Um tal Cavaleiro

8 A cor vermelha


Notas iniciais
Dancan é um cara bem legal, pena que não pode ver...Jhon Lander, já chama de babaca. Ele fala merda e é babaca! Jhon Lander é babaca e o Dancan ta de olho! Cuidado com a espada no pescoço!

Uma coisa que aprendi depois de muito bater minha cara contra a parede é que nunca algo está tão ruim que não pode piorar.

O 'comandante' Lander nos acordou em uma noite calma e fria. Suas três legiões sempre funcionaram como uma única, por isso, apenas éramos capitães das três, sem ninguém saber exatamente, por ordem do próprio grande babaca, de qual legião fazia parte.

"Temos uma missão para vocês, capitães da Nona Legião"— Foram suas palavras e, não sei os demais, mas por mais que eu tentasse controlar meus impulsos agressivos desde a corrida no bosque, ser acordado por ele, com essas palavras me tirava do sério.

Eu queria mata-lo com meu travesseiro.

Todos nós ficávamos em um alojamento separado. Um prédio mais recente, construído e integrado ao forte. Lá era melhor, longe do barulho. Eu gostava, não tinha que conviver com aquele babaca o tempo todo. E Jhon Lander tinha seu próprio aposento no forte, junto dos demais soldados.

Obrigado, deuses.

Ainda sonolento me levantei e abri a porta. O quarto da frente era o de Houser, que já estava escorado na porta olhando para o Jhon Lander com cara de poucos amigos. Vi que todos faziam algo semelhante.

Nosso líder disse que a Nona Legião partiria. E todos nós nos entreolhamos. Fazer aquilo me trazia más lembranças. Um calafrio. Uma cidade pequena, Nagbraser, estava sendo sitiada pelos Trusgos, e a Nona, juntamente com a Terceira, Quinta e Décima Sexta Legião deveriam salva-la.

Aguardei até maiores explicações, assim como os demais. Não houve. Jhon Lander buscava um pergaminho em sua bolsa. Logo que o encontrou proferiu aquelas palavras. E desde então, eu soube que ele não gostava de mim.

"Os nomes que eu não disser não ficam, vocês não são capitães responsáveis pela Nona"— Sua voz, como sempre, carregava aquele ar babaca. Digo, aquele ar superior. Nosso comandante era extremamente convicto de suas ações o que geralmente era mal visto por mim e pelos demais.

Como eu podia esperar, o meu nome foi um dos três que não foi citado. Era de se esperar. Bom, eu acreditava muito nisso. Ele, Jhon Lander, disse que nós três marcharíamos logo e devíamos nos aprontar, enquanto os demais nos olhavam com misturadas emoções. Alívio, pena, respeito. Houser tocou meu ombro, seu nome tinha sido dito, ele ficaria.

Fomos amigos por muitos anos, desde meu ingresso nas forças militares, quando ele já era um sargento marrento e idiota. Lutamos, brindamos e choramos juntos. E por esse motivo, aquele simples gesto carrega muito mais que apenas um toque.

Todos sabem o que significa uma cidade ser sitiada pela horda dos Trusgos.

Seguimos o comandante em silêncio depois daquilo. Eu, Maurice De'Levor e Andal Olhos Dourados. Ele nos deu algum tempo para nos lavarmos e nos preparar. Comi algumas frutas, e tomei um gole da iguaria que tanto amava beber durante o inverno. Andal vestia seu elmo, o com as asas dos grifos de Andallon, Maurice carregava sua maça, forjada nas forjas dos mil anos e eu, carregava a espada de herdei de meu pai, que por sua vez herdou de seu pai e por ai vai.

"Vocês podem pensar que eu detesto vocês"— Ele falou com o mesmo tom de sempre. E claro, eu concordei em totalidade. Mas suas palavras começaram a carregar um misto de emoções raramente sentidas daquele homem com pose de um rei. Nagbraser é sua cidade natal, ele nos explicou, contou também que é a única cidade protegida por uma fortificação em milhas.

Enquanto ele falava, eu me perdia em meus pensamentos. Mas não era o meu ódio por ele, ou meu instinto de preservação, quando se tratava dos Trusgo. Via em minha mente o mapa da nossa região e compreendia completamente o que Jhon Lander queria dizer. Se Nagbraser caísse, não haveria nada entre a horda e Estherburg.

Então ouvi dele, algo que sinceramente jamais poderia esperar, por cada um de nós ser escolhido. Maurice era o melhor estrategista que tínhamos nas três legiões sob seu comando, Andal era a capitã mais inspiradora, com os soldados mais leais, e eu, Dancan, era o que tinha mais experiência contra as bestas, o único que sobreviverá tanto tempo em combate. Não podia acreditar que ele falava aquilo. Principalmente quando disse que seria eu quem lideraria, pois não havia homem melhor.

Meus olhos fixos em meu comandante não podia expressar a confusão que se passava dentro de mim. Eu o xingava, e ao mesmo tempo o agradecia. Jhon Lander não era o babaca que sempre acreditei?

Pharvra e os outros tenentes chegaram na ante sala onde estávamos. Ela informou a minha, e para todos, dada sua voz de comando destacada que a Nona Legião já estava preparada. Sutilmente virou-se para mim, curvou-se com o sorriso sincero e falou: "As suas ordens, Comandante White".

Eu não discursei para os meus homens naquela noite. Andal e Maurice também não. Marchamos em silêncio, enquanto todos os outros soldados, homens e mulheres, os sargentos, os tenentes, todos os capitães e o próprio Comandante Jhon Lander, nós observavam, com tochas com chamas vermelhas.

A cor vermelha sempre foi importante para a nossa cultura. Ela representava o sangue. Lembrava-nos do nosso dever; o de proteger aqueles que precisavam. As tochas queimavam rápido, tremulantes com o vento. Não era uma despedida e, no fundo de nossos corações nos sabíamos disso. Ou queríamos acreditar.

Enquanto conduzia Peruquito, era rodeado por meus quatro tenentes. Nenhum deles ousava virar-se para trás. Olhavam para frente, encaravam seu destino. O destino que estava em minhas mãos. Mais uma vez, os destinos de outras vidas estavam em minhas mãos. Mas se antes eram algumas dezenas, dessa vez, eu carregava sob as costas o destino de milhares e milhares. Perguntei-me se era aquilo que o Comandante sentia o tempo todo, e congelei ao ousar acreditar que sim.

Talvez o babaca fosse eu.

As chamas vermelhas deixavam a noite clara. E inflamavam meu coração. Eu tinha sido derrotado em batalhas, perdido homens, a esperança. Mas não mais.

E baixo, disse para mim mesmo "Não mais".

Notas finais
É gente boa, será que essa é a última aventura do nosso querido amigo Dancan? E o Jhon Lander, ele é ou não é um babaca realmente? Mistéééérios! Continuem acompanhando que talvez vocês descubram (: