Uma Breve Vista da Morte - Contos Avulsos
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Aos poucos sua consciência foi retornando e ele começou a sentir um suave latejar na lateral da cabeça, porém não se lembrava de ter batido em lugar algum. Na verdade, ele não se lembrava de nada após o momento em que deixou sua filha mais nova na cama, na noite anterior, e saiu do quarto decorado da menina. Percebeu que não havia nenhum tipo de luminosidade no local onde estava e estranhou aquilo, visto que sua casa sempre fora uma das primeiras a receber os raios solares pela manhã devido à altitude em que ficava. Deve ser noite ainda, pensou, porém não conseguiu confirmar. Foi apenas quando procurou seu relógio que ele percebeu que não estava em sua cama.
À princípio o choque o deixou desorientado, porém a penumbra não permitia a ele descobrir onde estava — ou que horas eram — e ele começou a tremer. Foi quando se colocou de pé que ele percebeu um choro abafado vindo de algum lugar logo depois de um corredor que ele só conseguiu ver pois no outro cômodo havia um pouco de luz.
Ele percorreu todo o corredor com cuidado, tentando não fazer barulho enquanto tentava entender a quem pertencia aquele choro. Ao chegar mais próximo ele ficou apavorado de perceber que era a voz de sua filha mais nova.
— Laura? — Falou cautelosamente antes de sair do corredor e entrar em um cômodo amplo e com uma luminosidade fraca vinda de uma única lâmpada fluorescente no teto alto.
— Papai? — A menina respondeu.
Mas não parecia ela. Na verdade, ele não conseguia vê-la, pois sua voz saía do fundo da garganta de algo que sua mente demorou para processar.
Aparentemente grudado na parede oposta à do corredor, uma criatura de pele rosada e gosmenta mantinha-se completamente imóvel. Havia uma fenda que parecia uma boca sem dentes aberta e ele percebeu que poderia passar facilmente por ali; o restante da criatura era uma massa estranha que pulsava suavemente, como se respirasse, de onde saíam oito patas enormes com pontas que pareciam agulhas, quatro de cada lado, todas protegendo a porção gelatinosa do corpo da criatura e apontando para a enorme boca. Havia apenas um olho verde brilhante no ponto mais alto da fenda aberta, e ele percebeu que essa era a única parte da criatura que parecia ciente de sua presença. Mas essa não era a parte mais aterrorizante daquela situação. A voz de sua filha estava saindo de algum lugar no fundo daquela boca.
Ele ficou algum tempo observando aquilo, aguardando o momento em que se moveria e o atacaria, porém nada se moveu: as patas continuavam abertas e apontando para a boca, enquanto o olho daquele bicho mantinha-se fixo nele. Deu então dois passos para a esquerda e foi prontamente seguido por aquele olho, que continuava observando-o como se aguardasse algo que não podia apressar.
— Papai? Estou com medo…
A voz infantil de sua filha o trouxe de volta à realidade como um balde de água gelada, então ele arriscou dar um passo para a frente na tentativa de ver o fundo daquela garganta.
— Estou aqui meu amor… Você está bem?
O choro da menina tornou-se mais acentuado ao final daquela frase, então ele se aproximou mais um pouco ainda com os olhos pregados nas patas de aranha que não se moviam. Aos poucos ele se aproximou o suficiente para passar das patas e ficar bem em frente à fenda. Não conseguia ver se Laura estava mesmo ali dentro, nem se ela estava ferida, mas sabia que não podia deixá-la ali daquela forma. Ele olhou em volta e depois para cima na direção do olho solitário da criatura. Seu coração batia tão rápido que ele chegava a ofegar, sentindo o suor frio descer devagar pela sua testa. Nunca em toda a sua vida ele sentira tanto medo quanto naquele momento.
— É escuro… Quero sair…
A menina ainda chorava quando ele fechou os olhos, sentindo cada molécula do seu corpo implorar para sair correndo dali enquanto seu instinto paterno o levava para cada vez mais perto da boca aberta.
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