Uma Chamada de Socorro
5 Capítulo 4 - Paroxismo: Entre a Cruz e o Punhal
Notas iniciais
Osaka, 22 de maio de 2015.
Prece, reza, oração, petição. Chame como quiser, mas até eu me surpreendo hoje com a minha nova prática, adquirida desde o dia quinze de março. Eu havia questionado minha mãe sobre como conseguir uma nova chance a partir do arrependimento que eu tinha, e parecia fácil demais para ser verdade.
“- Ah querida, mas isso é muito simples! – ela riu – O que você fazia, depois que aprontava quando criança, assim que via que tinha feito algo ruim? – bom, eu costumava esconder dos meus pais, mas caso isso falhasse, negava até a morte. Porém, entendi a analogia que ela propunha. – Se você realmente está arrependida por algo impensado que fez, tudo o que você deve fazer é pedir perdão e uma nova chance, pra poder fazer certo dessa vez. Não há necessidade de se martirizar, querida. Todos nós erramos, isso é inerente ao ser humano. Faça isso e recomece. É muito simples!
— E como eu faço isso, exatamente? – minha ignorância religiosa era, de fato, descomedida.
— Bom, se você errou com uma pessoa, peça perdão a ela e não cometa mais o mesmo erro. Agora, – ela enfatizou a última palavra, prolongando-a. – se você sente que errou com Deus, faça como eu lhe disse antes, porém, como uma oração. Sabe?
Não sabia muito bem, mas tinha uma noção básica. Eu imaginava que fosse como as preces que estava fazendo pedindo por proteção. Algo mecânico e decorado, como uma receita ou uma liturgia habitual. Fácil.
— Sei sim!
— Sabe mesmo? Não é como um ritual, Tenten. – mãe tem um poder de conhecer os filhos além do que é natural. De certa forma, isso me deixa incomodada, desde criança. – As palavras têm poder! Oração, reza, não importa o nome, todas são formas de se conversar com Deus. Como você pede perdão a uma pessoa, assim deve ser para com Ele, mas com muito mais respeito e reverência. Entende?
Bem, não é tão fácil assim, afinal.”
Eu estava tentando, desde então, mas me parecia que Ele não estava muito a fim de me perdoar, ou mesmo me dar outra chance. Eu estava quase desistindo, mas no dia vinte e dois de maio, minha vida voltou a ficar desordenada. Descobri que todo o pavor, angústia e náuseas que havia sentido com aquelas manifestações sobrenaturais, que havia vivido há meses, foram insignificantes perto do que experienciei aquele dia.
Estava cansada naquela sexta, porém feliz. A maioria dos meus pacientes estavam progredindo, e faziam alguns meses que estávamos contando com um novo profissional na clínica. Shimura Danzou é psiquiatra, e nós fechamos uma sociedade, o que trouxe um grande crescimento para a clínica, já que eu tinha pacientes que precisavam de tratamentos medicamentosos, entretanto, não é incumbência de um psicólogo receitar fármacos. De outro lado, ele precisava que alguns de seus pacientes tivessem um tratamento mais enfocado nos problemas subjacentes que motivam o adoecimento mental de uma pessoa, o que não cabe – exatamente – a um psiquiatra fazer. Danzou já é um senhor de idade, porém muito experiente e com uma carreira profissional bem solidificada; dá aulas em universidades em alguns horários, e em outros, atende na clínica. Ele tem paixão pelo o que faz e eu também.
Havia combinado com Sakura que iríamos curtir a Dotonbori no sábado à noite, e ela me explicaria como é que conseguiu ficar com Sasuke e com Gaara em paralelo, sem que um saiba do outro. Sakura é louca. Acredito que já disse isso.
Fui para casa e jantei um macarrão instantâneo qualquer, já que minha preguiça não me permitia sequer preparar uma refeição decente. Lembro-me que decidi assistir um pouco de televisão assim que jantei, pois tomar banho ia exigir que eu ficasse em pé por um determinado tempo, e tudo o que eu queria era fazer era exatamente nada. Acabei por cochilar no sofá, mas acordei com o vento gélido e impetuoso que adentrava a sala por meio da janela-balcão escancarada. A televisão estava desligada.
Sentei-me, ainda sonolenta, tentando me recordar de quando eu havia aberto a janela, ou se realmente teria desligado a TV antes de pegar no sono, o que não é usual – no meu caso -. Eu tinha uma sensação estranha de estar sendo observada ou de estar em companhia de “algo” que não poderia ser visto a olho nu – se é que você me entende -, mas logo descartei esta segunda hipótese, já que não havia identificado algum mau odor. Mesmo assim, um pressentimento estranho enriçava os ralos pelos do meu braço, e eu engoli em seco, desejando que tudo não passasse de um fruto da minha imaginação.
Caminhei por todo o apartamento procurando algo ou alguém, mas ansiando não encontrar nada. Eu estava com medo. Medo de uma nova visita indesejável após tanto tempo desde a última. Eu ainda tinha pesadelos com aquela aberração, mas nada se comparava a vê-lo, principalmente se enrolado ao meu pescoço. Apesar de não encontrar nada, eu não me sentia tranquila; o ar estava denso e eu precisava me empenhar um tanto para respirar.
— Céus, me envie Neji! – cruzei os dedos, mas não tive coragem de fechar os olhos. Minha voz estava sussurrada, pois, na minha inocência, esperava que o que quer que estivesse ali comigo, não me escutasse clamar por ajuda. Trêmula, comecei a transpirar excessivamente. – Preciso da sua proteção, por favor! Me proteja, me ajude!
Rumei ao banheiro, anelando que aquele silêncio sepulcral, somado a sensação ruim, fosse embora pelo ralo do box, junto com as impurezas do meu corpo casado. Sentia cada músculo meu tensionado, mas mesmo assim, optei por um banho frio.
Ao sair, pensei seriamente em passar a noite na casa da Sakura, o que não parecia uma má ideia; mas a verdade é que eu queria que Neji estivesse ali. Queria poder vê-lo por que, por mais que já tivesse se passado algum tempo que não o encontrava, jamais me esqueci de sua beleza incomparável, sua fala gentil e a paz que desfrutava com ele no Éden.
Lembro-me de sentar na cama, auxiliada apenas pela luz do pequeno abajur de cabeceira, enquanto ainda terminava de me vestir, quando em um sobressalto, avistei os olhos avermelhados fixos em mim.
Estava escorado no batente da porta entre o quarto e o breve corredor de minha casa, e tinha um sorriso mínimo que emanava desdém. Pleno de deboche. Os braços estavam cruzados em frente ao corpo, e sua capa vinho se alongava até a canela.
— Que interessante... – ele deu uns passos e retirou o capuz, revelando um rosto de beleza invejável. Tinha linhas de expressão que desciam do canto interno dos olhos até a maçã de sua face. Os cabelos negros e longos estavam presos em um rabo baixo, e tinha um sinal na testa igual ao de Neji, com exceção de um detalhe: havia um risco sobre a marca. Assemelhava-se a uma cicatriz. – Ela sabe rezar...
Fiquei imóvel. Sem fala. Sem ar. Estava mórbida.
Tive a compreensão imediata de que se devia a ele aquela atmosfera densa e apreensiva. Seu odor, diferente dos outros, não se classificava como aromático ou fétido. Ele exalava morte; e eu inspirava aquilo, sentindo meu corpo reagir a sua aura perversa da maneira mais atroz possível.
Fitava-o estupefata, incapaz de fugir do medo da morte que me investia.
— O que foi, Tenten? – ele se aproximou e sentou ao meu lado, segurando meu maxilar com seus dedos frígidos. Nossos olhos não se desvencilhavam, e era palpável o ódio implícito no vermelho cintilante de sua íris. Seu toque congelou todo o meu corpo e, apesar de não empregar força alguma contra mim, onde ele encostava, eu sentia puro torpor. – Neji não te falou de mim?
Seus lábios vieram de encontro aos meus, e eu me esforcei para esquivar. Tudo o que consegui foi mover-me lentamente para trás, arrancando dele um sorriso obsceno. Contudo, minha mente se empenhava em achar um vínculo entre a criatura diabólica diante de mim, e a figura deslumbrante de Neji. Qualquer mera associação soava absurdamente inconcebível.
Fui retomando o controle do meu corpo de forma vagarosa, tomando o máximo de distância que conseguiria no momento. Dei com as costas na cabeceira da cama, ainda o olhando perplexa. Eu sentia, na presença dele, a mesma angústia mortífera que senti quando Inari estava prestes a consumar sua morte. Segurei meu pranto com todas as forças que me restavam, embora algumas lágrimas escorressem por meu rosto pálido.
— Está com medo? – ele parecia se divertir com meu estado perturbado. Mais uma vez, passou seus dedos glaciais em meu rosto para secar as gotas grossas que corriam desenfreadas. – Confesso que estou decepcionado. Você se mete muito nos meus assuntos pra quem é tão medrosa.
Aproximou seu corpo do meu, e percorreu com a língua áspera da minha jugular à minha bochecha, provando com zelo da lágrima que havia escorrido naquele caminho. Com a face contorcida em profundo asco, apertei os lençóis em aflição da sensação ácida que seu contato provocava em mim. Eu me sentia abusada. Temia que ele fosse além.
— Você não vai falar comigo? – riu sadicamente.
— S-sai... Da-aqui... – sibilei com a voz falha. Havia fracassado miseravelmente em soar autoritária.
— Não agora. – o que parecia ser um homem se levantou e foi até a janela, escorando os cotovelos nela, de costas para o parapeito. – Nem por que você quer. Tenho te assistido há um tempo, Tenten.
Ouvir meu nome ser pronunciado pela sua fala feroz fez meu corpo vacilar. Estremeci. Ele caminhou até a parede adjacente, focando sua atenção nas fotos expostas em um grande mural, situado à frente da minha cama.
— Seus pais são vivos, né? – seus dedos andarilharam por cada foto com um tento assombroso. Engoli em seco e temi por minha família e amigos, inocentes e alheios a todo aquele tormento. Não havia passado por minha cabeça, em momento algum, que eu poderia trazer perigo à vida deles me envolvendo com o meu compromisso espiritual. Eu nem havia tido ainda uma nova oportunidade de aceitar, e já estava sofrendo uma retaliação. Era certeza que sua visita brusca tinha alguma relação ao meu chamado. – Diferente do seu irmão.
Ele se virou para mim e abriu novamente aquele sorriso peçonhento. A beleza de sua face era totalmente deturpada pelo seu comportamento ferino, desumano. De humanidade, só a aparência física.
— Sabe, acho que te faltam problemas. – as passadas ardilosas pelo meu quarto eram abafadas pelo carpete escuro. Sua vista bisbilhotava cautelosa cada móvel, até repousarem maliciosamente em mim. — Talvez uma doença terminal no senhor Osami possa te ocupar. Ou quem sabe um acidente com a senhora Joelle... – seu olhar se voltou para a janela, mas sua postura altiva se manteve no mesmo lugar. – Também tem a Sakura e o Lee. Seus amigos, certo?
Eu estava alarmada. Ele me conhecia, conhecia a meus pais e meus amigos, e eu não conseguia conceber alguma hipótese de como ele tinha estas informações. Na minha mente, eu berrava por Neji, mas apenas a penumbra da luz da lua me contemplava.
— Sei mais sobre você do que imagina, querida. – em milésimos de segundo, ele estava com o rosto colado ao meu, agachado sobre minha cama. Seu hálito de enxofre roçava em minha face, fazendo o macarrão instantâneo rodopiar no meu estômago em um movimento enjoativo. – Realmente é uma pena que Neji não tenha falado sobre mim. Uma pena pra você.
Não consegui conter a ânsia que aquele odor provocava. Em outro milésimo, ele estava de costas pra mim, parado na porta, enquanto eu expelia o jantar ralo daquela noite na beira da cama. Aquele sujeito era imundo.
— Se atente a sua vida patética, Tenten. – ele me fitou de ladino, grunhindo transtornado em cólera. Representado pelo carmesim pulsante em seus olhos, seu furor agredia-me com uma dor aguda no peito. – Recomendo que desista do seu chamado.
A figura desapareceu tão abruptamente quanto surgira, mas ainda era manifesto no ambiente o marasmo que sua presença tóxica causava. Soltei o ar, há muito preso em meu peito, com alívio, quando, de rompante, aquele hálito de súlfur chocou-se violentamente contra meu ouvido, abalando certeiro o tímpano. Estatelei-me no chão; tudo estava turvo.
— Se ver Neji, dê a ele os cumprimentos de Abraxas.
Recuperando-me da vertigem, corri para o vaso sanitário e coloquei para fora minha bile; visto que já não havia mais nada em meu estômago embrulhado.
Eu não sabia quem era Abraxas, mas havia entendido perfeitamente sua ameaça. Uma coisa era eu me arriscar, posto que já não existia medo o suficiente em mim para que eu desejasse poupar minha própria vida. Porém, outra situação era o prenúncio funesto feito às pessoas mais importantes para mim. Era evidente que o maldito vira que, naqueles meses, eu queria retomar o contato com Neji para aceitar o meu chamado; eu declarava tudo em minhas preces. Ele havia deixado claro que me observara por um período considerável, pois eu representava – e ainda represento – uma ameaça para seus planos traiçoeiros com os seres humanos. Neji tinha razão, eles nos odeiam, e eu vi aquilo em seus olhos.
Eu estava entre a cruz e o punhal, perdida mais uma vez e, embora para a maioria fosse fácil tomar a decisão de abdicar qualquer peripécia que ponha risco à família, pra mim não era, mesmo que consumida por terror. Eu não podia cair no mesmo engano de não confiar em Neji e nos planos que haviam sido projetados pelos céus, especialmente pra mim. Havia algo maior; eu sentia e sinto até hoje.
Eu deveras havia me sentido desprovida de resguardo espiritual naquele momento, mas o que ainda me fazia ter certa fé, de forma indubitável, era a ratificação do que acabara de acontecer. Minha mente parecia voltar a processar as informações de forma lógica, e eu compreendi que um ser como Abraxas, com o ódio tangível que tinha, não me deixaria ilesa se, efetivamente, eu estivesse à deriva.
Após outro banho e uma limpeza breve em meu quarto, me postei em frente ao mural de fotos. Sentia vontade de limpar todas com cândida, a fim de eliminar qualquer resquício que aquele imundo poderia ter deixado. Suspirei fundo, sentindo que qualquer decisão que tomasse seria ruim. Apesar de desorientada, de alguma forma eu tinha consciência de que Abraxas, e os outros seres reles semelhantes a ele, blefavam com perícia sobre coisas das quais eles não tinham capacidade de realizar.
Uma coragem floresceu em meu âmago, mas tive a certeza de que tal influência era externa. Eu não estava sozinha. Não me sentia sozinha.
Osaka, 23 de maio de 2015.
— Ten, já estou chegando, sério! — Mentira. Sakura estava acabando de ligar o chuveiro para começar a se aprontar. Recordo-me até hoje da vontade de lançar o celular na água, tamanha a gana de raiva de ter que esperá-la. Ela era uma noiva. – Me dá só uns minutinhos, coisa rápida aqui!
— Você tem seguro de vida, né? – bufei irritadiça. – Juro que vou arrancar cada fio de cabelo rosa da sua cabeça quando eu te ver, sua pavoa maluca!
— Tá bom amore! Até daqui a pouco! Beijinhos! – desligou.
Ela nem tinha prestado atenção nas minhas palavras, o que me deixou mais aborrecida ainda. Sakura continua me fazendo esperar, e por mais que eu me atrase, ela consegue se demorar mais.
Encarei meu relógio de pulso tentando calcular o tempo que ela levaria para chegar; eram oito e meia da noite, e Dotonbori estava abarrotada de gente. Como sempre. Parei sobre uma das pequenas ponte, dedicando minha atenção ao reflexo distante na água. Eu estava diferente.
O ocorrido da noite passada inquietava minha psique com disforia, ainda assim, me sentia segura e amparada por uma força abstrata, a qual muito me recordava a sensação do contato físico que havia tido com Neji. Aquele abraço; sua mão em minhas costas; minha mão retendo seu braço; suas mãos segurando as minhas. Sorri com a emoção um tanto nostálgica.
Logo concluí que, se eu estava acolhida pelos céus, meus queridos também estariam resguardados. Não adiantava fazer mais nada; até rever Neji, eu precisava ter a certeza ilógica de seu asilo. Em outras palavras, fé.
Coloquei-me a caminhar pelas ruas coloridas e abri os braços, recebendo uma lufada fresca. Intentava que ela levasse para longe o mal-estar e os pensamentos desagradáveis acerca de Abraxas.
Meus cabelos estavam soltos, e a curta franja em minha testa se atrapalhou com o impacto da brisa. Sakura estava me cobrando uma aplicação maior no que dizia respeito a minha vaidade.
— Sozinha por aqui, Tenten?
Não reconheci a voz dengosa a primeiro momento, mas travei o maxilar ao virar e dar de cara com o sorriso capcioso. Sim, era a droga do Sai.
Bufei e virei os olhos. Primeiro o atraso da rosada, e depois encontrar o porre do Sai.
— Infelizmente não mais. – desviei-me dele, pronta para entrar em algum estabelecimento a fim de ocupar meu tempo, porém o moreno da pele esbranquiçada me deteve pelo braço, puxando-me de encontro ao seu tórax.
— Você não mudou nada. A não ser pelo cabelo... – ele enrolou uma mecha do meu cabeço em seu dedo esguio, enquanto eu o encarava descrente diante da sua atitude dissimulada. Ele parecia ter se esquecido do quanto me fez sofrer por sua infidelidade. Naquela época, eu ainda guardava mágoa de Sai. – Fica muito mais sexy com eles assim, Ten.
— Me solta, seu moleque! – estapeei a mão dele com raiva – Você perdeu o direito de me tocar há muito tempo. Vê se some, me erra!
Sai me seguia, caminhando arrogantemente com as mãos nos bolsos da jaqueta preta. Ele também não havia mudado nada, com a exceção de estar mais insuportável e pervertido – o que eu achava que não poderia se superar em relação ao que ele era na faculdade -.
— Sabe, os homens adoram uma mulher mais difícil... Quando ela se rende, é muito mais prazeroso dominar. A agressividade é fetiche de muitos homens, sabia? – o tom vulpino em sua voz era sempre seguido de um sorriso sagaz, cheio de segundas intenções. Mesmo de costas pra ele, era fácil de ilustrar; eu o conheço melhor do que gostaria. – Se bem que você sabe né, Ten? Não é como se tivesse se esquecido de mim...
— Escuta aqui seu canalha, por que você não vai atrás daquela outra cadela, da sua laia, e me deixa em paz?! – contive o ímpeto que corria em minhas veias e cerrava meus punhos, pois estava prestes a acertá-lo com toda a zanga acumulada. Ele apanharia até pelo atraso de Sakura.
Foi neste exato momento que eu escutei os rumores espavoridos das pessoas a nossa volta, se aglomerando ao redor de um elevado e popular edifício comercial. Todas miravam indignadas para o alto e, ignorando completamente Sai, acompanhei aqueles olhares, encontrando um rapaz no topo do prédio.
— Quem é esse?
— É o filho mais novo do Inuzuka-sama!
— Que coisa horrível!
Algumas mulheres conversavam ao meu lado, e eu processava com espanto aquelas informações. Inuzuka Kiba é o filho caçula do prefeito de Osaka, e estava a ponto de se jogar para a morte iminente em plena Dotonbori, o ponto turístico mais popular de nossa cidade. Um homem adulto, no auge dos seus trinta e poucos anos.
Os cabelos espetados balançavam atrapalhados com as rajadas intensas do vento, e seus pés estavam posicionados na borda da extremidade do edifício. Ninguém ali teria estômago ou psicológico para suportar a cena trágica que estava para acontecer.
Inuzuka Kiba não gritava nada, não gesticulava nada, mas eu via sua guerra interna, que ainda não tinha decidido com clareza sobre aquele fim. Ele estava confuso, e talvez nem tivesse ciência de como havia ido parar lá em cima.
— Observe bem, Tenten. Veja como o ser humano alcança seu paroxismo.
O vento trouxe a voz torva de Abraxas até mim, e a atmosfera se corrompeu quando um miasma sinistro pesou o ar. De repente, as cores vívidas dos estabelecimentos e outdoors ficaram opacas; mal percebi o momento que Kiba se atirou prédio abaixo.
Eu não tive reação. Minha pressão despencava juntamente ao corpo esmorecido do Inuzuka, e os alaridos externos pareciam se distanciar à medida que eu o via se aproximar do chão. Prostrei-me sobre o pavimento. Choque. Minha mente parecia não funcionar apropriadamente, eu não conseguia pensar. O tremor de meu corpo equiparava-se a movimentos convulsionados, enquanto eu sentia vontade de regurgitar meu próprio coração.
Estava surda, muda e irracional. Eu estava tendo um Surto Psicótico, e a última coisa que vi foi a imagem embaçada do rosto de Sai sacudindo meus ombros em desespero.
Fale com o autor