Uma Chamada de Socorro

3 Capítulo 2 - Recusa


Notas iniciais
Olá, gente! Tudo certo com vocês? Demorei mais do que gostaria, mas cá estou. O capítulo era pra ter sido postado ontem, mas não conseguir revisar a tempo e deixei pra fazer isso hoje. Só que eu não contava com a minha amada família e seu prazer em me pedir favores (dos quais eu não posso recusar, se é que me entendem). Mas é isso aí, minha criatividade está a mil e estou adorando compartilhar com mais pessoas uma história que estou escrevendo com tanto carinho. Espero que gostem. Tenham uma excelente leitura!

Osaka, 24 de janeiro de 2015.

Mais conhecido como psicopatia ou sociopatia, o Transtorno de Personalidade Anti-Social se caracteriza pela tendência de um indivíduo de não interagir na sociedade. Pessoas que sofrem deste transtorno são extremamente solitárias, deprimidas ou depressivas, e por vezes violentas, ou mesmo agressivas. Elas naturalmente sentem uma ansiedade social devido ao medo de serem rejeitadas. Este era o diagnóstico de Inari.

Aquele dia em que soube de seu suicídio foi horrível; nunca esquecerei.

Eu fiquei estática.

Caí sentada no assoalho da sala ainda segurando o celular, escutando de longe a voz de Tsunami perguntando se eu estava bem; ela com certeza tinha escutado o barulho da minha queda. E não, eu não estava bem, e ficava me questionando o que era aquilo que estava acontecendo na minha vida. Não bastava a dor de perder um paciente, alguém que não consegui ajudar; ainda havia o fato de que, de alguma forma, eu previ que aquilo aconteceria e não fiz nada. Nem um mísero telefonema.

Ainda aérea e perdida em pensamentos, pedi perdão a ela dizendo que não poderia ir ao velório de Inari. Eu não conseguiria; não depois do sonho que tive com ele no início da semana. Eu implorava o perdão dela por não poder ter feito mais por seu filho.

— Não se cobre tanto, Mitsashi-san. Nenhuma de nós tem culpa pelo o que aconteceu... – Tsunami parecia passada, tão atônita quanto eu. Sua “ficha” ainda não tinha caído, mas com certeza cairia assim que ela enterrasse o rapaz e voltasse para casa, vendo que ele não estava ouvindo música deitado ou mexendo no computador. Ela suspirou com pesar. — Ele sempre foi muito difícil, você sabe... E esta última semana estava muito pensativo, com certeza planejando tudo isso para quando ficasse sozinho... Ainda não acredito que ele fez isso... Eu só... Foram só alguns minutos, por Deus!

Tsunami desabou e eu também não consegui mais sustentar o nó que ardia em minha garganta. Em outras circunstâncias, eu estaria muito mais calma, com minhas emoções sob controle e conseguiria de alguma forma confortá-la com palavras, ou até mesmo com minha presença no funeral. Mas a situação era outra. Eu estava em pânico e completamente perdida. Foi inevitável relembrar de meu irmão, o que fez meu peito doer. Senti meu coração sofrer um colapso e se romper em milhões de pedaços.

Mitsashi Akira era um homem extremamente brilhante, fazendo jus ao seu nome profético. Nunca conheci e duvido que algum dia conhecerei alguém tão inteligente quanto ele. Sempre suspeitei que esta fora a sua ruína.

Eu tinha quinze anos e ele tinha vinte e dois. Estudava e estava noivo de uma moça muito boa. Também trabalhava em uma empresa importante, centrada em avanços científicos na área da saúde. Eu o admirava, e embora não fôssemos tão próximos, me sentia conectada a ele além dos laços de sangue; ele sempre foi muito protetor e o melhor irmão que eu poderia ter. Tinha um coração de ouro, mas que um dia se converteu em um denso negrume.

Lembro-me pouco de quando ele começou a mudar. Era orgulhoso demais e não gostava de ser ajudado, mas sim de ajudar, e eu costumava achar graça disso.

Ele sumiu por alguns dias, e eu e meus pais acreditávamos que estivesse com a noiva, talvez viajando. Começamos a nos preocupar quando ela apareceu em casa, desesperada e procurando por Akira; disse que não o tinha encontrado no apartamento dele por que a porta estava trancada e ninguém atendia no telefone. Meus pais e eu ficamos angustiados, e naquele mesmo dia comunicamos a polícia, após inúmeras tentativas de contatá-lo no celular serem frustradas. Os policiais arrombaram a porta do apartamento dele e a casa estava toda revirada, destruída e bagunçada. Eu não tenho palavras para descrever o sofrimento de nós quatro apenas por imaginar que algo tivesse acontecido ao meu irmão. Akira não era assim.

Quando o procuramos pelos cômodos, encontramos somente uma carta em uma letra impecável sobre a cama bem estendida. Era, inegavelmente, a letra dele. Não entrarei em detalhes sobre o que ele escreveu, creio que isto é muito pessoal da família; mas em resumo, ele lamentou ser um fracassado que desonrara o nosso sobrenome e, portanto, não merecia carregá-lo mais, ou mesmo dá-lo a noiva.

Nós nunca entendemos isso. Céus! Akira era perfeito! Um filho maravilhoso, um irmão exemplar, um funcionário responsável, um noivo amoroso, um estudante genial, um ser humano bondoso... Nós nunca mais o encontramos, e na carta ele deixava claro que daria um fim a própria vida, mas nos pouparia do “estorvo” de enterrar seu corpo infame.

Hoje, de certa forma, eu compreendo o que aconteceu com ele, mas na época doía demais aquele breu que não me permitia entender se nós erramos com ele, onde nós poderíamos ter errado com ele, o que teria acontecido... Doía demais saber que ele teve um fim pelas próprias mãos. O sofrimento corroía a mim, a meus pais e a noiva dele, e por muito tempo nos sentimos desolados, sem rumo e sem chão. Akira havia entrado para a estatística.

Depois desse acontecido, eu decidi que ajudaria as pessoas com todo o meu coração, com toda a minha alma e com todo o meu intelecto. Embora não fosse muito, eu estava disposta a fazer a diferença e impedir que outras pessoas fizesse parte dos dados de uma estatística tão cruel quanto a dos suicidas japoneses. Pesquisei muito e encontrei na psicologia uma ferramenta para me ajudar nesta meta de vida, por que, mais do que tudo, eu quero ver esses números caírem! Quero que meu país viva um novo ciclo sem mortes desnecessárias por questão de honra, de bullying, de dívidas e de solidão!

Recordo-me que ainda ficamos alguns minutos lamentando em prantos pelo falecimento de Inari, até que eu me pronunciei, por que Tsunami estava inconsolável. Um ano após perder o marido, perdeu o filho. Realmente ninguém teria palavras suficientes para ela naquele momento de sua vida.

— Eu... Eu sinto muito Tsunami-san... Muito mesmo... – Tentei controlar meu choro. O choro por Inari, por Akira e por todos que um dia chegaram a este extremo. Eu precisava equilibrar meus sentimentos para colocar minha mente em ordem. – Venha na minha clínica esta semana. A hora que você quiser. Quero que saiba que pode contar comigo.

Sempre insisti que ela também fizesse consultas após a morte de seu esposo, mas ela alegava ter superado e estar bem. Eu via em sua linguagem corporal, em seu tom de voz e em suas atitudes que ela não apenas se fazia de forte, mas que era de fato uma mulher forte.

Tsunami agradeceu e aceitou o convite, e eu fiquei feliz por ela entender os próprios limites, ao invés de hesitar e querer enfrentar tudo sozinha.

Osaka, 26 de janeiro de 2015.

Passei aquele domingo – do dia vinte e cinco de janeiro — inteiro fazendo diversas pesquisas que pudessem me ajudar a compreender o sonho que tive com Inari – o qual eu ainda não sabia que na verdade se tratava de uma visão — e o que o rapaz chamado Neji quis dizer com a palavra chamado.

Confesso que não procurei com tanto afinco. Eu estava em completo pavor com tudo aquilo que acontecera de forma tão repentina. Minha carreira profissional havia começado há tão pouco tempo e eu já tinha perdido um paciente; mas, o pior de tudo era aquela incógnita da previsão sobre Inari. E o que eu encontrava não era reconfortante.

Mediunidade, clarividência, iluminação, adivinhação, oráculo... Nada se encaixava precisamente com a experiência que eu havia tido, e pouco a pouco, com a falta de respostas, eu fui ficando mais desesperada. Só me restava uma coisa: esquizofrenia ou um Transtorno Delirante. Mesmo assim, eu tinha a impressão de estar saudável e equilibrada psicologicamente, porém, não descartei as possibilidades de realmente estar adoecendo. Fiz, então, o que me parecia ser mais razoável: marquei um hemograma e uma tomografia craniana. Estes exames poderiam apontar alguma doença que justificasse a “alucinação” que tive, ou não; o que deixaria mais evidente de que eu realmente poderia estar com algum transtorno mental.

Voltei a prantear quando estava na minha cama, me sentindo solitária e terrivelmente amedrontada. Lembro-me que nem cheguei perto da garrafa de vinho naquela noite.

Eu estava desnorteada. Sentia um medo incomum trepidar cada parte do meu corpo; algo tão violento que até eu me surpreendia. Estava em completo pânico, e depois de muito chorar, adormeci finalmente.

Dessa vez, senti uma correnteza leve por entre minhas pernas. Eu estava em pé, com águas até as minhas canelas, dentro de um rio. E aquela paz. Ah, aquela paz...

Decidida, fiz o que me deu vontade. Eu corri sorridente até a parte mais profunda daquele rio e mergulhei sem temor algum, me esquecendo de tudo o que havia me feito soluçar de amargura mais cedo. Tristeza? De repente eu já não sabia mais o que era isso. Foi como se nunca tivesse sentido ou escutado falar sobre.

Eu nadei com peixes silvestres e predadores, sem se quer me lembrar de respirar ou de ter algum receio deles. Saí das águas sem sentir frio da brisa fresca contra os meus cabelos soltos e minhas vestes claras e encharcadas, e corri livre pela campina, gargalhando e transbordando de alegria e plenitude. Eu não conseguia me fadigar.

Quando cheguei a um monte, avistei a poucos metros uma floresta com árvores majestosas e dançantes, em todos os tons de verde que existem. Mais uma vez, corri descalça até chegar em seu núcleo e reconhecer uma abundante população de animais selvagens e domésticos, coexistindo na mais perfeita paz. Dancei com a música que eles compunham, a qual era ministrada com maestria pelas aves mais belas que já vi. Eu ria e ria, e aquele regozijo parecia não ter fim. Eu realmente desejava que não tivesse.

— Meu Deus, este lugar é encantado, só pode... – lembro-me de ter dito isto enquanto provava de todos os frutos que estavam espalhados por ali, em árvores viçosas. Redundantemente, elas tinham o gosto dos céus. Muitos eu nem conhecia, e desejei em meu íntimo que outros pudessem estar ali comigo, desfrutando de toda aquela perfeição. De alguma forma, eu sabia que aquilo havia sido feito pra mim. Pra toda a humanidade.

— Este é um lugar de delícias, Tenten. É o que o nome Éden significa.

Ouvi uma voz que já conhecia. O timbre suave e gentil era característico de apenas uma figura. Neji.

Virei-me sorridente, contente em revê-lo e, como estava sendo ousada e fazendo tudo o que desejava, o abracei, como desde a primeira vez gostaria de ter feito.

Eu estava à vontade, totalmente familiarizada com aquele ambiente e com Neji. Sentia-me parte daquele lugar e, por um instante, peguei-me imaginando como seria bom vivermos eu e ele, ali, para sempre. Como Adão e Eva não viveram.

Mas logo interrompi o devaneio utópico, não por alguma condenação ou censura, por que nada disso parecia existir ali; mas sim refletindo se enxergar Neji daquela maneira seria correto. Romanticamente.

— Este nome realmente faz jus a este lugar... Tudo aqui é exageradamente prazeroso... – olhei perifericamente, me separando dele um tanto relutante, mas o fiz ao perceber um sutil desconforto de sua parte que, por sua vez, não retribuiu o abraço. Ele apenas havia erguido uma de suas mãos até as minhas costas. Fora pego de surpresa com meu contato súbito. – Quer?

Eu lhe estendi o fruto, mas ele recusou balançando a cabeça.

— Tudo o que há aqui não é para nós. Era de vocês. – vi o singelo sorriso de Neji sumir gradativamente. Eu não havia entendido o que ele queria dizer com aquilo, o que transpareceu em minha feição e ele prosseguiu. – Este lugar está em desuso. Nós não estamos realmente no Éden, já que se trata de um lugar físico. Entretanto, você está em espírito, e eu usei dele para te encontrar e entregar a mensagem.

Para mim, não fazia diferença alguma o que ele falava. Tudo era extremamente real, e embora não conhecesse o jardim original, tinha todas as sensações e experiências que estar no “verdadeiro” Éden poderia me provocar.

— Neji, o que você é? – questionei curiosa. Seu sorriso mínimo voltou e senti vontade de sorrir juntamente com ele. Sorri.

— Eu sou um arcanjo. — Eu já ia questioná-lo novamente, mas ele respondeu a minha dúvida após uma pausa. – É mais complexo do que você possa entender. Eu também não conseguiria explicar devidamente, mas em resumo, eu lidero o exército de anjos juntamente com outros arcanjos. Também levamos mensagens em ocasiões especiais.

Neji enfatizou a última palavra com um sorriso fraco no rosto.

Eu engoli em seco receosa, pois sabia que ele aguardava uma resposta minha, e a verdade é que eu já não tinha tanta certeza de querer aceitar aquele chamado. Aquilo não era pra mim, eu já tinha problemas o suficiente para lidar e acreditava cumprir meu propósito de vida ajudando as pessoas como uma psicóloga. Eu tinha a impressão de que não aguentaria viver a cena de Inari novamente, quanto menos a de outras pessoas.

Sabia bem que, talvez quando acordasse, me arrependeria da minha decisão. Fora do Éden, eu tinha um sentimento de culpa por ser egoísta e medrosa diante daquele compromisso que me fora proposto. Eu até mesmo me atrevia a pensar se de alguma forma poderia obter vantagens em aceitar aquela oferta.

E eu tinha a consciência de que, no fundo do meu coração, eu era hipócrita e havia algo de mercenário em mim. Eu não era mais a menina que queria mudar o mundo após perder o amado irmão, tendo por única motivação ele. Quem ele havia sido para mim.

Mas ali, não haviam emoções enganosas para me influenciar. Eu não tinha nenhum sentimento falso de “compromisso” ou “obrigação social”. Eu tinha liberdade para decidir sem interferências.

— Neji, eu pensei muito no que me disse na última vez que nos encontramos. – Virei-me de costas para ele. Era difícil desapontá-lo encarando friamente seus belos orbes. Neji era cativante e eu sabia que se me demorasse mais, acabaria aceitando o chamado ao invés de decliná-lo; que, no caso, era o que eu tinha decidido. – E eu recuso meu chamado.

Ele ficou em silêncio. Imaginei que tivesse se ido, mas quando me virei o vi ainda ali, sorrindo. Teria praguejado se conseguisse. Neji era incrivelmente lindo.

— Se esta é a sua decisão, ela será respeitada.

Reparei que ele estava pronto para ir e levar consigo toda a virtude que abundava em cada canto daquele jardim colossal. Senti que estava prestes a acordar, e me ocorreu um ligeiro desespero de talvez nunca mais visitar o Éden ou a Neji.

— Espera! – exclamei e a visão permaneceu, juntamente com ele. Neji me fitou de ladino e logo se virou por completo. A linha fina de seus lábios não estava curvada em um sutil sorriso, o que me deixou decepcionada na medida do que era viável, uma vez que eu ainda estava ali.

Coloquei meu cabelo atrás da orelha e me aproximei de seu corpo passivo, apertando minhas mãos e sentindo minha face esquentar.

— Eu... Bem... – estava atrapalhada e olhava perdidamente para a relva sob nossos pés. Não queria encará-lo nos olhos; eles pareciam ter o poder de me sondar de uma forma da qual eu não conseguiria refrear – Nós nos veremos de novo?

Ergui meu rosto para assistir sua expressão e fiquei abismada.

Neji parecia impressionado, levianamente aturdido. Sua feição boquiaberta me fez reproduzi-la também.

— Apenas se necessário. É incerto para eu lhe afirmar com precisão. – sua fronte ficou séria e ele se ateve ao protocolo que deveria seguir. – Esteja ciente de que há coisas das quais você não pode fugir. — Ele estava pronto para ir mais uma vez, mas segurei em seu braço impedindo lhe, por um breve instante, de fazê-lo. Aquele enlevo que me percorria quando o tocava, mesmo que sobre as vestes, me fazia deseja-lo ao meu lado. Eu o queria de todos os modos, mas me sentiria satisfeita por tê-lo apenas zelando por mim, uma vez que ele era um ser sideral. Neji me pareceu ter essa conclusão diante da minha falta de jeito, somada a uma timidez em minha fala. Isso justificava seu semblante e seu anseio por terminar aquilo o quanto antes.

— E o Éden? Eu nunca mais vou vir aqui?

— Não há mais razão para tal, Tenten. – eu o soltei e ele sorriu de leve – Se mantenha firme e tenha fé, e eu te recepcionarei em um lugar incomparavelmente mais sublime que este quando sua jornada terrena acabar.

Tudo se esvaiu antes que eu voltasse a impedi-lo, e a lacuna profunda da existência voltou ao meu peito. Suspirei elevando meu antebraço à testa.

Encarei o teto, em parte aliviada, pois pressenti que minha rotina voltaria a normalidade; e em parte consternada, por dizer adeus àquele lugar excelso e a Neji. De alguma forma, eu já aceitava, com uma estranha casualidade, a conjuntura da existência de anjos e demônios e sua guerra incessante por causa dos humanos. Aquela última ida ao Éden pareceu retirar de mim um fardo, embora eu ainda me considerasse cética a respeito de ideais divinos. Eu tinha algo de teimoso, irredutível dentro de mim, desde a minha infância.

Sentei-me na beirada da cama e senti falta da sensação pinicante de um gramado quanto toquei o tapete felpudo com o solado dos pés. O relógio apontava que ainda havia muito tempo até o completo alvorecer do dia. Suspirei resignada, ponderando se havia tomado uma decisão justa, correta, e me direcionei ao banheiro, molhando minha face quente com a água da torneira da pia de porcelana branca.

Estava distraída, absorta em resquícios de dúvida que meu inconsciente confuso lançava contra as paredes da minha mente aérea. Debruçada na pia, eu tinha um olhar vazio em direção ao piso claro do banheiro, e a lembrança de Akira me castigou amargamente. Lembrei-me dos festivais que íamos juntos com nossos pais. A canção nostálgica perdurava nos meus pensamentos, e não consegui impedir meus lábios de cantarolarem a clássica cantiga.

笹の葉 さらさら

(Sasa no ha sara-sara)

(As folhas do bambu murmuram, murmuram)

軒端にゆれる

(Nokiba ni yureru)

(Balançam as pontas)

O meu predileto sempre foi o Tanabata Matsuri por conta da beleza de sua respectiva decoração e sua poética lenda. Meus pedidos eram diversos, e variavam desde uma bicicleta nova, a muito dinheiro quando fosse adulta; mas, todos os anos, eu escrevia repetidamente, em vários Tanzakus verdes, o meu maior sonho.

お星様キラキラ

(Ohoshi-sama kira-kira)

(As estrelas brilham, brilham)

“Quando eu crescer, quero ser igual ao Onii-chan!”

金銀砂ご

(Kin Gin sunago)

(Grãos de areia de ouro e prata)

Ri enxugando algumas lágrimas que haviam escapado à medida que a dor da saudade me acometia.

Decidi por molhar o rosto novamente, quando senti o miasma nauseante que já conhecia de algum lugar. Levantei a cabeça encarando através do espelho a criatura tenebrosa presa ao meu pescoço, me fitando astuta com um sorriso macabro e pernicioso.

Gritei em profunda agonia no mesmo instante, fazendo um som estridente ecoar por todo o silencioso prédio. Era um demônio.

Virei-me para a parede, como se fosse encontrá-lo atrás de mim, e passei minhas mãos ao longo do meu dorso e pescoço, certificando-me de que ele não estava mais ali.

Minhas palpitações estavam descompassadas, meu corpo estremecia em completo torpor e um líquido gelado escorria por minha espinha.

Caí sentada, inerte, escorregando lentamente pelos azulejos da parede. Em completo terror.

Notas finais
Eu disse que tinha problemas em ser detalhista demais, rs. E vocês já sabem, né? Qualquer correção, sugestão ou crítica (construtiva) é bem-vinda, viu! Espero que tenham gostado. Até o próximo capítulo!