Um universo a mais
2 Capítulo 2
Todo mundo sabe que um telefone de latas simplesmente não funciona quando se está muito longe da pessoa para a qual se deseja transmitir a mensagem – na verdade essa porcaria não funciona nem mesmo de perto.
Claude deu dois puxões na linha – sinal de que queria falar alguma coisa.
Uma das latas ficava no meu quarto, e a outra no quarto dele. Um fio de pouco mais de quinze metros atravessava o vão entre nossas casas, por cima da cerca de madeira branca, e dessa forma nos unia.
Como uma pipa a seu dono.
Coloquei a lata na orelha e esperei. Sabia que se olhasse pela janela – à minha direita –, veria o Claude gritar desesperadamente com aquele treco na boca, esperando que eu entendesse pelo menos uma palavra. Isso já bastaria para a tese de doutorado que ele um dia defenderia. Talvez o chamassem de “o homem que provou que telefones de lata de molho de tomate são melhores (e mais baratos) do que celulares”. Naquele momento, porém, éramos dois estudantes secundaristas com latas penduradas nas orelhas feito idiotas.
Com o canto do olho vi que ele gesticulava bem em frente à janela, e decidi conservar um pouco da minha dignidade. Agarrei o celular e apertei o atalho para o número dele.
Claude atendeu no segundo toque.
— Acho que o fio não estava bem esticado – disse ele, sorrindo levemente.
— Claro que é o fio. Com certeza não é o fato de que isso não funciona se estivermos a mais de dois palmos um do outro.
Rimos. Claude ajeitou os óculos sobre o nariz e pareceu pensar na próxima coisa que diria. Sua expressão (agora eu olhava para ele diretamente pela janela aberta) era a mesma daquela estátua famosa, só que sem a célebre pose.
— Sabe, Sofia, estive pensando...
— Não me diga! – falei, sem perceber o que fazia.
Ele parou de falar e então a ficha caiu para mim. Fosse o que fosse que Claude desejava me dizer, provavelmente estava exigindo muito dele. Eu nunca o vira arrumar os óculos tantas vezes quanto naquela tarde ensolarada de junho.
— Desculpe-me, prometo não interromper mais – falei. – É que você disse que estava pensando, e você pensa o tempo todo, então...
— Sofia... – recomeçou ele.
Eu fingi que fechava minha boca com um zíper. Era isso ou ele jamais terminaria aquela frase.
— Estive pensando se você não gostaria de... não gostaria de ir comigo ao “De volta para o futuro”...
“De volta para o futuro” foi o nome escolhido para a festa de comemoração do fim da temporada estadual de futebol, que terminaria em quatro semanas. Nosso time, os Esquilos de São Francisco (cujo mascote, obviamente, era um esquilo gigante e dentuço) brigariam pelo terceiro lugar (o que era um bom motivo para comemorar, pois há seis anos não conseguíamos nem chegar às oitavas) e por isso alguns adolescentes iriam se embebedar e cometer irresponsabilidades à vontade no sábado logo após a final. Quer dizer, outros adolescentes – menos eu.
— Achei que você odiasse festas – falei, mordendo a unha.
— Não vou pela dança, se é o que te assusta. É que todo mundo da escola estará lá, e eu não queria ficar de fora mais uma vez... Pelo menos uma vez eu queria...
Deixei de ouvir o que Claude falava há duas frases atrás, quando ele apareceu na rua. Joseph Humfrey, meu novo vizinho e cujo nome eu descobrira remexendo o lixo dele (brincadeira, ouvi o pai chamá-lo assim no terceiro dia depois da mudança) passava pela calçada, pilotando um skate e ouvindo headphones enormes.
Vê-lo era como sentir o tempo desacelerar, deslizar lento, comprimido – talvez tal qual uma viagem por um buraco negro.
— Está me ouvindo, Sofia? – perguntou Claude do outro lado da linha.
— Claro... Claro que estou... Só preciso de um minuto...
Atravessei meu quarto correndo e saí no pequeno corredor que me levou até o quarto dos meus pais – atualmente conhecido como o quarto do meu pai. Fui até a janela para continuar a ver Joseph Humfrey.
— O que está acontecendo? – perguntou Claude, aparentemente irritado.
Joseph chegava em casa. Desceu do skate, abriu a porta e desapareceu. Durante aquele tempo eu não conseguia tirar os olhos dele, ou prestar atenção no mundo ao meu redor. Eu estava em outra dimensão.
— Sofia? Ainda está aí ou pulou da Golden Gate? – gritou Claude.
De repente eu acordei da minha pequena fuga da realidade. Claude também pareceu ter acordado de seu acesso cego de raiva, porque logo depois, antes que eu tivesse tempo de elaborar uma resposta, ele disse aflito:
— Sinto muito Sofia... Eu não queria dizer isso...
— Seu... Seu imbecil! – gritei também, desligando.
Corri até meu quarto e vi Claude Jenks balançar os braços na janela como se sua vida dependesse daquilo. Fechei a janela e me joguei sobre a cama.
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