Uma Aventura Pokémon
8 Acordo
O lugar para onde foram mandados trouxe a Lamp a lembrança do que tinham passado antes. O cenário era parecido. O horizonte consistia-se nublado, porém era possível distinguir a paisagem, que desta vez não estava totalmente consumida pela neve. No entanto, o frio era definitivamente mais intenso. Os montes ao redor situavam-se em uma cordilheira que se estendia a uma distância não alcançável com os olhos, e se elevavam a uma altitude muito maior. Em um desses, uma luz azul brilhava fortemente, de modo que era praticamente impossível deixar de perceber.
— Acho que desta vez eu congelo! – Uma fumaça gélida saiu da boca de Malie, ela abraçava a si mesma enquanto tremia.
— Não esperava passar novamente por isso tão cedo! – Lamp disse, e sentou-se na neve, após ver que Zet o havia feito.
— Aquela é a energia do santuário – Arceus se pôs à frente – Lagus havia trabalhado para dificultar o acesso a elas. Aparentemente ele só conseguiu facilitar para nós até aqui. Teremos bastante trabalho a partir de agora.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes, o vento frio uivava ao longe de vez em quando.
— Acho que você nos deve algumas explicações, principalmente para o Lamp. – Malie falou enfim, virando-se para Arceus.
O espectro voltou-se para a mulher e a observou por alguns segundos, pensativo. Logo em seguida, olhou na direção do menino, e quando ia falar algo, Lamp disse:
— O meu pai queria que eu o encontrasse, não é? – ele estava sentado com as mãos sobre os joelhos, e falou com a visão fixada na forte luz azul.
— Serei breve: O humano que vocês viram no santuário é o mesmo que quase alcançou o poder união uma vez. Lagus deu sua vida para detê-lo, porém deve ter observado que a solução seria temporária, e por isso aparentemente tomou outras medidas, confinando-me dentro deste Pokémon – ele apontou Zet –, e guardando os segredos do santuário de uma forma imprevisível.
Malie ficava perplexa ao ouvir Arceus falar sobre aquele tipo de coisa, no entanto não gostou do tom grosseiro dele ao falar aquilo.
— Ei, não seja ríspido assim! Você está falando do pai do menino! – ela o repreendeu fortemente, ao que Arceus respondeu com sua impassibilidade.
— Então você não sabia que estava dentro do Zet? – Lamp indagou.
— De fato, todo esse tempo permaneci adormecido. Foi quando reagi à energia do altar aqui no santuário que, ainda no interior do seu companheiro, passei a estar novamente consciente.
Lamp se ergueu, respirou fundo e pôs as mãos na cintura.
— Nossa! Essa coisa envolvendo todo o universo é incrível, eu ainda estou tentando assimilar – o menino chacoalhou a cabeça. – Mas, tenha certeza de que pode contar comigo! – ele se virou para o espectro. – Eu farei o que for possível para deter aquele cara e salvar o senhor John.
— Comecemos, pois a jornada será árdua. – Arceus disse, intrépido, apontando a luz.
— Temos que chegar lá ?! – Malie exclamou com um suspiro.
Após começarem a caminhar, eles ouviram uivos que vinham dos montes ao redor.
— Pokémon ?! – Malie e Lamp pararam e moveram a cabeça como se tentassem descobrir de onde vinha o som. Zet ergueu as orelhas.
— Este lugar foi criado para não receber visitantes. Qualquer um que entre aqui será considerado intruso. – Arceus disse.
Eles notaram que as folhas de alguns pinheiros ao longe balançavam, derrubando a neve e fazendo barulho. Logo em seguida, puderam também ouvir passos na neve, e, quando perceberam, uma matilha de Lycanroc surgiu entre os pinheiros das laterais ao redor dos recém-chegados.
— Eu acho que eles não vieram para brincar com a gente, não é? – Malie disse nervosa.
Eles recuaram dando passos para trás, conforme os Pokémon avançavam. Juntaram-se e ficaram de costas uns para os outros, porém Zet acenou para Lamp e deu alguns passos à frente, encarando um dos grupos.
— Cuidado, Zet. São muitos e parecem fortes. – Lamp disse olhando o amigo.
Os Lycanroc prosseguiam o cerco lentamente, com um semblante feroz. Era possível ver os seus dentes afiados enquanto eles rosnavam.
— Ouçam bem. – Arceus falou – A nossa situação não é favorável, eles nos atacarão em breve. Eu usarei toda a energia que possuo agora, e teleportarei vocês três o mais próximo possível da energia do santuário. Após isso, eu serei apenas uma pequena faísca, portanto vocês estarão encarregados do resto.
Malie e Lamp olharam Arceus, e não podiam dizer não, pois naquele momento os Lycanroc já estavam muito próximos e aquilo parecia a única opção.
— Certo! – eles confirmaram com um aceno de cabeça.
Então, Arceus se preparou para agir. Entretanto, quando as criaturas investiram, e Arceus começou a conjurar sua energia, uma forte nevasca começou e um redemoinho de gelo foi formado no espaço entre eles e os Lycanroc. Enquanto a neve rodopiava, os Pokémon que antes transpareciam ferocidade, mudaram de comportamento, viraram-se e correram de volta à floresta. Conforme a lufada de ar passava, era possível enxergar um vulto no meio do nevoeiro: logo ali na frente deles, uma mulher de vestido branco com aspecto fantasmagórico surgia.
— Froslass! – A palavra foi pronunciada ao mesmo tempo por Arceus e Lamp, porém apenas o último demonstrou surpresa.
A aparição tornara o clima estático e amenizara o frio. No entanto, logo a névoa se dispersou e, a partir daí, o Pokémon de gelo resplandecia em sua forma original. Sem mover a boca, a voz da dama da neve soava como uma terna melodia na mente dos ali presentes.
— Pude reconhecer a sua essência, jovens rapazes – Ela voltou sua visão para Lamp e Zet – Porém, a aura que os acompanhava me espantou: não podia imaginar que se tratava de Arceus – Terminou observando o espectro dourado.
— Onde está Glastrier ?! – Arceus perguntou rispidamente.
— Eu não sei. – Froslass respondeu calmamente.
— Como assim? Ele é o guardião deste santuário! – Arceus franziu a testa.
— Já faz algum tempo que Glastrier deixou este lugar. Há alguns anos eu senti uma vertigem que me fez desmaiar. Entretanto, percebi, depois de acordar, que a fraqueza que me atingia não partia de uma debilitação minha, mas que outra coisa havia colapsado. Veio à minha mente imediatamente o guardião, e mesmo enfraquecida procurei encontrá-lo. Quando me aproximava da energia, vi um humano buscando abrigo em uma árvore. A minha surpresa foi imensa: não restava a Glastrier energia senão a de mantê-lo em estado humano.
Arceus assumiu um semblante de fúria, após Froslass terminar de falar. Parecia que sentimentos não eram algo natural dele, e toda a sua forma reagia a essas mudanças: ele se dilatou e se contraiu, similarmente à vez do seu surgimento no saguão. Lamp e Malie se assustaram e deram um pulo para o lado.
— Não é possível! – A voz do espectro ressoava – Ele não pode ter feito isso a todos!!
— Glastrier me incumbiu da responsabilidade do santuário… – Froslass estava de cabeça baixa, sua voz vacilava – Arceus, o que tem acontecido?
— O equilíbrio da existência está ameaçado, jovem guerreira! Por favor, permita-me alcançar a ignição!
Logo em seguida, uma ventania súbita surgiu no ambiente, e Lamp tentou se apoiar em algo quando foi jogado para trás pelo ar. Ele sentiu que aquilo era a mesma brisa gélida que o suspendeu no abismo, e ficou perplexo ao notar que começara a flutuar livremente no ar. Em seguida, a lufada os fez alcançar uma velocidade considerável, movendo-se em direção à luz. Zet se segurava nos ombros de Lamp, e eles riram ao perceber que Malie se debatia enquanto voava de cabeça pra baixo.
— Que tal avisar antes de fazerem essas coisas ?! – Ela resmungou aborrecida.
Conforme se aproximavam da energia, voavam mais lentamente. Então, aterrissaram e passaram a observar a luz. Devido à como a visão funciona, quando fora avistada de longe, era só um exíguo ponto brilhante no horizonte, porém, quando chegaram ali, perceberam que aquilo era realmente imenso.
— A energia é incrível! – Lamp exclamou quando eles se moveram para próximo da aura.
Arceus tomou a frente e logo flutuou em direção ao fulgor. Conforme Arceus se aproximava, o céu escurecia e vários estrondos parecidos com trovões eram ouvidos. Quando ele se chocou com a energia, houve uma explosão de luz e a energia começou a se intensificar e a brilhar fortemente. Os humanos ali presentes e Zet colocaram seus braços à frente dos olhos a fim de se proteger dos raios que ofuscavam a visão.
— Como ele consegue aguentar tanto poder ?! – Malie exclamou.
— Este é o poder que o criou. É de sua natureza ter contato com isso. – Froslass respondeu.
Após alguns instantes, a energia passou a se comportar da mesma forma como da vez que Arceus surgiu, e, de repente, ela foi totalmente condensada e absorvida à forma do espectro. Em seguida, o clima do ambiente retornou ao estado anterior, porém era possível ouvir o ar sibilando ao passar pelas serras distantes. Todos estavam em silêncio e observando Arceus.
— Essa energia de ignição foi violada! – A voz dele ecoou pela ampla paisagem.
— O quê?! – Malie e Lamp exclamaram em uníssono.
Arceus se moveu em direção ao grupo.
— A situação é mais grave do que eu esperava. Ele aparentemente foi capaz de ter contato com a energia de ignição. Talvez tenha conseguido forçar a energia através do altar.
— A energia que ele liberou fez os Pokémon da montanha atacarem a cidade. – Malie disse.
Arceus fixou o olhar em Malie, ao ouvi-la falar isso. A mulher desviou o olhar para as suas mãos e Arceus retomou a sua fala.
— Isso confirma as minhas expectativas. É necessária muita energia para que a atmosfera mude a ponto de alterar o comportamento de Pokémon. Além disso, você disse que eles agiram agressivamente, e isso demonstra que os atingidos pelo efeito da energia assumem a conduta de quem a manipula.
— Ei, Arceus, mas você conseguiu absorver muita energia, certo? – Lamp falou.
— De fato, caro garoto, porém devo dizer que esta é só uma das partes do todo. A verdade é que ele não consumiu uma quantia tão considerável, e de qualquer forma ele não poderia, a sua essência humana não permite. Ainda assim, precisarei contatar todas as ignições para alcançar um real poder, o que eu possuo agora já me torna capaz de algumas coisas, porém não me possibilita esbanjar.
— Se ele não pode alcançar as energias, o que o cara da capa quer, afinal? – Malie indagou duvidosa.
— Cada ignição possui uma essência única e a sua força está não só na posse do poder dessas energias, mas principalmente na junção das essências. O que receio é justamente isso: ele deve estar buscando não a energia total das ignições, mas ter contato com todas as essências para fazer o mesmo que fez da outra vez.
— Então as coisas são mais complicadas do que parecem – Malie interpelou – Temos que confrontá-lo rápido e fazer algo antes que ele alcance todos os santuários.
Após isso, Arceus se direcionou a Froslass, que apenas ouvira por todo esse tempo.
— Froslass, retorne-me à dimensão anterior. Devo seguir imediatamente ao altar mais próximo – Ordenou imperioso.
— Ei, muita calma nessa hora! – Malie exclamou apontando para Arceus – Como você disse: não está 100%. É muito perigoso andar sozinho por aí. Além disso, você não tem escolha, Haha. Precisa do Lamp para ter acesso às energias. Você deve nos acompanhar, pois nós também queremos encontrar esse cara. Se o confrontarmos diretamente, poderemos fazê-lo trazer as pessoas do vazio.
— Você está certa, mulher! No entanto, compreendes a urgência da situação, não há tempo a perder!
— Obviamente você não perderá tempo conosco, pelo contrário, nós aventureiros somos os melhores em encurtar caminhos. Só que essa jornada será longa e você terá que ser menos arrogante e escutar os outros. – Malie terminou, estampando uma feição determinada e apontando para o espectro.
A aura amarela ouvia aquelas palavras imóvel. Malie agora evidenciava um leve sorriso, e mantinha as mãos na cintura, na posição engraçada que demonstrava o seu orgulho peculiar. Ainda assim, Lamp achava incrível como ela era capaz de enfrentar Arceus dessa forma. Froslass se moveu ao centro do grupo e buscou estabelecer contato:
— Eu vejo que vocês têm pressa. Tratarei de ajudá-los.
Após dizer isso, a dama fantasma estendeu os braços e uma aura em formato esférico começou a rodear todos os presentes. Lamp sentiu uma sensação estranha, parecida com um frio na barriga, e, de repente, eles estavam de volta ao mundo conhecido, entretanto não dentro da gruta, mas fora dela, no topo do monte branco, e a surpresa maior do garoto foi se deparar com o crepúsculo do fim da tarde e perceber que muito tempo havia se passado.
— Que visão incrível! – ele disse,dando alguns passos e observando o sol no horizonte.
Todos se puseram a admirar a paisagem por alguns instantes e Lamp percebeu que Arceus brilhava com a luz do sol. O garoto avistou alguns Frosmoth voando a uma certa distância, mas que pareciam se dirigir rumo a eles. O garoto se lembrou dos que viu depois da nevasca.
— Esses Pokémon os guiarão. – Froslass falou olhando em direção aos Frosmoth.
— Sério?! – O garoto virou a cabeça para Froslass com os olhos brilhando.
As criaturas logo chegaram próximo dali, e permaneceram batendo as asas enquanto flutuavam perto deles. O movimento dos membros soltava flocos de neve que se cristalizavam em alguns pontos, formando fios ligados ao corpo dos Pokémon. Em instantes, esse processo criou uma larga rede de gelo, extremamente parecida com uma real, mas a textura rígida a tornava perfeita para uma viagem aérea. Lamp ficou boquiaberto com mais aquela cena magnífica do poder da natureza.
— Nós vamos voar ?! Que incrível!! – o entusiasmo do garoto era contagiante.
— Por favor, Frosmoth, guiem-nos no caminho que eles desejarem. – Froslass disse, voltando-se aos Pokémon.
Os aventureiros rapidamente buscaram as suas coisas que estavam na gruta. Na realidade, Lamp estava tão animado que já as havia esquecido, sendo lembrado por Malie. Enquanto os três pegavam as suas coisas, Arceus e Froslass ficaram a sós.
— Por favor, Arceus, garanta que Glastrier volte a salvo, este lugar precisa dele. – A dama fantasma disse com uma voz soturna.
— Assim será feito. – Arceus respondeu impassível.
— Isso aí nos aguenta, não é?! – Malie exclamou quando retornou junto a Lamp e Zet trazendo as coisas.
— Não subestime a aparência da fina camada. É forte como aço. – Arceus redarguiu.
Eles então colocaram tudo na rede e se arrumaram em seu interior para alçar vôo.
— Muito obrigado por tudo!! – Lamp exclamou enquanto acenava junto a Zet para Froslass, que logo desapareceu do lugar onde estava.
A visão dali era fantástica, e a imagem formada por aquela caravana era magnífica: os flocos de neve que caiam do bater das asas dos Frosmoth refletiam a luz alaranjada dos raios que provinham do sol poente. A velocidade do voo era suficiente para que a brisa formada pelo vento frio fizesse Lamp se arrepiar, mesmo assim não parava de admirar aquele horizonte. O garoto só desviou a sua atenção quando percebeu que estavam passando acima da casa de John.
— Irei salvá-lo, senhor John, e o senhor nos preparará aquela deliciosa caneca de chocolate quente. – Ele disse para si mesmo.
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