Ciúmes? Claude Jenks estava com ciúmes de mim?

Aquilo era ridículo.

Conferi para saber se Fofura tinha comido toda a ração dela e me sentei na cadeira de metal do balcão da cozinha. Servi três bolas de sorvete e fiquei lá, olhando para elas sem muita coragem de dar a primeira colherada. Olhei para meu corpo – eu era magra, mas se continuasse com aquilo de comer lasanha e sorvete no mesmo dia logo estaria com o peso de uma orca e, praticamente, a sensualidade de uma.

Meu novo vizinho não saía dos meus pensamentos.

Será que Joseph imaginara que Claude e eu... Não. Isso também era ridículo. Se bem que eles ficaram sozinhos na sala enquanto eu buscava as pílulas, e meu melhor e único amigo Claude poderia ter dito qualquer coisa que quisesse. Tipo, “Sofia e eu temos um lance, um filho e vamos nos casar na semana que vem no festival pagão da colheita.” Ri sozinha e senti Fofura saltar sobre minhas pernas. Agarrei-a e levei comigo para o sofá da sala. Começava o seriado das donas de casa, e eu não conseguia pensar em algo melhor para terminar aquele dia.

Não sei quanto tempo Fofura e eu ficamos acordadas no sofá (ela bem menos do que eu porque dormiu instantes depois de nos sentarmos). Só me lembro de ter sido acordada por papai – ele estava com os cabelos desarrumados, sem a gravata e parecia feliz demais para alguém que tinha acabado de chegar de uma reunião de negócios.

— São duas da manhã – disse ele, como se aquilo fizesse diferença para mim.

Eu tentava acordar – voltar da fase REM realmente não é nada fácil (sempre achei que isso fosse uma besteira da teoria do sono). Fiz uma nota mental de contar essa para o Claude depois que fizéssemos as pazes e antes de brigarmos novamente.

Meu pai me pegou no colo – o quer era ridículo, porque eu tinha dezessete anos. Começou a me carregar escadas acima.

— Fez as pazes com o Claude? – perguntou ele.

Eu tentava me lembrar quem era Claude. Estava meio grogue ainda.

— Fiz... E acho que brigamos de novo.

Meu pai riu. Chegávamos ao meu quarto. Ele me colocou na cama e me cobriu. Eu já estava desperta.

— Quer que eu deixe o abajur aceso? – perguntou, beijando minha testa.

— Não, obrigado, mas minha chupeta está em algum lugar lá do sótão, então, se puder me fazer esse favor – falei, virando para o lado da janela.

Ele apagou a luz e saiu do quarto.

Naquele instante perdi o sono. Precisaria de mais três fases para chegar novamente à REM. É durante essa fase que os sonhos aparecem, e também as memórias dos acontecimentos do dia são consolidadas. Fiquei sabendo disso há alguns anos, mas se soubesse antes, mais precisamente no dia em que minha mãe morreu, não teria dormido. Não queria que aquela memória se consolidasse, que meus neurônios a registrassem daquela forma tão precisa e cruel. Eu ficaria acordada até que um acontecimento pior pudesse ofuscá-la.

Puxei a cortina um pouquinho, somente para conferir a janela do Claude. Havia uma luzinha azul acesa – o abajur da Guerra nas Estrelas dele. Ele tinha aquele abajur desde os dois anos, mas tinha parado de acendê-lo quando completou dez. Só me lembro de ter visto aquela luz uma única vez depois disso, quando a avó dele morreu – ela teve um derrame na sala de estar.

Agora a luz estava acesa novamente.

E aquilo dizia para mim que ele estava triste.

***

Acordei com a luz do sol em meu rosto.

Passava um pouco das oito horas da manhã. Manhã de domingo, quando ninguém precisava acordar cedo. Ninguém, a não ser o meu pai, que aproveitava a folga para fazer nosso café da manhã – o dele, da Fofura e o meu – e também para outras coisas, como lavar o carro e consertar objetos.

Fui até o banheiro sentindo uma leve dor de cabeça – me arrependi de ter dado aqueles comprimidos ao Joseph – e lavei o rosto.

Quando voltei ao quarto havia uma bandeja sobre minha cama, e um cartão ao lado dela.

Do papai, estava escrito.

Depois de tomar meu café desci com a bandeja e coloquei na pia. Fofura veio me dar bom dia, e fiz o mesmo levantando ela pelas patas e fingindo que comeria a barriguinha dela (isso pode ser nojento para muitas pessoas, mas tem gente que beija nariz de cavalo).

— Sou um orc! – dizia enquanto brincava com a gata.

Depois deixei que ela voltasse ao café dela.

Papai lavava o carro – como eu previra. Havia muita água e sabão quando cheguei ao nosso jardim, em frente à garagem. Ele estava com um balde e algumas esponjas.

— Acho que deveria pagar alguém para fazer isso – falei.

Ele torceu os lábios. Com as calças dobradas até os joelhos, uma camiseta onde se lia I Love NY e um boné dos Dodgers ele não parecia meu pai, parecia um garoto propaganda da televisão, daqueles de comerciais que dizem o que você precisa para ser feliz.

— Se você tivesse nascido homem eu não precisaria fazer isso agora – disse ele, rindo.

— Terá de se conformar com o Evan.

— Evan tem seu próprio carro para lavar agora.

Aquilo mais pareceu um lamento. Meu menininho cresceu, e minha menininha não. Ah, sem contar a parte minha mulher morreu, e eu não. A água com sabão continuava a escorrer pela lataria do compacto. Parecia uma enxurrada branca.

— Talvez eu tire minha carteira neste semestre – falei, procurando por um assunto que pudéssemos compartilhar sem conjugações verbais no passado.

Ele esfregou uma mancha e apoiou uma das mãos na lataria.

— Tem o meu apoio querida – disse.

Estava pronta para entrar novamente em casa quando Joseph Humfrey apareceu na rua. Na verdade a mãe dele apareceu primeiro. Joseph surgiu depois, segurando-a pelo braço e, lentamente, conduzindo-a até o meio fio. O pai de Joseph retirava o carro da garagem.

Como eu mantinha os olhos neles, Joseph se viu na obrigação de acenar. Eu retribuí, e percebei que meu pai acenou discretamente com a cabeça. Um cumprimento de cavalheiros.

Joseph conduziu a mãe até o carro, e depois entrou também. Depois desapareceram na rua semi-deserta.

Fiquei durante algum tempo olhando naquela direção, tentando imaginar que tipo de expressão encontraria no rosto do meu pai quando voltasse a olhá-lo. E quando voltei ele sorria.

— É um belo rapaz – disse ele.

Fiz cara de que não sabia do que ele estava falando.

— Mal nos conhecemos, pai – falei.

Mal? Achei que nem se conhecessem ainda.

Ele deu a volta no carro e voltou a jogar água. Um ultraje à sustentabilidade.

— Nós estudamos na mesma escola e moramos na mesma rua. Acho que isso é conhecer mal alguém.

Ele ergueu uma das sobrancelhas, e pareceu não entender muito bem.

— Além disso dei um Tylenol à ele ontem à noite.

— Isso não é um interrogatório, Sofia.

— Sei que não é.

Um Jipe acelerou pela rua. Não sei por que, mas soube, imediatamente, de quem se tratava.

Evan desceu do carro (ele estava muito sujo, com lama nos pneus e em todo o resto) e correu para me abraçar.

— Evan! – gritei quando ele me levantou pela cintura e girou comigo no jardim.

Depois ele foi até meu pai e o abraçou também (sem levantá-lo pela cintura) e os dois ficaram olhando um para o outro por algum tempo.

— Deveria aparar essa barba – disse meu pai.

Ele riu, e passou a mão pelo rosto. Quando olhou para mim eu concordei com meu pai.

— Poderia me fazer um favor, pai? – perguntou Evan. – Meu Jipe precisa de uma geral.

Ele lançou as chaves e Mark as agarrou antes que fosse acertado no meio da cara.

***

Os dois estavam trancados no escritório há pelo menos quarenta minutos, e eu ouvi, por duas ou três vezes, gritos de ambos os lados. Durante o resto do tempo era simplesmente uma conversa amigável de pai e filho que eu imaginava (essas partes simplesmente não passavam pela madeira da porta). Vozes exaltadas compunham a pequena parte dos diálogos. E geralmente era o papai perguntando “Por que você fez isso?” (aos berros) e o Evan respondendo “Você não pode controlar minha vida!” (também aos berros).

Até que a porta se abriu, Evan saiu de lá de dentro chorando, e meu pai ficou em pé diante da janela, olhando para a rua.

Eu estava com Fofura no meu colo, fingindo que aquele carinho era importante, quando na verdade queria saber o que se passava entre meu pai e meu irmão.

Evan sequer olhou para mim quando saiu. Foi direto para o andar superior – para o quarto que era dele antes de ir para a faculdade. Escutei a porta sendo fechada com um estrondo, e imaginei que ele não quisesse falar com ninguém por um tempo – o que automaticamente me dizia que, enquanto irmã mais nova, eu deveria ir até lá e bater até ele abrir.

— Evan... Ainda está aí? – perguntei rente à porta.

Escutei um barulho que sugeria alguém remexendo sobre a cama. Provavelmente ainda estava chorando.

— Sei que está aí, Evan. Posso ouvi-lo se mexer.

Silêncio. É, eu tinha feito o que uma irmã deveria fazer. Afastei-me lentamente da porta e me preparava para descer quando ouvi-lo chamar:

— Sofia?

***

Evan estava deitado sobre meu colo com os olhos fechados enquanto eu mexia com os cabelos dele. Era a primeira vez que eu fazia um cafuné em alguém, e tenho de admitir que foi gostoso.

De certa forma tinha de admitir, também, que era uma espécie de realização de um sonho, afinal, quem não gostaria de estar deitada com um universitário bonitão de vinte e cinco anos sobre seu colo, completamente submisso e entristecido? O detalhe ruim é que esse universitário bonitão era meu irmão.

— Isso é bom – disse ele, abrindo os olhos.

— Essa é a intenção.

— Nem tivemos tempo de conversar direito, Sofia. Como vão as coisas? – perguntou ele, segurando minha mão livre.

Eu não queria falar sobre mim e minha vida chata. Queria saber o que entristecia meu irmão Evan, o que fazia com que tantas linhas de expressão surgissem ao mesmo tempo no rosto dele quando ele tentava sorrir – sem muito sucesso. Queria saber por que ele e papai brigaram a portas fechadas. Mas sabia que, se perguntasse diretamente, talvez ele se fechasse como uma ostra.

— As coisas vão do jeito que tem de ir – falei. – E a faculdade?

Aquela pergunta mais pareceu o grão de areia que fecharia a ostra – exatamente o que eu queria evitar. Então o problema era a faculdade.

— Não quero falar sobre a maldita Estadual – respondeu Evan em tom decisivo.

Tudo bem. Ponto para ele.

— Se não quer falar... Vamos conversar sobre o quê?

Evan brincava com a palma da minha mão. Percorria as linhas como se as desenhasse, de um canto até o outro, um artista esquizofrênico em sua mais nova criação – A menina da mão inventada. Um péssimo título. Não sou muito boa em dar nomes às coisas.

— O Claude continua fã de Star Wars? – perguntou ele, largando minha mão.

— Até ontem, antes de discutirmos novamente, sim. Hoje eu não sei – falei, sem tentar ser (muito) melodramática.

Claude e eu já havíamos brigado um milhão de vezes, pelo menos. Batemos nosso recorde pessoal quando tínhamos onze anos, no dia de São Patrício (cinco vezes antes de o relógio soar meia noite). A desvantagem de morar perto do seu melhor amigo é que você, provavelmente, vai brigar com ele mais vezes do que gostaria.

Mas sempre voltávamos. Na maioria das vezes ele comprava uma caixa de chocolates suíço da Teuscher (fazer as pazes comigo custa caro)... Brincadeira, ele só fez isso uma vez, quando roubou o cartão de crédito do pai e ficou seis meses de castigo (a senha, e até eu sabia disso, era o número da caixa de correios deles). Para ser sincera, Claude simplesmente me ligava (pelo celular ou, ultimamente, usando o telefone de lata) e pedia desculpas. Depois íamos tomar milk-shake na lanchonete da esquina.

— Vocês vão voltar, sempre voltam – disse Evan, sentando-se na cama.

Eu queria muito perguntar se o motivo da briga dele com o papai fora mesmo a faculdade, somente ela ou mais alguma coisa. Não que isso fosse da minha conta (em matéria de atualização sobre assuntos familiares eu só ganhava da Fofura), mas estava preocupada com ambos – especialmente por morar perto de um ponto turístico tão convidativo quando a Golden Gate.

— Evan... Eu...

— Sei o que vai me perguntar, Sofia. E a resposta é sim, briguei com papai por causa da faculdade – disse ele, caminhando até a janela.

Depois ele ficou olhando por ela durante algum tempo.

— Gostaria de dar uma volta por aí? Aquele lugar legal ainda funciona?

— Sim, o Texas Club ainda funciona, mas não é um lugar legal – falei, indo até ele.

— Quando eu era pequeno era legal sim.

— Claro, peça um Texas Burg e um Texas Milk e ganhe um chapéu de cowboy para usar quando for numa lanchonete concorrente.

— Ei, eu queria trabalhar lá quando crescesse! – acrescentou Evan, me apertando num abraço.

Eu poderia imaginá-lo vestido com aquelas calças de imitação de couro, com gravatas que mais pareciam fios e forçando um sotaque que, com toda certeza, soaria ridículo mesmo para um texano. Posso anotar seu pedido, dona? Mugirei quando ficar pronto. Sebo nas canelas e não deixe seu chapéu cair.

— Até quando ficará conosco? – perguntei.

Ele desviou os olhos azuis dos meus e pareceu meditar um pouco. O velho Evan, com sua pele branca (quase albino) e seus cabelos pretos. Eu quero um filho de cabelos pretos como a noite, e lábios vermelhos como o ébano. Chamá-lo-ei de Evan Spencer, e ele perderá o coração por causa de sua beleza.

— Não voltarei para a Estadual nunca mais.

***

O Texas Club era um lugar com a pretensão de que texanos (e não-texanos também) se sentissem no Texas – supondo que esse estado se resumisse a bois e churrasco. A primeira coisa que se via ao chegar, ainda no estacionamento, era um cowboy gigante com cabeça de touro e um laço nas mãos. Durante muito tempo eu pensei no que ele laçaria – homens com corpo de vaca? É realmente um mistério intrigante, que terminava assim que eu colocava os pés dentro da lanchonete. A imagem do cowboy estava em todos os lugares, mas agora em tamanho reduzido, o que diminuía minhas expectativas de caçada. Simplesmente tentava me concentrar no cardápio sem vomitar – pensar nas milhares de vacas que eram abatidas por dia para sustentar uma fome insaciável de pessoas que não podiam (e não queriam) comer nada melhor era torturante – e rezava para não ter filas.

Quando chegamos o Texas Club estava praticamente vazio. Escolhemos o que comer, pagamos e esperamos o pedido ficar pronto em uma mesa de frente para o estacionamento.

Evan mantinha os olhos distantes. Sabia no que ele estava pensando. Ser expulso faltando apenas um semestre para se formar deve ser a pior coisa que se pode abater sobre alguém (claro que não, só brincando). Havia muitas coisas piores, como terremotos, epidemias de cólera ou varíola. Nada daquilo estava acontecendo com ele, mas eu sentia que a expulsão era a varíola dele.

— Seis créditos – disse ele em certo momento.

Eu sorri amigavelmente.

— Faltaram apenas seis créditos para que eu me formasse. Não sei onde estava com a cabeça quando...

Eu esperei que ele terminasse, mas Evan não o fez. Simplesmente ficou lá, matando o tempo, olhando para o nada e lamentando sua sorte – fosse qual fosse ela. Papai jamais aceitaria Evan de volta sem o diploma. Afinal, ele passara os últimos seis anos naquela Universidade, e só saía durante as férias de verão (quando ia para algum lugar distante de sua casa com amigos cujos nomes mudavam sempre) e para as comemorações do final do ano. O resto do tempo ele ficava enfiado naquele campus, supostamente brigando por seu diploma de advogado. Voltar sem o diploma era como ir à Índia e não pegar cólera pelo menos umas seis vezes (tudo bem, estou exagerando um pouco).

— O que aconteceu para que te expulsassem? – perguntei, ainda que esperasse que ele fosse inocente.

— Bem, eu dividia meu quarto com dois outros caras. Um deles é o Eddie, você deve conhecer das fotos...

Quando ele disse aquilo me lembrei imediatamente do personagem do livro do L., que eu começara a ler enquanto esperava que Evan e papai terminassem de brigar.

— O outro era um cara novo, Michael, que entrou no lugar do Lopez.

— O que houve com o Lopez? – Eu suspeitava que isso era apelido.

— Ele foi ver os pais no Colorado e nunca mais voltou.

Nunca mais voltou? Eu senti um aperto no coração. Deve ser horrível se despedir que alguém sem saber que é a última vez que se vê aquela pessoa – ainda que seja assim que aconteça na maioria das vezes. Pior do que isso só mesmo se despedir sabendo que é a última vez que se verá aquela pessoa.

— Tudo estava muito bem, até que os seguranças do campus e a polícia invadiram a estalagem. Receberam a denúncia anônima de que havia alguma coisa em nossos dormitórios. Eles reviraram tudo, tudo mesmo. E encontraram uma arma e meio quilo de pó.

Não escondi minha expressão de surpresa.

— Então vocês foram expulsos?

Evan olhou para mim com uma expressão cansada.

— Não, Sofia... Eddie se forma neste período, e o Michael tinha acabado de chegar. O pai dele batia em todos os filhos de manhã e à noite. Eles moravam num trailer e mal tinham comida para se manterem vivos. Ele só está lá porque é muito bom em basquete, ele faz as cestas impossíveis... Eu não poderia fazer isso.

Eu entendi tudo. É preciso haver uma ovelha para ser sacrificada, sempre. A ovelha da vez era meu irmão Evan. A arma e a droga provavelmente eram do Lopez, que as esqueceu quando partiu – ou simplesmente acreditava que voltaria para buscá-las. Ele não voltou. Meu irmão Evan assumiu a culpa e foi expulso.

— O que acontecerá com eles? – perguntei.

— Todos vamos responder processos por porte ilegal de arma de fogo dentro de um campus de Universidade, e por tráfico de entorpecentes. Mas eles continuarão lá, e terminarão o curso.

— Só você está pagando, isso não é justo...

Ele cerrou os punhos e me encarou.

— Todos vamos pagar por nossos crimes, Sofia. Mais cedo ou mais tarde. Ninguém consegue escapar disso.

***

O lanche chegou mais rápido do que eu poderia prever.

Ouvimos um mugido alto e ridículo, então o Evan foi buscar nossas bandejas enquanto eu tentava avançar no Tetris do celular dele. Sem querer fui parar na pasta de fotos (só não queria ver fotos pornográficas dele, por isso cruzei os dedos enquanto mexia) e comecei ao olhá-las. Havia umas cento e cinqüenta fotos, e em nenhuma delas ele estava estudando, ou no mínimo com um livro nas mãos. As fotos do começo (mais antigas) mostravam três amigos felizes (Evan, Eddie e Lopez, revezando). Cachoeiras, bares, praias. As fotos seguintes mostravam somente Evan e Eddie (tiradas juntando os corpos e virando o celular ao contrário). Bares, praias. Depois uma mulher começou a aparecer nas fotos (Evan, Eddie e a mulher, revezando). As fotos com a mulher se tornaram maioria, então o outro amigo simplesmente parou de aparecer.

De repente eram apenas Evan e a mulher misteriosa.

Ele chegou com o lanche e me pegou de surpresa. Quase deixei o celular cair, e quando me recuperei do susto, tentei parece o mais natural possível.

— Quem é a mulher que aparece nas suas fotos? – perguntei.

Ele deixou as bandejas deslizarem para a mesa e sentou-se. Arrancou o celular da minha mão e guardou no bolso.

— É apenas uma amiga – disse ele.

É claro que aquilo era mentira. Todo mundo sabe que, à exceção de Claude e eu, homens e mulheres não podem ser amigos. É a mais antiga lei da natureza, mais antiga que a lei do mais forte.

— Amizade colorida?

Ele deu uma risadinha. Depois sugou um pouco do Texas Milk (milk-shake do jeito que se faz no Texas, de acordo com a propaganda. Como se houvesse outra forma de se fazer milk-shake.).

— Se quer partir para o campo dos relacionamentos, eu também tenho umas perguntinhas para fazer – disse ele, e não pareceu brincadeira.

Eu sentia que a próxima idiotice que Evan dissesse me atingiria em cheio. Não sabia porque, mas sentia, em algum lugar do meu corpo. E isso aconteceria em breve.

— Você e o Claude, são apenas amigos ou estão se pegando? – perguntou ele.

Ponto para o Evan. Ele já tinha feito aquela pergunta um milhão de vezes nos últimos anos, e a resposta que eu dava era sempre a mesma: Claude e eu crescemos juntos, somos como irmãos (até misturamos nossos sangue num ritual de amizade certa vez, depois dele confirmar se os pais não escondiam que ele tinha AIDS ou coisa assim) e é assim que nos vemos. Quando ele me abraça eu me sinto como se abraçasse o Papa, e só de pensar em um homem de batina (seja qual for o nome daquela roupa vermelha que ele usa) sinto meu almoço voltar. Não dá nem para beijar alguém que você vê como parte sua – imagine apertar a bunda.

— Eu já disse que somos apenas amigos.

— Nunca aconteceu, nem mesmo um beijo? – insistiu ele.

— Caso não saiba, Evan, o dentista do Claude o proibiu de beijar alguém com aquele aparelho assassino na boca. É um caso de segurança pública, sabia? Ele nem deveria abrir a boca quando sai na rua...

— Eu estou falando sério, Sofia.

— Eu também – falei, mordendo o sanduíche.

Ciúmes. Claude estava com ciúmes de mim, e não era coisa de amigos. Se o devaneio de Evan pudesse ter algum fundamento, isso explicava tudo. Eu não percebera antes porque era burra demais para perceber que, na cabeça vazia do Claude, nossa amizade evoluíra o bastante para se tornar outra coisa.

Meu Deus, ele queria atravessar a friendzone!

Um movimento brusco meu e a bandeja com os restos do meu lanche caiu no chão, fazendo um barulho ensurdecedor. Não sabia que aquela porcaria era de metal.

Imediatamente o Evan se abaixou e começou a catar tudo. O copo de milk-shake caíra, espalhando o líquido por boa parte do piso. Eu me abaixei para ajudá-lo assim que me recuperei da epifania.

— Tudo bem, eu junto isso Sofia... Volte para seu lugar – disse Evan.

Uma das moças do Texas Club (a que estava olhando para o Evan desde que ele entrara e eu podia jurar que fixara os olhos na bunda dele) aparecera de repente com um tecido e um balde de água e sabão.

Ela abaixou-se do lado dele e começou a limpar aquela bagunça.

— Deixe que eu limpo isso, senhor – disse ela.

— Não deixo... – Ele agarrou o crachá dela para ler o nome. – Marie, e eu sou muito novo para ser chamado de senhor.

Ela riu discretamente e pareceu feliz por aquilo ter acontecido. Deveria me agradecer por sujar o chão e dar meu irmão de presente para ela como compensação.

Eu voltei para meu lugar e fiquei olhando o estacionamento, agora ciente do que estava acontecendo. Claude. Meu único e melhor amigo me via como uma presa em potencial (de repente uma cena da National Geographic passou pela minha mente, e eu me via como um cervo fugindo do leão). Um leão pode ser amigo de um cervo?

Antes que Evan e a garçonete terminassem com o chão; antes que minha elucubração terminasse e antes que eu pudesse perceber a nova ordem do universo eu vi Joseph Humfrey entrar na lanchonete e se aproximar da minha mesa como um leão que avistou um cervo machucado.

***

Dessa vez Joseph Humfrey usava camiseta branca, calças jeans caras, tênis pretos e tinha um boné dos New York Jets cobrindo parte dos cabelos. O pai dele foi para o caixa, deixando-o livre como um cãozinho no playground.

Ele meio que deslizou por entre as mesas até onde eu estava. Perto dali Evan recolhia coisas do chão, e quando olhei ele segurava o ombro da garçonete, impedindo que ela se levantasse naquele momento.

— Oi Sofia – disse Joseph quando já estava bem próximo.

Eu tentei manter a calma.

— Oi Joey... Quer dizer, Joseph.

— Como sabe que meu apelido é Joey? – ele puxou uma cadeira e se sentou.

Eu reparei que ele carregava um colar no pescoço com um símbolo estranho. Ao meu lado, um pouco mais abaixo e à direita, Evan continuava abaixado com a garçonete.

— Eu adivinhei – menti.

Ele olhou para o lado rapidamente, como se verificasse alguma coisa.

— Parece que algum imbecil fez uma bagunça danada aqui, não é?

— É, tem gente que não tem mesmo jeito. – Eu me senti uma completa idiota por dizer aquilo de mim mesma. Joseph enfiou a mão no bolso da calça e puxou alguma coisa lá de dentro. Estendeu a mão para mim.

— O que é isso?

— Não disse que devolveria suas drogas assim que meu pai descobrisse a farmácia mais próxima?

Olhei para o lado. Aquela piada não poderia ter sido dita em hora mais inapropriada. Evan tinha uma expressão de poucos amigos, e ainda segurava a garçonete.

— Não precisava, mesmo – falei, pegando os comprimidos e colocando sobre a mesa.

Ele esticou os braços para o alto e jogou o pescoço para trás. Não era apenas a bunda dele que era linda, mas o resto do corpo também.

— Obrigado – disse ele.

— De nada.

Joseph Humfrey ficou calado por alguns segundos, então se levantou e deu dois passos. Quando parecia que iria embora, voltou para minha mesa.

— Escuta, Sofia, sou novo aqui. Não gostaria de sair hoje à noite e me mostrar o melhor de São Francisco?

Joseph Humfrey estava me chamando para sair. Não sei o que aconteceu comigo naquele instante – se meus ovários se alinharam com os astros na abóbada celeste ou se era efeito do sanduíche –, mas eu sentia algo novo dentro de mim, algo grande e incontrolável.

— Às sete horas, você sabe onde moro – falei rapidamente, com medo de que ele se arrependesse e suspendesse o convite. – E deixe seu telefone caso eu decida postergar.

Ele pegou um guardanapo e a caneta hidrocolor que ia de brinde com o lanche. Riscou alguns números no papel e empurrou para mim.

— Sua vez – disse ele.

Quando eu estava prestes a pegar outro guardanapo ele segurou meu punho.

— Não, não... Escreva aqui – disse, apontando para a própria mão.

Eu escrevi meu telefone na pele dele, e foi estranho. A mão direita de Joseph (e imaginava que a esquerda também) era quente e macia. Quando terminei, ele fitou os números com certa idolatria nos olhos.

Joseph, então, cometeu a maior ousadia que eu jamais imaginaria de alguém com quem falava pela segunda vez na vida. Ele se abaixou e deu um beijo na minha bochecha. Foi rápido, quente e intenso. Mais intenso do que qualquer outra coisa que eu já tinha vivido.

Depois ele se foi, sem olhar uma única vez para trás.

Evan levantou-se do chão e pegou a cartela de medicamentos. Não era o tipo de droga que ele estava pensando, e eu também não estava namorando com Joseph Humfrey.

Simplesmente estava apaixonada por ele.