Um universo a mais
8 Capítulo 6
— O que você queria que eu fizesse? Desse um soco na cara dele por ter me roubado um beijo na bochecha?
Evan guiava o carro lentamente pela rua, que era para que tivéssemos tempo de terminar a conversa antes de chegar em casa.
— Quem é esse cara afinal?
— Por que está tão preocupado, Evan? Ele não arrancou nenhum pedaço de mim – falei, ainda pensando no beijo.
— Ele não parece ser um cara honesto. Não parece mesmo.
Eu virei o rosto diretamente para ele.
— Por que ele é bonito, e caras bonitos tem de ser sempre cafajestes? Deveria se enquadrar nessa também... Ah, esqueci que toda regra tem uma exceção, e você deve ser essa exceção, não é?
Ele apertou o volante e bufou.
— Em primeiro lugar, eu não sou bonito. E em segundo lugar, mesmo que fosse não deixaria de ser um cafajeste – disse ele, e mudou um pouco a expressão.
Parecia menos bravo. Mais conformado.
— Desculpe-me por isso, está bem? Eu só fiquei um pouco nervoso por causa de todos os problemas que tenho enfrentado. E agora ainda tenho de sair com aquela garçonete por tê-la segurado daquele jeito.
— Isso aí não foi culpa minha.
— Fiz isso para não atrapalhar vocês dois – disse ele. – E também para sacar qual era a dele.
— Antes de você fazer isso não existia nós dois. Somente Joseph e Sofia, ele e ela. Nenhum eles. Nenhum nós.
Evan parou em um sinal e apoiou o cotovelo no vão da janela.
— Se soubesse disso...
Eu o beijei na bochecha antes que ele terminasse aquela frase ingrata. “Se” não leva ninguém a lugar algum, só faz as pessoas sofrerem por algo que já não podem mudar – se é que um dia poderiam.
— Viu? Não machuquei ninguém – falei, tirando o cinto de segurança.
— Você sabe que foi diferente, Sofia.
Ele parou o carro e eu desci. Quando olhei para trás havia um sorriso bobo no rosto do Evan, como criança que ganhou brinquedo novo.
Entrei em casa e encontrei meu pai sentado no sofá, fingindo que via o noticiário.
— Oi pai – falei, sentando-me ao lado dele.
Ele me abraçou e beijou minha testa.
— Oi docinho. Como foi na lanchonete?
— Inesquecível.
— Que bom... Você e seu irmão já devem ter conversado sobre a situação dele.
— Já, conversamos longamente.
— Mas tem outras coisas sobre as quais quero conversar com você.
Meu pai, herói dos meus dois aos nove anos (agora o sujeito que me envergonhava na frente dos meus amigos, geralmente em festas) estava procurando um jeito de começar uma conversa difícil. Talvez precisasse de uma ajuda, que com toda certeza eu estava disposta a dar.
— Seja o que for que quer me contar, pai, acredite, eu aguento. O que de pior pode acontecer depois que sua mãe salta de uma ponte? – falei.
Ele pareceu concordar. Juntou as mãos diante da boca, como em uma oração, e depois olhou diretamente para mim.
— Faz dez anos que sua mãe se foi, Sofia. Desde então eu tenho me mantido isolado da vida social que costumava ter. Desde então passei a viver somente para você e seu irmão...
E veja só no que deu, pensei, mas não tive coragem de falar. Papai fizera o melhor por Evan e eu, mas nunca é o suficiente. Tem sempre algo que deixamos de fazer, fazemos mal feito ou simplesmente desconhecemos a necessidade de se fazer. Nem sempre é tarde para se arrepender, mas às vezes é tarde demais para qualquer outra coisa que não o arrependimento.
— Sabe que sinto falta de Florence, não sabe?
Ele chamara mamãe pelo nome completo. Ele nunca a chamara assim desde que eu conseguia lembrar, e mesmo depois que ela se fora papai se referia a ela como Flô. Alguma coisa mudara, e eu começava a desconfiar do que poderia ser.
— Pai, aonde quer chegar com isso?
— Quero que saiba que estou conhecendo uma mulher, Sofia. Já faz algum tempo.
Eu não era o tipo de filha que desejava ver meu pai envelhecer e morrer sozinho, de forma que poderia aceitar um namoro da parte dele. Só não entendia a gravidade da situação, a delicadeza com a qual ele dizia aquilo.
— Quanto tempo?
— Seis meses.
— Pai, eu não vejo problemas nisso...
— Nós decidimos nos casar.
Eu parei minha frase. Meu pai se casaria com uma mulher que conhecia há seis meses, e não me contara absolutamente nada?
— O encontro de negócios de ontem...
— Eu fui a um jantar com Miranda. Pedi-la em casamento, na verdade. Desculpe-me por tem mentido.
Eu me levantei do sofá, mas meu pai fez com que eu me sentasse novamente. Estava me sentindo traída, apunhalada pelas costas pela pessoa que mais amava neste mundo – uma vez que minha mãe estava em outro mundo. Sentia uma raiva crescendo em meu peito, como a larva de um vulcão prestes a explodir.
— Quando pretendia me contar? Quando fossem sair para a lua de mel?
— Sofia, docinho, estou contando neste momento. Só não fiz isso antes porque temia que reagisse... Da forma como está reagindo agora. É isso.
Eu cobri os ouvidos com ambas as mãos. Não queria ouvir o que ele tinha para dizer – temia que fossem mais mentiras. Eu não queria que meu pai se casasse de novo. Que ele namorasse algumas mulheres ou saísse com prostitutas, tudo bem, mas se casar e colocar uma estranha dentro da nossa casa? Isso era inconcebível.
— Escute, Sofia. Preciso que encare isso como adulta. Mesmo porque você vai para a universidade no final do ano, então, não fará tanta diferença assim.
— Esperou esse tempo todo porque acreditou que seria mais fácil?
— Não. Eu não planejei isso, Sofia, você está me julgando mal. Eu não sou esse tipo de homem, muito menos de pai. Está entendendo?
— Sim senhor – disse.
Ele cobriu os olhos com as mãos.
— Sei que agora parece o fim do mundo, mas amanhã você verá que não é tão ruim assim. Com o tempo você se acostumará, Miranda é uma ótima mulher...
— Ela é uma espécie de bruxa, ou algo assim? Por que você parece enfeitiçado... Deve ter outros homens sobre os quais ela pode lançar seu feitiço por aí...
— Já chega, Sofia. Você foi longe demais desta vez. Vá para o seu quarto!
Eu me levantei e subi as escadas pulando degraus. Estava cansada, chateada e sentia como se meu cérebro fosse escorrer pelo nariz. Queria que o mundo todo caísse no Estreito de Golden Gate e desaparecesse. Joguei-me sobre a cama e cobri a cabeça com o travesseiro.
Alguma coisa se mexeu perto da minha janela. O telefone de lata vibrava – a janela estava fechada desde a noite anterior.
Peguei o telefone de lata e coloquei no ouvido. Mais uma vez não ouvi nada.
Disquei o número de Claude Jenks e esperei.
— O que você quer, Claude? – perguntei. – Evan me espera.
— Trégua. Se olhar pela janela agora verá uma bandeira branca tremulante.
Olhei. E vi uma cueca branca amarrada a um cabo de vassoura.
***
Era seis e quatorze, o que significava que eu tinha quase cinquenta minutos para começar a me arrumar. Marcara com Joseph às sete, mas não é nada feminino ser pontual. Então pretendia estar pronta às oito. Como era domingo, os bares e restaurantes só fechariam às onze, o que nos dava algum tempo – cerca de três horas – para comer e olhar o céu.
Eu estava de frente para a janela do Claude, mas, para não termos de gritar, usávamos telefones celulares. Estávamos em junho – o que significava verão – mas, quando você mora em São Francisco, sabe que a proximidade com o mar faz a temperatura cair a 16º C à noite. Eu usava um agasalho que ganhara do Evan no último Natal, e via folhas sendo arrastadas pelo vento na calçada.
— Então, seu pai vai se casar de novo – disse Jenks, com uma expressão de quem se lamentava profundamente.
Eu concordei com um sinal de positivo.
— Sinto muito, Sofia.
— Eu também – sussurrei.
— Talvez não seja tão ruim assim... Como você disse que ela se chama mesmo?
— Miranda.
— Não é um nome feio.
— Obrigada por tentar me animar, Claude. Obrigada mesmo – falei, tentando parecer convincente.
Ele fez uma reverência elegantíssima – caso estivéssemos na corte da rainha Elizabeth I durante o período vitoriano. Ali, na minha época, foi simplesmente ridículo. Mas caiu estranhamente bem para Claude.
Claude olhou detidamente para mim. Eu sabia o que se passava na cabeça dele, e isso era o que mais me preocupava. Agora, olhando para ele da forma como eu olhava, tinha certeza mais que absoluta de que jamais poderia amá-lo como ele merecia.
— Posso pedir desculpas novamente a você? – perguntou ele sem mais nem menos.
— Pelo quê agora?
— Pelo ataque de pelanca que tive noite passada. Eu não queria ser inconveniente – disse ele.
Não fora exatamente um escândalo, e se Joseph percebera algo estranho, ele provavelmente não ligava – se não evitaria me convidar para sair, coisa que não fez.
Olhei para o relógio. Seis e meia.
— Você não foi nem um pouco inconveniente, acredite.
Ele pareceu aliviado. Pegou um livro sobre a cama e me mostrou a capa. Nela um enorme dragão lançava fogo pelas ventas sobre um bando de cavaleiros armados.
— Em que parte está? – perguntei.
— No capítulo quinze... Li muito ontem à noite, depois que cheguei em casa.
Eu sabia. O abajur de luz azul ficara ligado a maior parte da noite – depois que eu perdi o sono foi um inferno voltar a dormir de forma efetiva. A todo momento eu acordava, e procurava pela luz azul na janela do Claude. E me perguntei se ler com aquela iluminação não fazia algum mal aos olhos.
— É uma boa história?
— Boa demais. – Aquele demais soou como “é a melhor história que alguém já escreveu sobre cavaleiros e dragões”.
Ele abaixou o livro.
— E você, o que está lendo?
Agarrei meu exemplar de “Passos na Escuridão” e mostrei a ele. A capa trazia uma rua escura e algumas poças de sangue. Assustador.
— É bom?
— Tem que ser. Foi o último livro que L. S. Hoffman escreveu antes de pular daquela ponte amaldiçoada – falei, olhando para o exemplar.
Na verdade o livro poderia até ser ruim, mas eu jamais admitiria. Queria que as últimas palavras do meu autor favorito fossem as melhores. Eu precisava disso mais do que do oxigênio do ar para viver.
— Quer que eu comece a leitura hoje? – perguntou Claude, sentando-se ma cama.
Eu olhei novamente para o relógio. Quinze para as sete.
— O capítulo é muito grande?
— É um autor medievalista. Deve ter umas vinte páginas.
Aquilo demoraria muito. Não contar para seu melhor amigo que você sairia com um cara deveria ser considerado alta traição durante a Idade Média, pensei enquanto abria meu livro. Eu provavelmente iria para a guilhotina se fizesse aquilo.
— E o seu capítulo, é grande?
Folheei o livro. Aparentemente mais um flashback do passado de Eddie, e imaginei que aquilo demoraria um pouco.
— Umas quinze páginas, eu acho.
Claude fez uma cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança e depois sorriu.
— Tudo bem, podemos ler um para o outro amanhã. Já que você quer passar a noite com seu irmão. Posso entender isso.
— Obrigada, Claude. Obrigada mesmo – falei.
Ele tirou o telefone do ouvido e ficou lá, esperando que eu desligasse primeiro.
***
Liguei para o Joseph e pedi que ele tirasse o carro da garagem e saísse como se fosse para qualquer lugar – para o centro, a 17-Mile Drive ou se suicidar na Golden Gate—, qualquer coisa, menos dar a entender que sairíamos juntos.
Tinha medo de que Claude soubesse e ficasse chateado comigo novamente.
Pouco depois das oito horas da noite Evan finalmente aceitou me levar de Jipe até três quadras de nossa casa, onde Joseph me esperaria – em frente a um outdoor onde se lia “Dê asas a seu coração. Use Selvage Horse em todas as ocasiões.” Ao lado da frase havia um homem e uma mulher abraçados e aparentemente felizes com seus jeans Selvage Horse. Meia hora depois ele já poderia voltar para casa. Se Claude percebesse minha manobra (às vezes imaginava que ele vigiava minha casa), eu diria que me senti mal durante o passeio com meu irmão e por isso voltei para casa mais cedo. Tomaria dois calmantes e dormiria antes das nove para recuperar as energias.
Perfeito.
Quando desci do Jipe senti um vento mais frio do que o esperado. Eu usava um vestido preto básico, sem mangas, com saltos quinze e somente um cordão como adereço.
— O que foi? – perguntou Evan quando desci toda encolhida do carro.
Ele tinha feito a volta para ficar na exata direção que seguiria e estacionara o carro paralelamente ao Corolla de Joseph – que naquele momento estava com o vidro abaixado e segurava o volante como se fosse perdê-lo, do outro lado a pista.
— Nada, só esqueci meu agasalho em casa – falei.
— Quer que eu vá buscar?
— Não, não é preciso. Eu me viro.
Evan sorriu para mim, e então apontou dois dedos para os próprios olhos e depois para os olhos do Joseph. Joseph simplesmente deu uma pancadinha na testa com o indicador e o dedo médio alinhados – sim senhor, não se preocupe senhor.
— O que acha que está fazendo? – perguntei, visivelmente transtornada.
Evan não se abalou.
— Antes da meia-noite, ouviu? E se precisar é só ligar.
— Tchau, Evan. Obrigado, Evan. Não sou mais criança, Evan.
Evan me deu um leve tapa na nuca e fechou o vidro. Atravessei a rua correndo e entrei no carro de Joseph Humfrey.
— Oi – falei enquanto colocava o cinto.
— Oi.
Depois ele ficou lá, segurando o volante, sem ação alguma. Apenas olhava meu reflexo no retrovisor interno. Se estivéssemos numa estrada deserta e Joseph Humfrey fosse um assassino provavelmente eu morreria naquele momento.
— Eu fiz alguma coisa errada? – perguntei, torcendo os lábios.
Joseph olhou detidamente para mim, o que causou certo desconforto.
— Nada. Você está perfeita.
— Então, o que estamos esperando?
Ele dedilhou o volante.
— Só queria fazer uma pergunta antes de começarmos essa noite...
Esperei que ele continuasse. Os olhos de Joseph meio que brilhavam.
— Queria saber qual é seu lance com Claude Jenks, porque ele parece gostar muito de você.
***
Claude e eu éramos amigos, e nada mais. Estava cansada daquela pergunta, e o próximo que a fizesse perderia alguns dentes.
— Claude e eu somos amigos de infância – expliquei.
— Só isso?
Ele pareceu duvidar um pouco.
— Nós crescemos juntos, estudamos juntos e somos vizinhos. Não é o bastante?
Joseph deu a partida no carro.
— É mais do que o bastante – disse ele, entrando na pista.
Evan deu uma buzinada discreta, e Joseph respondeu. Eu acompanhava os faróis do carro do meu irmão ficando pequenos à medida que nos afastávamos, até desaparecerem por completo.
Eu me sentia bem ao lado de Joseph, e havia sonhado com aquele momento desde a primeira vez que o vi (sem exageros). Até fantasiava nosso primeiro encontro, as trocas de olhares, o primeiro beijo (no rosto não contava). Por um instante esquecia de todos os problemas da minha vida, para me concentrar somente em Joseph Humfrey. O cavaleiro que me protegeria (pelo menos durante aquela noite) do dragão chamado solidão. Não sei por que a palavra dragão surgiu de repente na minha cabeça, e imaginei o Claude lendo aquele livro horrivelmente grande de fantasia, iluminado apenas por um abajur de luz azul.
Aquela imagem estragou meu devaneio e fez com que eu voltasse ao mundo real.
— Terra para Sofia... Terra para Sofia... – repetia Joseph quando eu voltei a escutá-lo. – Como estão as coisas aí na estratosfera? Tem um rapaz aqui embaixo que precisa da sua atenção.
— Desculpe-me. Eu me distraí. O que você me perguntou mesmo?
— Perguntei para onde vamos. Estou dirigindo há dez minutos apenas por instinto – disse ele.
Eu olhei para a tela do GPS.
— Onde estamos agora?
— Interestadual 561.
— Pegue a saída Norte, 563 – pedi.
Ele acelerou o carro e entramos no desvio. Giramos um pouco, e logo depois pegamos a 563, na direção de North Beach. Foi uma viagem de pouco mais de vinte minutos até a Little Italy, um restaurante italiano famoso em São Francisco.
Quando descemos e começamos a caminhar reparei que o céu estava estrelado como nunca – como se os astros celestes fossem nos ver juntos. Parecia natural para esse universo que Joseph e eu tivéssemos um momento assim. Puro. Sublime. Perfeito.
Ele segurou meu braço com cuidado e fomos até o maître que, gentilmente, nos conduziu até uma ótima mesa. Pedimos um vinho branco para tomarmos enquanto escolhíamos o que comer. Havia poucas pessoas no restaurante, e isso fez com que eu me sentisse melhor do que imaginava.
Joseph puxou a cadeira para que eu me sentasse (ninguém jamais havia feito isso para mim) e então ficamos olhando para o céu. Até que decidi que era preciso interromper aquela cena quase mágica com alguma besteira.
— Bem vindo a São Francisco. Temos oitocentos mil habitantes, dos quais 60% são estrangeiros. Quatro mil restaurantes, quarenta e três montanhas e uma ponte da morte – falei, erguendo a taça.
Joseph encostou a taça dele na minha, e ouvimos o titilar dos cristais. Depois bebemos o vinho.
— É bom ter você para me dizer todos esses números – disse ele, olhando o cardápio.
— Eu li na Wikipédia para um trabalho de História II – confessei.
Joseph riu com o canto da boca, então largou o cardápio e ergueu a mão.
Um garçom apareceu logo depois. Como posso ajudá-lo, senhor? Ele fez o pedido e esperou que eu terminasse. No fim decidi acompanhá-lo, e escolhemos a sugestão do chef.
Tudo seguia perfeitamente, até Albert e Corina Jenks entrarem no restaurante.
***
Acho que o efeito da presença dos pais de Claude foi imediato, porque senti todo o meu sangue deixar minha cabeça da direção das pernas e ouvi Joseph me perguntar quantos dedos eu estava vendo.
O maître apareceu logo depois, oferecendo ajuda, o que só chamou mais atenção para mim.
— Sofia, você está bem? – perguntava Joseph, segurando meus ombros. – O que você está sentindo?
É claro que eu estava bem, só não queria que os pais do Claude me vissem com Joseph naquele restaurante. Certamente a mãe dele contaria na primeira oportunidade.
— Eu senti uma tontura...
— Deseja que eu chame uma ambulância, senhorita? – perguntou o maître.
— Não é preciso, já me sinto melhor. Acho que foi o vinho... Que vinho é este mesmo?
— Napa, 1982, uma ótima safra local – respondeu o maître. Ele pareceu ofendido com minha pergunta, mas que se danasse – eu só queria escapar daquela situação com o mínimo de dignidade.
Joseph molhou a mão em uma taça de água e passou no meu pescoço. Foi gostoso, porém desnecessário.
— Nada de vinho para você a partir de agora – decretou Humfrey.
Eu concordei, e o maître sorriu.
— Seu jantar será servido. Com sua licença.
Quando dei uma espiadinha no casal Jenks percebi que Corina olhava para minha mesa. Cutucou o marido e eu sabia qual seria o próximo passo – se não fôssemos até eles, eles iriam até nós.
Continuei sobre os cuidados de Joseph, então ela se levantou e foi até nossa mesa.
— Sofia, querida, reparei que você não parece bem. Está sentindo alguma coisa? Albert e eu podemos fazer algo por você?
Joseph cerrou os lábios.
— Obrigada, senhora Jenks. Está tudo bem agora, foi um mal estar súbito, mas já passou – falei.
— Eu só queria me colocar à disposição, Sofia é nossa vizinha desde sempre – falou a senhora Jenks, olhando diretamente para Joseph.
— É uma ótima vizinha – respondeu ele.
A mulher pareceu desconcertada. Entrelaçou os dedos e sorriu.
— De certo que é... E o senhor?
— Senhora Corina Jenks, Joseph Humfrey. Joseph Humfrey, Senhora Corina Jenks – falei, um pouco mais calma.
Ela olhou para mim por um bom tempo, com aqueles olhos de piedade que eu detestava. Virava o pescoço para um lado, e depois para o outro. Por fim voltou para a mesa dela e pareceu discutir com o marido.
Nosso jantar foi servido em seguida, no mesmo instante em que uma mensagem chegava ao meu celular. Senti o aparelho vibrar entre os seios, e com um pouco de dificuldade consegui retirá-lo de lá.
Cheguei em casa agora. Boa Sorte, Evan.
Acho que ele só dormiria quando eu chegasse em casa, o que, de certa forma, me tranquilizava um pouco – afinal Evan tinha sido um meio-mãe e meio-irmão para mim desde que nossa mãe se fora.
Guardava o celular quando outra mensagem chegou. Evan era muito preocupado com correio eletrônico, e não eram poucas as vezes que ele me mandava dois e-mails, duas mensagens, etc, com medo de que a primeira se perdesse e fosse parar no celular da pessoa errada.
Mas a segunda mensagem não era do Evan.
Era do Claude.
Adivinha só! Estou sozinho em casa (meus pais foram jantar num restaurante italiano) e acabo de ver você e seu irmão chegando (o carro, na verdade). Acha que podemos continuar a leitura dos livros agora? Claude.
Se ele tivesse me dito que os pais iriam para um restaurante italiano eu tinha levado o Joseph para Chinatown. Comecei a digitar uma resposta com o máximo de rapidez que conseguia.
O jantar estava servido e Joseph olhava para mim, como se esperasse meu aval para começar a comer.
— Pelo que vejo você é uma garota realmente ocupada – disse ele, fitando meu celular.
— Não é nada do que está pensando. É só um probleminha que tenho de resolver.
Eu tive uma reação alérgica a ostras e estou morrendo de dor de cabeça – o anti-histamínico que eu tomei no posto de urgência já começou a fazer efeito. Vou direto para a cama. Tudo bem se nos falarmos amanhã? Sofia.
Apertei enviar e esperei a confirmação.
— Pronto. Acho que podemos jantar em paz agora – falei para o Joseph, que sorriu aliviado por eu desgrudar daquele celular.
O telefone voltou a vibrar sem seguida.
Já subiu? Precisa me ensinar a fazer as coisas no escuro, porque a luz do seu quarto está apagada.
Selecionei o número do Evan e escrevi:
Por favor, Evan, suba, acenda a luz do meu quarto e fique longe da janela. Obrigada. PS: Espere dez minutos e apague a luz novamente. PS.PS: Vou dever esse favor a você pelo resto da minha vida.
Apertei enviar e esperei.
Selecionei novamente o número do Claude e digitei:
É que a luz machuca meus olhos – acho que é uma reação ao medicamento. Vou tomar banho e depois dormir. Boa noite Claude.
Enviei a mensagem e esperei. Chegou outra mensagem em seguida.
Acha que sou seu cúmplice de mentiras agora? Por que não conta para o Claude a verdade, não é mais simples? Evan.
Voltei a digitar.
Agradeceria se não se metesse demais nas minhas mentiras. Agora, por favor acenda e depois apague a maldita luz para sua irmã praticamente moribunda. Obrigado Evan.
Tentei sensibilizá-lo com o moribunda. Quando voltei a olhar para Joseph ele parecia infeliz.
— Desculpe-me. Foi a última mensagem. Prometo.
Então o telefone começou a tocar insistentemente.
***
O que o 007 faria se o telefone dele começasse a tocar no meio de uma missão?
Eu não tinha uma resposta para aquela pergunta, mas imaginei que ele talvez simplesmente jogasse o aparelho fora.
Eu não era o James Bond, nem poderia jogar meu telefone fora. Por isso só tinha duas opções: deixar que ele tocasse ou atender. Ambas as opções exigiriam estratégias que eu ainda não tinha elaborado, o que muito me preocupava.
Optei por ignorar a primeira ligação, e se ele insistisse, decidiria o que fazer. Quando a primeira ligação perdida apareceu na tela, acreditei que estava salva. Então o telefone recomeçou a tocar.
Apertei o botão “Atender” e tentei fazer uma voz de quem acabara de sair da fase REM.
— Alô?
— Sofia, sou eu, Claude.
– Ah, é você, Claude.
— Só liguei para saber se você está melhor.
— Eu estarei, amanhã, quando acordar sem essa reação alérgica... Obrigada por ligar, tenha uma boa noite...
— Escuta, Sofia... Eu queria te falar uma coisa...
Antes que ele terminasse alguém gritou “Garçom!” em algum lugar do restaurante, e eu quase deixei o telefone cair. Deveria ter ido para o banheiro atender àquela maldita ligação.
— O que foi isso? – perguntou ele.
— Acho que foi meu pai gritando com o Evan – menti.
— Pensei ter ouvido claramente alguém gritar “garçom”... Tem certeza de que está tudo bem, Sofia? Você parece estranha...
Eu disfarcei meu nervosismo tentando mentalizar a queda de Golden Gate. Parecia melhor do que aquela tortura.
— Claude, você é péssimo em perceber essas coisas, então, como sou sua amiga vou facilitar para você: eu realmente preciso dormir. Se quiser podemos ler todos os livros medievais que você tem aí amanhã, quando eu estiver melhor. Agora, por favor, apague a luz do seu quarto porque a claridade está me incomodando.
Ele não demonstrou surpresa alguma, e se ficou chateado não deixou que isso transparecesse. Também não disse se a luz estava apagada ou acesa – eu aparentemente adivinhei.
— Tudo bem. Conversamos amanhã. Tchau, Sofia.
— Tchau.
Desligou logo depois.
Olhei para a tela do celular por um tempo. Quando voltei a olhar para o Joseph ele parecia um barril de pólvora prestes a explodir, e já estava na metade do prato dele.
— Desculpe-me mais uma vez...
— Não precisa pedir desculpas, Sofia.
Aquilo soou ao meu ouvido como “não quero ouvir você me pedindo desculpas a noite toda”. Eu suspirei, peguei o garfo e dei a primeira bocada na comida. Estava fria, porém saborosa.
— As noites daqui são muito bonitas – comentou ele.
Tive de concordar, apesar de não saber como eram as noites de outros lugares para comparar. Eu nasci e cresci em São Francisco, e sempre morei nos mesmos bairro, rua e casa. As mesmas estrelas pairavam sobre mim há dezessete anos.
— Você ainda não me contou porque veio pra cá.
Joseph Humfrey mostrou um sorriso enigmático – um pouco triste, um pouco conformado. Depois começou a brincar com um saleiro. Ele girava o objeto entre os dedos, como se fosse largá-lo a qualquer instante.
— Você acredita em sorte? – perguntou ele.
Pensei na loteria. No portal. Em Golden Gate.
— Às vezes...
— Eu também. – Ele riu. – Certo dia meu pai chegou em casa e disse: “Prepare-se, Joey, a partir de hoje vamos viver com o pé na estrada. Conheceremos todo o país, e talvez outros países também.” Naquele momento pensei que a sorte estivesse do meu lado. Cara, eu tinha ganhado na loteria! Quem não gostaria de conhecer gente nova quase todo mês? Isso seria demais.
Só que era a loteria da morte, adivinhei.
— Logo depois ele disse que minha mãe tinha câncer no cérebro. Então meu mundo desmoronou de uma única vez.
Silêncio. Eu sabia que Joseph precisava daquele tempo para reorganizar suas ideias. As pessoas em torno de nós continuavam a viver suas vidas indiferentes ao que ele passava. O mundo continuava a girar.
— Meu pai fez disso uma espécie de “Liga Contra o Câncer – Onde a temporada dos jogos não pode chegar ao fim”. Onde há notícia de novos tratamentos, lá vamos nós atrás. Minha mãe parece não se importar muito com as viagens, então, ele é que nos carrega de estado em estado, de Universidade em Universidade, de hospital em hospital. Ele assina todas as revistas de divulgação científica, e não sai do Google Acadêmico. Às vezes acordo de madrugada e lá está ele, quase cego, olhando para aquela tela de cristal líquido que emite radiação. Chega a ser deprimente.
Por mais que tentasse imaginar as razões que levaram Joseph Humfrey a se tornar meu vizinho da esquerda, jamais poderia chegar àquilo. Era demais mesmo para mim. Ter uma mãe doente e um pai com medo incontrolável de perdê-la parecia paradoxal demais.
Quando achei que Joseph pararia, ele recomeçou:
— Glioblastoma multiforme fase IV. Um nome horrível para uma doença não menos horrível – disse ele, fungando o nariz. – Sabe, nós tentamos de tudo, viajamos por metade do país quando ela já não respondia ao tratamento convencional. A cirurgia removeu 99,99 % do tumor, mas em um mês ele estava de volta, como se nunca tivesse saído de lá. Ela tomou temozolomida por via nasal durante três meses. Então, quando tudo parecia estar melhorando, um segundo tumor surgiu na base do encéfalo. Inoperável. Recorremos a WBRT (irradiação do cérebro inteiro), e durante seis semanas ela não reconheceu ninguém. Eu me sentia como um alienígena diante da minha própria mãe. Ela não sabia o nome do filho, o próprio nome, Sofia...
Eu engoli em seco. Se tinha uma coisa que Joseph Humfrey certamente não era, essa coisa se chamava feliz.
— Sinto muito – falei, sem saber o que mais poderia dizer.
Ele deu uma risada meio sem graça.
— Eu não deveria estar falando essas coisas em nosso primeiro jantar – acrescentou ele pretensiosamente.
— Como sabe que haverá outros? – perguntei, tentando bancar a difícil.
Joseph voltou a mexer com o saleiro. Aparentemente, ele precisava ter as mãos sempre ocupadas.
— Espero que tenhamos outros porque você não vai encontrar alguém melhor do que eu para assisti-la mexer em seu celular enquanto jantamos.
— Desculpe-me por isso – falei.
— Não... Não vou desculpá-la Sofia Spencer, a não ser que aceite meu próximo convite para sair – disse ele, sorrindo.
Simplesmente sorri. Eu tinha de admitir que Joseph Humfrey não precisava ser insistente para ter seus pedidos atendidos.
— Então, vamos à sobremesa?
Depois da sobremesa saímos do restaurante e Joseph não quis dividir a conta – fez questão de pagar com um cartão de crédito internacional. Ponto para ele, acho.
Caminhamos lentamente até o carro, olhando para as estrelas. Estava muito frio, e eu deveria mais me assemelhar a um pinto molhado do que a uma gata borralheira, encolhida por causa da sensação térmica de doze graus e meio.
— Como ela está agora? – perguntei depois de certo tempo.
Joseph suspirou, como se fosse difícil permitir que o ar entrasse nos pulmões, e respirar fosse uma opção.
— O último tratamento só serviu para manter o tumor com o tamanho que ele adquiriu logo após a cirurgia. Agora, tentamos manter o PSF dela. Só isso.
Eu torci o lábio superior.
— Ah, desculpe-me. Estou tão habituado a usar as siglas que às vezes esqueço-me de defini-las: PSF, tempo de vida sem progressão.
— Então é um tratamento paliativo – falei sem emoção.
Ele concordou com os olhos. Estávamos a um passo do carro.
— Talvez papai tenha alguma esperança, mas, para ser sincero com você, Sofia, eu já não tenho nenhuma. E não gostaria de estar em casa quando acontecer... Sabe, estamos nessa loucura há dezesseis meses, já viajamos por oito estados diferentes e todo mundo que tem esse tumor morre...
A loteria da morte agindo, mais uma vez. Às vezes queria saber quem lucrava com ela, porque parecia só haver perdedores.
— Não quer ir para casa agora, quer? – perguntou ele exatamente quando eu abria a porta do carro. – Não são nem onze horas ainda, e Evan disse “até a meia-noite”, ouvi muito bem.
— Acho que ele disse “antes da meia-noite”.
—Não gosta da minha companhia, Spencer?
Limitei-me a sorrir. Mais do que imagina, Humfrey. Mais do que imagina.
***
Se eu estivesse certa (e de certa forma estava), Joseph Humfrey tentaria me beijar quando chegássemos à praia.
Não um beijo idiota, como o que ele me deu na lanchonete. Mas algo intenso, épico, digno de cinema. Imaginava mais ou menos como seria, nós dois correndo pela areia branca, um na direção do outro, em câmera lenta, até nos encontrarmos no meio da cena perfeitamente enquadrada. Então ele pararia por um segundo (tempo suficiente para que olhássemos nos olhos um do outro e tivéssemos certeza não se tratar de dublês ou clones malignos). Depois, ele seguraria minha cabeça meio de lado, e me beijaria como se o mundo estivesse prestes a desaparecer em uma fenda espacial. Foi o que imaginei. Mas no fim daquela noite eu meio que queria ver o mundo desaparecer em uma fenda espacial – de verdade.
A água estava gelada, e eu usava um casaco que Joseph me emprestara – ele tinha um no porta-malas do carro. Eu carregava os sapatos na mão (salto e areia definitivamente não combinam), e ele usava os sapatos dele sem medo de ser feliz.
Eu caminhava ao lado do mar, sentindo a maresia beliscar meu pescoço, e as ondas acariciarem meus pés, brincando por entre os dedos enrugados. A espuma branca parecia emergir do fundo da água, como um prelúdio de que tudo poderia ser bom, se tivesse de ser.
— Não posso acreditar que alguém como você não tenha ninguém – falei depois de muitos passos na areia.
Ele manteve uma expressão séria. Joseph Humfrey parecia muito adulto com aquele terno (agora a camisa estava largada, meio fora da calça e a gravata ficara em algum lugar entre o carro e a praia) e a próxima coisa que diria, provavelmente, atestaria justamente o contrário.
— Pois não tenho mesmo. Diga-me, sinceramente, Sofia, quando foi a última vez que viu um homem pelado? – perguntou ele.
— Nos meus sonhos.
Rimos.
— Como foi mesmo que chegamos a esse assunto? – perguntei, puxando a gola do casaco mais para cima. Já havíamos andado uns quinhentos metros praia afora, e eu começava a ficar com medo de que Joseph Humfrey fosse um assassino – ou, no mínimo, pretendesse ficar nu na minha frente antes que aquela noite terminasse.
No fundo, talvez eu desejasse que ele ficasse nu para mim, mas ao mesmo tempo não saberia o que fazer caso ele ficasse. Era uma coisa meio doida que só acontecia quando eu o via, e que eu só tinha sentido uma única vez antes – com o Batman (interpretado por Val Kilmer, claro).
— E você? É engraçada, inteligente e espirituosa. Por que está solteira?
— É que eu tenho um piercing na vagina, e toda vez que mostro a um rapaz ele fica com receio de perder, você sabe, a parte mais interessante da festa.
Joseph pareceu mais relaxado do que no restaurante – e eu com certeza estava mais relaxada também. Ele apoiou as mãos no joelho como se tivesse perdido o ar, então riu sem parar por dois minutos.
— Obrigado pela gentileza, mas não foi tão engraçado assim – falei, puxando-o pelo braço.
— Claro que foi, quem mais pensaria em um coisa dessas?
Continuamos a caminhar como um casal apaixonado que ainda não éramos, e que eu não mais tinha certeza se um dia seríamos. Parecia besteira imaginar que o homem da minha vida bateria à minha porta no meio da noite pedindo uma superdose de aspirina para a mãe que sofria com dores de cabeça incuráveis.
— Só para você saber, garotos não tem medo de piercing em vaginas.
— Não? Então o problema deve ser alguma outra coisa – falei.
Pisei em falso e Joseph me segurou antes que eu caísse no mar. Ele me ajudou a me recompor, então olhou para o chão e pegou alguma coisa.
— Para você – disse, me entregando uma concha enorme, do tamanho da mão de um jogador de basquete.
— Isso quase me derrubou – falei, com intenção de atirar aquele troço de volta ao mar para que não atentasse contra a vida de mais ninguém.
Mas ele impediu meu lançamento de concha.
— Se você lança tudo o que a fere para longe de si, corre o risco de apenas postergar seus problemas. Logo o mar trará essa concha novamente, e talvez não aja ninguém para segurá-la quando estiver prestes a cair – disse ele.
Eu desisti de atirar a concha, e já começava a vê-la com outros olhos.
— O que sugere então?
— Que mantenha essa concha em um lugar onde possa vê-la, assim como os seus problemas. Enfrente-os, todos os dias, todos os instantes se for preciso, mas não os jogue para longe sem, antes de tudo, tentar superá-los.
Ele ficou olhando para o mar diante de nós.
— Por que está me dizendo isso? – perguntei, mesmo que imaginasse a resposta.
— Por que uma vez eu tive a oportunidade de jogar a concha para longe de mim. – Ele desviou os olhos do mar e me encarou. – Quando meu pai disse que mamãe estava doente eu realmente achei que era certo viajar com eles em busca da cura. Porém, uma semana depois, chegaram quatro cartas de admissão: três das melhores Universidades dos Estados Unidos e uma de Ottawa, Canadá. De repente ir para a Universidade, algo que eu não queria fazer, parecia melhor do que partir em um tour nacional por hospitais. Parecia melhor do que ver minha mãe morrer lentamente, sem poder fazer nada, a não ser ajudá-la a arrumar as malas cada vez que meu pai ficava sabendo de uma nova terapia milagrosa.
Eu entendia o Joseph. Ele queria lançar aquela concha para longe, e não ter de pensar nela mais.
— Então, pedi ao meu pai que decidisse por mim, que me dissesse o eu fazer. Sabe o que ele me disse? “Pergunte a um homem se ele realmente deseja ir para a guerra.” Ele não queria fazer aquilo tanto quanto eu. A diferença é que ele aceitara a concha que lhe foi dada sem pensar em desistir dela, nem por um momento. Minha mãe dependia dele, e ele não poderia abandoná-la. Eu não poderia abandoná-la. Desde então eu faço cursos livres nas escolas e Universidades por onde passamos, porque ninguém vai me aceitar por dois meses e me dar transferência seis vezes por ano.
Ele sorriu, mas pareceu triste mesmo assim. Aquela foi uma decisão realmente difícil de tomar, imaginei.
— Você mais parece minha terapeuta falando – sussurrei, deixando que ele me abraçasse com a concha entre nós.
Então Joseph Humfrey me beijou pela segunda vez. Não na boca (como o momento pedia), ou no rosto (talvez uma reincidência?), mas na testa. O último lugar onde se deve beijar uma mulher com a qual se pretenda ter relações sexuais (não que eu quisesse isso naquele momento, estava pensando num futuro distante).
Acho que alguém deveria ensinar àquele rapaz como se deve beijar uma garota.
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