Um universo a mais
7 Capítulo 9
Fofura não foi encontrada no dia posterior. Nem no próximo.
Eu estava arrasada. Era sexta-feira, e a “De volta para o futuro” seria no sábado. Prometera ao Claude que ia à festa com ele, mas não estava com a mínima vontade de fazer aquilo enquanto minha gata estivesse desaparecida – e naquele momento parecia que ela tinha atravessado o portal.
Claude me ligou pela manhã – eu não fui à escola, pois procurei por Fofura o dia de quinta-feira inteiro, e estava com insolação (dessa vez de verdade).
— Ela ainda não voltou – falei.
Estava deitada na cama. Na noite anterior fui levada ao pronto-socorro por Evan e tive uma agulha enfiada na artéria – soro para combater a desidratação. Agora tomava um copo de água a cada meia hora.
— Logo ela voltará, Sofia. Animais são incontroláveis. Gostam de liberdade – disse Claude.
Eu sabia perfeitamente disso, mas queria que Fofura curtisse sua liberdade entre meus dois braços.
— Queria ter a sua fé – falei, virando mais um copo de água e engolindo uma aspirina.
— Você ainda vai à festa amanhã, quer dizer, sei que é uma pergunta horrível, mas tenho de saber...
Eu ainda não sabia se estaria viva no dia seguinte. Ir à festa seria apenas uma metáfora de vida após a morte. Contudo, não me sentia em posição de contrariar Claude Jenks, correndo o risco de decepcioná-lo outra vez.
— Mas é claro... Se eu conseguir sair da cama sem uma cadeira de rodas.
— Consegue ir até a janela sem uma cadeira de rodas neste momento?
Fiz um esforço e me levantei. Caminhei até minha janela e puxei as cortinas. A luz do dia ofuscou minha visão, e, quando consegui enxergar novamente, eu vi Claude Jenks parado diante dela, como se flutuasse quinze metros à frente dois acima do solo.
— O que acha? – perguntou ele, dando uma voltinha.
Eu nunca tinha visto Claude tão bem vestido, tão elegante, tão bonito. Trajava camisa social azul marinho de botão e um blazer preto por cima. Calça social e all-star pretos. O melhor de tudo – estava sem os óculos.
— Deve estar se perguntando onde foram parar meus óculos – disse ele, adivinhando meu pensamento. – Comprei as lentes novas ontem, e estava doido para te mostrar.
Eu sorri em agradecimento.
— Acho que está tudo certo então. Passa aqui e me pega às oito?
— Em ponto.
Estava prestes a desligar e voltar para a cama quando ouvi a voz de Claude novamente:
— Ah, Sofia?
— Sim?
— Obrigado.
— Pelo quê?
— Por você existir.
***
Quando desliguei e voltei para a cama me dei conta de que ainda não tinha um vestido para a festa – o que, na vida de uma mulher, soaria como “Meu Deus do Céu, o mundo acabou e eu não fui avisada!”.
Saí novamente da cama e desci as escadas tão rápido que, quando cheguei lá embaixo, senti uma tontura. Segurei no corrimão da escada e tentei voltar ao normal. Evan não estava em casa, e meu pai trabalhava.
Não conseguiria ir muito longe daquele jeito.
Então decidi pedir ajuda.
***
Joseph Humfrey guiava o Corolla com obstinação.
— Se o seu irmão souber disso sou um homem morto – disse ele, ultrapassando outro veículo.
— Não se preocupe, nos vemos do outro lado, porque ele me matará também
Joseph riu, mas sabíamos (eu tinha certeza, depois de ouvir aquela ameaça assustadoramente real e plausível) que havia alguma verdade naquela fala. Evan seria capaz de jogar Joseph Humfrey da ponte, mesmo.
— Só para você saber, Evan disse que o empurraria da Golden Gate por menos do que isso – falei.
Joseph riu.
— Já sabe o que comprar? – perguntou ele quando chegávamos ao centro de São Francisco.
— Nenhuma mulher sabe até chegar à loja.
— É, eu imaginava isso. Sabe pelo menos o nome da loja?
— Fica na 4th Street, esquina com Market. É uma loja com bons preços – falei, procurando pelo cartão que meu pai me dera de presente de quinze anos. Limite baixo. Pouca utilidade.
Ele desacelerou o carro e fez uma curva mais acentuada. Parou em frente à loja da qual eu falara.
— Pequena a apertada. Do jeito que eu gosto – disse ele.
Dei um soco no ombro de Joseph e abri a porta do carro.
— Eu estava falando da loja!
— Estacione, Humfrey. E me encontre lá.
Cinco minutos depois estávamos na loja abarrotada de clientes, onde é possível comprar peças de grandes marcas com pequenos defeitos por preços acessíveis – eles marcam as roupas e oferecem descontos inacreditáveis. Esperava encontrar meu vestido lá – um vestido com um pequeno defeito, de preferência imperceptível.
Depois de fuçar todos os cantos e pisar no pé de duas pessoas – e ter o pé pisado por outras dez – eu achei o que procurava. Um vestido preto, curto, mas com tamanho suficiente para chegar aos joelhos. Puxei a etiqueta como quem nada queria – Christian Sabath. Cento e vinte dólares. Meu Deus, onde estava o defeito daquele vestido? Acho que o defeito estava em mim, porque procurei por um buraco do tamanho da cratera da lua – a única coisa que justificaria aquele preço – e não achei nada.
Peguei o vestido e levei até o balcão. Depois de meia hora de fila estava diante do caixa. Joseph finalmente chegou, e carregava algumas roupas.
— Aproveitando as liquidações?
— Dá para acreditar nesses preços? Achei que fosse mercadoria falsificada, ou roubada...
A vendedora olhou torto para nós. Passou as compras e tentou nos empurrar mais alguns produtos.
— Temos ótimas bolsas originais com ótimos preços – disse ela.
— Não, obrigado. Eu tenho ótimas bolsas em casa, de graça – respondi.
Ela deu de ombros. Passou o cartão e me devolveu.
— Recusado – disse.
— Impossível – falei, sentindo-me enganada, ainda que não soubesse por quem. – Eu quase não uso esse cartão, ele não sai da gaveta do meu criado mudo.
— Sinto muito, senhorita. – E deu de ombros outra vez.
— Tudo bem, Sofia. Eu pago com o meu – disse Joseph, empurrando as compras dele para o balcão.
Eu me afastei. Ainda sem entender direito. Aquele cartão não deveria estar detonado. Tudo bem que meu crédito era baixo, mas eu podia comprar um vestido de cem dólares.
Joseph me puxou pelo braço e deixamos a loja.
No caminho de volta paramos no Texas Club— Joseph queria um Texas Burger. Eu ainda tentava entender a história do cartão quando outra coisa surgiu para tomar meus pensamentos.
Era Evan Spencer com um bloco e chapéu de cowboy. Ia na nossa direção. Seus olhos cruzaram com os meus diversas vezes pelo caminho, mas quando se aproximou ele os abaixou para o bloco.
— Como posso ajudá-los, senhores?
Joseph olhou para mim. Eu estava chocada. Evan não me dissera absolutamente nada a respeito de seu trabalho no Texas Club— mas o cheiro de fritura em sua roupa agora fazia todo o sentido. Além do mais, mais cedo ou mais tarde eu descobriria.
— Evan? O que está fazendo aqui?
— Trabalhando. Todo mundo precisa de dinheiro.
— Se papai souber que trocou a faculdade por isso...
— Ele não precisa saber. Não é o tipo de lugar dele – disse, e olhou para Joseph. – A não ser que alguém conte.
Joseph passou o dedo no ombro direito, como se desenhasse um X.
— Por mim segredo garantido.
— Isso é idiotice, Evan. Sabe que é.
Evan olhou para trás por dois segundos. Outros clientes chegavam.
— Escutem, se não fizerem o pedido terei de ir. A minha gerente é muito rigorosa. Tenho dois minutos para cada mesa – disse ele. – Conversamos em casa, Sofia.
Joseph pediu um Tex Burger e uma Texas Cola.
— Obrigado pela preferência. Mugiremos quando estiver pronto – disse Evan, saindo.
Aquilo foi ridículo, eu queria sair correndo de lá e nunca mais voltar. Queria que o Evan fizesse o mesmo. Quando nosso pai soubesse que ele estava trabalhando em uma rede de fastfood ficaria muito nervoso. De novo.
— Por favor, Joey, pode me tirar daqui? – implorei.
— Eu não sabia que seu irmão trabalhava aqui, Sofia. Sinto muito.
— Não é culpa sua – falei, apoiando a cabeça na mesa. – Eu também não sabia.
Rezei para que aquele pedido ficasse pronto logo, e eu pudesse ir para casa ficar sozinha no escuro, ou ler um pouco do maldito livro que nunca chegava ao fim – de repente o suicídio do autor me parecia justificado.
Quando Evan retornou com a conta e o pedido eu tentei não transparecer o que sentia.
— Se é tudo o que posso fazer por vocês – disse ele.
Joseph pagou com uma nota de vinte dólares e entregou o hambúrguer para mim.
— Vá para o carro, preciso de um minuto – disse ele.
Eu fui. Deixei-os conversando dentro do restaurante – ainda podia vê-los pelas janelas de vidro transparente.
Minutos depois Joseph me levava de volta para casa. Ele não disse sobre o que conversara com Evan – eu também não perguntei. Seguimos em silêncio até nossa rua. Ele me beijou.
— Prometo que te dou os cento e vinte dólares.
— Se fizer isso nunca mais falo com você – disse ele, e pareceu verdade. – Considere um presente. Quero vê-la simplesmente linda amanhã à noite.
Eu sorri, e torci a sobrancelha.
— Você vai à festa? – perguntei, mesmo sabendo a resposta.
— Não deixaria minha garota ir desacompanhada por nada neste mundo.
Queria dizer que não estava exatamente desacompanhada, mas aquele minha garota acabou comigo. Eu fiquei paralisada, inerte diante da fala de Joseph Humfrey.
— Te pego às oito?
— Às nove. É melhor às nove.
— Tudo bem. Até amanhã, então.
— Até amanhã, Joey.
Ele me beijou novamente.
***
Meu pai fazia o almoço.
Aparentemente trabalharia somente meio período até o fim do ano, quando faria plantão. As pessoas gostam de comprar casa nova quando o ano termina.
— Oi pai – falei, sentando junto à bancada.
— Oi docinho.
Ele mexia alguma coisa quente, espirrava sobre o fogão, e imaginei que sobraria para eu limpar aquela sujeira.
— Como foi seu dia? – A panela continuava a espalhar comida pela cozinha.
— Ótimo, e o seu?
— Sofia, saiu da cama antes do fim do tratamento?
Revirei os olhos dentro das órbitas. Como poderia comprar um vestido para amanhã sem sair de casa? A internet não era uma opção – provavelmente o site só acabaria de carregar no meu computador cinco minutos antes da festa terminar.
— Estou bem, pai, é sério. Perfeita.
— Está brincando com sua saúde, isso sim.
— A maior parte daquela dor era psicológica – falei isso olhando para o comedouro cheio de ração da Fofura (caso ela voltasse com fome).
Será que ela estava com frio? Faminta? Era melhor nem pensar nisso porque sabia como terminaria – em lágrimas torrenciais.
— O que tem para o almoço? – perguntei, fungando o nariz.
— Paeja de frutos do mar.
— Parece bom.
— Por que não vai para seu quarto? Levo para você na cama.
Meu pai estava me tratando como uma inválida, e isso era horrível. Mas, no fundo, eu até que estava gostando daqueles mimos. Valia a pena ter insolação de vez em quando se fosse para receber tratamento vip.
Subi para o quarto. Ainda tinha de pensar em como resolveria aquele pequeno problema. Não poderia ir para a festa com Claude e Joseph ao mesmo tempo – não sem magoar um dos dois. Claude era meu melhor amigo e Joseph, bem, Joseph era praticamente meu namorado (se ainda não fosse havia boas chances de, até o final daquela festa, se tornar).
Deitei-me na cama e fiquei olhando o teto. Talvez segurar minha concha ajudasse a pensar melhor. Peguei “Passos na escuridão”, li duas páginas e abandonei. Não conseguia me concentrar. Escutei um barulho, e poderia jurar que era o Jipe do Evan – mas o som estava diferente de novo, dessa vez sem o barulho que tanto me incomodava.
Evan bateu à porta dois minutos depois.
— Entre! – gritei.
Ele sentou-se ao lado da cama.
— Onde está seu uniforme? – perguntei, segurando a mão dele. – Hoje é dia de papai ir à lavanderia, se quiser ele pode fazer isso por você.
— Deixei no carro, e você não passa de uma idiota.
Como que num insight, tudo se ligou dentro da minha cabeça. A palavra “carro” religou as engrenagens dentro do meu cérebro.
— Por acaso usou meu cartão de crédito, Evan?
— Não sei do que está falando.
— Seu carro fazia um barulho que mais parecia o estouro de uma boiada até dois dias atrás, e agora ele está perfeito, com o motor ronronando. Meu cartão apareceu detonado, sabendo que só você além de mim sabe a senha...
— A data de morte da mamãe... Você deve ser sadomasoquista, Sofia. Nada explica essa obsessão pela morte dela.
— Chega, Evan. Está me devendo uma.
— Não estou devendo nada. Salvei você da última vez – disse ele, cruzando os braços. – Estamos quites.
— Dois mil dólares de cartão pagam você para acender pelo menos duas mil lâmpadas. Ainda me deve uma.
— Você é cruel.
— Sei exatamente como vai pagar esse favor. Aí sim estaremos quites.
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