Um toque aveludado
1 Boletim de Ocorrência
Notas iniciais
@ music @
Enquanto meu corpo estava em cima da cama, minha mente estava em outro mundo, outra história, outro lugar... Tinha acabado de terminar com o Manoel, um verdadeiro alívio para alguém que se encontrava em um relacionamento abusivo há alguns anos. Se estou pronta para a próxima página da minha vida? Talvez.
Estava perdida em meus pensamentos, até que acordei com os gritos de minha mãe, Helena. “Filha vem aqui! Tem uma coisa que você tem que ver!” Ok, provavelmente devia ser uma receita de algo super gorduroso e doce, ou um vídeo de gatinhos dançando.
Quando chego lá, minha mãe parecia ter saído de uma luta de MMA – não, ela não estava machucada, por mais estranho que pareça, minha mãe ama ver lutas de MMA e ficar muito feliz quando vê uma sem ser na TV. – logo, ela me mostra o que era no computador: o site, com minha nota.
— Parabéns filha, você passou pra Medicina! – Me parabenizou, abraçando-me.
Minha mãe saiu contando pra família toda. As aulas iriam começar só próximo ano, ainda. Mas já estava louca, pensando nesse “primeiro ano” em Medicina! Os estágios, trabalhos, salvar vidas... Quanta responsabilidade!
Já estava quase dando meia-noite, realmente, por incrível que pareça, essa noite passou rápido. Era melhor eu ir dormir logo.
. . .
O estrépito do despertador me tirava do sério, mas eu precisava dele para poder me organizar melhor. Olhei no relógio: 08h25min. Esfreguei meus olhos, fazendo esforço para levantar da cama. As palavras do meu ex-namorado ainda ecoavam em minha cabeça...
“Saí chorando do bar, com meu batom vermelho todo manchado e meu rosto todo sujo de rímel.
— Tá parecendo uma puta! Uma vagabunda! Melhor tirar isso logo! Não quero passar vergonha por causa de você...
As lágrimas caíam do meu rosto, sentia meu coração apertado. Olhei para ele. Lembrei de tudo que ele me fez passar.
‘Não vou mais deixar isso acontecer’
— Não preciso de um babaca que nem você! Acabou! Não aguento mais você, cacete! – Gritei bravamente.
Ele riu. Humilhou-me. Na frente de tudo e de todos.
— Também, não quero mais uma putinha na minha vida. Aproveita e começa a usar outros vestidos, esse é muito curto, piranha. Vaza daqui, porra! Antes que eu te dê o que você merece...
Não aguentei. Definitivamente, aquilo foi a gota d’água. Dei-lhe o soco que merecia. Seu rosto ficara vermelho, e, furiosamente, veio pra cima de mim.
— Vagabunda! Acha que pode me tratar assim?! – Vociferou, pegando no meu pescoço e me deixando seu ar.
Tentava lutar, gritar, mas não resultavam em nada. Os amigos bêbados dele que afastaram ele de mim.
— Não suje suas mãos com o sangue dessa rapariga, Manoel... Você não quer se preso, não é? Não vai dar pra te salvar outra vez... – Dizia seu primo português.
— Você vai ver, eu ainda vou atrás de ti! – Ameaçou, me soltando.
Corri o mais rápido que pude para conseguir realmente me sentir salva. Fiquei na casa dos meus pais, não tinha coragem de voltar para o meu apartamento, ele sabia onde eu morava.”
Hoje eu iria fazer o boletim de ocorrência. Meu pai foi comigo para eu me sentir mais segura. Encontrei um dos amigos dele na rua, mas ele parecia estar bêbado, andando de bicicleta, tanto que estava caindo o tempo inteiro. Mesmo assim, apertei o passo, fiquei com muito medo.
Quando chegamos lá, fui atendida por um policial homem, que só ficava conversando e não ligava muito para o que eu falava.
— ...Então ele pegou meu pescoço, e fiquei sem ar...
— Mas, espera... O que você falou? Vestiu algo que ele não gostou? – Me interrompeu.
Revirei os olhos. Não acredito nisso... Ele parecia nem ouvir o que eu estava dizendo! Depois de muito tempo e várias vezes contando a mesma história, finalmente fiz o boletim de ocorrência. Senti-me um pouco mais aliviada, mas ainda sim, com medo.
— Bia, não fica assim... Faremos o possível para se sentir confortável, pode ficar em nossa casa o tempo que quiser.
— Obrigada pai... Mas o sentimento de que ele está me vigiando não sai de minha cabeça... Nunca pensei que isso aconteceria comigo...
Seguimos o caminho calados. Ao chegarmos, fui recebida pela minha mãe, que foi logo me perguntando como tinha sido, se ocorreu tudo certo, apenas fiz em positivo com a cabeça, mesmo que tenha achado extremamente desnecessário as interrupções do policial, que acho que só queria que eu repetisse que dei um soco na cara daquele idiota.
Fui direto ao meu antigo quarto, que agora tinha virado um quarto de hóspedes. Abri meu notebook, e entrei direto no skype. Ok, quase ninguém estava online, mas pelo menos a Rebecca estava online, não conversava muito com ela, mas éramos amigas de infância, precisava falar com alguém.
Biadaszanca: Rebecca?
Beccacom2cês: Bianca! Quanto tempo... Tudo bem?
Biadaszanca: Oi, tudo sim... Pode falar com vídeo-chamada?
Beccacom2cês: Claro.
Iniciei a chamada. Fazia tanto tempo que não via a Rebecca. Ela estava bonita, mudou muito desde a infância, já não usava mais aqueles óculos enormes de hipster, e aquela franja enorme que tampava aqueles lindos olhos cor de mel. Ouvi até falar que foi convidada por uma agência de moda, mas não aceitou. Boatos, boatos...
— Bia!
— Becca!
— Por que quis falar comigo tão repentinamente?
— Sei lá... Fazia tempos que não conversávamos... Ah, fiz o boletim de ocorrência na delegacia...
— Boletim de ocorrência? O que houve?! Bia, você tá bem? Alguém te machucou?
— Ah... É mesmo, não te falei... – Senti um nó na minha garganta, não conseguia falar pra ela, afinal, talvez ela nem nos considere mais amigas... – Só meu ex-namorado que foi babaca...
— Ex? O Manoel? Mas ele parecia tão bonzinho!
Senti uma imensa vontade de mandar ela se foder, mas tava bem óbvio que não transparecia nas fotos que ele me obrigava tirar com ele, que ele era um nojento.
— Bom, as aparências enganam, né.
— Verdade... Mas e a facul de Letras?
— Letras?
— Sim, você sempre dizia que queria fazer a faculdade de Letras!
— Não... Eu vou fazer Medicina, meu sonho.
— Uau! Eu também vou fazer Medicina!
Ok, aquilo era bem estranho... Mas talvez pudéssemos trocar experiências entre médicas! Minha mãe estava me chamando, então apenas me despedi dela e fechei o notebook.
— Mãe, o que foi?
— Preciso que você busque sua sobrinha na escola.
— Ué, e o Esdras não pode fazer isso?
— Deixa de ser preguiçosa! Agora você ta morando com a gente, vai fazer o que eu mandar!
Dei um suspiro. Peguei as chaves do carro da mão dela e fui até a escolinha. Até que era perto e tinha pouco trânsito, então até que foi rápido. Pior que nem lembrava a idade dela.
— Hey... Qual é a sua idade? – Falei, olhando pra estrada.
— Cinco.
Ela não puxava muito assunto. Apenas dizia o que tinha que dizer e ficava calada. Poxa, eu pareço ser tão má assim? Até que eu percebi que estava com a mão na barriga.
— Tá com dor de barriga?
— Não, tô com fome. – Respondeu, sem nem olhar para mim.
Como tava com dinheiro, decidi passar na padaria e comprar algum salgado pra ela. Saí do carro e levei-a junto, permitindo com que ela escolhesse. Ela estava totalmente indecisa, e preciso dizer: aquilo estava me deixando impaciente, estava a ponto de pegar aquela menina e voltar com ela pro carro. Por que eu fiz aquilo, Meu Deus.
Ela não aceitava nenhuma sugestão minha. Até que um cara de cabelo longo, mais ou menos um pouco acima dos ombros, os quais pareciam ser bem sedosos. Seus olhos eram castanhos, e sorria muito. Chegou perto de minha sobrinha e falou:
— Olha, esses salgados não são tão bons, mas o mousse de chocolate daqui é muito bom!
— Tia, eu quero o mousse!
Olhei quanto tava o mousse, e não dava para eu comprar já que só tinha dinheiro para um salgado.
— Não dá pra titia comprar...
— Sem problemas, eu compro pra vocês.
Eu achei estranho, ou ele tinha algum interesse romântico em mim ou era algum parente nosso, porque não é possível! Sem bem que, se ele tiver algum interesse romântico em mim, não é lá um problema...
Ele comprou e seguimos de volta para casa, enquanto Rita, minha sobrinha, comia o mousse com a maior cara de felicidade. Quando chegamos em casa, ela tava toda melada de chocolate, até tiramos um foto dela! Garotinha mais fofa e indecisa não há.
— A Ritinha gostou bastante de você. – Disse meu irmão, enquanto lavava os pratos. – Ela te elogiou muito, disse que quer que você busque ela todos os dias.
Dei uma risada.
— Buscar ela todos os dias? Aquela menininha é muito indecisa!
— Ela também disse que tinha um moço que ajudou a comprar o mousse, e que você ficava olhando pra ele toda hora...
— O quê? Que mentira! – Falei, mas ele não acreditou e começou a rir.
— Claro, é tão mentira que você tá até vermelha.
Dei língua para ele, parecendo uma criancinha. Voltei para o meu quarto e apenas deitei. Estava bastante cansada, cansada daquele policial, cansada do meu ex, cansada de tanto ódio, cansada de ter que ficar na casa dos meus pais, simplesmente, cansada.
Você pensou que eu morreria sem você
Mas estou vivendo
Você pensou que eu falharia sem você
Mas estou no topo
Pensou que acabaria por agora
Mas não vai parar
Pensou que eu me auto-destruiria
Mas ainda estou aqui
[...]
Fale com o autor