Um tal Cavaleiro
3 Um dia comum
Notas iniciais
Aquele era um dia comum. O sol brilhava no céu, algumas nuvens claras pintavam o firmamento. Os pássaros voavam com tranquila monotonia. Os animais, mais distantes de Estherburg levavam suas rotinas com calma, sem medos. Os plebeus, os nobres, o clero e nós, os militares, fazíamos nossos deveres.
Eu por exemplo, vestia minha cota de malha de 25kgs, meu capacete com proteção nasal, e levava minha espada na bainha bem feita, que comprei dois meses antes.
Era um dia bom. Um dia comum. Mas o comum é bom.
Lady Arthúria surgiu no saguão leste do forte. Ela vestia as cores de sua casa, a regente da cidade que dividia o nome com o forte. Ela carregava em seus braços uma cesta com garrafas de vidro azulado.
Aquilo era incomum. Mas eu dei de ombros, meu trabalho era conferir como estavam os estoques de flechas. Um trabalho chato, mas pelo menos não me negavam uma caneca de cerveja. Meus superiores apenas não precisavam ver.
Da janela, quando me cansava de revisar os documentos, prestava atenção na bondade da bela nobre que fazia o sangue dos soldados mais jovens saírem perigosamente de seus cérebros e músculos. Ela era realmente bonita.
Lady Arthúria, mulher alta, de pele morena, cabelos escuros e sedosos, olhos cor de mel... Seus lábios, diziam os soldados, pareciam frutas que pediam para serem beijadas. Diziam os soldados.
Tomava minha cerveja gelada, sozinho em paz, quando um suboficial chamado Durgo, arremessou-se contra a porta do cômodo abrindo-a poderosamente. Ele gritava por ajuda. Dizia que algo estava acontecendo, que muitos soldados estavam passando mal, vomitando uma gosma enegrecida.
O dia estava ficando bem fora do comum para o meu gosto.
Me levantei, ocultando o líquido dourado e gelado da possível linha de visão de Durgo. Perguntei a ele o que havia acontecido, mas ele exaltado não soube responder, dizia que não sabia, que todos estavam bem até começarem a pôr as tripas pela boca.
Saímos apressado do cômodo. Durgo seguia a minha frente gesticulando, tentando explicar onde estava na hora que viu alguém vomitando tudo. Eu atrás, apenas me perguntava se o babaca do comandante havia passado pelo mesmo. Valeria a pena deixar aquilo se estender um pouco mais para ele passar dessa para uma melhor? Nossa melhor.
"Dancan!" Ouvi alguém gritar bem atrás de mim "Por Tharmound" A voz era bem conhecida para os meus ouvidos "Nos ajude!" Quando me virei me deparei com John Lander, o comandante babaca babando alguma coisa de cor negra. Minha face era calma, um pouco alarmada, mas dentro de mim, os fogos de comemoração estouravam por todos os lugares.
Um momento feliz? Não.
Jhon Lander estava tentando fazer respiração boca-a-boca em um soldado, Lucrecia, uma porta Estandarte protegida por ele. Ela parecia mal. E eu não queria o mal dos outros, só do babaca mesmo.
Imediatamente mandei que Durgo procurasse o curandeiro do forte, um deles, já que haviam quatro. A ideia pareceu ser algo incrível para o suboficial que saiu correndo na direção da sala de medicinas. Durgo não era lá um dos homens mais espertos dali, mas sem dúvida era um dos mais prestativos e preparados quando se tratava de conflitos.
Perguntei ao babaca, depois de um pensamento pecaminoso com Lady Arthúria, se Lucrecia havia tomado da bebida que estava sendo distribuída pela nobre no pátio a pouco tempo. Ele me olhou nos olhos, com aquela expressão babaca, e respondeu que sim. Disse que pouco antes de começar a passar mal havia ingerido o líquido de cheiro doce e de cor levemente avermelhada.
Só podia ser isso. Só podia ser isso. Eu pensei duas vezes, para gravar a possibilidade de Lady Arthúria ser a responsável por aquilo.
"Avise ao curandeiro, peça a ele uma medicina que limpe o estômago de quem a tomar" — Bradei de forma heroica, quase agindo como o próprio Jhon Lander faria se estivesse em minha posição.
Corri para o pátio procurando a mais bela suspeita. Rastros enegrecidos aqui e ali, um ou outro soldado se esvaindo em vômito negro, para lá e para cá. Mas nenhum sinal de Arthúria. Onde estaria, eu pensava a cada curva em cada novo corredor que percorria. Mas não a achava.
Maldito dia esquisito.
Mas piorou, corria por um corredor auxiliar. Era pouco usado por ter sido fechado em uma obra há alguns anos. Ele levava a um pátio pequeno, agora um jardim, visitado pelos soldados para aproveitar uma fonte de água limpa. Quando ouvi o som de uma risada feminina. Ouvi palavras, desconexas, como se me chamasse, e zombasse de mim ao mesmo tempo. Maldita lady Arthúria, porque os piores demônios tomam os moldes mais bonitos? Eu me perguntava enquanto corria pelo escuro corredor. No final, a claridade do dia. Quando chegou no local, não havia ninguém.
Por um instante apreciei a ausência de alguém ali. Era sinal que tudo era coisa da minha cabeça. Depois, quando olhei com mais calma, senti um frio na espinha.
No chão, semi oculta pela fonte e pelo jardim de flores, um vestido nas cores da casa da família regente. Me aproximei, logo depois de sacar minha espada da bainha. Tinha medo, pois não passaria um único alfinete, mas tinha o dever de saber o que estava acontecendo. O vestido estava vazio, largado ao lado da cesta com uma garrafa restante. Mas Lady Arthúria não estava lá.
Aquele dia não teve nada de comum.
Eu nunca gostei de feitiçarias, mesmo sabendo que podia ser algo positivo. Tinha até um pouco de receio, veja bem, não era medo, era apenas receio, do curandeiro e suas medicinas.
Entreguei o frasco de cor azul, com o líquido avermelhado para um dos curandeiros. Oflaph Organ, um velho homem, estudioso dos segredos do corpo humano, da magia e das estrelas. Eu tinha certeza que ele descobriria o que era aquilo.
Por outro lado, foi difícil convencer os demais capitães sobre o que eu tinha visto. Mas o que mais me surpreendeu foi o comandante babaca aceitar minha história. Talvez o atentado a sua protegida tenha o deixado mais aberto a possibilidades.
Decidimos não deixar a informação circular por aí. Apenas os capitães saberiam. Principalmente depois de saber que Lady Arthúria havia desaparecido de sua casa na manhã do acontecido.
Aquele não era um dia comum, mesmo com tudo dizendo o contrário. E por isso, desde então, passei a duvidar da paz relativa a normalidade. Ela às vezes pode esconder coisas inexplicáveis.
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