Ficar em São Francisco foi a forma que encontrei de me sentir, como eu poderia dizer isso?, um pouco mais próxima dela. Sabia que toda vez que precisasse poderia buscá-la – para isso bastava olhar para a Golden Gate. E se um dia achasse que não era mais suficiente, ainda havia a possibilidade de jogar na loteria da morte— que é como passei a chamar, oficialmente, o pulo da ponte. De 1.200 pessoas, somente 5 atravessaram o portal. Isso me dava uma média de uma a cada duzentas e quarenta pessoas. Ou seja, teria menos de meio por cento de chance de acertar o ponto exato.

Era quarta-feira, e estávamos todos reunidos na sala. Os Esquilos jogavam contra os Cosmopolitanos, e Evan e eu torcíamos pela vitória – ou então aquela festa não faria mais sentido. Os Esquilos perdiam por dois pontos.

Eu estava vestida com uma camisa que tinha a cabeça de um esquilo e bandeirolas. Evan tinha um boné com dentes de esquilo, e cerveja. De vez em quando ele gritava “cacilda” (era uma forma de amenizar a palavra que precisava ser amenizada quando dita dentro de casa) e então, a esperança se esvaía. Depois, ele gritava “Graças a Deus”, e a esperança voltava para nós e para os milhares de torcedores de São Francisco.

Naquele momento meu pai voltava para a sala, com mais cerveja e a calça marrom dele, o chapéu de cabeça de esquilo e copos em formato de esquilo. Meu Deus, só faltava nos mudarmos para um buraco de árvore e sairmos por aí roendo coisas.

— Como estamos, Evan? – perguntou ele, se sentando.

— Eu poderia responder, pai – falei, ajeitando a Fofura em sua linda roupinha de esquilo.

Papai beijou minha testa (infelizmente aquilo me fez lembrar do Joseph, não nos falávamos há duas semanas), como que me consolando.

— Claro que poderia, docinho. Agora, Evan, qual é o placar?

Ponto para ele. Já havia perdido as contas há muito tempo.

— Estamos perdendo por seis pontos.

— Cacilda! – gritou meu pai.

Fofura se assustou e saiu correndo (durante um tempo ficou deslizando no mesmo lugar, as patas sem apoio no chão liso), a barriga enorme arrastando pelo chão. Depois ela desapareceu da sala. Nós rimos sem tentar controlar. Pelo menos naquele instante parecíamos uma família normal.

— Deveria levar essa gata ao veterinário, Sofia – falou meu pai, voltando a olhar para o jogo.

Eu concordei, e prometi a mim mesma que faria isso no dia seguinte. Decidi procurar por Fofura, já que não adiantava muito fingir que entendia de futebol, e também estava preocupada com ela, correndo daquele jeito com sua barriga de elefanta.

Fui até a cozinha, e não a encontrei em lugar nenhum. Só então percebi que a porta estava aberta.

— Pai! – gritei. – A Fofura não está em lugar nenhum da cozinha. Acho que ela saiu!

— Procure no jardim, querida! – gritou ele da sala. – Vamos te ajudar durante os intervalos e depois que o jogo terminar!

Meu pai estava ocupado demais para prestar atenção em sua filha e a gata fugitiva dela. Então decidi procurar sozinha.

Ela não estava no jardim da frente, então decidi procurar na parte detrás. Olhei para a casa de Claude, e somente a luz da cozinha estava acesa. O pai dele não estava mais em casa – fora embora há cinco dias, quando a mãe dele dissera que saía para se jogar da ponte. Ela foi contida, medicada e ficara dois dias numa clínica. Agora tomava os medicamentos em casa. Estava depressiva, e todos esperavam que fosse algo passageiro. Eu já tinha ouvido casos de pessoas que ficavam depressivas durante muito tempo, até mesmo pela vida toda.

Tratei de afastar aqueles pensamentos e dei a volta na casa. Continuei a procurar por Fofura, e decidi que gritar o nome dela desesperadamente talvez resolvesse. Eu já estava mesmo desesperada. Mostrar isso ao mundo não me pareceu um problema.

— Fofura! Fofura! Apareça pelo amor de Deus!

Nada. Um arbusto se mexeu, mas era apenas um esquilo que passou correndo e subiu na casa.

— O jogo é para o outro lado – avisei ao esquilo, e voltei a procurar.

A gata não estava em lugar nenhum e, quando voltei os olhos para a casa de Joseph Humfrey, me deparei com ele, parado do outro lado da cerca, olhando para mim.

Não nos falávamos há duas semanas, mas pareciam séculos.

— Oi – falei.

— Oi – respondeu ele.

Acho que Joseph não estava preparado para aquele encontro – assim como eu. Mas ele sabia disfarçar melhor. Deve ter passado por mais momentos embaraçosos como aquele do que eu passaria durante toda a minha vida.

— Não esperava encontrá-la passeando pelo jardim no meio da noite de quarta – falou ele, apoiando os braços na cerca branca.

— Nem eu. Pensei que você fosse um vampiro, e já estava pronta para acertar uma estaca bem no meio do seu coração.

— Talvez me fizesse um bem – disse ele.

Se era uma piada, provavelmente era a pior piada da terra.

— Como ela está?

— Um pouco pior do que ontem. Ela tem sentido muita dor de cabeça, como se o tumor estivesse crescendo em velocidade máxima. Ela pediu que eu segurasse seus olhos para que eles não saíssem das órbitas, você sabe o que é isso, Sofia?

É claro que eu não sabia – e era feliz por isso. Imaginei que as aspirinas que Joseph levara para a mãe naquela noite já não servissem para nada, pois ela tomava morfina na veia, estava no último recurso para combate da dor. Talvez ele tenha tentado fazer o efeito placebo com ela — tome essas pílulas brancas e amargas, elas são morfina em forma de comprimidos.

— Não sei o que dizer – falei, e era verdade.

— Não tem que dizer nada.

— Sim, eu tenho. Às vezes palavras são tudo o que nos resta.

Ele concordou com os olhos.

— Então, Sofia Spencer, qual é a sua melhor palavra, aquela que fez sua vida ter valido a pena de ser vivida até agora? – desafiou-me ele, com um sorriso nos lábios.

Eu me aproximei da cerca. Estávamos a vinte centímetros um do outro. Havia uma lua em algum lugar do céu, e ventava um pouco. Meus cabelos balançavam levemente.

— Você – falei.

Joseph Humfrey sorriu. Esticou a mão e acariciou meu rosto delicadamente.

— Não sou tudo isso que você imagina, Sofia.

— Não, não é – falei, esperando que o toque da mão dele durasse para sempre. – É exatamente o que eu precisava que fosse.

Joseph acariciou meu queixo. Eu fechei os olhos, e senti meus lábios congelarem por causa do vento. Ele se aproximou mais. Nossos rostos estavam a dez centímetros um do outro, e a cerca era a única coisa entre nós dois – uma espécie de universo que nos separava.

— Vou embora em um mês – sussurrou ele.

O hálito de Joseph cheirava a menta, e imaginei que ele deveria ter engolido uma bala ou, no mínimo, mastigado menta fresca do canteiro da mãe dele.

— Eu não me importo – menti.

— Não se importa agora.

— Sei que você tem razão, Joey, mas queria que não tivesse. Queria que tudo fosse mais fácil... Você disse que não quer que mais ninguém entre em sua vida para que ninguém mais saia, e depois me convidou para jantar. Isso não faz sentido.

— Você não entendeu, Sofia. Não quero que ninguém importante saia da minha vida – confessou ele.

Joseph me levou a concluir que poderiam entrar milhares de pessoas, desde que não fossem importantes. Provavelmente ele tinha uma namorada em cada lugar pelo qual passava – distrações descartáveis.

— E onde eu fico nisso, Joey?

— Eu não queria que você entrasse... Mas agora que entrou, não quero mais que saia – disse ele, se aproximando mais.

Então Joseph Humfrey me beijou.

Não na bochecha ou na testa. Mas nos lábios. Ficamos grudados à cerca durante o minuto que durou aquele beijo. Ele segurava minha mão, e seu toque era quente como o fogo – perto de Joseph eu me sentia incendiar. Quando nos separamos ouvimos gritos vindos de várias casas da rua – o que incluía a minha.

— Até depois – falei, me desvencilhando da mão dele.

— Até depois – ele disse.

Voltei correndo para dentro de casa, com o coração prestes a saltar pela boca. Encontrei meu pai e Evan abraçados, pulando de alegria. A televisão anunciava o resultado: os Esquilos venceram os Cosmopolitanos com uma diferença de dois pontos.

Quando me viram os dois pareceram se lembrar do meu problema.

— Tudo bem, agora vamos encontrar a Fofura – disse meu pai. – Não se preocupe, docinho, ela deve estar por perto.

Imaginei que, com toda aquela gritaria, provavelmente Fofura já tinha cruzado São Francisco. Pelo menos a festa estava garantida. Os Esquilos conquistaram a terceira colocação na liga – o melhor resultado desde que o time fora fundado.

Procuramos pela gata em todos os lugares. Uma hora depois ainda andávamos pela rua, gritando por ela. Joseph nos ajudava. Eu já estava mais do que desesperada, e caminhávamos lado a lado.

— Nós vamos encontrá-la – disse ele, passando o braço sobre meu ombro.

— É tudo o que desejo neste momento – falei.

Duas horas depois estávamos sentados do lado de fora da minha casa. Meu pai buscara um isopor com água mineral – e algumas cervejas – e nós quatro recuperávamos o fôlego.

Eu estava sentada ao lado de Joseph, e apoiava a cabeça no ombro dele.

— Meu Deus, onde essa gata pode estar? – perguntou meu pai.

Era uma pergunta retórica, e que não ajudava em nada. Eu estava triste, queria que Fofura voltasse logo para casa e acabasse com aquele sofrimento. Imaginava minha gata sozinha, vagando pelas ruas, sem ninguém que a protegesse.

— E se ela... Se ela for atropelada? Com aquela barriga enorme...

— Não pense nisso, Sofia. Nós vamos encontrá-la – disse Joseph, me abraçando.

Procuramos por mais meia hora. Estava tarde, e decidimos que era melhor continuar no outro dia.

No fundo do meu peito eu sentia que aquele episódio era uma resposta do universo para mim – eu me importava, e muito, com qualquer coisa que pudesse me deixar.

E Joseph era uma destas coisas.