Uma Doce História
74 Biscoito de chocolate

–- Vó. Cheguei! – Disse Ryu ao abrir a porta de entrada da pequena casa.
–- Boa noite minha neta – Recepcionou Dona Anice vindo da sala, logo reparando que a neta não estava sozinha – Quem seria o belo jovem?
–- Sou Nathaniel – Apresentou-se o loiro – É um prazer conhece-la Dona Anice.
–- O prazer é meu querido, entre, acabei de assar deliciosos biscoitos – Disse a senhora com um semblante simpático, mas que se transformou em uma careta ao sentir o cheiro forte – Mas que cheiro de álcool é esse?
–- Ah vovó, aconteceu um acidente – Ryu começou a explicar – Derramaram bebida no pobre Nath e agora ele não pode voltar pra casa, será que ele poderia passar está noite aqui?
–- Coitado, claro que pode, mas... Por que você não pode voltar pra casa querido? – Perguntou Anice.
–- Ahm... Bem... – Nathaniel começou a ficar envergonhado de ter que explicar aquilo.
–- Não se preocupe – Anice deu um sorriso – Você é filho do delegado Klein, certo?
–- Ah sim, como sabe? – Perguntou Nathaniel surpreso.
–- Na verdade eu conheço sua mãe, você e sua irmã são bem parecidos com ela – Explicou Anice.
–- Acho que Ambre é uma cópia de nossa mãe – Nathaniel acrescentou – Mas como conhece minha mãe?
–- Querido sua mãe é bem barraqueira – Afirmou Anice.
–- Vovó! – Repreendeu Ryu.
–- O que? Você sabe que é verdade – Anice era uma senhora muito doce e simpática, mas era bem direta e não tinha papas na língua.
–- Sim, mas isso não dá à senhora o direito de falar essas coisas para o filho dela – Ryu criticou.
–- Tudo bem Ryu, eu conheço bem minha mãe – Disse Nathaniel.
–- Então, como eu dizia – Retomou Anice – Sua mãe arrumou encrenca comigo no mercado por uma coisa muito tola, me admira ela ser advogada, no fim tivemos que resolver na delegacia e adivinha? O delegado Klain estava lá fazendo seu trabalho, no fim apenas fomos cada uma pra sua casa.
–- Minha mãe parece não ter limites – Disse Nathaniel com a mão na testa.
–- E seu pai não ter escrúpulos, nunca vi homem tão arrogante e autoritário na minha vida, é de se imaginar o porquê de você não poder voltar pra casa nesse estado – Anice moveu a cabeça de um lado para o outro – Fique tranquilo meu jovem, sinta-se em casa, bem... Não que essa seja uma boa opção.
–- Oh senhor – Ryu revirou os olhos.
–- Muito obrigada Dona Anice, não sabe como isso me deixa tranquilo – Agradeceu Nathaniel.
–- Não há de que querido, Ryu leve ele para tomar um banho, vou ver se acho algo pra ele vestir – Anice instruiu.
–- Não preciso de roupas senhora, trouxe uma muda extra – Disse Nathaniel mostrando a mochila.
–- Certo, vou preparar algo para vocês comerem enquanto isso – Anice foi para a cozinha cantarolando.
Ryu levou Nathaniel até o próprio quarto e lhe indicou o banheiro, entregando-lhe uma toalha para que pudesse se enxugar após o banho. A morena ficou tentada a dar uma breve espiada, mas achou melhor não constranger o rapaz.
Após alguns minutos Dona Anice aparece carregando uma bandeja com um prato repleto de biscoitos de chocolate, dois copos com vitamina de banana e... Um pacote de camisinhas.
–- Vo-vovó... O que... O que é exatamente isso?! – Perguntou Ryu ao ver o conteúdo da bandeja.
–- Ora querida, são biscoitos de chocolate para terem energia, vitamina para não terem câimbra e preservativos, ainda não quero ser bisavó.
–- Vó, você não tem vergonha na cara? – Perguntou Ryu perplexa com a ousadia da própria avó.
–- Não – Dona Anice respondeu simplesmente – E você também não, afinal é minha neta, te conheço muito bem.
–- Mas não é pra tanto né.
–- Se eu fosse você aproveitava, afinal, esse rapaz é um “pitelzinho”.
–- Como?
–- Boa noite querida, não se preocupe com o barulho, já preparei meus fones de ouvido – Dona Anice entregou a bandeja para Ryu e foi para seu quarto, cantarolando novamente.
–- Eu me pergunto o que meus pais tinham na cabeça quando decidiram me deixar com minha avó – Perguntou-se Ryu.
Depois de um tempo a porta do banheiro se abre e Nathaniel sai com os cabelos arrepiados, o que faz Ryu rir.
–- O que foi? – Perguntou Nathaniel sem entender o motivo da graça.
–- Seu cabelo – Apontou Ryu – Parece um super sayajin.
–- Droga, ele sempre fica assim – Disse Nathaniel corando, tentando ajeitar os fios loiros.
–- Está com fome? Minha avó trouxe alguns biscoitos fresquinhos – Ryu indicou a bandeja sobre uma mesa de centro, mas sem o pacote de camisinhas, já o havia guardado na gaveta do criado mudo.
–- Sim, obrigada e desculpe a demora no banho, foi difícil tirar todo aquele fedor de álcool – Disse Nathaniel franzindo a cara.
–- Não tem problema – Ryu pegou um biscoito e o mordiscou.
Eles ficaram sentados na beira da cama, comendo em silencio por um bom tempo. Depois que terminaram Ryu levou a bandeja à cozinha e voltou ao quarto. Era uma noite bem quieta, nenhum barulho de carro, grilos ou vizinhos.
–- Sua avó é uma senhora muito simpática – Disse Nathaniel sentado à beira da cama.
–- E sem noção também – Ryu pôs a mão na testa ao lembrar-se da cena.
–- Bem, pelo menos ela é sincera – Disse Nathaniel.
–- Diferente de muitas pessoas...
–- Isso foi uma indireta?
–- Acho que a carapuça serve perfeitamente.
–- Olha só Ryu... Eu só não sou tão... Tão... – Nathaniel começou a corar novamente, seu sangue ainda esquentaria muitas vezes naquela noite – Tão corajoso como você.
–- Acho que a palavra que você queria usar não é exatamente “corajoso”, afinal eu sei o que você e todo o resto do mundo pensa sobre mim.
–- Não é bem assim...
–- Não? Olha Nath, eu sei que você me acha um tanto vulgar ou oferecida, mas isso não quer dizer que meus sentimentos sejam falsos.
–- Eu sei Ryu, mas é que... É que...
–- Você não sabe de nada Nathaniel! E para de gaguejar, nem parece o representante!
–- Ei! Eu só fico nervoso com essa situação, você também não ajuda muito!
–- Eu?
–- Você não desiste!
–- Então é isso que quer?
–- Não! Tsc... Eu só não entendo porque você sempre perdoa tudo... Mesmo depois de eu ter feito você sofrer tanto.
–- Eu nem sempre fui assim, mas aprendi que muitas vezes as pessoas precisam de tempo para entender, de um empurrãozinho para agirem. Eu já julguei mal muitas pessoas, já cobrei várias respostas sem que a pessoa estivesse pronta para dá-las, esperei por ações que não podiam ser realizadas, exigi sentimentos que não podiam ser correspondidos. Por isso hoje não me preocupo com que os outros dizem ou com o tempo que levará para eu conseguir conquistar algo, se não vier por livre e espontânea vontade, não será verdadeiro.
–- Ryu...
–- Então não é o fato de eu ser corajosa ou não desistir, sou apenas paciente e respeito o tempo de cada pessoa. Mas acho que já foi o suficiente, acredito que já obtive a sua resposta; não se preocupe, não vou insistir mais – Ryu foi até o guarda-roupa, pegou uma camisola e seguiu até o banheiro – Vou tomar um banho, você pode dormir no meu quarto, eu durmo com minha avó.
Ryu fechou a porta do banheiro e ligou o chuveiro, deixando um pálido Nathaniel de pé ao lado da cama.
–- “Seu idiota” – Pensou Nathaniel, esmurrando a própria cabeça – “Como pode ser tão estúpido”.
Nathaniel sentou-se ao chão, recostando-se na cama, ficou ouvindo o barulho da água do chuveiro e observando a fresta de luz que sai por baixo da porta.
Ele queria ficar com Ryu, corresponder aos sentimentos que a garota demonstrava tão abertamente, mas ele não tinha coragem, tinha medo, vergonha de não saber o que fazer, de não saber o que dizer... Do que diria seu pai ao saber que estava namorando, ainda mais com uma garota que não fosse o perfil de Melody. Aquilo tudo era uma bobagem, estava cansado de ter que seguir rigorosamente as regras estupidas de seu pai, de ter que ouvir os sermões sem motivo ou de ter as costas marcadas por hematomas a cada vez que não impedia Ambre de fazer uma besteira.
Nathaniel levantou-se e foi até o banheiro, respirou fundo e girou a maçaneta. Estava finalmente decidido, não perderia aquela garota por nada.
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