Um toque aveludado
2 Preparativos
Notas iniciais
(☔)
Estou recebendo ligações estranhas, ficam respirando, bufando, rindo... Estou com medo, está vindo de um número privado. Falei para a minha mãe, ela ficou muito preocupada e sugeriu para eu mudar de estado.
— Mas... Minha vida está toda aqui. Deve ser meu ex. Ele deve ser preso. Eu não devo sair daqui.
— Filha... Não faça essas loucuras... Se você desaparecer, eu não sei o que eu faço...
— Mãe... – Neste momento, nos abraçamos, estava com medo, mas não podia deixar minha vida toda que estava ali, ainda mais que tinha passado para uma faculdade.
Ficamos um tempo abraçadas, dei um beijo em sua bochecha e tentei acalmá-la. Afinal, não é fácil pra nenhuma mãe quando sua filha está sendo ameaçada.
Enquanto isso havia flashes de lembranças minhas do passado.
“Manoel me ligou. Disse para eu ir à casa dele, assistirmos um filme. Será que ele vai me dar um presente de 1 mês de namoro? E meu aniversário está chegando, 16 anos...
Quando cheguei, bati na porta e ele atendeu rapidamente. Perguntei para ele o que queria, mas ele simplesmente me calou com um beijo.
Um beijo agressivo, com segundas intenções. Ele estava cheirando a álcool e cigarros, tentei me afastar, mas ele me segurou.
— Ei, Manoel! O que você ta fazendo?! Você bebeu?
Ele continuava tentando me beijar, falando que eu ia gostar. Estava preocupada, o que ele queria dizer com isso? Ele me prendeu com tanta força na parede que ficaram marcas de suas mãos em meus ombros.
‘Deve ser só o jeito dele’ pensei. ‘Mas, mesmo que seja o jeito dele... Eu não quero. Ele tem que respeitar minha decisão!’
Ele tirava as alças da minha camisa, eu tentava impedi-lo, mas ele era muito mais forte que eu. Não queria que minha virgindade fosse tirada em um lugar fedorento, e ainda mais, não queria. Simplesmente não queria.
Vendo que não ia me render, me empurrou no sofá e subiu em cima de mim. Pegou em um de meus seios e começou a apertar com força. Com a outra, tirou a alça da minha camisa. Eu gritava para ele parar, mas não parava. Ele sequer me ouvia.
Pesado. Não conseguia me soltar. Sentia vontade de chorar, de morrer. Tudo o que eu queria era sair de baixo dele. Sentia o membro dele tocar em minha parte íntima, comecei a chorar desesperada.
Ele não me amava?”
— Mãe, vou sair um pouquinho... Preciso de um ar, não estou me sentindo muito bem. – Falei.
— Ah não, mocinha. Você não vai sair sozinha. Vai ir comigo e com a Rita.
— A Rita?
— Sim, ela tem que ir, não posso deixar ela sozinha em casa.
— Deixa com o pai dela! Onde já se viu, nem fica direito com a menina... – Reclamei.
— E também, vai ter a festinha dela. Aproveitamos e vamos à feira, compramos as coisas e arrumamos tudo...
Revirei os olhos. Queria um tempo para mim, não para ir comprar coisas de festa!
— Pelo menos já sabem o que ela quer? – Perguntei.
Minha mãe fez em negativo com a cabeça e minha cara só demonstrava desaprovação. Nem sabiam direito o que a menina queria! Minha mãe chamou a Rita na sala, e na mesma hora, respondeu:
— Do Batman!
Minha mãe fez uma cara de surpresa na hora.
— Do Batman? Mas ele é um cuzão, o Deadpool é melhor. – Meu irmão se intrometeu.
Minha mãe quase ia batendo nele por usar palavreados impróprios na frente de criancinhas. Mas ele não tava nem aí. Só quero ver quando a “Ritinha” tiver falando o como ela tem um pai cuzão que sempre deixa ela com a avó.
— Vamos logo então. – Eu disse apressada, já na porta esperando por elas.
Fomos andando até a feira, que era até bem pertinho de casa, o que tornava as coisas mais fáceis e rápidas. Entramos em uma loja qualquer, que parecia estar com desconto. Tinham algumas coisinhas legais, até. Pensava que ia ser um saco, mas me diverti com a Ritinha. Devo parar de ser tão pessimista...
Quando estávamos comprando várias coisas do Batman, as moça do balcão perguntou:
— Nossa quanta coisa! – Sorriu. – Festa?
— Sim. – Respondeu minha mãe, com um sorriso no rosto.
— Qual é o nome dele?
— Dele quem? – Questionei.
— Do menino que vai ter a festa.
— Não é menino. – Dei uma risada nervosa. – É menina, a Ritinha aqui, a loirinha mais fofa que conheço.
— Mas... Do Batman? É de menino!
Dei um suspiro. Não estava a fim de discutir. Não hoje. Eu e minha mãe ignoramos e a mulher só fez uma cara feia. Quando já estávamos saindo, ouvi uma voz que já tinha ouvido antes.
— Ei! – Gritou. – Vocês esqueceram isso! – Mostrou os adesivos do Batman, que tinham voado da cestinha.
Oh, era o cara da padaria. Ele estava me perseguindo ou o quê? Na mesma hora, minha sobrinha gritou: “Olha! É o tio do mousse!” e ele começou a rir. Andei rapidamente até ele e peguei os adesivos, agradecendo depois.
— Sua filha é engraçada. – Olhou para Ritinha.
— Filha? Oi? Ela é minha sobrinha. E você ta me perseguindo ou o quê? – Falei ríspida. Não quero que estranhos fiquem falando comigo.
— Calma, eu não estou te perseguindo, pode ficar tranquila, mulher sem grana. – Disse, sarcástico.
— Nossa! Como você é engraçado. Estou rindo muito. Por dentro. – Respondi no mesmo nível, e fui embora.
Não vou ficar aguentando piadinhas por aí não. O cara nem que conhece e já vem com ironia comigo? Odeio gente assim. Na volta pra casa, minha mãe ficou me enchendo o saco junto com a Rita.
— Quem era aquele gatinho? – Perguntou, olhando para a mim, com um sorriso bobo no rosto.
— Apenas um cara que comprou um mousse para a Ritinha, nem conheço ele e nem quero conhecer. Fica forçando intimidade...
Ela fez uma cara pensativa.
— Espera... Eu já vi ele na Igreja!
— O quê?
— Sim, não se lembra? Aquele cara que toca violão, e que você era apaixonada nele quando fazia crisma!
Neste momento, o meu rosto ficou mais vermelho que um pimentão. Se me lembro bem, na época, só fazia poesias pensando nele. Minha mãe começou a rir.
— Dane-se... Não quero saber. Ele nem ligava para mim mesmo. E, espera. Como você sabia que eu gostava dele?
— Mães sabem de tudo. Você acha que eu nunca me apaixonei?
Passamos o resto do caminho apenas rindo das coisas loucas que a Rita inventava. E pensar que minha sabia que eu gostava dele... Que loucura.
“Esses dias, eu consegui encontrar o facebook dele. Já que o nome dele é meio estranho. Bom, eu vi poucas pessoas com esse nome.
Ele posta várias fotos, isso é bom. Ele é bem engraçado e fez até um textinho para a mãe. Que lindo! Que dia ele nasceu? Ah... Não aparece. Não tem problema.
Tem uma foto com o número de celular dele, se eu adicionar, talvez um dia possamos nos falar ou algo do tipo. Talvez no futuro, por que não? O mundo gira!”
O mundo realmente dá voltas. Enquanto isso preparávamos os enfeites para a festa, já que seria nesse domingo. Rita estava toda animada, mal esperava poder se fantasiar de Batman e sair correndo por aí, fingindo que está salvando pessoas.
— Mãe, quem a senhora vai convidar? – Perguntei curiosa.
— Ah... Só gente da família mesmo, compramos pouca coisa, não dá pra chamar amiguinhos, vizinhos ou a família inteira. – Respondeu concentrada nas lembrancinhas. – Filha, preciso te perguntar uma coisa.
— O que seria? – Já estava pensando em tudo que havia feito esse ano.
— Amanhã te pergunto. Pode ir dormir, já está tarde.
Eu ia insistir para ela me perguntar logo, mas estava muito cansada, então decidi só dar uma olhadinha no meu celular e ir direto para a cama.
Será que ele mudou muito?
Você me liga pelo telefone, parece tão distante
E me pede para ir até aí
porque tem alguns jogos que você quer brincar
Eu ando até sua casa, não há ninguém
É só eu e você, você e eu sozinhos
Estamos apenas brincando de pique-esconde
Está difícil respirar debaixo dos lençóis com você
Não quero brincar de joguinhos
Estou cansada de sempre perseguir, perseguir você
[...]
(Play Date, Melanie Martinez)
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