Uma Aventura Pokémon
7 Conhecido
O espectro luminoso permanecia parado no centro da sala. Olhava para as próprias mãos fantasmagóricas, como se estivesse pensando. Os três aventureiros permaneciam de pé, próximos ao altar. Por alguns instantes, só o que fizeram foi observar aquilo que surgiu fantasticamente.
— É impressão minha ou aquele negócio chamou a si mesmo de Arceus ? – Malie falou baixo, enquanto mantinha o olhar fixado à sua frente, com um semblante perplexo.
Lamp também olhava a aura flutuante, entretanto parecia concentrado em seus pensamentos.
— Malie, aquele "Arceus" estava dentro do Zet! – o garoto afirmou, sem se virar para a mulher.
Ao ouvir isso, ela se arrepiou, como se despertasse de um transe, e rapidamente se virou para o garoto.
— O quê?! – Ela abafou o grito, pronunciando a surpresa esbugalhando os olhos.
— É a mesma luz da qual eu falei a você. Ela saiu do Zet e desapareceu.
— E o que é essa luz ? – Malie indagou rapidamente.
— Eu não sei. Ela surgiu ontem de repente. Eu nunca tinha visto uma coisa assim antes. – Lamp respondeu, esticando os braços em um gesto de dúvida.
A aventureira agachou-se e pôs as mãos em Zet.
— Ei, socos fortes, você anda por aí com uma luz e não diz nada a ninguém ? – A expressão do Riolu refletia o seu desconhecimento sobre o que a mulher falava.
— O Zet está tão perdido quanto eu. Se ele soubesse de algo teria me dito. – Lamp disse, olhando para o amigo, que fez um aceno de cabeça.
A mulher ergueu-se e se pôs a olhar o espectro, que permanecia imóvel. Ela observou por alguns segundos e então disse:
— Seja lá o que for isso, parece estar adormecido. É melhor sairmos daqui.
— Sério ?! – O menino perguntou surpreso.
— Não sabemos o que ele pode fazer, é perigoso ficar aqui. Vamos descer do altar e andar rente à parede. – Malie pegou Lamp pelo braço e começou a descer as escadas a passos rápidos – Zet, pegue o caderno! – ela ordenou e o Riolu se juntou a eles quando alcançaram a base da escada.
Lamp e Zet seguiam o ritmo de Malie, porém não deixavam de admirar aquela figura imponente que permanecia no centro do saguão. O menino estava muito curioso para descobrir sobre o que aquilo realmente era. Ele lembrou-se de tudo que aconteceu a Zet e sua aura até ali, e como aquela luz poderia estar ligada ao amigo.
— Malie, por que não tentamos… sei lá… falar com ele ? – o olhar do garoto transparecia o interesse que ele nutria.
A mulher virou levemente a cabeça e a balançou de forma negativa com um olhar rígido.
— Não, Não! Não sabemos como ele reagirá. E se de repente nos atacar ?
Lamp esboçou um leve sorriso observando Malie, a mulher havia se tornado bastante cautelosa. Ela estava certa, afinal, porém o menino cultivava uma intuição de que as circunstâncias não eram tão assustadoras assim.
— Ei, onde está a sua coragem ? – Ele perguntou, rindo levemente.
— Ela fica embaixo da cama comigo quando troveja. – Malie respondeu espontaneamente, juntando-se à bricandeira.
No entanto, Lamp não pôde segurar o riso e gargalhou alto. Esse foi o estopim para despertar o espectro. Ele moveu a cabeça e olhou na direção de Lamp. O garoto arregalou os olhos e assustou-se ao perceber que estava sendo alvejado por aquela expressão fulminante.
— Filho de Lagus! – A estrondosa voz parecia possuir eco próprio.
Lamp manteve-se imóvel e permaneceu em silêncio. Ele sentia que se falasse alguma coisa, soaria como o chiado de um Rattata tentando responder ao rugido de um Charizard.
— Quantos anos tens tu, criança ? – A sombra amarela perguntou logo em seguida.
Aquele diálogo pegou o garoto de surpresa, primeiro foi reconhecido por seu parentesco e agora era alvejado com aquela pergunta tão direta e específica.
— Tenho doze anos ? – Ele não sabia como conseguira pronunciar essas palavras.
Após isso, o espectro voltou a enxergar a si mesmo. No entanto, dessa vez movia os diáfanos braços e pernas, como se estivesse tendo contato pela primeira vez com o corpo que o formava. Malie e Zet se aproximaram de Lamp. A perplexidade estava estampada no semblante da mulher. A aparição começou a erguer-se lentamente no ar. Apesar de ter falado com Lamp, ele agora estava centrado em si mesmo, e pronunciava as palavras como se estivesse pensando alto.
— Observo que foram necessários 4 anos para que energia vital novamente corra pelo meu interior. – a aura começava a percorrer a sala flutuando, indo até as paredes e as tocando – Mas, nesta forma, até meus sentidos estão limitados.
Os três, nos momentos em que o fantasma falava, calavam-se e não conseguiam senão observá-lo. A voz trazia calafrios. No entanto, após instantes de silêncio, Malie tomou a iniciativa. Ela mudara o comportamento de repente, parecia que ver a aura falando e identificando Lamp instigou sua audácia, poderia haver algo ali a se descobrir. O menino se surpreendeu quando viu a mulher dar alguns passos à frente.
— Ei, quem é você? Como conhece o Lamp? – Ela hesitou um pouco, ao perceber que sua voz não soou forte como gostaria.
O espectro parecia ter se situado no ambiente. Após dar algumas voltas rápidas no ar, voltou o seu foco para os três e se moveu na direção deles. Malie, mesmo passando a acreditar que aquilo provavelmente não apresentava perigo, deu um passo para trás e segurou firme o braço de Lamp.
— Mulher! Dizes-me para onde está indo aquele responsável por minha desgraça! – ele parou a alguns metros deles, olhando fixamente.
Malie refletiu por um instante e veio imediatamente à sua mente o homem da capa e que aquela era a única possibilidade ao que a aura estava se referindo.
— Se você fala do homem que esteve aqui ontem, ele está indo para os santuários. – Ela respondeu rapidamente.
— O mal começa a agir. Devo iniciar a minha jornada para impedi-lo.
Ao dizer isso, o espectro começou a movimentar-se em direção à saída. Quando ele atravessou a entrada e pairou alguns metros para fora, a sua forma começou a se confundir com os raios de sol. Movia-se mais lentamente, seu corpo diminuía de tamanho e começava a se transfigurar.
— Não posso crer. A energia que possuo não é suficiente. Sequer posso ter certeza de que não desaparecerei completamente se continuar. – a sua voz também se tornara mais fraca.
Os três o seguiram até a entrada, Lamp e Zet franziram a testa quando os raios de sol atingiram seus rostos. A branca neve amplificava a reflexão da luz, já que o sol não incidia com tanta intensidade ali em cima. Quanto a Malie, ela observava a situação do espectro com um rosto de espanto.
— Volte para cá!! – a mulher exclamou.
A aura amarela virou-se para a entrada e começou a flutuar de volta a ela.
— A energia do santuário torna-se a minha única alternativa. – sua voz falhava.
Ele passou flutuando por cima dos exploradores. Lamp percebeu que não conseguiria extrair muito do espectro naquele momento, e imaginou que seu pai em alguma parte falaria algo a respeito dele no caderno. Como sua curiosidade acerca das anotações não diminuira, e já que havia atendido à recomendação do pai, pegou o caderno com Zet e começou a ler, enquanto caminhavam novamente em direção ao altar, seguindo a aura amarela. Malie não tirava os olhos do espectro e, ao perceber que ele não mais lhes dava atenção, buscou iniciar o diálogo novamente.
— Ei, responda às nossas perguntas! – ela intensificou a voz a fim de ser ouvida claramente.
O espectro parou no meio do caminho do altar e respondeu sem se virar:
— Eu sou Arceus! – retornar ao interior da gruta o fez se recuperar levemente, portanto sua voz retomou um pouco da altivez – Um humano traiu a minha confiança e acabei encapsulado dentro dessa pequena criatura. – Zet olhou para Lamp quando Arceus terminou.
Malie já parecia esperar que o espectro confirmasse ser algo especial, no entanto o seu rosto estampava a surpresa que a dominava.
— Não posso acreditar! – ela falou baixo, era incrível a possibilidade de poder estar diante da lenda sobre a qual ela crescera ouvindo histórias.
Lamp permanecia concentrado na leitura, já tendo chegado à parte onde estava escrito sobre a gruta. Entretanto, ao ouvir aquelas palavras, e perceber que Arceus falava a Malie, ergueu a face e olhou na direção dele, tão surpreso quanto a amiga.
— Como você conhece o meu pai ? – o garoto indagou, numa ação quase involuntária.
— O teu pai despertou a minha curiosidade devido a sua astúcia e inteligência. Permiti-lhe a exploração dos santuários, e do contato com ele eu pude conhecer mais o aspecto humano. – Disse lentamente, conforme se aproximava do altar.
O menino não respondeu, a princípio só tentou digerir a declaração de Arceus e, ao perceber o quão incrível era aquilo que ouvira, passou a pensar no pai.
— Ei, não toque nessa pedra aí! – Malie exclamou, quando notou que a aura amarela alcançara o ponto alto do saguão.
— Não compreendes. O universo tem estado em perigo há muito tempo e agora é necessário agir rapidamente para evitar que o caos surja.
Ele pôs suas mãos sobre a pedra, todavia elas eram intangíveis e atravessavam o objeto. Ainda assim, em instantes uma luz começou a surgir na região de contato.
— Ah, não! Vai acontecer de novo! – a aventureira falou, observando Arceus.
De fato, o ar tornou-se pesado e energia se concentrava no altar. Lamp esperava a explosão de luz surgir, entretanto ele notou o espectro começar a adquirir um brilho reluzente como o fulgor do sol, e percebeu a energia fluir para o interior dele.
— Ele está sugando a energia do altar. – o garoto disse.
Os três permaneciam tentando proteger os olhos da luz que refletia do centro da sala. No entanto, notaram o clima do ambiente amenizar e as pedras no chão pararem de tremer.
— Impossível! – a voz fantasmagórica ressoou como um forte trovão em uma tempestade. – Ele não pode ser capaz de extrair a energia dos altares.
O silêncio imperou nos instantes seguintes. Os exploradores estavam parados e de olhar fixado em Arceus. Ele agora estava imóvel e olhava para cima.
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— Ele nos encontrou, Arceus!
— Não há nada a ser feito, Lagus! Este estado não me permite revidar o poder que ele foi capaz de acumular.
— Mas o Celebi, o Dialga…!
— Eles estão no mesmo estado em que me encontro.
— Há uma forma de neutralizar o poder das energias ?
— Eu não sei como ele foi capaz de estabilizá-las, mas, uma vez que elas se tornem instáveis, o poder pode colapsar e entrar em processo de hibernação.
— Quanto tempo eu terei caso use esse temporizador ?
— Como você o conseguiu ?
— Celebi e Dialga me presentearam com ele há algum tempo.
— Lagus, você conhece as consequências disso!
— Eu sou responsável por isso, por favor, não temos muito tempo.
— Você terá três horas. Nos primeiros dez minutos a quantidade imensa de energia lhe infligirá uma dor aguda. No restante do período, o espaço e o tempo congelarão, e você poderá interferir. Após isso, será retirado de você o direito de pertencer ao universo como energia. O cosmos o rejeitará.
— Meu filho o ajudará, Arceus. Por favor, o proteja.
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Lamp percebeu que Arceus estava novamente inerte e retomou a leitura de onde parara. A página falava sobre o altar do centro da sala e dos mistérios que Lagus havia descoberto sobre o lugar e a escrita antiga. Ele dizia que aquele local continha uma energia muito forte, que sentiu quando começou a explorá-lo.
— Encontrou algo interessante aí? – Malie perguntou, aproximando-se, ao ver que o garoto, mesmo naquele momento, estava concentrado na leitura.
“ Em algumas partes das paredes há alguns escritos narrando contos antigos sobre Pokémon e logo abaixo deles há alguns símbolos relacionados a essas histórias. Eu trabalhei decifrando tudo que está escrito nesses muros e os padrões se repetiam assim, porém na parede da direita há um ponto onde há um símbolo diferente dos outros, mas a única coisa escrita relacionada a ele é uma palavra acima dele. Eu não consegui extrair sentido algum daquilo, apesar de ter me dedicado a entender. A palavra está em língua antiga, então vou deixá-la aqui para você: Horácio.
O que direi agora pode parecer estranho: se você conseguir desvendar o significado do símbolo e da palavra, logo após pensar na relação entre eles, surgirá à sua frente uma pequena esfera de luz. Sim, é inusitado, e eu sei disso, porque isso aconteceu comigo todas as vezes em que eu compreendia as escrituras. Eu envolvi cada energia em minha mão e era como se elas me guiassem até o altar. Chegando lá elas desapareciam…”
O garoto lera até esse ponto e imediatamente voltou-se para a parede da direita, observou-a e seguiu em direção a ela.
— Ei, Lamp, o que houve? – Malie franziu a testa, interrogativa, vendo o menino tocar a parede.
Ele foi rapidamente capaz de encontrar o símbolo citado pelo seu pai, já que de fato se destacava no grande mural de escrituras e símbolos. O garoto já havia achado estranho o nome escrito no caderno e viu que realmente a palavra “Horácio” estava na parede. No entanto, sua surpresa foi maior quando viu a imagem estampada ali: um globo com um boneco de neve dentro.
— É aquele que ganhei dos meus pais… – Lamp falou em voz baixa, passando a mão na parede.
Entretanto, o momento que ele passou pensando sobre aquilo foi breve, pois logo em seguida à descoberta, uma pequena luz brilhante começou a surgir flutuando no ar. Lamp lembrou-se imediatamente das palavras de Lagus e a agarrou. O brilho que saía dela era forte o suficiente para reluzir através das mãos de Lamp. Já o menino parecia bem centrado, pois em seguida começou a caminhar para o altar, sentindo que realmente uma leve força o inclinava naquela direção.
— Então Lagus realmente conhecia sobre a energia dos altares – Malie tinha pego o caderno, deixado no chão por Lamp, e lido a parte onde ele havia deixado.
A mulher então olhou para a frente e viu Arceus no mesmo lugar. Em seguida observou Lamp subindo as escadas do altar, Zet tinha se juntado a ele.
— Será que ele conseguiu fazer o que o pai disse ? – Malie se perguntou, começando a correr levemente para o altar.
Quando Lamp estava alcançando o altar, ele olhou para o lado e viu que Arceus tinha despertado e vinha flutuando em sua direção.
— Como você conseguiu essa energia, filho de Lagus? – O espectro olhava para baixo, observando o menino.
— O meu pai deixou algumas coisas para mim. Ele me disse como pegá-la. – O menino respondeu naturalmente. Pela forma como Arceus agiu, ele já não mais pensava no espectro como uma entidade misteriosa.
Arceus permaneceu observando Lamp por alguns instantes. Apesar de ser uma aura, aquela forma possuía um aspecto humano, e, naquele momento, o rosto talvez esboçasse um leve sorriso.
— Entendo… – o espectro disse afinal.
Malie chegou aonde estavam, logo em seguida, e sequer notou Arceus. Seu foco era Lamp.
— Você vai mesmo tentar isso aí? – ela indagou.
Lamp se virou e notou que Malie segurava o caderno na mão esquerda.
— Sim, estou aqui para isso! – o garoto acenou com a cabeça, expressando um olhar de determinação.
Então o garoto ergueu as mãos luminosas ao topo do altar e lá posicionou a energia. Ele deu alguns passos para trás e esse foi o intervalo até o altar começar a brilhar. Uma elipse de luz começava a se formar logo à frente deles, e em breve algo que parecia ser um portal reluzia um doce brilho azul.
— Vamos entrar ? – Lamp disse.
— É a nossa única opção. – Malie falou, e todos foram em direção ao portal.
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