Uma Canção de Ninar
2 Capítulo 1
Notas iniciais
1:30! Uma hora e meia era o tempo da sessão! Não era longa, mas aquele homem... Sua vida era ótima. Ganhava bem, linda esposa, jovem, não tinha filhos, mas ainda poderia ter. Tinha a vida inteira pela frente! Mas se cortava. Pensava em se matar.
Tinha uma vida ótima, mas ouvi-lo reclamar, naquela salinha claustrofóbica sobre sua vida, e dar um relatório detalhado sobre seu pesadelo recorrente sobre um certo “ceifador”, que dormiu em sua plantação de milho, em frente ao seu espantalho e acordou deformado, comido pelos corvos e teve que usar a máscara do espanta-corvo para sempre, e culpava os moradores de sua cidade por não tê-lo acordado, matando-os, me deixava exausto. O relógio no meu pulso latejava, mas eu não podia olhar para ele, seria desrespeitoso uma vez que sempre marcava no cronômetro do celular para apitar no momento em que a sessão acabasse. Então ouvia. Ouvia por uma hora e meia as mudanças chulas no sonho do homem. Uma cor de cortina diferente, um lugar de esconderijo do assassino diferente... Enquanto ouvia, observava um copo cheio d´agua, quando um pequenino grão de pó caiu na agua, fazendo ondas ridiculamente pequena e imperceptíveis. Quando o cronômetro apitava com um som sutil e acalmador, me segurava para não demonstrar emoção. Me levantava da poltrona cor de vinho, dava minha mão, ele me agradecia, e ia em direção à sala de espera, onde Samantha, minha secretária esperava para cobrar-lhe o pagamento. Mais um paciente. Mais uma sessão.
Os 30 anos que passei lá foram o suficiente para me deixar enjoado à cada visão daqueles livros sobre psicologia, os livros que li por tanto tempo em Harvard, me enterrando noite após noite nas aberrações literárias. Valeu a pena? Não gostava da vida monótona. Sempre gostei, mas como um passaporte, a vida deve ser renovada depois de um tempo. Estava pensando na viagem que tinha planejado para a Nova Zelândia com minha esposa quando a paciente seguinte apareceu na porta. Parecia insegura. Seus olhos castanhos encaravam o chão com uma certa desconfiança.
–Com licença, posso entrar?
–Sinta-se à vontade querida.
Mais 1:30. Mas essa nova uma hora e meia tive extremo dó, e afeição pela garota, que temia falar com o pai, que fora alcoólatra e a humilhava em público, fazendo xingamentos alheios. Quando enfim o cronômetro tocou, me levantei, acompanhei-a até a saída, onde Samantha me olhava com cara de vitória, mais um dia vencido. Retribui-a com um sorriso e voltei para minha sala, onde comecei a arrumas minhas coisas para sair. Passei pela porta, me despedi da secretária simpática, e saí do escritório. Andei pelo corredor com portas por todos os lados de escritórios de outros, e cheguei ao elevador. Vazio. Apertei o botão do térreo.
O movimento de descida que tanto conhecia me deixava preocupado. Me lembrava de todas as vezes que tive de sair de lá para ir direto à UTI, ou até mesmo (Deus sabe) as inúmeras vezes que sai do escritório para a Anna Agricultura comprar rosas e me dirigir ao Cemitério Santa Fé. Cidade pequena, muito religiosa, por isso todos conhecem a todos, ou quase todos. Um funeral recebia todas as pessoas da cidade, ou quase todas. Haviam sempre aquele que nunca saiam de casa, e quando saiam, nem um “olá” saia de suas bocas.
Desta vez não houve nada, simplesmente saí do elevador. Passei meu cartão na catraca, dei tchau a Foster, o guarda, e sai para o sol quente de verão. Ao sair, virava sempre à direita, em direção à Igreja Santa Maria Das Rosas, e no caminho, passei por 5 igrejas. Como disse, uma cidade muito religiosa. Havia uma igreja para praticamente cada quadra. Algumas bonitas, de estilo gótico, outras mais simples, e algumas até mesmo precárias, sendo elas salões pequenos de pintura rachada com cadeiras de plástico enfileiradas. Poucos carros andavam nas ruas sujas de terra, por isso não me preocupava em andar sem atenção nelas, sentindo as irregularidades do asfalto em meus sapatos de couro. A cidade se localizava em um vale, e acima dele, tudo o que era possível ver eram as lajes e mais lajes do cemitério, ele subia até o céu.
Tirei um cigarro Marlboro do bolso da camisa e acendi com um isqueiro em forma de carro azul, que ganhei de minha esposa. Fui caminhando neste final de tarde com o sol vermelho começando a dar lugar ao azul escuro da noite e percebi que estava esfriando. Seria uma noite fria.
Cidade pequena, muito religiosa. Não era lugar para um ateu viver, e ainda assim, lá estava Philip Virgo, o alienado da cidade.
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