso. Se até quem não era próximo conseguia ver o quanto aquilo o afetava, a coisa estava mesmo ruim. — Ele está com os garotos do time. — Não, não sabia onde ele estava. Edward havia saído tão rápido da sala que o perdeu de vista. Não queria falar sobre aquilo. — É a rosa do Pequeno Príncipe? — Podia ser ousado ter tocado o colar do recém-conhecido, mas precisava urgentemente mudar o foco do assunto ou acabaria se entregando ao falar sobre Edward.
Miles claramente percebeu o desconforto de Sam e deu de ombros. Ele estava querendo demais ao fazer aquela pergunta e sendo até intrometido.
— É a minha história favorita. — E nem sequer havia percebido que o pingente estava livre, leve e solto e bem visível sobre a camiseta. Ele até comentaria sobre o livro se não tivesse encontrado um certo alguém ao desviar os olhos. — O seu amigo.
A fala fez com que Sam olhasse por cima dos ombros e encontrasse Edward. O amigo como Miles fez questão de ressaltar, segurava duas caixinhas de suco e, Sam percebeu que a rosa era o seu sabor favorito, mas viu quando ele a entregou a uma das garotas que faziam parte das líderes de torcida e sorriu da maneira que fazia quando estavam juntos. O coração até havia comemorado ao ter a certeza de que Eddie se dirigia a sua mesa, mas estava doendo agora. Alguma coisa parecia fora do lugar ali dentro.
— Parece que ele tem uma companhia melhor. Mais agradável. — Comentou ao desviar os olhos da cena. Edward sequer o havia olhado de volta...
O capitão do time e a líder de torcida. Que previsível. Miles fez questão de engolir os fatos óbvios daquele rápido encontro e pensou em algum presente para o futuro aniversariante. Mal conhecia aquele garoto, mas seu lado cupido estava bem aflorado.
— Então você gosta de livros? — Apoiou os cotovelos sobre a mesa e sentiu-se grato quando o ruivo passou a conversar normalmente e com menos reservas que antes.
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— Vai logo se desculpar!
Mariah era horrível quando ficava nervosa. Não era uma visão que os garotos gostavam muito. A menina virava uma comandante quando faziam algo que ela não aprovava. Os tapas doíam pra valer e as vezes ela dizia que ia enfiar algum juízo em suas cabeças, distribuindo pontapés. Ela não fazia muito sentido, mas dava medo.
— Eu vou contar até três, Edward Logan. E você não vai querer saber o que vai acontecer depois. — Ela ameaçou ao erguer a mão direita.
Edward suspirou e passou as mãos pelo rosto. Aquela voz estridente e todos os pensamentos idiotas que rondavam a mente o deixavam somente mais irritado do que já estava. Sim, irritado! Nem sequer sabia o motivo exato, mas era irritação o que sentia.
— E por que eu tenho que me desculpar? — Não tinha feito nada de mal, somente não estava bem para diálogos muito longos. Era isso.
— Você deixou o seu melhor amigo preocupado, sua anta! — Os olhos rolaram nas órbitas quando se abaixou ao lado dele, como se estivesse lidando com uma criança. — O Sam é uma pessoa sensível, você sabe. Todo mundo sabe o quanto ele se apoia em você e o quanto você é importante pra ele. E — Falou quando Edward fez menção de interrompê-la. — você também se sente assim em relação a ele. Tudo bem ficar chateado, seria estranho se não ficasse, mas isso muda mesmo alguma coisa?
— É claro que não. — Edward fez careta ao ouvi-la falar daquela maneira. Ele não era babaca a esse ponto; deixar uma amizade de anos por um detalhe.
— Então qual é o problema? — Mariah queria mesmo entender aquele ponto. Se estava tudo bem sobre Sam gostar de garotos, por que aquela cara amarrada e aquele comportamento arredio? — Você… É isso?
Mesmo a pergunta sendo sútil, Edward entendeu muito bem onde a amiga queria chegar e logo se ergueu, dando as costas a ela.
— Não tem nada a ver! — Enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta. — Eu não gosto de homens. — Que ficasse claro.
— Mas eu nem cogitei isso.
Os olhos azuis buscaram os da garota e o cenho se franziu. Mariah tinha um sorriso no mínimo duvidoso e uma das sobrancelhas sumia na franja cerrada.
— Eu só pensei em ciúmes de amigo mesmo, mas se você sente outro tipo de ciúmes, tudo bem, Eddie. — Ela se aproximou e se ergueu nos pés para deixar um beijo na bochecha corada do amigo.
— Você entende tudo errado. — Acusou ao crispar os lábios. Aquela abusada era como sua irmã no fim das contas.
— Somos parecidos nessa parte. — Mariah sorriu novamente, mas, dessa vez, não era por implicância. — Vai falar com ele, não vai? — O tom foi fofo, mas a mão apertou o ombro de Edward até que a expressão de mau humor se pintasse em dor. — Acho bom. Acho muito bom. Nos vemos por aí, bonitão. — Deu tapinhas de encorajamento nas costas do amigo antes de se afastar.
Era só o que faltava! Edward bufou e fechou os olhos por alguns segundos antes de, enfim, ir fazer o que já deveria ter feito. Talvez devesse levar o suco favorito de Sam. Isso, seria uma boa desculpa. E desde quando precisava de desculpas para se aproximar do melhor amigo? Aquele tipo de pensamento era completamente novo.
Comprou um suco de uva e um de morango, o preferido de Sam, seria mais fácil se também estivesse ocupado bebendo alguma coisa. Droga! Novamente pensando naquela bobagem. Era só o Mackenzie, nada havia mudado entre eles.
Focado naquele pensamento, adentrou o refeitório e buscou pela mesa afastada onde sempre se sentavam juntos e a qual havia dispensado ao agir feito um idiota. Aquela mesa que somente Sam e ele dividiam, mas que agora estava ocupada por uma figura que ele reconheceu de imediato.
Cabelo lambido, olhos claros e roupas de marca; o garoto de uma das maiores mansões da cidade. E qual não foi sua surpresa ao ver que o Mackenzie estava muito à vontade com o riquinho a ponto de tocar onde quer que estivesse tocando no corpo dele? Claro, Sam estava muito chateado. Dava para ver de longe. Tudo bem, cada um podia conversar com quem bem entendesse e seus olhos se desviaram para uma garota que sempre o cumprimentava pelos jogos. Sem nem pensar, ofereceu o suco a ela e sorriu quando ela foi ousada o suficiente para dizer que não era bem o suco que queria ganhar.
Não olhou uma segunda vez para ver o que se desenrolava naquela mesa. E deu pouca importância as falas de Mariah que voltaram como se as ouvisse pela primeira vez.
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