Um tal Cavaleiro

4 Donzela de Ferro


Notas iniciais
Oi, tudo bom? Você vem sempre aqui? Ah, não? Deveria! Como assim, não? Volta aqui! Lê tudo desgraça! Isso, bom garoto! Não adianta reclamar, com essa mordaça, não da pra entender.

As noites de inverno em Estherburg são todas bem parecidas, a chuva fraca mais constante torna o chão bem lamacento, os ventos gelados nos obrigam a ficar em lugares fechados o máximo possível e, a neblina ao amanhecer inspira medo em todos que precisam viajar.

Por acaso nesses meses mais frios nós das legiões estacionadas no forte não tempos muita opção, ou vestimos capas de peles bem quentes, quando estamos em serviço, ou esquecer abrimos as portas dos alojamentos. Infelizmente o frio se aplica a capitães também, é uma tristeza.

Entre esses dias frios, há sempre aqueles que tornam os demais meros dias quentes de verão a beira do rio.

Essa noite era um desses dias.

Os ventos gelados vinham com neve, algo muito raro aqui, tão ao Sul. Houser estava tão coberto por peles que seria confundido com um urso pelos anciões que passeiam pelo forte procurando problemas para nos dar.

Ele insistia em dizer que o ar gelado ainda estrava no cômodo onde estávamos, mas as chamas da lareira nem se moviam.

Eu, como em todos os invernos, tomava uma bebida quente, feita de cacau e outras mercadorias trazidas das terras mais próximas ao equador. Ela era doce na medida certa, e ao ser servido quente fazia meu corpo formigar de tão gostosa que era. Aquilo tinha um nome, mas eu sempre preferi chamar apenas de ‘perfeição’.

Os rapazes vieram bater na porta, nos convidando para tomar algum que esquentasse até a alma, nas palavras deles. Não tinha tido a oportunidade ainda, por isso nunca comentei, mas se havia algo que Houser sentia mais que frio, era vontade de encher a cara. Aceitou por ele e por mim, me puxando e quase me fazendo derramar minha iguaria tropical.

Saímos cobertos até as orelhas por peles, nós, vários solados de folga, Luppa, uma capitã da Quarta Legião que nos visitava, e alguns de seus suboficiais. Éramos muitos, e quando chagamos a taberna, há ocupamos quase que totalmente.

A capitã era muito bonita e, isso era o motivo para boa parte de todos aqueles marmanjos estarem por lá reunidos. Luppa era conhecida no meio militar por liderar sua legião para a vitória em um conflito contra uma horda de Trusgos. Ela saiu vitoriosa, e também conhecida como Donzela de Ferro, um apelido um pouco esquisito, que eu daria para um grupo de músicos, não para um soldado.

A conversa corria bem para o que era esperado quando soldados unem bebidas a baixas temperaturas: todos estavam bêbados.

Mas ela não estava. Luppa, a capitã visitante parecia não perder a pose, mesmo depois de alguns barris terem sido servidos para todos nós. Ela era implacável, tanto em campo quanto com a caneca em mãos. Começava a concordar com sua alcunha naquela momento.

Foi quando ela me olhou, eu entro dezenas de outros ali. Estava rindo de alguma piada idiota de um dos soldados, comendo um pedaço de frango e certamente enxergando duas dela, que se aproximava lenta, mas elegante, de mim.

Você é Dancan White, certo?” – Ela falou para mim, com sua voz dura, de uma verdadeira oficial. Mas eu apenas conseguia ouvir a gritaria e as risadas dos demais. Apesar disso, concordei com a cabeça.

Luppa puxou uma cadeira e sentou-se ao meu lado, arrancando olhares surpresos dos mais próximos, que deram espaço para que ficássemos a sós. Tolos, eu nem tinha entendido o que ela falava.

A Capitã me olhou nos olhos, e eu apenas ria, sem entende exatamente o motivo. Ela começou a falar, mas eu sinceramente não compreendia muito bem, apenas palavras como “ousadia”, “escrúpulos” ou “Arthúria”. Estava bêbado demais. Mas me espantei quando ela se aproximou e rapidamente me beijou, dizendo em meu ouvido para que acompanhasse até um lugar mais reservado, fora da taverna, no estábulo.

Todos em silêncio a olharam levantar-se, ainda segurando minha mão e então me soltando. Minha boca estava caída, assim como a dos demais a minha volta. Houser me cutucou com um leve chute na costela, enquanto apontava para a direção da Capitã, me incentivando a segui-la.

Levantei-me trocando as pernas e segui o rastro bem cheiroso que o perfume da Capitã da Quarta Legião deixou. Um portal, um corredor, uma porta, aberta. Lá fora, escondida da neve e dos ventos, ela me aguardava de costas para a entrada.

Tenho algo muito importante para contar-lhe Dancan White” – Ela diz com sua voz imponente. Minha mente, apesar de compreender a mensagem, ainda se atém a cena anterior: o beijo e, eu caminho até ela, tomando-a pela cintura. Não noto sua expressão contrária, ou a sequência de movimentos seguintes, que lavam um balde de água gelada até minha cabeça.

O impacto somado à água gelada me desperta, para o extremo frio e a extrema vergonha de mim mesmo.

A Capitã me encara, com um sorriso que para mim é indecifrável até hoje. Ela me pergunta se eu já estou apto a conversar, eu mexo minha cabeça concordando, mas a verdade é que ainda estava zonzo.

Eu me recostei em uma das vigas, a mais próxima da tocha. A mulher a minha frente, se encostou do outro lado da mesma viga.

Ela falou sobre os boatos da magia que percorriam as bocas mais ocultas. Dos males de um conspurcador. Talvez até houvesse um traidor, mas ela não poderia ter certeza. Disse que muitos adoeceram em RedBurg, a cidade fortaleza onde sua legião fica estacionada.

Naquele momento as informações eram apenas palavras, enquanto na verdade era muito relevadoras.

Sua voz se intensificava principalmente quando tratava sobre esse possível traidor. Alguém, que segundo ela, deveria ser algum nobre, alguém importante, para saber dos segredos dos governantes, e ter certa influência, já que conseguia sempre estar um passo a frente de qualquer investigação, seja quão sutil fosse.

Era isso que me lembrava, quando dei por mim, semi desperto em minha cama. Olhei para os lados, procurando alguém, mas eu estava só. E em meio e esse estado duvidei da veracidade das minhas lembranças, talvez fosse apenas um sonho.

Vestia apenas meu robe de capitão, minha armadura estava cuidadosamente posta em seu apoio, algo que eu raramente fazia sóbrio, portanto, bêbado não seria a ocasião.

Estava confuso, até notar o pedaço de papel em um bolso interno da roupa. Ao retira-lo, eu pude compreender que o sonho era real. Nela, um nome, que foi o suficiente.

Pude me lembrar das palavras de Luppa, claras como o dia: “seja quem for, Lady Arthúria se encontrou com ele há três semanas”.

Notas finais
Nesse ponto, alguns pontos importantes já começam a se cruzar. Mais sobre isso nos próximos capítulos! Até mais xente (: