Uma Chamada de Socorro
4 Capítulo 3 - Epifania
Notas iniciais
Osaka, 26 de janeiro de 2015.
Aquela madrugada foi realmente conturbada.
Lembro-me que fiquei por um tempo quieta ali, encolhida, abraçando minhas pernas com minha testa sobre os joelhos, na tentativa de controlar minha respiração. O mau odor havia se dissipado, o que significava que eu estava sozinha novamente. Vasculhei meus pensamentos e lembranças verificando se, em algum momento, eu haveria aberto alguma brecha para ser influenciada por aquele demônio desgraçado. Maldito.
Praguejei contra ele com todas as palavras chulas que conheço. Era isso o que ele queria: assustar-me. Infelizmente, ele havia conseguido. Mas naquele momento, alguns minutos após a “visita indesejável”, eu não sentia mais o terror que sua presença me causava. Eu sentia ódio e o queria o mais longe possível de mim e da minha mente. Não estava disposta a fornecê-la como um playground maquiavélico e autodestrutivo.
Miserável! De alguma forma eu tinha a certeza de que era assim que eles agiam: perturbavam as pessoas para deixá-las frágeis e, assim, com facilidade, povoavam seus pensamentos vulneráveis. Pobre Inari...
Naquele momento, ainda no chão do banheiro, lembro-me que me ocorreu se com Akira também havia sido daquela maneira, mas eu acabava por rejeitar a ideia, crendo que meu irmão era muito equilibrado para tal “descuido emocional”. Eu estava enganada, mas naquela época acreditava piamente que Akira, de algum modo, fora uma exceção. Eu tinha dificuldade em aceitar que ele sofrera atormentado por demônios, antes de dar cabo à própria vida.
— Tenten! Abra a porta Tenten! O que houve? Responde! – Era Rock Lee quem gritava, enquanto martelava com os punhos a porta de meu apartamento.
Ele é meu vizinho, apaixonado por mim desde que me mudei, o que já faz uns cinco anos. É um doce de pessoa, mas às vezes inconveniente em suas atitudes; ele finge que não entende que não o correspondo, e insiste em fazer coisas romanticamente desnecessárias, tendo até mesmo ciúmes de mim com outros homens. Eu sempre o colocava, rispidamente, em seu devido lugar, mas isso nunca pareceu abatê-lo.
Naquela ocasião, — como seria em qualquer outra em que ele achasse que minha vida estivesse em perigo – ele ficou por vários minutos na porta, berrando para eu abri-la, até que eu finalmente saísse de minha divagação. Temi que ele a arrombasse e me apressei em respondê-lo.
— E-eu estou b-bem, Lee! Já estou i-indo! – fui ao meu quarto e vesti o robe de seda branca, seguindo rapidamente para a porta enquanto ajeitava os cabelos em um coque preguiçoso.
Assim que a abri, ele me abraçou suspirando aliviado. Vi por cima de seu ombro outros vizinhos que tinham acordado com meu bramido esganiçado. Aos poucos, todos se dispersaram, murmurando enraivecidos, me vendo como uma mera escandalosa e insensata. Corei constrangida com a situação, pois eu realmente não tinha noção do incômodo que tinha provocado; e eu diria o quê? “Ah, mil perdões, é que um demônio queria entrar na minha mente, mas foi só um susto. Ele falou que vai voltar em uma hora mais oportuna, quando vocês não estiverem dormindo, por que, aí sim, vou poder gritar à vontade!”.
Pareceu-me mais inteligente ganhar o apelido de “louca escandalosa”.
Infelizmente, Lee percebeu o suor que escorria por meu rosto e o quanto eu estava gélida. Ele se afastou, encarando melhor minha situação questionável e franziu o cenho.
— Tem alguém aí? – perguntou já se alterando. Até hoje, não sei ao certo se ele cogitou de eu estar dormindo com alguém, ou se estava preocupado com alguma invasão no meu apartamento.
— Não, não foi nada... Foi só... Um pesadelo...— dei passagem a ele que, apesar do que eu disse, entrou rasteiro, olhando com tento em todos os cantos. Foi uma cena engraçada.
— Mesmo?
— Sim, sim. – Eu precisava fingir bem e com dedicação que tudo estava bem. Precisava ignorar o receio de que minha vida se tornasse um completo tormento por conta daquelas criaturas, caso contrário, Lee notaria meu tremor e dormiria todos os dias na minha porta se julgasse necessário. Seria uma situação, no mínimo, desconfortável e eu, o conhecendo bem, sei que ele realmente é capaz de fazê-lo. – Senta aí, vou fazer um chá.
— Não precisa, eu só vim ver...
— Imagina, faço em um instante. Considere como um agradecimento por ser um bom vizinho e ter se preocupado comigo.
Ele não quis esperar na sala e veio me fazer companhia na cozinha. Estava apenas com uma calça de moletom preta, e imaginei o salto que ele dera da cama para nem ao menos ter calçado algo. Lee tinha o corpo bonito e um abdome bem trabalhado; resultado de suas horas na academia, seu maior vício. Era do tipo de pessoa que levava uma vida fitness e dificilmente ficava doente. Nunca o vi triste, e espero nunca ver. Lee tem um ânimo contagiante, o que me fazia pedir aos céus que nunca fosse trocado por lágrimas. Algo nele me dava um sentimento de esperança.
Conversamos um pouco, e eu tive que mandá-lo para seu próprio apartamento após perceber que ele ficaria comigo até que eu fosse indelicada. Entretanto, tínhamos uma amizade que me dava liberdade para tal.
Quando me vi sozinha e sem sono, temi em segredo que aquele ser voltasse a me importunar com seu fedor nauseante, seu hálito de súlfur ao pé de meu ouvido e sua aparência horrenda e deformada.
Naquele momento, antes de tentar dormir novamente, pedi aos céus que me enviasse Neji. Ansiava por sua proteção.
Osaka, 14 de março de 2015.
No intervalo de tempo entre 26 de janeiro e 14 de março, eu havia me deprimido demasiadamente. Algo estranho estava acontecendo comigo e eu sabia que tinha alguma relação com a visão que tive na madrugada do dia 26. Eu havia voltado com o costume de tomar vinho toda noite e, sem me dar conta, fiquei cativa da minha rotina desgastante.
Desde que recusei o chamado que me fora outorgado, pedia todos os dias a proteção dos céus para que jamais tivesse o desprazer de encarar tal aberração outra vez. Mesmo que contrariada, eu o fazia e, de certa forma, parecia funcionar.
Estar duas vezes no Éden fez tudo a minha volta tornar-se vil, com exceção das pessoas que, por outro lado, me pareciam cada vez mais singulares e valiosas. Repentinamente, eu as via carentes de orientação e um arrependimento pungente perfurava meu peito, me fazendo desejar me encontrar com Neji mais uma vez para corrigir minha sentença precipitada. Todavia, eu cria já ser tarde para isso, e temia que nunca conseguisse reparar aquela falta.
Percebendo que eu não estava nos meus melhores meses, Sakura, minha paciente que se tornou uma grande amiga e recepcionista da clínica, havia me convidado para sair, espairecer, talvez conhecer alguém novo. Mas, como toda pessoa que está deprimida, minha disposição não era das melhores. Entretanto, lembro-me que não recusei, já que eu estava com saudade de conversar com ela e ouvir suas asneiras. Sakura é doidíssima e me arranca gargalhadas com seu jeito escandaloso de falar até hoje.
Aquele dia ela queria me levar para uma balada eletrônica, mas eu avisei pra não abusar, uma vez que havia sido uma cruz apenas para eu aceitar sair com ela naquela noite. Concordamos em ir a um barzinho: ela faria seu “esquenta”, e eu iria pra casa logo em seguida. Recordo que Sakura quis apostar que, após umas boas doses de sake, eu estaria “no grau” pra “fritar” ao som de um trance “doido”. Ela perdeu e teve que me dar uma garrafa de vinho seco naquela mesma semana.
Fui em meu carro popular e, quando cheguei, me deparei com um local agradável, de música ambiente, cheio de amigos e casais conversando animadamente sob uma luz baixa de cor âmbar. Encontrei Sakura em um ótimo lugar, perto das janelas, e lembro até hoje de como estava linda. Na verdade, Haruno Sakura é uma mulher estonteante, e confesso minha sutil inveja por seus olhos esverdeados. Os cabelos rosados e curtos estavam presos de um lado, e ela usava um curto vestido de um verde escuro. Era delicadamente rodado.
E eu? Bem, usei uma calça jeans de lavagem escura, uma blusa vinho, justa e de manga cumprida, e uma sandália baixa no pé. Os cabelos estavam presos em coques que costumo fazer, um em cada lado de minha cabeça. Em resumo, estava vestida como sempre o fazia para ir trabalhar; eu nem me lembrava mais como era me arrumar para sair e distrair um pouco.
— Minha nossa, eu já estava achando que você tinha furado! – exclamou risonha, desviando a atenção do celular. Lembro-me de ter reparado que já havia um copo de cerveja sobre a mesa.
— Não exagera, foram quinze minutos de atraso e aposto que você chegou há dez. – cumprimentei-a com um beijo no rosto e me sentei a sua frente.
— Foi isso mesmo! Te conheço o suficiente pra saber que você se atrasaria. – ela teclava no celular com agilidade. Sakura tinha muitos admiradores e romances. Não sabia o que era carência sexual, porém, apesar de tudo, a rosada lutava contra a Bulimia Nervosa já fazia alguns anos; tinha a autoestima extremamente baixa e sempre exigia muito de si mesma.
— E eu te conheço o suficiente para me atrasar por saber que você se atrasaria sabendo que eu ia me atrasar. – disse com normalidade e ela ergueu os olhos para mim com estranheza, começando a rir logo em seguida.
— Ai Ten, você é ótima! Senti saudade dos nossos rolês, dos nossos papos... – Sakura largou o celular de canto e me fitou tensa. Eu via que ela realmente se importava comigo. – Tô preocupada contigo... Você mudou tanto... Tá acontecendo alguma coisa?
Embora fosse minha melhor amiga, eu não nunca contaria nada a ela, nem a ninguém. Sinto até hoje que este é um segredo meu. Absolutamente confidencial.
Também tem o fato de ser taxada como louca, e eu não acharia isso estranho; na verdade, é o mais lógico para se acreditar. Contudo, eu ainda tinha um bloqueio em relação à Sakura e o tenho até hoje. O caso é que se fôssemos amigas antes dela ser minha paciente, com certeza esta barreira não existira. Eu sinto que preciso, de certa forma, manter a imagem profissional diante dela; como se fosse para esconder a Tenten humana e cheia de problemas como todo mundo, por que, na verdade, eu realmente tenho que manter esta postura segura, bem resolvida, paciente e amorosa. Mas, com Sakura, eu não consigo ser os quatro ao mesmo tempo. Mais uma vez, eu precisava ser uma boa atriz.
Suspirei com cansaço e dei de ombros.
— É o Sai. Ele não tem me dado paz. – menti. Em parte.
Sai foi um romance cheio de altos e baixos que eu tive na minha época de faculdade. Ele estudava Artes e era popular no campus, conhecido por ser o rapaz mais bonito dos cursos de humanas. De fato, ele é um homem atraente, mas não creio que seja para tanto. Sai tinha astúcia em suas palavras, e todas caíam com inocência na sua conversa fiada. Veja bem, a inocência a qual me refiro é de elas acreditarem que seriam exceção do “galanteador número um”. E, bem, eu também acabei me rendendo aos seus cortejos. É constrangedor.
Nossa “situação” inconstante se prolongou até pouco depois da formatura, ocasião em que começamos a namorar, o que durou por volta de cinco meses, que foi quando ele começou a me questionar quanto a um relacionamento aberto. Logo me dei conta de que havia outra mulher naquela história, e eu estava certa. O canalha tinha me traído com uma garota chamada Yamanaka Ino, e eu logo me recordei de sua famosa e longa cabeleira loira. Era outra da mesma espécie de Sai, só que estudou enfermagem.
Terminei com ele, por que aquela história que ficar com outras pessoas não era pra mim e, mesmo que fosse, as coisas já tinham começado errado a partir do momento que ele havia me traído. Só poderia dar em problema esse nosso relacionamento, e eu sabia desde o começo, mas precisei da frustração pra colocar meus pés de volta no chão e ver que ele não mudaria. Nem mesmo por mim; por nós. Eu o amava e ele amava dormir comigo. Entende a diferença?
A questão é que também não havia dado certo, essa ideia do relacionamento aberto, com a tal Yamanaka, e Sai passou a mandar mensagens pra mim, tentava contato por chamadas, e isso até hoje. Eu o tenho ignorado desde o final do ano passado, pois é fato que ele apenas acha que comigo será mais fácil de sanar a carência. Tenho desprezo por sua pessoa.
— Teu ex? – Sakura me olhou surpresa levando uma das mãos até a boca. Eu apenas assenti, chamando o garçom e já pedindo uma garrafa de sake. — Poxa amiga, por que não me disse antes? Eu não sabia que você ainda gostava dele!
— Eu não gosto. Quero ele longe!
— Mas o que ele quer? Vocês tem se falado? – perguntava interessada.
— O que você acha? – ironizei, soltando uma risada nasal. – Sai só quer saber de uma coisa. E ele que a consiga com outra, por que de mim ele só vai ter indiferença.
Sakura concordou com um movimento afirmativo de cabeça, pegando o celular para digitar velozmente outra vez.
— Tá certíssima Ten! O esquema é arrumar um boy novo!
Lembro-me de que aquele som das teclas sendo pressionadas, somada a minha falta de vontade de estar ali, me fizeram tomar o iphone das mãos da rosada e ver com quem ela tanto conversava.
— Gaara? Quem é esse? E o Uchiha? – ela praguejou contra mim e eu ri da forma que se alterara com minha atitude. Sakura tomou o celular das minhas mãos, voltando a digitar e, logo em seguida, deixou-o dentro da bolsa.
— Gaara é um homem maravilhoso que eu conheci nos trances da vida... – suspirou apaixonada. – e Sasuke é o AMOR da minha vida. Às vezes eu esqueço que você também é minha psicóloga e sabe demais sobre mim. Que merda viu! – ela virou os olhos e deu alguns goles na cerveja.
— Mas vocês não estavam juntos?
O garçom havia chego com a minha bebida e eu agradeci internamente por não precisar enfrentar sóbria a conversa sobre os “rolos” de Sakura.
Ela aconchegou a cabeça em suas mãos, apoiando os cotovelos sobre a mesa.
— Estamos saindo, nada sério... Ainda! – eu via que ela estava feliz.
De verdade, eu não sei se estou na Era errada para o tipo de mente que eu tenho, ou se tudo realmente está confuso no mundo. Naquele dia, ela parecia feliz e satisfeita com aquela situação indefinida com Uchiha Sasuke, o rapaz que ela amou desde a infância. Eles eram vizinhos e Sakura adquiriu uma obsessão tão grande para com ele, que fez questão de entrar na mesma faculdade que o moreno. O Uchiha, contudo, sempre a tratou com frieza e indiferença, e eu acredito, até hoje, que isto teve uma influência tão impactante na Haruno, que a sua baixa autoestima é decorrente desta rejeição, o que desencadeou silenciosamente a bulimia, abuso que ela cometia com o próprio corpo na busca de se sentir mais atraente. Eu não gostava e não gosto do Uchiha até hoje.
— Sakura, entenda como um conselho de uma amiga que te ama, — na ocasião, eu a segurei pelos ombros, forçando um contato visual. — se quiser até te vendo pra você confiar na qualidade, mas pelo amor de Deus, deixa de lado esse Sasuke, pelo menos por um instante, e se foca em você antes de se aventurar em um relacionamento que vai exigir devoção a outra pessoa, mesmo que essa devoção seja apenas emocional, sentimental, tanto faz. Não tem como dar algo que não temos. Quantas vezes vou ter que te falar isso?
Eu a soltei e ela bufou impaciente, aproveitando para dar outro gole na cerveja. Eu repeti seu gesto.
— Ah, sei lá Ten, vai falando, quem sabe assim, um dia, eu canse de dar murro em ponta de faca e te escute... – Sakura riu sem humor, e me recordo de seu olhar sem esperança quanto a esquecer o Uchiha.
Sobre seu Transtorno Alimentar, ela estava progredindo, e eu percebi que seu corpo estava ganhado formas há alguns meses.
A rosada era outra que eu apresentava aos céus e pedia para que, apesar de todas as tribulações, não perdesse o sorriso e o bom humor que tinha; mesmo que às vezes fosse falso. Eu torcia por Sakura e pela sua felicidade sem medidas. Era fácil para qualquer psicólogo ver que ela tinha apenas um fascínio enérgico pela beleza física de Sasuke, e a “relação” de ambos não passava de pura luxúria. Esperava mesmo que Gaara fosse um homem maravilhoso para a minha amiga.
Osaka, 15 de março de 2015.
Acordei no sofá de casa, ainda com a roupa, sapatos e a bolsa transversal que tinha usado no dia anterior. A enxaqueca me despertou com pontadas cruéis nas têmporas, e logo eu me recordei de que havia exagerado nas doses de sake naquele sábado à noite.
Recordo-me de pegar o celular e identificar algumas chamadas perdidas da minha mãe. Eram mais de uma hora da tarde. Levantei com dificuldade, parecendo uma enferma, e me dirigi ao banheiro para um bom banho, que de fato eu estava precisando. O passeio com Sakura havia sido agradável, como sempre era, e eu estava me sentindo melhor emocionalmente; foi muito divertido, e nos embriagamos tanto que dividimos o táxi para a volta pra casa. Sakura estava sem condições de ir a qualquer rave. Aliás, sem condições de ir a qualquer lugar. E eu também.
O tempo, praticamente vago, que passamos embaixo do chuveiro nos traz reflexões complexas sobre nós mesmos e nossas vidas, e, por vezes, acabamos por cair nas mesmas questões de crise existencial de sempre, o que dói. Dói por que estamos confusos e perdidos sem saber, afinal, como se vive e qual a razão disso tudo, qual o propósito disso tudo. E dói mais ainda saber que, mesmo depois de tanto tempo, ninguém tem uma resposta exata para estas indagações. Todavia, comigo era diferente.
Eu tive, naquele dia, — e tenho até hoje – a súbita compreensão de tantas dúvidas, que parecia que alguém ouvia meus pensamentos e sussurrava as respostas na minha orelha.
Uma das coisas que concluí foi que era sim, possível ao ser humano, obter plenitude ainda em vida. Neji havia falado sobre isso e eu acreditava nele absolutamente.
“É por isso que esta guerra existe. Porque amamos vocês e queremos que vocês vivam, e vivam plenos.”
Outra coisa que compreendi foi o meu compromisso com minha própria consciência. O amadurecimento da vida adulta havia tirado de mim a pureza e o desejo incondicional de querer ajudar as pessoas, que adquiri depois de perder Akira para sua escuridão na alma. Durante a faculdade, eu apenas estava reproduzindo mecanicamente o ciclo que as pessoas tendem a seguir em suas vidas: estudar, trabalhar, casar, ter filhos, aposentar, morrer. Não que isso seja ruim, mas passou a parecer insuficiente pra mim por que eu já havia experimentado algo que transpassa a realidade, a esfera física que habitamos. O compromisso com a minha própria consciência entra no sentido de que eu ajudava as pessoas para me sentir melhor, uma vez que eu cumpria com o juramento que fiz há dez anos e era aliviada por crer que estava sendo um bom ser humano. Isso é medíocre.
E por fim, constatei o que já percorria minha mente naqueles meses, o maior equívoco da minha vida: recusar ajudar as pessoas com o meu simples dom de amar. E não é isso o que falta no mundo? Amor?
Eu não havia dado o devido crédito ao poder que estar quatro letras possuem; não havia dado crédito a Neji e nem a quem O enviou, mesmo ele provando suas afirmações.
Lembro-me que saí do banho, ainda pensativa, e fui à janela grande de meu quarto, escorando no parapeito, sem me importar de vestir apenas uma toalha branca. Uma corrente de ar amena me abraçou, e eu fechei os olhos para poder senti-la melhor, recordando-me da última ida ao Éden. Sorri sem vontade.
— Ah, se arrependimento matasse...
Eu queria corrigir o meu erro e sabia bem quem poderia me ajudar a descobrir como. Fechei a janela, me troquei e fui à sala em busca do meu celular. Disquei o número, há muito decorado, e aguardei com uma ansiedade esperançosa que ela atendesse.
— Tenten? – falou minha mãe com certa preocupação.
— Oi mãe, sou eu. – já fazia algumas semanas que não nos falávamos, sem contar os cinco meses que não a via. Meus pais moram em Otsu, na província de Shiga, e com a correria da vida adulta, tenho dificuldade em arrumar tempo para visitá-los com mais frequência. Confesso que tenho sido negligente. – Vi suas ligações... Me perdoe por não entrar em contato por tanto tempo...
— Oh, graças a Deus! — ela me interrompeu, suspirando aliviada. – Minha filha, você me preocupou! Eu e seu pai já estávamos pensando em ir aí te procurar! — minha mãe me repreendia veemente, mas eu percebia uma certa angústia em sua voz. – Deus me livre de que algo aconteça a você...
Minha mãe é estrangeira, de Marseille, na França. Isso explica sua fé em Deus, já que a cultura religiosa instaurada na Europa é a católica; porém, minha mãe, quando criança, tinha um medo desmedido das estatuetas dos santos o que, na vida adulta, fez com que ela adotasse uma linha de fé mais Luterana, Calvinista. A fé foi o que manteve meus pais em pé após a tragédia com Akira; e o que me manteve em pé foi eles.
Lembro-me que conversei bastante com ela e meu pai, prometi ir vê-los o quanto antes, e depois que me certifiquei de que a saúde mental de ambos estava regular, pedi ajuda a minha mãe, já que ela, mais do que qualquer um que eu conheço, sabe o que fazer com o sentimento de arrependimento que eu tinha. Sua base de fé acredita que o arrepender-se é libertador por que, segundo ela, ao contrário do remorso, o arrependimento provoca uma mudança de conduta, tendo o nosso erro por experiência prática.
Não contei nada a ela sobre o que estava havendo comigo e com minha vida, e ela foi compreensível. Como sempre.
Depois de minha epifania, – após o período repleto de reflexões, que foram aqueles meses — eu queria, mais do que tudo, encontrar-me com Neji e aceitar o meu chamado. Eu, de alguma forma, sabia que aquele era o propósito da minha vida, o que traria fundamento a minha existência; algo que todo ser humano busca incessantemente. Eu já não me importava mais comigo, por que finalmente havia compreendido de que eu preferiria perder a minha vida, a perder o que a movia.
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