Uma Chamada de Socorro
6 Capítulo 5 - O Re-Começo
Notas iniciais
Osaka, 25 de maio de 2015.
O Surto Psicótico constitui em uma alteração grave no juízo de uma pessoa, e faz com que ela tenha ideias e percepções anormais, como uma perda de contato com a realidade e mudanças de comportamento. A pessoa que apresenta um surto psicótico vê a realidade alterada, não podendo funcionar normalmente em seu entorno, tendo delírios, alucinações, pensamentos e comportamentos desordenados, entre outras características. Como uma esquizofrenia. Sim. De novo esta palavra.
Mas, naquele momento, eu estava em paz e reconheceria aquela estabilidade e sossego mesmo depois de anos sem que as plantas dos meus pés tocassem tal relva fresca. Céus! Eu estava no Éden novamente.
Abri os olhos com afobação, percebendo o abrigo agradável da sombra de uma árvore frondosa, próxima a um rio. O mesmo rio que eu havia mergulhado da última vez. Sentei-me, incrédula, e procurando com avidez a Neji. Eu não queria e nem podia perder tempo, e temia acordar a qualquer instante sem ter feito o que deveria. Eu tinha sido escutada em minhas petições e, mais do que isso: eu tinha uma nova oportunidade em minhas mãos.
Porém, um lapso atravessou meus pensamentos, trazendo à memória o que eu lutava para esquecer, já que era tudo o que estava ao meu alcance. Olvidar ou enlouquecer.
“Você se mete muito nos meus assuntos pra quem é tão medrosa.”
“Seus pais são vivos, né?”
“Observe bem, Tenten. Veja como o ser humano alcança seu paroxismo.”
A dolência do ocorrido não me atingia naquele lugar transcendente e, mais uma vez, eu tinha equilíbrio para ponderar adequadamente sobre minha vida, sem interferências inconstantes e emocionais. No Éden, a palavra liberdade pode ser explorada em seu sentido mais acentuado. A essência que paira sobre a atmosfera pura de lá é o livre-arbítrio, de tal forma que até decidir pelo errado é possível. Eu não tinha medo. Lá não há censura, e sei que já pontuei isto.
— Neji! – levantei-me gritando por seu nome. Eu tinha urgência em aceitar meu chamado, em ter sua tutela e em ajudar as pessoas.
— É bom te rever, Tenten. – Neji estava dentro do rio, onde a altura da água atingia seu quadril. Lindo.
O sol projetava um esplendor nas águas, e denunciava sua violência. Entretanto, Neji estava imóvel em relação à força empregada contra seu corpo rijo.
Senti uma euforia ao ouvir, outra vez, meu nome proferido com tanta amabilidade. Descobri, naquele instante, que a saudade que sentia dele era maior do que eu imaginava, e tentei entender como pude suportar passar tanto tempo distante daquele paraíso. O jardim e a companhia de Neji.
Corri ao encontro dele, o qual imediatamente me estendeu os braços com um sorriso caloroso estampado em sua fronte. Senti meu coração acelerar descompassadamente com o carinho de seu gesto. Eu entrei na água e me movi com dificuldade até ele, envolvendo-o em um abraço sôfrego e afável, sentindo o acolhimento gentil de seus braços. Nenhuma palavra descreve Neji com tanta justiça quanto gentil. Não queria soltá-lo nunca.
— Eu senti tanto a sua falta... Senti tanta saudade deste lugar... Eu... Eu tive tanto medo de não te ver nunca mais... — derramei as lágrimas há muito guardadas para aquele momento. Eu mal conseguia acreditar que estava ali, com ele, mais uma vez.
Seu queixo estava apoiado sobre minha cabeça, enquanto esta se repousava em seu peito. Era de minha ciência que mal algum poderia me alcançar no Éden, mas com Neji eu tinha uma sensação inexplicável de proteção no refúgio de seu amplexo.
Afastei-me o suficiente para mirar-lhe nos olhos. Apenas os céus sabiam o quanto ansiava por viver aquilo novamente. Apesar de uma singela linha fina, seu sorriso tinha o poder de me fazer fechar os olhos e sorrir abertamente, como se pudesse sentir a ternura daquele pequeno traço encurvado. Eu o fiz, e logo o encarei mais uma vez.
— Neji, eu quero viver meu chamado! – exclamei, aliviada por finalmente dizer as palavras que estavam entaladas por meses em minha garganta. – Por favor, me dê uma nova chance... Eu pensei melhor e vi que isso é tudo o que eu sou! Foi a jura que fiz por Akira e quero cumpri-la!
Pode parecer que eu não havia avaliado a situação com cautela, mas na verdade isso foi o que mais fiz. Porém, ao invés de seguir meu chamado apenas visando, como troca, a proteção que claramente eu teria, optei por seguir por amor, por Akira. Optei por seguir por mim também, pois eu suspirava por aquela engrenagem que moveria a minha vida da forma que ela deveria ser, da forma que ela deveria ser conduzida. Eu não temia mais por minha família ou amigos. Neji estava ao meu lado. Os céus, ao meu favor.
Ele assentiu, com os lábios ainda estendidos em um sorriso para mim. Neji me virou de perfil para si e eu comecei a chorar. Uma emoção desconhecida planava sobre nós, gerando um frio em meu ventre. Estava tomada de felicidade. Transbordando plenitude. Outra vez.
— Então deixe no passado o que pertence ao passado, pois este é um recomeço, Tenten.
Fui surpreendida por uma imersão, mas ainda sentindo a precaução da atitude de Neji. Não me alarmei, e foquei minha atenção ao movimento firme das águas, tendo a sensação de ter a alma completamente depurada por elas.
Nos breves segundos em que eu me encontrava submersa, um filme da minha vida passou em minha mente e compreendi que era hora de deixar meus traumas no esquecimento. Era hora de liberar e pedir perdão. Era hora de deixar ir o que deveria, há muito, ter-se ido. Era hora de crescer, amadurecer e cometer novos erros; aprender novas coisas. Era hora do novo.
Quando emergi, nada a nossa volta havia mudado; Neji ainda estava ali, sorrindo. A transformação fora dentro de mim. Era como se a mudança que eu estava apresentando, nos últimos meses, fosse finalmente concluída. Sendo a vida composta por ciclos, um novo se iniciou em mim naquele segundo.
— Eu sinto... – segredei admirada. Neji assentiu.
— Adversidades virão e você ainda será passível das paixões e sensações humanas, sendo elas boas ou ruins. Contudo, agora se sentirá no Éden mesmo estando fora dele. Plena.
Eu bradei, comemorando de forma pueril enquanto saíamos da água e caminhávamos, lado a lado, pela extensão do jardim. É inacreditável que um local tão tranquilo, pacato, não seja enfadonho. Mesmo que eu vivesse eternamente ali, tinha a certeza de que o Éden jamais seria sacal. Principalmente pra quem um dia já viveu na Terra.
Havendo algumas coisas que eu não entendia, percebi ser a oportunidade perfeita para sanar algumas dúvidas com Neji. Eu tinha a necessidade e a curiosidade latendo em minha mente, embora não houvesse desordem entre elas.
— Eu te direi tudo o que você precisa saber, Tenten.
Mordi o lábio inferior e apertei as mãos; estava receosa em perguntar daquele nome. No entanto, eu precisava saber qual a relação de ambos, pois era desconexo assimilá-la.
— Antes, Neji, eu gostaria de te perguntar algo... – engoli em seco e seu olhar voltou-se para mim, aguardando que eu continuasse. – Quem é... Abraxas?
Foi como se tivesse feito algo errado, mas sabia que não era vero. Neji fechou o semblante seriamente e voltou a encarar adiante.
— Um arcanjo caído. Uma potestade. – seu tom severo exibia a dificuldade de falar sobre aquilo. – Sei que ele foi ao seu encontro, Tenten. Nós te ouvimos.
Parei fitando-o radiante, crendo que a suspeita de que Neji estava comigo naquela noite estava confirmada. Ele virou-se para mim, deitando brandamente a cabeça para o lado.
— Eu sabia! Você estava comigo, não estava? Por isso ele não me matou! Por isso senti que ele não poderia fazer nada a minha família!
— Tenten, não era eu quem estava com você. Mas eu não te deixei desprotegida. – ele deu alguns passos à frente e me olhou de soslaio, esperando que eu o acompanhasse, e foi o que fiz. — Eu sou um arcanjo. Nós não deixamos o “céu”. – a ênfase na última palavra deixava claro que aquela era uma metáfora para facilitar minha compreensão. Eu mal concebia a opulência do Éden, quanto menos a glória para além do firmamento. – Eu dou ordem aos anjos em favor de vocês. Eles sim transitam entre Terra e “céu”. Naruto estava com você.
— Naruto? – inquiri interessada.
— Assim que voltar, conseguirá vê-lo. Abraxas não será problema. – Neji deu uma pausa e suspirou. Estava hesitante. – Desde que você não cultive, em seu íntimo, sentimentos perversos.
Encarei-o inquisitiva. Seu pedido era utópico e contraditório, a meu ver. Ele não devolveu o olhar.
— Neji, isso é impossível pra qualquer ser humano! Você acabou de me dizer que ainda teria sentimentos ruins quando voltar. – suspirei. — Eu não estou entendendo nada...
— Calma, Tenten. Eu disse que você não pode cultivar sentimentos perversos; foi feita para amar. – percebi que ele achava alguma graça em meu jeito, e assim que ele parou, terminei por repetir seu gesto. Neji se virou para mim, pondo uma de suas mãos em meu ombro. Mais uma vez, aquele enlevo se estendeu por meu ser. – Há muitas coisas que não te convém saber agora, Tenten. Mas não se precipite e confie em mim.
Eu assenti, reconhecendo a sobriedade em sua voz, onde o tom gentil se mesclou a determinado rigor. Sua mão voltou a repousar ao lado do corpo e ele pôs-se a encarar à frente. Segui o olhar sólido de Neji e me deparei com uma exuberante árvore robusta, das quais os ramos estavam repletos de frutos e flores desconhecidos para mim. Relacionada às demais, era a mais simples em minha opinião, ainda assim, sua formosura conquistou minha atenção hipnoticamente. Parecia em destaque, afastada das outras, mas ocupando um local majestoso. O centro.
— Que linda... – fiz menção em ir até ela. Era tão atraente que sentia vontade de experimentar o sabor até de suas flores.
— Não, Tenten. – O tom repreensivo da voz de Neji me fez parar no lugar. Fitei-o interrogativa. – Esta é a única parte do Éden que nunca deveria ter sido tocada. A árvore da ciência do bem e do mal.
— Como? – Sussurrei. Era de se esperar algo enigmático daquela árvore; ela parecia mesmo diferente. Neji sorriu paciente, e passou a dividir sua atenção entre meus orbes acastanhados e a árvore.
— No início, existiam apenas os seres celestes espirituais feitos com livre-arbítrio pelo Criador. Fomos feitos com o intuito de louvá-Lo integralmente, dotados pela habilidade de produzir os mais excelentes cânticos para tal finalidade. A música foi criada antes mesmo de nós. – nada era mais palpável que a satisfação em sua fala. Neji parecia estar com a mente longínqua e eu adorava assisti-lo. – Mas todos fomos feitos livres, o que nos permitia refletir sobre tudo e deliberar sobre nós mesmo. Nosso antigo “regente de orquestra” decidiu trilhar um caminho diferente... – ele contemplou o céu e a severidade em sua voz voltou a se fazer presente. – Porém, não satisfeito, ele utilizou de suas conclusões para degenerar outros de nós. Eu nem compreendo como puderam aceitar tal disparate... – Neji balançou a cabeça e suspirou pesadamente. Vi que não tinha boas recordações naquele momento. – A terça parte do “céu” fora corrompida sob o desígnio de adorar a Lúcifer, que fora acometido de emulação em relação ao próprio Deus. – ele deitou seu olhar sobre os meus e eu vi a decepção em seus traços. – Ele e aqueles que decidiram seguí-lo e serví-lo foram exilados dos “céus”, sem qualquer oportunidade de retorno. Era de se esperar que logo sentissem autocomiseração, mas estava feito. Eles decidiram cientes de seu destino, mas nenhuma sensação jamais se sobrepujará a de estar no lugar do qual você pertence. Sei que você compreende o que digo.
Eu compreendia. E muito, pois era àquele lugar que eu sentia pertencer. O Éden. Qualquer outro local que estive na Terra jamais me proporcionaria ao júbilo de estar ali. Jamais me proporcionou.
Assenti sorridente e percebi que, desta vez, fora meu sorriso que o fez sorrir.
— Então, houve uma grande revolta dos exilados, pois uma vez banidos e frustrados, tiveram sua natureza deturpada; dessa vez, foi realmente grave. E sabe quando foi, Tenten? – dei de ombros, balançando a cabeça. Estava petrificada e completamente imersa em tudo aquilo que ele me contava. – Quando vocês foram criados. – enfatizou. – Por não poderem descontar seus sentimentos vorazes em nós, vocês se tornaram alvo. Atingindo vocês, eles nos atingem. É covarde.
— Eles...? – titubeei. – Demônios?
— Hostes da maldade, principados, potestades, demônios... Assim como temos uma hierarquia, eles também têm. – era perceptível que ele não estava confortável em falar sobre aquilo, mas precisava. Eu precisava saber.
— Mas... Onde é que nós entramos nisso?
— Seus antepassados. Adão e Eva. – Neji fitou a árvore com o que eu chamaria de desprezo. – Eles sabiam que seus filhos também estariam debaixo das consequências de suas escolhas, pois foram feitos tão livres quanto nós. Eles escolheram errado, e não foi por ignorância. Por isso essa árvore foi feita. – ele me olhou sorridente. – Amar ao Criador não é compulsório, Tenten.
Eu já havia escutado sobre o que ocorreu entre Adão, Eva, a serpente e a árvore, mas soava como um conto folclórico. E naquele instante, bem diante de mim, estava um arcanjo me contando sobre a árvore, estando nós dois no Éden. Eu estava pasma.
— Onde meu chamado entra nesta história toda? – eu já fazia algumas relações lógicas em minha mente, mas precisava que ele me confirmasse.
— Quando nosso auxílio é recusado pelos seres humanos, pessoas escolhidas, como você, intervêm. Não desistimos tão fácil assim. – Neji parecia estar como sempre, novamente. Seu bom humor estava de volta, e o meu também. – Queremos que vocês saibam do amor que os cobre, ao invés de tomarem decisões na insciência. Principalmente como as de Inari.
Nós dois demos uma pausa, recordando com respeito e pesar do jovem rapaz. Suspiramos.
— Não vai ser fácil, né? – virei-me para ele e sorri um tanto resignada. Os lábios finos de Neji se encurvaram, exibindo um sorriso com esperança. Esperança em mim.
— Ninguém disse que seria.
Senti uma carícia em minha cabeça e abri os olhos com dificuldade, ante a claridade do cômodo que me encontrava. A cabeleira rosa é irreconhecível, e os olhos verdes luziam pra mim.
— S-sakura? – silvei com a voz falha. Remexi-me sentindo a dormência de adormecer na mesma posição por um período extenso, e me espreguicei aliviando a tensão em minhas articulações e músculos. Era um desconforto estranho. – Onde estamos?
— Ten, juro que vou arrancar cada fio de cabelo castanho da sua cabeça! Sua louca! – Sakura passou as mãos pelo cabelo e suspirou em alívio. Eu estava sem entender sua reação repreensiva e aquele ambiente sóbrio. Era um quarto de observação. – Você nos assustou, garota! – ela se afastou, chamando alguém no corredor. Virei os olhos com o berro que ela dera em pleno hospital e sentei-me na cama, vendo a loira vestida de branco entrar após a rosada. No jaleco lia-se “Doutora Senju Tsunade”.
— Boa tarde, senhorita Mitsashi. Meu nome é Tsunade e fui encarregada de supervisionar seu estado. – ela cruzou os braços em frente ao corpo, mantendo a postura profissional. – Como se sente?
— Muito bem, na verdade. Por que estou aqui, exatamente? – olhei ao redor, observando com desleixo o tom creme da parede com pouco contraste ao piso branco.
A médica franziu a testa e inclinou para o lado com a atenção ainda focada em mim.
— Não se recorda do que aconteceu?
— Hum... Eu... – esforçava-me para lembrar, mas minha mente estava como uma lente embaçada. – Eu estava na Dotonbori! Isso! E aí... Encontrei Sai...
Eu me lembrei de tudo. O rosto desfocado de Sai fora a última coisa que vi. De repente, as peças se encaixaram. Inuzuka Kiba. Sai. Abraxas.
Sakura e a doutora se entreolharam satisfeitas.
— E o que...
— Que dia é hoje? – interrompi Sakura com certa preocupação. Minha mente viajou até meus pais e temi que eles soubessem que estava em um hospital. Como eles me ligam com certa frequência, era provável que viessem em meu encalço em Osaka. E eu não queria isso; evitava representrar algum problema à meus pais. Eles se tornaram muito sensíveis psicologicamente após o suicídio de Akira.
— Segunda-feira, dia vinte e cinco de maio. Pouco mais que duas da tarde. – respondeu a loira.
Suspirei recostando a cabeça na cabeceira da cama. Não havia tido tempo de eles me ligarem, já que nos falamos sexta.
— Senhorita Mitsashi, o rapaz chamado Sai a trouxe no sábado à noite, alegando que você passou mal com... A tragédia com o senhor Inuzuka na Dotonbori. Pelo exames de protocolo básico, feitos para nos certificarmos de que estava realmente tudo bem, você teve apenas uma queda de pressão. Nada com o que se preocupar, mas... – a Senju veio até o criado ao meu lado e pegou a prancheta escura, pondo os óculos antes pendurados por um cordão no pescoço. – Eu fui avisada de que você havia marcado dois exames há alguns meses, dos quais não compareceu.
— Sim, eu me lembro. Eu acabei me esquecendo deles na época, por isso não vim fazê-los. – olhei para o teto, tentando lembrar quais eram os exames. Já fazia algum tempo. – Um hemograma e uma tomografia... Certo?
— Sim. Uma tomografia craniana. – assentiu a doutora. – Alguma razão específica?
Eu me movi desconfortavelmente e cruzei os braços. Havia sim uma razão específica, mas para a loira a resposta era não.
— Nenhuma. – dei de ombros, encenando meu papel de mentirosa com mérito. – A propósito, eu tive um surto psicótico no sábado. Nada demais pra alguém com a saúde mental regular, como a minha.
— Estou ciente de que é uma psicóloga, senhorita Mitsashi. Mas tomei a precaução de realizar estes exames enquanto estava inconsciente. – percebi a leve torção de seu cenho. Estava desconfiada de minha farsa. Mesmo assim, mantive a postura firme para não confirmar subliminarmente suas suspeitas. – Espero que não se importe. Os resultados demorarão algum tempo para ficarem prontos, mas você será contatada, e pode receber até mesmo por email se preferir.
Levantei da cama, agradecendo-a de modo cortês e cumprimentando Sakura com um abraço. Meu estômago reclamava, com ruídos estranhos, a inatividade por um espaço de tempo considerável. Estava faminta.
Eu precisava de comida, precisava de um banho e precisava da minha casa. Sakura e eu fomos para a lanchonete do hospital, comigo ainda trajando o belo avental branco, e nos sentamos perto da televisão ligada no telejornal principal do estado. O funeral de Kiba era exibido, trazendo um pesar para o ambiente extremamente silencioso. Pessoas se emocionavam com as homenagens feitas ao homem e se compadeciam com o senhor Inuzuka. Aquela atmosfera dramática me alcançou com condolência. Eu não conseguia sequer imaginar a cena do choque de seu corpo, anestesiado pela dor na alma, ao solo e agradeci mentalmente por isso. Eu não suportaria tal episódio.
— Você viu alguma coisa? – Sakura questionou, quebrando com o silêncio entre nós. Balancei a cabeça em sinal negativo. – Não abriram o caixão...
Nós duas sabíamos o que aquilo significava. A altura daquele edifício monumental era absurda, não havendo qualquer possibilidade de Kiba resistir ou ficar reconhecível.
Sem perceber, encolhi os ombros, pois sentia que aquilo tinha relação com Abraxas. Foi quando a mão terna de Sakura afagou-me mais uma vez. Ela arrumou minha curta franja e sorriu contristada. Deus sabe como ela é especial para mim.
— Obrigada Sa... – agradeci sinceramente.
A rosada começou a tagarelar sobre seus namorados com o jeito exagerado de gesticular que tinha, o que melhorou o clima pra mim. Estava tentando me preparar para o que estava por vir. Entretanto, hoje, percebo que jamais conseguiria estar preparada o suficiente para tamanha metamorfose em minha vida. Para bem e para mal.
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