Ela novamente ouviu o som de passos no corredor e se encolheu no habitual canto da gaiola, já sentindo seu corpo tremer por antecipação ao que sabia que aconteceria. À medida que os passos se aproximavam ela conseguiu ouvir também o som das outras meninas, todas presas nas gaiolas vizinhas, se encolhendo e rezando para que não fosse a vez delas. Era o que sempre faziam, porém todas sabiam que era apenas uma questão de tempo. Ela aguardou alguns segundos e logo pode vê-lo entrar pela pesada porta de ferro que as separava de… Bem, elas não sabiam — e torciam para nunca saber.

Um homem alto de cabelos pretos e olhos escuros impassíveis entrou com uma corrente pesada em uma das mãos. Sua bota perfeitamente lustrada fazia um som característico ao fazer contato com o chão de concreto mal acabado onde ela e outras dez garotas dormiam. Ele passou pela primeira gaiola observando a chorosa menina lá dentro, depois pela segunda, terceira… Em menos de um minuto já tinha caminhado todo o corredor e analisado todas as prisioneiras, mas não escolhera nenhuma. Após uma segunda volta ele parou de frente para a gaiola número quatro, onde uma menina que não parecia nem mesmo ter passado dos vinte anos começou a chorar violentamente e a implorar misericórdia. Todas sabiam que não funcionaria.

Ele abriu a gaiola número quatro e entrou, para o desespero da prisioneira que agora estava aos gritos e tentava apelar para um lado humano que nenhuma delas sabia se aquele homem tinha. Este nada disse, apenas uso a corrente para dar dois golpes bem encaixados nas costas da menina que desabou ainda chorando. Ele deu apenas um chute na costela dela e então já não havia mais gritos, apenas o choro convulsivo daquela que apanhava e de todas as outras que assistiam. Ele puxou o cabelo preto e liso da escolhida e a colocou de pé, e mesmo assim ela ainda implorava baixinho. Após olhá-la de cima a baixo, ele a arrastou para fora da gaiola e a levou pelo corredor até a porta de ferro enquanto ela se debatia.

Após a passagem dele e da pobre menina, a porta foi trancada e o choro de todas as demais se tornou incrivelmente alto. Apesar do alívio que sentia, ela sabia que aquela não era a pior parte. A pior parte era o que viria a seguir.

Os gritos de desespero não demoraram a preencher o silêncio. Mesmo encolhida e relativamente segura por enquanto, ela ainda sentia a agonia ao som de cada osso sendo quebrado e a cada grito desesperado daquela que acabara de ser levada. Ela ouviu quando a primeira faca foi enfiada na carne dela, ouviu os ossos se partindo e o som do sangue lentamente preenchendo a boca da mulher e abafando suas súplicas. Em pouco tempo havia apenas o som do homem trabalhando para arrancar partes do cadáver que poucos minutos atrás era uma delas.

Algumas horas depois, a porta de ferro se abriu e o homem entrou empurrando um carrinho mal acabado cheio de pequenas vasilhas de plastico. Ele empurrou uma vasilha para dentro de cada jaula ocupada e saiu sem trocar uma palavra com as mulheres que choravam e pediam para sair. Ela apenas deixou as lágrimas escorrerem e pegou a vasilha que lhe cabia, abrindo-a em seguida.

Naquele dia sua refeição era parte de um pé cozido com legumes.