Uma Canção de Ninar
3 Capítulo 2
Notas iniciais
–Oi querido – Seus lábios eram macios como a areia da praia, que na verdade eu não ia havia anos. Gostava de viajar para a praia, mas o campo...
–Oi Kate – A luz amarelada da lâmpada era um colírio para meus olhos. Seu estilo escuro podia me causar estresse, mas com o tempo aprendi a suporta-las e ama-las.
Joguei minhas chaves sobre a tigela de porcelana em cima do balcão de madeira atrás da porta, e me dirigi à poltrona da sala da TV. “Friends” passava na Warner, um episódio que já vira milhares de vezes. Phoebe havia achado um dedo na lata de refrigerante.
O jantar foi um delicioso bife com cebola e arroz. Fomos dormir cedo. Era sábado e eu estava exausto.
No dia seguinte quando me levantei, a luz do sol entrava se esgueirando pelas pequenas frestas da persiana pesada, fazendo várias luzinhas na horizontal da minha visão. Katherine já havia se levantado, podia ouvir a louça sendo lavada.
Cheguei atrás dela, segurei sua cintura e beijei sua nuca.
–Bom dia!
–Bom dia Phil!
Tomamos café com leite, fui ao banheiro me preparar, penteando meu cabelo ruivo para a direita. Já no carro, conversamos sobre como um garoto havia caído da casa na árvore e quebrado o nariz. Gabriel estava brincando de lutar, como via nos desenhos do “Ben 10”, e foi empurrado pelo amigo diretamente ao chão. Kate trabalhava no pronto socorro como radiologista, dizia que o caso de Gabriel não era sério.
Chegamos na Catedral da Santa Virgem, a igreja principal na frente da praça Folhas de Outono, no centro da cidade. Estacionamos na praça, perto da fonte de Poseidon sobre uma carroça carregada por dois cavalos. A água respingava em nossos rostos carregada pelo vento quando saímos do CRV. Enquanto caminhávamos na praça andando em direção à catedral, encontramos os Gemini´s, a família de Gabriel. Demos um “oi” educado, mas sem afeto.
–E aí garoto? – Disse para Gabriel. – Como vai o nariz?
–Quebrado... – Disse o garoto dando uma risadinha.
–Da próxima vez que vocês estiverem brincando, quero ver você meter uma porrada no Vilgax em! – Disse dando pequenos soquinhos de brincadeira na barriga do menino. O menino respondeu rindo – Pode deixar!
A missa foi normal, onde Padre Francisco recitou diversas partes da bíblia. Ele está no meio de nós...
Ao final da missa, o Padre me chamou para conversar, e disse que o Bispo local, George, queria conversar comigo. Segui-o por uma porta que se encontrava sobre a nave e caminhei em um corredor muito bonito. Vitrais coloridos de cores vermelho, verde e roxo se estendiam até o teto decorado com formas que se assemelhavam a vinhas. Eu nunca havia estado ali, e admito que estava um tanto nervoso. Chegando à porta no final do corredor, o padre a abriu e ficou do lado de fora. George se encontrava do outro lado da mesa, com a bíblia de um lado, um telefone do outro na mesa, e vários papéis à frente. Eu olhava o crucifixo de prata no pescoço do homem, em que em cada chaga de Jesus, um rubi foi colocado, quando percebi que falava comigo.
–Desculpa, o que?
O bispo deu uma risadinha nervosa e continuou. – Olhe Philip, eu me lembro do que disse sobre eu não poder mudar sua opinião quanto ao Senhor, não importa o que acontecesse. Mas uma chance apareceu.
–Do que estamos falando George? – Perguntei impaciente. Já havia dito várias vezes que não importava o que fizesse, não acreditava em nada daquilo, e nenhuma das diversas tentativas anteriores haviam me provado o contrário.
–Eu fui comunicado – Um momento de hesitação como se para aumentar a tensão – Pelo Papa... Para efetuar um exorcismo. Já havia feito um antes, sou formado nisso. Pela palavra do próprio Papa, um dos melhores dos Estados Unidos e do mundo.
Pela cara de dúvida de George, podia perceber que a minha cara deveria ser estranha, de espanto puro provavelmente. Eu assisti O Exorcista, O Último Exorcismo e Invocação do Mal, mas não achava que exorcismos poderiam ser realmente efetuados.
– Talvez eu possa te convencer com isso Phil, se você ao menos você visse o que ocorre nestes processos...
–Não George. Não obrigado.
–São poucos dias, por favor. Talvez passemos alguns dias no Vaticano para que eu receba as instruções, e depois, iremos para São Paulo, no Brasil, onde uma garota foi possuída, o bispo local presenciou uma cena.
–Diga-me, porque quer tanto que eu vá?
–Bom, um crente a mais é um crente a mais na lista do Senhor. Vamos Philip. Que mal pode causar? São apenas alguns dias, nada acontecerá com Kate. A cidade é pequena, você sabe disso. Poderá estudar os pontos psicológicos e científicos de todo o processo se não acredita que sejam reais.
Este último ponto me deixou intrigado. Não era normal uma pessoa não profissional no assunto participar de um processo destes. Eu poderia talvez ser o primeiro psiquiatra a participar e ver os pontos disso. O relógio batia atrás do padre. Já era 12:30, fazia meia hora que conversávamos. Comecei a pensar que Katherine já devia estar ficando preocupada, então dei minha resposta, levantei de minha cadeira, apertei a mão do homem, agradeci, e saí pelo corredor dos vitrais. Que Deus esteja comigo.
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