Um universo a mais
9 Capítulo 10
— Não sei por que aceitei participar dessa sua nova idiotice, Sofia. Da próxima vez me dê a opção de cometer suicídio.
— Suicídio não é uma opção. Escute meu plano. Eu vou para a festa com o Claude. Chegando lá, ficarei por mais ou menos meia hora com ele. Você deverá estacionar o carro na rua de trás, e esperar por mim. Voltarei para casa com você. Então voltarei para a festa com o Joseph. Nesse meio tempo preciso que fique distraindo o Claude, ao mesmo tempo em que me informa a posição dele na festa. Eu cuidarei para que os dois não se encontrem, e ficarei oscilando entre eles.
— Você é louca – disse ele.
— Estar vivo é uma espécie de loucura – falei, terminando de ajeitar o vestido no corpo.
— Isso não dará certo, Sofia.
— Tem que dar.
Descemos as escadas. Meu pai assistia a uma série medieval com muitas lutas e corpos decapitados.
— Você está linda – disse ele, beijando minha testa.
— Obrigada.
— Ficarei de olhos bem abertos... Caso ela volte.
— Não quero chorar agora, pai. Obrigada mesmo assim.
— Cuide bem da minha menininha – disse ele, olhando para o Evan.
Muitas pessoas diferentes teriam de cuidar de mim aquela noite, mas meu pai não precisava saber daquilo. Tem coisas que é melhor nem contar. Saímos Evan e eu. Ele pegou o carro e foi para a festa.
Eu caminhei até a casa do Claude. Ele me esperava – e ainda parecia tão lindo quanto antes.
— Você está maravilhosa, Sofia... Quer dizer...
— Maravilhosa é um ótimo adjetivo. Obrigada, Claude. Podemos ir logo?
Ele abriu a porta do carro para mim. E dirigia lentamente, quase parando. Acho que Claude deveria ser conhecido como o roda presa de São Francisco. Se não fosse provavelmente passaria a ser depois daquela noite. Olhei para o relógio. Oito e quinze. Tinha me esquecido de contar o tempo que levaria para chegar até a festa.
— Pode ir mais rápido? – perguntei, com medo de que tudo começasse a desandar ali.
— Desculpe-me, Sofia, mas minha carteira é provisória. E não quero perdê-la.
Eu suspirei. Seria uma longa noite.
***
Chegamos à festa faltando quinze minutos para as oito horas.
— Vou estacionar, me espera na entrada? – perguntou Claude.
— Por favor, não demore mais do que cinco minutos – pedi, um tanto quanto aflita.
Ele torceu a sobrancelha, mas não disse nada. Levou o carro para longe.
Caminhei alguns metros e parei em frente à entrada superiluminada. Alguns casais passavam de mãos dadas, mas eu não conhecia nenhum deles. Um cara vestido de esquilo recebia as entradas na porta – aquilo me deixou um pouco preocupada, pois teria de entrar duas vezes por ali. Por cima da entrada havia uma enorme faixa onde se lia: BEM VINDO À “DE VOLTA PARA O FUTURO”. Pensei na relação entre esquilos e o filme do Spielberg, mas nada me veio à mente, a não ser que o sujeito que escolheu aquele nome era um idiota.
Claude apareceu logo depois, ajeitando o blaze. Não precisava, estava perfeito. Ele estava perfeito.
— Vamos?
Ele me ofereceu o braço, e eu aceitei. Caminhamos na direção da porta, entregamos as entradas ao esquilo e um mundo de luz, cores e futilidades nos recebeu. Havia um tapete vermelho enorme, e um fotógrafo ao fim dele – não sabia eu para quê. Os casais paravam, eram fotografados e seguiam adiante.
Entramos numa pequena fila, e eu sentia o sapato apertar meu pé. Abaixei-me para arrumar e olhei a tela do celular – faltavam menos de dez minutos para as oito horas. Havia uma mensagem do Evan:
Onde você está? Evan
Não teria tempo de responder. Antes que tentasse Claude me puxou para cima. A fila andara, e chegara nossa vez.
O fotógrafo acenou para que nos aproximássemos. Claude passou a mão pela minha cintura e olhamos para a câmera. Um flash depois estávamos livres e andando novamente.
— Você está estranha hoje, Sofia. Alguma coisa errada?
Eu precisava me livrar de Claude o mais rápido possível.
— Só estou com sede, por que não pega uns drinques para nós? – falei, fingindo acenar para uma garota de vermelho. Ela olhou para trás e deu de ombros. – Vou conversar com uma amiga e espero você perto da piscina...
— Mas acabamos de chegar... Tudo bem.
Ele se afastou e eu fui à direção da saída. Passei pelo garoto esquilo – na direção contrária a todos –, e corri para a rua atrás do clube.
Evan me esperava impaciente.
Abri a porta do carro e entrei de qualquer jeito.
— Sabe que horas são? – perguntou ele, ligando o carro.
— Obrigada Evan, eu tenho relógio.
Evan acelerou o Jipe pelas ruas de São Francisco com ferocidade. Por duas vezes quase batemos em outro veículo – mas nada que alguns xingamentos não resolvessem.
Uma mensagem surgiu na tela do meu celular:
Onde você está? Não consigo encontrá-la e o ponche está esquentando na minha mão. Claude
Eu não acreditava que Claude tomaria ponche depois do que aconteceu conosco. Na verdade, se me recordasse que havia uma piscina no Clube eu teria desistido de ir àquela festa.
Estou no banheiro, já te encontro. Sofia
— Veja só o que estou fazendo por você – lamentou Evan.
— Cale a boca e dirija – ordenei.
Chegamos à minha casa quando o relógio marcava oito horas e quinze minutos. Ele parou na rua de trás. Saltei do carro e corri na direção da cerca branca.
— Tudo bem, Evan, pode voltar e segurar o Claude um instante?
— Quer que eu coloque um saco na cabeça dele e o jogue da ponte?
— Invente alguma coisa, sei que você é criativo. Quando chegar lá eu penso no que fazer. Agora me ajude a saltar a cerca da minha própria casa – falei, levantando uma das pernas.
O vestido fez um gemido estranho – como se alguma parte dele rasgasse. De qualquer forma consegui passar. Joseph segurou minha mão e, antes que eu saísse correndo, me deu outra entrada. Devia aquela a ele. Atravessei o quintal e cheguei à porta da frente. Um minuto depois o carro de Joseph apareceu.
Caminhei lentamente na direção do carro, ainda me recompondo. Esperava que minha respiração normatizasse quando chegasse ao veículo que me levaria de volta à festa – esquecia-me que Joseph Humfrey estava dentro dele, e ele geralmente era a pessoa a tirar meu fôlego, e não devolvê-lo.
— Você está linda – disse ele quando eu me aproximava. – Desculpe-me por deixá-la esperando, sei que combinamos oito horas, mas mamãe se sentiu mal e eu tive de ficar com ela um pouco mais, até os medicamentos da noite fazerem efeito.
Joseph tinha descido do carro somente para abrir a porta para mim. Usava smoking, e aquilo fazia com que parecesse bem mais velho do que realmente era – ele tinha dezoito anos.
— Obrigada. São seus olhos – falei, deixando que ele me girasse levemente ao redor de mim mesma.
— Meus olhos não seriam tão generosos – disse ele. – Sua beleza é real, Sofia. E indiscutível.
Ele me deu um beijo rápido na boca.
— E como sua mãe está agora? – perguntei, tentando mudar um pouco de assunto.
— São altos e baixos, Sofia. Ela está bem, e no minuto seguinte pede para cortarmos a cabeça dela. Mas não vamos falar disso agora. Hoje é a nossa noite.
E que noite! Jurei para mim mesma que nunca mais reclamaria de tédio durante toda a minha vida – caso eu escapasse viva de tudo aquilo.
Entramos no carro e Joseph guiou com responsabilidade. De vez em quando eu olhava o celular, e via os minutos escorrerem como água pelo ralo. Passava das oito horas e quarenta minutos quando chegamos.
Leva o Claude para longe da entrada. Estou chegando. Sofia.
Quando Joseph e eu chegamos o rapaz vestido de esquilo fez cara de quem já tinha me visto antes, mas eu o ignorei. A mesma coisa aconteceu quando paramos em frente ao fotógrafo. Ele olhou para mim e coçou a cabeça. Depois tirou a foto.
Joseph e eu caminhamos por entre as pessoas – a festa estava muito cheia. Havia um telão ao fundo, e uma piscina enorme do lado esquerdo, cuja superfície estava coberta de balões de festa.
Muitas luzes, tendas e mesas com comida. No telão havia um anúncio repetitivo: hoje receberemos os jogadores dos Esquilos de São Francisco, que venceram brilhantemente os Cosmopolitanos de San Diego. À meia-noite serão coroados o Rei e a Rainha Esquilo.
Aquilo foi o cúmulo da idiotice. Deixei que Joseph me puxasse por um tempo, sem pensar direito no que fazia. Quando percebi estávamos ao lado da piscina.
O que está fazendo? Posso vê-la daqui, Claude e eu estamos no fliperama. Evan.
Puxei Joseph na direção contrária, antes que ele visse o Evan – que naquele momento fazia de tudo para manter o Claude concentrado nos jogos. Havia um tapete de dança que fazia o maior sucesso mais ao fundo.
— Eu quero um ponche – falei, empurrando Joseph para a fila. – Vou ao banheiro.
Fiz cara de gata borralheira e ele não reclamou. Era uma fila monstruosa.
Caminhei na direção do banheiro, mas dei a volta por trás da mesa de ponche e fui na direção do fliperama.
— Ah, você está aí – falou o Claude ao perceber minha aproximação. – Achei que tivesse se afogado no vaso.
Eu ri educadamente. Ele estendeu um copo de ponche quente, o qual agarrei e bebi de uma única vez. Tentei fazer uma cara de que estava gostoso.
Evan, um pouco atrás de Claude, fazia o sinal que indicava que eu perderia o pescoço em breve. Queria ter respondido com outro sinal, mas achei melhor não.
— Então, o que acha de darmos uma volta? – sugeriu Claude, pegando meu braço.
— Aqui está tão bom, acho que podemos ficar mais um pouco – falei, vendo um casal subir no tapete de dança.
Claude suspirou e se deixou vencer. No final as mulheres sempre vencem. O casal começou a dançar animadamente, e depois de algum tempo o homem arrancou a gravata.
— Agora quem precisa ir ao banheiro sou eu – falou Claude, deixando o copo vazio na minha mão.
Quando Jenks saiu Evan me puxou para perto dele.
— Eles vão se encontrar em breve, essa festa é pequena. Então, isso tudo irá por água abaixo – sussurrou ele em meu ouvido.
— Quer apostar que eu consigo manter isso até a meia-noite? – perguntei, blefando.
— Fico te devendo outra se ganhar – falou Evan. – Até a meia-noite, nem um segundo a menos.
Apertamos as mãos. O jogo tinha começado.
***
Saí andando pela festa. Nove horas em ponto. O telefone tocou – era o Joseph. Finalmente conseguira pegar o ponche – foi o que consegui entender em mio ao vozerio que tomou conta da ligação. Encontrei-o meio perdido na multidão.
— Vamos para um lugar mais reservado? – perguntei. – E acho melhor nos comunicarmos por mensagens, quer dizer, se eu por acaso voltar a me afastar de você novamente.
Ele deu de ombros.
Começamos a andar. Havia uma tenda no extremo-oposto do fliperama que parecia perfeita: karaokê. Joseph era apaixonado por aquilo, e eu sabia que, quando ele começasse, era impossível fazê-lo parar. As próximas três horas passariam voando, e eu ganharia a aposta.
— Não sei se quero cantar hoje, Sofia – disse ele assim que chegamos. – Quero ficar mais com você.
Eu o empurrei para a nova fila.
— Não senhor, quero que se divirta também – falei, pensando em uma nova desculpa para sair dali. – Além disso, preciso ir ao toalete...
— Não acha que...
— É que estou menstruada – menti, e logo depois morri de arrependimento. Todos os olhos se voltaram para mim.
— Tudo bem, isso não é uma doença – disse o Joseph. – Espero por você aqui.
Saí correndo da tenda do karaokê, passei em frente ao banheiro e voltei para o fliperama. Claude ainda conversava com o Evan.
— Aí está a miss Desaparecidos – brincou Claude ao me ver chegar.
— Uma garota não pode nem mesmo trocar seu absorvente em paz? – perguntei, procurando constrangê-lo.
Parece que funcionou um pouco, porque Claude Jenks finalmente calou a boca. Logo depois chegou uma mensagem do Evan:
Você está gastando todas as boas jogadas no começo da partida. Cuidado para não ficar sem cartas.
Respondi com um olhar – fuzilando o Evan. Ele parecia se divertir bastante, e então a moça do Texas Club surgiu para tornar a brincadeira um pouco mais divertida.
***
Onde você está? É a minha vez de cantar. Joey
Deixei Claude, Evan e a moça conversando – acho que o nome dela era Marie – e fui na direção do karaokê novamente. Não precisei dizer muita coisa antes de sair. Bastou começar a frase para que Claude me liberasse sem perguntar: “Acho que meu absolvente...”. Uma frase dessas não precisa ser terminada, porque os homens não ouvem nada depois que a palavra “absolvente” é pronunciada, e não se importam com o que quer que esteja ligado a tal palavra.
Joseph estava com o microfone na mão, e começava a tocar Men At Work, Into my life.
Ele ficava simplesmente irresistível de astro da música, e parecia o espião James Bond— mas acho que o Bond jamais cantaria daquele jeito. Recebi outra mensagem do Claude – “Por favor, me tire daqui!” – e pensei em sair antes do fim da música, mas Joseph poderia me seguir e então tudo se perderia. Eram quase dez horas.
A música terminou e ele foi ao meu encontro.
— As regras são simples. Os competidores com mais pontos dentro do grupo seguem, os demais ficam. O vencedor leva o troféu. – Ele apontou para uma coisa brilhante no fundo da tenda, atrás de um sujeito que arranhava Celebration.
— Se o nível dos outros competidores for esse, tenho certeza de que conseguirá – falei, beijando a boca dele rapidamente.
— Você não se importa?
— Só quero que se divirta – falei.
Começou a tocar Evanescence, e uma garota fez com que todos no local parassem para vê-la cantar. Era como se os querubins descessem do céu para nos agraciar com suas presenças. A voz dela era tão afinada que eu queria ter uma taça de cristal só para fazer o teste.
— Cacilda – falei.
Joseph não entendeu nada. Não precisava entender. Só tinha de ficar longe do fliperama até a meia-noite e tudo se resolveria facilmente.
— Os vencedores desta etapa serão anunciados no telão – falou ele, olhando para fora da tenda.
Espichei os olhos para a grande tela LED com medo do resultado. Joseph tinha de passar para a próxima etapa e me dar um pouco mais de tempo. Pelo menos mais uma hora – até as onze.
Os nomes começaram a passar no telão, um por um. Então, quando eu já me dava por vencida, o nome de Joseph Humfrey surgiu. Pulamos de alegria.
— Preciso esperar ali, ao lado da Evanescence— falou ele. – Deseje-me sorte.
— Toda a sorte do mundo.
Ele me beijou novamente, e correu para a cadeira.
Saí da tenda, passei pela mesa de ponche e tomei mais um copo bem cheio. Voltei para o fliperama e não encontrei o Claude. Marie e Evan conversavam.
— Onde está o Claude? – perguntei, preocupada.
Evan sorriu.
— Já olhou para o tapete de dança?
Naquele exato instante Claude Jenks rebolava sobre o tapete, ao lado de uma garota desconhecida. Eles riam e pulavam ao mesmo tempo, como se tivessem ensaiado antes. Se eu não me conhecesse muito bem, poderia até dizer que estava com uma pontinha de ciúmes dele.
— Ela o chamou para dançar – falou Evan. – Sabe o que isso significa?
— Que ela está desesperada? – perguntei.
Marie pareceu condescendente. Olhou para mim por detrás dos ombros de Evan, e fez sinal de tempo.
— Não, Sofia. Significa que ela não é cega. E Claude não é burro – respondeu Evan.
Eu suspirei. Claude estava se divertindo tanto que não fazia sentido eu permanecer ali, olhando para ele. Saía de fininho quando ouvi a voz dele:
— Sofia! Sofia Spencer! – gritava Claude.
Quando me virei ele corria na minha direção com um bichinho de pelúcia. Estendeu para mim e ficou esperando que eu o pegasse.
— O que é isso, Claude?
— É um coração de...
— Sei o que é! – falei rispidamente. – Por que está me dando isso?
— Eu ganhei para você... Agora estou todo suado, mas foi por você – disse ele, com um sorriso meio bobo na cara.
Evan estava certo. Claude Jenks não era burro – era um completo idiota. Idiota porque tinha o poder de tirar minha concentração, embaralhando as certezas e me deixando em um oceano aberto. Pronta para ser afogada pelas ondas. Ele conseguia me deixar confusa, quando eu sabia exatamente o que deveria querer.
— Acho que deveria dar isso para ela, e não para mim – falei, apontando para a garota que ficara lá, ao lado do tapete, esperando para ser olhada por Claude, talvez convidada para outra dança maluca.
— Sofia, eu não entendo...
— Eu preciso de outro ponche – falei, me afastando do fliperama.
Olhei para trás por um instante e vi Evan segurando-o pelo braço. Evan poderia ser tudo, menos trapaceiro. Se quisesse ele teria deixado Claude me seguir, e tudo acabaria antes da meia-noite. Acho que eu devia uma a ele.
Cheguei à mesa de ponche e decidi que queria algo mais forte. Mas não havia nada alcoólico ali. Um rapaz passou com um copo na mão, e eu o segurei por um instante.
— O que quer por esse copo? – perguntei.
Ele olhou para mim de cima a baixo.
— Pode ficar com ele, gata – disse. – Eu consigo outro.
Tomei em um único gole. Não sabia o que era, mas o sabor era ótimo. Depois disso apaguei e não me lembro de mais nada que aconteceu naquela festa.
***
Acordei com uma forte luz sobre minha cabeça, e diversos olhos me vigiando.
Evan estava sentado ao meu lado. Foi a primeira pessoa que falou comigo.
— Você está bem? – perguntou ele.
— Ganhei a aposta?
Ele riu. Ela está bem, falou para os outros que esperavam do lado de fora do quarto de hospital – Joseph, o pai dele e meu pai –, junto com um sinal de positivo. Eles estavam amontoados na direção da janela, e pareceram aliviados depois.
— Perdeu feio. Foi desmascarada às onze horas e quinze minutos. Mas até que você resistiu bem. Achei que não passasse das dez – disse ele, acariciando meus cabelos.
Olhei em torno de mim, havia vários objetos. Um coração vermelho de pelúcia, um buquê de flores, um troféu de segundo lugar no karaokê e coroas de Rei e Rainha Esquilo – acho que lá na festa o troféu menor estava atrás do enorme troféu de primeiro lugar, por isso nem o percebi.
— O que são essas coisas todas?
— Mesmo depois do vexame que você deu, Sofia, as pessoas continuam gostando de você – disse ele.
Eu senti minhas bochechas corarem.
— Foi muito ruim? – perguntei mesmo sem querer saber.
— Foi péssimo. Mas agora está tudo bem, tirando a parte de que papai está decepcionado com você. Então, descanse.
Como se eu pudesse. Cada vez que tentava me lembrar do que aconteceu depois que tomei aquela bebida parecia que um martelo atingia minhas têmporas com a maior força possível. Era uma sensação simplesmente insuportável de dor e vergonha – esta última pelo que eu ainda nem sabia que tinha feito.
— De quem foi a ideia de deixar essa tralha aqui, afinal? Ainda não estou morta para merecer homenagens desse tipo – falei, mexendo nos objetos deixados ao lado de minha cama.
— O buquê é do papai... O troféu é do Joseph... O bichinho de pelúcia é do Claude... E as coroas são minhas – ele disse isso e pigarreou.
Eu olhei para o Evan com um ar de deboche.
— Como foi isso, Rei Esquilo?
— Não tenho culpa de ser um pé de valsa. – Evan desviou os olhos dos meus. – Além disso, foi Marie quem me puxou para a pista de dança.
Evan quase me convenceu de que não queria aquilo mais do que a garçonete sem graça. Havia algo nela que não me descia – e não era somente o fato de ter se jogado para cima do meu irmão sem pestanejar. Porém, não era o momento certo para pensar naquilo. Tinha algo mais urgente martelando na minha cabeça antes.
— Não vejo o Claude...
— Acho que ele não vem, Sofia.
— Fiz alguma coisa para ele?
— A pior de todas as coisas. Partiu o coração dele.
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