Uma Canção de Ninar
1 Piloto/Prelúdio
Notas iniciais
-Boa noite mamãe! – Felicity disse para sua mãe. Eram 8:00 pm, a hora dela dormir. Amanhã tinha escola, e a tia Margareth disse que ia deixar as crianças brincarem mais tempo no parquinho porque era sexta-feira. Ela estava empolgada com isso. Saiu aos pulos da sala de estar e se dirigiu ao quarto dos pais onde um homem trabalhava no computador. Ela pulou até seu lado alegremente e deu um beijo em sua bochecha. – Boa noite papai! – O pai respondeu dando um amoroso beijo no coro cabeludo da garota. Ela era feliz. Uma simples família feliz vivendo sua simples normal vida. Voltou à sala, pegou Anita, a raposa rosa aos braços, abraçou-a com força e foi em direção ao seu quarto, onde sua mãe já lhe esperava para dar-lhe o último beijo antes da única aventura que uma criança podia fazer independentemente. Os sonhos.
Mesmo após sua mãe ter lhe dado o beijo, ela não conseguia dormir. Estava muito agitada! Mais tempo de parque! Pensava no trepa trepa onde brincava de espiã, e na casa da árvore onde brincava com sua melhor amiga Lacey de casinha, onde elas eram as mães e Anita e Whu (o urso panda de Lacey) eram os filhos. Pensava tanto nisso que nem percebeu quando uma sombra passou rápido diante de seus olhos. Um som de eletricidade. A luzinha de abelha que ela deixava acesa quando ia dormir havia sido tirada da tomada do banheiro do corredor. Esta veio rolando até seu quarto, perto de sua cama. Felicity estava horrorizada. Seu coração batia rápido, não a ponto de chorar, pois era uma garota valente, mas bem rápido. Ela observou a abelhinha por mais um tempo quando, de súbito, uma mão escamosa verde saiu de baixo de sua cama e agarrou o aparelho, e depois voltou rapidamente para baixo da menina. Isso foi demais, ela desatou-se a chorar, gritando por sua mãe. Ela não respondia.
A menina enterrou-se no favorito (o cobertor) e ficou lá, tendo certeza que ele a protegeria, afinal de contas, ele sempre protegeu. Um tempo passou, e ela já achando que era apenas uma ilusão se acalmou, quando seu cobertor voou e a mão pegajosa tocou suas meias arco-íris.
Felicity correu insanamente pelo corredor com estantes de livros nos cantos, e conforme ia correndo, ele parecia se estender até o fim do mundo. Uma escuridão se estendia às suas costas e apagava os incensos com cheiro de paz que sua mãe acendia às noites para espantar maus espíritos.
-Mãaaããaanhêeeee – Ela gritava, sua voz distorcida pelo terror. O corredor se tornava cada vez mais embaçado pelas suas lágrimas quentes. Quando finalmente alcançou io final do corredor ela virou a esquerda, passando por uma porta de deslizar em direção à sala da TV, onde sua mãe assistia “Desperate House Wives” com vigor.
-Mãe! Nha nãaao mãe porfavor um, um – Os soluços e o catarro escorrendo por seu nariz tornavam sua fala incompreensível e horrenda. – Monstro, ele tava, tava, debaixo da cama e dai, e dai.
-Filha, para de atrapalhar a mamãe, eu to assistindo TV – A mãe não tirava os olhos do seu programa favorito. O ser peludo, escamoso e desgostoso vinha em direção da menina. Seus olhos aleatoriamente espalhados pelo corpo apontavam para muitos lados, seus lábios roxos cobertos de pus se abriam e fechavam freneticamente. De vez em quando, alguns buracos eram abertos em sua pele escamosa e soltavam sangue, mas eram logo fechados como se nunca estivessem lá. Mas era silencioso. Cadavéricamente silencioso. O som da TV e das personagens conversando casualmente não deixaram a filha menos atormentada.
Felicity foi para a frente de sua mãe, afim de chamar-lhe a atenção, que replicou-a com uma empurradinha gentil. Quando o monstro se encontrava já do lado de sua mãe, quase entrando em seu campo de visão, esta simplesmente virou para o outro lado e foi levar a caneca de chocolate quente de volta pra a cozinha. O monstro nunca entrou em seu campo de visão. Seus olhos o contornaram. Ela estava agora sozinha.
A garotinha indefesa foi para trás e se espremeu entre a cômoda onde estava a TV e a parede. A televisão caiu no chão com um estrondo terrível, e fez um pequeno sorriso nojento surgir na boca do ser, que cuspiu mais pus e jorrou sangue por um buraco que abriu no meio de seu peito, mostrando um interior repleto de buracos e caminhos, com larvas e maribondos andando, como uma colmeia.
-Felicity! O que foi isso?! Você não quebrou nada ne?! NÃO! A TV Não! Menina, você está louca? Sabe quanto custa isso?
A mãe gritando a fez chorar ainda mais, e quando já estava sem fôlego, sua traqueia doendo de tanto puxar o ar, e seus olhos quase secos, uma espada reluzente atravessou o monstro, e montado em um cavalo branco, dentro do apartamento dela, um cavaleiro a observava. Quando tirou seu capacete, um lindo cabelo loiro apareceu, e os olhos azuis do homem a deram esperança. “Está tudo bem Felicity” foi o que ele disse, em uma voz meio enevoada e surreal.
No segundo seguinte ela estava em seu quarto, a mãe a abraçando dizendo que estava tudo bem. A luzinha de abelha ainda no banheiro. Foi um pesadelo.
Notas finais
Obrigado por ler, caro leitor,
Henrique Ueda
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