Um universo a mais
4 Capítulo 4
Quando fecho os olhos tenho a impressão de que posso vê-la. Não nos dias de depressão – os últimos, sobretudo –, mas naqueles em que ela ainda pintava. Florence Spencer formara-se em Artes Plásticas na Estadual de São Francisco, summa cum laude. Eu não sei muito bem o que isso significa, mas sei que é importante. Foi antes de conhecer meu pai. Acho que ele foi a primeira pessoa a comprar um dos quadros dela – e ela a primeira pessoa a comprar uma casa dele. Então decidiram se casar num dia de primavera e foi assim que nossa família começou. Evan nasceu, depois eu, e em algum momento entre nós dois ela começou a tomar antidepressivos. As doses passaram de mínima a máxima em questão de meses, e ela flutuou de depressiva a esquizofrênica com o passar dos anos. Talvez fugisse de alguém quando saltou da ponte. É outra teoria que tenho para explicar algo tão inexplicável.
As pessoas diziam que Florence era uma pessoa maravilhosa – eu me lembro disso perfeitamente. Disseram em frente ao caixão vazio que depositamos numa cova, repetiram em nossa sala de estar enquanto comiam salgadinhos e peito de peru e então eu repeti para mim mesma durante todos esses anos, sem dar um tempo nem mesmo para uma reflexão de minha parte.
Para mim Florence ainda era uma pessoa maravilhosa.
***
Claude encontrou um canal de velharias. O Iluminado começava. A cena do Fusca percorrendo as montanhas do Colorado, na direção do obscuro Hotel Overlook, jamais saíra da minha cabeça, desde a primeira vez que eu vira aquele filme.
Ele deu uma mordida na lasanha (eu tivera de ajustar o microondas para aquecer porque, apesar de morar ao lado da minha casa, ele demorou dez minutos para chegar) e xingou baixinho por causa da temperatura.
— Foi por isso que demorei um pouco.
— Detesto lasanha fria – respondi, ajeitando Fofura no meu colo. – Minha casa, minhas regras.
— Você mais parece meu pai falando – disse ele, aumentando um pouco o volume do filme.
Rimos.
— Você acredita que há alguma coisa lá? – perguntei, olhando diretamente para ele.
— Se está se referindo ao que eu disse mais cedo...
— Eu já te perdoei por isso, Claude, relaxa. Só quero saber se você acredita que há alguma coisa lá.
— Sim e não – disse ele.
Eu levantei as sobrancelhas.
— Sou um cientista, Sofia. Não posso afirmar que há, mas também que não há nada lá. Pode não haver nada, e pode haver um universo inteiro, diferente do nosso – disse ele, ajeitando os óculos pela milésima vez.
Claude é um ano mais novo do que eu. Ele tem os cabelos avermelhados – não chegam a ser ruivos por completo porque ele descolore e tenta pintar de amarelo (ele odeia ser ruivo, e acha que a cor vermelha não é a preferida de ninguém). O resultado é uma mistura de cores estranha, como um quadro que deu errado. Tem o rosto um pouco arredondado, a pele lisa e avermelhada nas bochechas. O nariz é pequeno e fino, e as orelhas discretas. É magro, tirando um pequeno volume abdominal – talvez venha a ter algum pneuzinho quando chegar à vida adulta, mas longe de obesidade mórbida. E adiantou um ano da escola.
Quando fala ele mostra os aparelhos em ambas as arcadas dentárias – e naquele momento elas estavam cobertas de queijo derretido.
— O que você acha que há lá? – perguntou ele depois da algum tempo.
Eu sorri.
— Espero que você esteja certo. Outro universo não faria mal a ninguém.
***
— Acho que podemos escrever para o Stephen Hawking, talvez ele saiba o que há e como chegar lá – falou novamente Claude no momento em que Jack Torrance arrebentava a porta do banheiro com o machado.
Eu suspirei. Se o senhor Hawking me desse tal certeza eu pularia daquela ponte sem pensar duas vezes (obviamente pediria a ele um mapa com a localização exata da entrada, só por garantia). Ninguém sabia a falta que eu sentia da minha mãe – e não acreditava que minha ausência faria tanta diferença assim para esse universo. Mas eu faria toda a diferença do outro lado, para ela e para os outros que foram agraciados com... Eu não sei bem com o quê, mas acredito que fosse alguma coisa que este mundo negou-lhes.
Claude estava absorto em pensamento. Pareceu deixar de prestar atenção ao filme.
— Se eu fizer uma pergunta promete ouvir até o fim e ser sincera na resposta? – A voz dele saiu meio anasalada.
— Prometo.
— Mais cedo, quando estávamos ao telefone...
— Esta história de no...
— Sofia, está quebrando sua promessa.
— Desculpe-me. Não vou mais interromper.
— Mais cedo, quando estávamos ao telefone, de todas as coisas que eu disse, quanto você ouviu?
Eu não sabia onde Claude queria chegar com aquela conversa estranha. Sequer imaginava o que ele queria dizer com o quanto eu ouvi. Eu sempre o ouvia (tirava duas horas das minhas tardes para servir de cobaia naquele telefone estúpido de latas), sem contar o tempo que passávamos ao celular, ou simplesmente gritando um com o outro das nossas janelas. Mas nossa última conversa foi diferente porque houve uma interferência chamada Joseph Humfrey.
— Você quer a quantidade exata de palavras?
— A última palavra já é o suficiente.
Esforcei-me tentando me lembrar qual a última palavra, mas não tinha certeza. Uma frase surgiu na minha mente, e parecia justo pelo que eu fizera com ele: “Pelo menos uma vez eu queria...”.
— Pelo menos uma vez eu queria – falei constrangida.
— Queria o quê?
— Não queria as palavras? Você tem exatamente seis delas: Pelo. Menos. Uma. Vez. Eu. Queria. É tudo o que tenho, ladrão de palavras.
— Não ouviu nada do que eu disse depois? Nem mesmo uma palavra a mais? – insistiu ele.
Eu balancei a cabeça, negando.
— Tudo bem, Sofia.
— Mas se você se lembra delas, porque não me diz novamente? Dessa vez prometo não me distrair com nada, a não ser com o filme...
Naquele momento o pequeno Danny corria pelos labirintos de arbustos, tendo o pai maluco como perseguidor.
— Tudo bem, não era tão importante assim – disse ele, levando os pratos até a cozinha.
Se a regra do meu pai valesse também para homens, ou pudesse fazer uma exceção somente para o Claude, então o que ele dissera era importante. Estava pronta para segui-lo até a cozinha e interrogá-lo quando a campainha tocou.
Olhei para o relógio, e ele marcava quase dez horas.
Deixei os minutos finais do filme sozinhos e caminhei até a porta, com a esperança de voltar antes dos créditos finais. A campainha tocou novamente.
— Já vou – falei, girando a maçaneta.
Então eu vi Joseph Humfrey parado sobre meu tapete de boas-vindas.
***
Ele usava uma jaqueta dos New York Jets e calças jeans justas, o que o deixava pelo menos cinqüenta por cento mais gostoso – com uma margem mínima de erro. De perto Joseph parecia ainda mais com um deus grego – sem exageros – e eu sabia que aquela era uma oportunidade única. E, como em toda oportunidade única, fiquei parada feito uma idiota sem saber o que fazer.
— Olá, sou seu vizinho Joseph Humfrey, e queria saber se você não tem um bom analgésico aí.
— Sou Sofia Spencer – falei.
Eu fantasiava Joseph Humfrey me pedindo uma xícara de açúcar ou de farinha de trigo ou, em sonhos mais ousados, um pernil suíno pré-cozido, mas jamais um analgésico. E nesses sonhos ele me beijava loucamente, em vez de ficar parado na frente da minha casa com as mãos nos bolsos.
— Bem... Posso assaltar o armário de remédios do meu pai e ver se encontro alguma coisa – falei, apontando para a sala e deixando-o entrar.
Ele passou por mim com as mãos ainda dentro dos bolsos da jaqueta. Dei uma boa olhada nas costas dele (cof cof, bunda, cof cof) e fechei a porta.
Joseph parou em frente à televisão.
— O iluminado? Você tem bom gosto – disse ele.
— Obrigada. Eu vou lá em cima. Tem preferência por marca ou dosagem?
— A maior que tiver – falou ele.
Ele deveria estar com uma baita dor de cabeça – imaginei enquanto subia os degraus até o segundo andar. Com uma rapidez de um lince invadi o banheiro e abri o armário de medicamentos. Vasculhei e busca de analgésicos potentes, talvez um de tarja preta. Mas tudo o que encontrei foi uma cartela de Tylenol com oito comprimidos.
Desci decepcionada com meu pai por ele não ser um viciado em medicamentos, e encontrei os créditos do filme, Joseph Humfrey e Claude Jenks esperando por mim.
— Tudo o que temos é isso aqui. Desculpe-me por não sermos traficantes, ou eu ofereceria umazinha de graça para você – falei meio sem pensar no quanto aquilo soaria ridículo.
Ele riu e agarrou a cartela de medicamentos, voltando a colocar a mão dentro do bolso.
— Obrigado. Quando meu pai voltar da farmácia que ele não sabe onde fica eu devolvo a você – disse ele.
Claude tossiu baixinho, e Joseph e eu olhamos ao mesmo tempo para ele.
— Ah, me desculpe. Vocês já...
— Sim, eu já me apresentei, uma vez que você esqueceu de mim na cozinha – falou Jenks, cruzando os braços.
— Sinto muito, Claude.
Ele manteve uma cara de carranca e ficou lá, nos vigiando – a mim e ao Joseph. Joseph sorriu e olhou para a porta – aparentemente não poderia ficar por muito tempo. Ou talvez imaginasse que fôssemos assassinos.
— Você tem de ir, não é? – perguntei.
— Alguém espera por mim – disse ele, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Talvez devesse ter entregado uma cartela do estimulante sexual do meu pai também.
Acho que enrubesci só de pensar naquilo, porque ele riu, e Claude conseguiu piorar a cara feia.
— Tudo bem. Não precisa me acordar para devolver o remédio, acho que posso passar uma noite sem isso – falei.
Joseph esboçou mais um sorriso. Aquilo soou como se eu fosse dormir naquele instante, e pior, com Claude Jenks. Vítima do efeito colateral da minha própria piada.
— Obrigado.
Depois disso ele se foi. Corri para abrir a porta – com medo de que, se não fizesse aquilo, ele nunca mais voltasse – mas ele não esperou. Abriu-a ele mesmo e saiu com as mãos nos bolsos da jaqueta.
***
Na volta encontrei Claude zapeando pelos canais da televisão paga com uma ferocidade contida. Eu não sabia o que tinha feito de errado para ele agir daquela forma.
— O que você tem, Claude? – perguntei, sentando ao lado dele.
— Nada. Só não fui com a cara desse Humfrey. Espera, Sofia. Estive pensando...
Aquela frase do Claude geralmente servia de introdução para coisas ruins. Eu fechei a boca e tentei imaginar o que estava por vir daquela vez.
— Você não me disse o que te distraiu tanto a ponto de você ficar temporariamente surda – disse ele.
Eu não tinha motivos para mentir, mas, por alguma razão ainda desconhecida, sabia que deveria pelo menos tentar. Claude era conhecido por odiar todos os garotos pelos quais eu me interessava desde o jardim de infância (nós nem sempre estudamos juntos, mas freqüentamos a mesma escola) e tinha o dom da imaginação ao lado dele. Uma vez ele imaginou que eu estava apaixonada pelo lixeiro só porque eu levava o lixo para fora no exato momento em que o caminhão surgia na esquina (uma forma que encontrei para evitar que o saco ficasse lá, empesteando a rua ou fosse rasgado por cães vagabundos).
— Eu... Eu vi uma coisa – disse.
Claude permaneceu estático, os olhos presos à televisão, como se esperasse que eu continuasse.
— Claro que viu – disse ele largando o controle sobre o sofá. – Obrigado pelo jantar, Sofia.
— Espera Claude.
Ele parou. De costas para mim.
— Agora sou culpada por meu vizinho sentir dor de cabeça e não ter medicamento em casa?
— Claro que não. Eu estou um pouco cansado, sabe? Preciso ir.
Eu achei que após o filme fôssemos ler um para o outro – sempre fazíamos isso para tornar nosso programa mais culto do que simplesmente sentar e consumir um produto de Hollywoody. Ele lia um capítulo do livro dele e eu do meu. Pretendia ler para ele o prólogo de “Passos na escuridão”, mas acho que não ia rolar naquela noite.
Eu avancei para a porta e agarrei a maçaneta. Claude Jenks não sairia daquela casa sem que eu fizesse isso.
— Mais uma coisa, Sofia. Queria que soubesse que, da janela da minha sala, eu vejo perfeitamente a casa de Joseph Humfrey.
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