Às vezes eu me deitava na cama e ficava olhando o ventilador girar lentamente. Naqueles momentos eu não me entristecia ou chorava, ou fazia qualquer coisa de gente depressiva. Simplesmente imaginava como seria o outro lado, quer dizer, o outro lado da passagem. As pessoas se jogavam de lá porque acreditavam que, morrendo ali, poderiam ser felizes, de alguma forma (ou no mínimo deixar de ser infelizes, que é o mais óbvio quando se morre). Quando ela se jogou deveria pensar a mesma coisa, e como o corpo dela jamais foi encontrado, passei a acreditar que, talvez, ela estivesse do outro lado. A solução que encontrei para continuar a viver era uma grande besteira. Disse a mim mesma que ela tinha conseguido, tinha atravessado a passagem e estava da forma como desejava, feliz, de um jeito que não conseguia ser deste lado, comigo, com papai e com o Evan. De uma forma que somente aquela travessia dolorosa era capaz de fazer.

Naqueles momentos, por mais idiota que fosse isso, se estivesse um pouquinho triste (só um pouquinho, dá um desconto) imaginava também que ela me esperava.

Lembrava-me da última pessoa conhecida a saltar de lá, e de uma de suas frases mais famosas: “A morte dará conta de tudo o que a vida não deu, pois ambas fazem parte de um mesmo e irrisório momento: começa-se a morrer tão logo se começa a viver”. L. S. Hoffman. Ele era um escritor, e seu suicídio se tornou matéria do The New York Times.

Naquele dia, depois de brigar com o Claude, eu estiquei o braço, sem me levantar da cama, e puxei a gavetinha do criado mudo. Lá de dentro retirei uma pasta azul enfeitada com papel de presente. Dentro da pasta havia vários recortes de jornal, e o primeiro deles era o recorte com a matéria e uma foto panorâmica da ponte Golden Gate, com uma foto pequena de L. (gostava de chamá-lo assim) ao lado.

Morre o escritor L. S. Hoffman. 18/02/2014. Morreu ontem o romancista L. S. Hoffman, pseudônimo de Leon Smith Hoffman, autor de romances de sucesso nos anos 90, como “Sob o céu de outono” e “Enigmas do amor”, ambos adaptados para o cinema. O romancista sofria de depressão profunda e transtorno bipolar, e cometeu suicídio ao se jogar da ponte Golden Gate, por volta das dezessete horas de ontem, segundo testemunhas que passavam pelo local e reconheceram o autor. Visivelmente transtornado, Hoffman caminhava pela ponte quando subiu no parapeito, e, em seguida, se jogou, sem dar a chance a alguém de ajudá-lo. As buscas pelo corpo prosseguiram por toda a noite e continuarão por todo o dia de hoje. Segundo o chefe da guarda costeira, Edmund Falcon, as chances de encontrá-lo são grandes, uma vez que somente quatro corpos não foram localizados até hoje. O escritor de trinta e nove anos deixa mulher e uma filha.”

Aquele corpo jamais foi encontrado e as buscas encerraram-se dois dias depois da publicação da matéria. Ninguém tirava da minha cabeça que ele conseguira. L. era a quinta pessoa a atravessar o portal, e isso o fazia especial. Tão especial que resolvi ler todos os livros dele (só me arrependi de não ter comprado antes do suicídio, uma vez que os preços subiram trinta por cento). Mesmo assim eu sentia que valia a pena. Estava para começar “Passos na escuridão” (ele escrevera somente quatro romances durante toda a sua carreira, o que o tornava ainda mais especial), o último deles. Se não estivesse com tanta raiva do Claude começaria a ler naquela tarde mesmo, mas senti que, se fizesse isso, estaria lendo somente para não pensar nele, e inevitavelmente pensaria, o que tornaria a leitura inútil.

Decidi dar um tempo.

Fofura saltou sobre meu colo e miou.

— Vamos lá embaixo ver o que o papai fez para o jantar? – perguntei, levando a gata comigo.

A cozinha estava silenciosa demais quando Fofura e eu entramos. Meu pai falava ao telefone, e parecia arrumado demais para quem acabara de chegar do trabalho. Eu me aproximei e cheirei o pescoço dele – perfume caro misturado com creme pós-barba. Ele esticou a mão e me afastou.

Eu me sentei junto ao balcão e fiquei alisando o pelo de Fofura até ele terminar de falar. Quando acabou devolveu o telefone à base e apoiou o traseiro na pia, de frente para mim.

— Você está cheiroso – falei, deixando a gata descer do meu colo.

Ele aparentou um constrangimento que não cabia mais a um viúvo de quarenta anos com um filho advogado e uma filha quase universitária.

— Obrigado por notar. E você parece chateada.

Eu concordei com os olhos.

— Obrigada por notar, pai.

— Deixa eu adivinhar: brigou com o Claude de novo.

Ele tinha razão, o que só me deixava ainda mais chateada. Aparentemente era impossível guardar um segredo do meu pai. Ele conhecia todas as minhas caras e bocas desde meus cinco anos. Sabia quando eu estava triste, chateada ou mentindo (e isso era a parte pior).

— Não é importante – falei, fingindo indiferença.

— Conheço as mulheres, Sofia, e sei que, se está dizendo que não é importante, é porque é importante. O que aconteceu?

— Além de o Claude ser um completo idiota?

— Sim, além disso.

— Ele me disse uma coisa horrível, e eu desliguei o telefone na cara dele. É isso.

Meu pai cruzou os braços sobre o peito, e Fofura foi brincar entre as pernas deles.

— O que ele disse exatamente?

— Ele me perguntou se eu estava aqui ou tinha pulado da Golden Gate— quando repeti para meu pai não pareceu tão ruim assim.

Na verdade mais de mil pessoas já tinha feito aquilo, e só porque minha mãe era uma delas não fazia de mim alguém que merecia um tratamento especial. Eu estava sendo imatura, e provavelmente ele dissera aquilo sem querer – e sem pensar.

— Só isso? – perguntou meu pai.

— E você queria mais o quê? Que eu esperasse ele me empurrar da ponte?

— Escute, Sofia, acha que vale a pena brigar com Claude somente por causa de uma besteira como essa? Eu acho que não vale.

Eu tinha de concordar com meu pai. Não valia a pena. Mesmo por que ele deveria estar chateado comigo, e não eu com ele. Fui eu quem o deixou falando sozinho ao telefone por um minuto, enquanto espiava o novo vizinho que sequer notara minha presença (ainda).

— Tudo bem, ligarei para ele quando chegar ao quarto e aceitarei as desculpas dele – falei, ajeitando o cabelo.

Meu pai pareceu satisfeito. Passou por mim e beliscou minha bochecha. Eu odiava aquilo mais do que qualquer coisa no mundo.

— O que tem para o jantar? Fofura e eu estamos famintas – perguntei, abrindo a geladeira.

Meu pai, que àquela altura já estava na sala, não ouviu minha pergunta. Ponto para o Claude.

Fui até a sala. Ele procurava pelas chaves do carro.

— Vai deixar sua filha e a gata dela morrerem de inanição dentro de casa, senhor Spencer?

Ele virou-se para mim de repente e colocou a mão na testa, como se aquilo fosse uma espécie de resolução universal dos problemas.

— Eu tinha me esquecido, você pode escolher o menu hoje. Tenho um jantar de negócios – falou, colocando o terno. – É só apertar as teclas e mandar ver. É assim que os jovens dizem?

Ele beijou minha testa enrugada de vergonha.

— Acho que mandar ver significa outra coisa, pai. E eu não quero jantar sozinha.

— Estou meio enferrujado. Bem, você não precisa jantar sozinha, docinho.

Ele estendeu o telefone para mim e esperou que eu o agarrasse.

***

Deixei a lasanha girando no forno e disquei os números que sabia de cor.

O telefone tocou uma vez... duas vezes... três vezes... A lasanha girava no forno, e ninguém atendia do outro lado. Eu o entendia. Também não aceitaria uma ligação minha depois do que aconteceu. Estava para desistir quando uma voz conhecida ecoou no me ouvido esquerdo.

— Sofia?

— Claude, eu queria...

— Por favor me desculpe – interrompeu-me ele.

— Não, eu é que...

— Eu fui um idiota – continuou ele. – Jamais deveria ter dito aquilo. Por favor, me perdoe Sofia Spencer. Sei que você deve estar muito chateada.

— Tudo bem. Vamos esquecer isso.

Por um instante nós ficamos em silêncio. Eu ainda observava a lasanha girando dentro do microondas, e ouvia a respiração dele como uma estática percorrendo a ligação. Rápida.

— Foi o senhor Spencer que mandou você ligar? – perguntou ele depois de algum tempo.

— Não. Na verdade liguei porque meu pai foi para um jantar de negócios e não encontrei meia porção de nada no congelador. Tive de colocar uma lasanha tamanho família no microondas, você precisa ver as proporções dela. Parece o Godzilla atacando o Japão.

Ele deu uma risadinha da minha piada sem graça.

— Tentando salvar o mundo alimentando um pobre garoto faminto?

— Você sabe como é, não posso ajudar todo mundo, então tenho de fazer o que posso por pelo menos uma pessoa.

— E eu sou essa pessoa?

Um bip soou e a lasanha parou de girar.

— Você é a pessoa que tem um minuto para chegar aqui, antes que eu dê um fim ao Godzilla sozinha.