Um tal Cavaleiro

9 Se tiver coragem


Notas iniciais
Algumas coisas no nosso passado as vezes influencia nosso presente e futuro. E não poderia ser diferente com o Dancan. Mas as vezes eu tenho pena da Pharvra, ela não merece :c

Ela nos contou como viu a terra sendo engolida pelo mar, sobre como as florestar morreram e a Majestosa nasceu, como as montanhas Thurborn, as antigas terras do meu povo, haviam se erguido e, mais. Eu ouvia suas histórias e minha expressão era de puro deleite. Sua voz macia dominava perfeitamente a minha mente, com oratória perfeita, me capturando profundamente.

Estávamos sentados, encostados na parede de pedras bem antigas, mesmo acorrentado, não sentia nenhum incômodo. Até mesmo Pharvra, dura na queda que só, estava visivelmente calma e relaxada, completamente focada nas histórias da mulher a nossa frente.

Seu nome era Ellunarum, tinha o rosto fino, pele branca como a neve e os cabelos brilhantes como o sol que nasce pela manhã. Seus olhos eram azuis como os mais raros topázios, seus lábios vermelhos e chamativos como as frutas mais saborosas.

Não era possível que um ser tão belo e de voz tão doce fosse à mesma bruxa que procurávamos. A magia que usou para nos aprisionar, os corpos cadavéricos que cercavam sua casa, as erva que enriqueciam o cheiro do lugar, os animais que perambulavam saltitantes, nada daquilo fazia sentido. Não para mim. E, acho que para Pharvra também.

Ela disse que não era daquele mundo, nos explicou que é alguém que vivei muitas vidas humanas e, que buscava conhecimento em meio há solidão de ser a última de seu povo. Contou-nos que se sentia o ser mais solitário de todos, ao menos, como ela mesmo dizia, fazia uma era dos homens que não cruzava como outros como ela.

Sua feitiçaria não era o problema. Sério? Mas em meio a suas histórias comecei a me questionar o motivo de não ser. Não fazia sentido para mim.

Percebi que a casa era clara demais, que a profusão de cheiros; rosas, ervas e várias flores, eu mal conseguia compreender. Nada ali parecia muito real. E, o que mais me intrigou, o que era mais surpreendente era Pharvra estar tão imersa naquilo como eu.

Algo estava errado. Ela definitivamente não ficaria tão calma nessa situação. Eu ficaria, não ela.

Ellunarum mentia? Usava sua feitiçaria de forma mirabolante, tão cheirosa e vistosa para ludibriar meus olhos? E, se fazia isso, seria aquela mulher unicamente tão bela real?

"Você é como se mostra ser?"- Perguntei curioso e ardiloso. Pude ver em seus olhos a surpresa e, algo a mais. E por um instante não pude compreender até a doçura de sua expressão começar a mudar para raiva e nojo.

Pisquei uma vez e algo aconteceu. Pisquei novamente e o lugar já não era o mesmo.

Maldita feitiçaria.

"Como você ousa não acreditar em mim?"— Ela falou, com a voz ainda doce, mas tomada por rancor e amargura. A terceira piscada que dei revelou outra aparência: o corpo magro, de pele cinza, de olhos escuros com apenas uma única chama avermelhada no centro, seus cabelos, antes brilhantes como o primeiro sol da manhã, agora estavam sujos, brancos e quase tão ralos como os de um idoso, os lábios secaram até ficarem como uvas passas. Ela mudou e, agora seria real?

Os mitos e as cantigas que minha mãe e avó cantavam para mim quando pequenos eram reais. Felizmente a feitiçaria daquela mulher perdia o efeito e, para minha infelicidade, o meu pavor pela magia voltava a tomar todo o meu corpo.

Sentia tanto medo que meu coração palpitava tão rápido que achei que ele fosse pular para fora do meu peito. Olhei para os lados, tentando compreender onde eu estava Pharvra estava lá, do meu lado, como no 'sonho'. Ela dormia em paz como eu mesmo há alguns instantes atrás.

"Me solte, bruxa!"— Bradei com a voz oscilante, apavorado. Ela resmungou, mexendo a longa colher dentro do que eu imaginava ser um caldeirão. Olhou para mim, então, e percebeu o meu medo. Ela riu. Disse que mesmo que eu estivesse solto, não poderia fazer nada contra ela, pois eu estava aterrorizado. Ela tinha razão. E antes de se voltar a seu caldeirão novamente, salientou que minha amiga estava enfeitiçada e, mesmo que eu não fosse o covarde que era não poderia salva-la.

Minha mente não me ajudava, não conseguia formular nenhum plano. Apelei então, para a última opção, o meu carisma.

Digo a ela para me soltar, já que não teria nada a perder. Eu era um covarde a final. Ellunarum riu novamente, dessa vez mostrando seus dentes podres, mas ainda pontudos. Olhou-me de cima a baixo e voltou aos seus afazeres.

A bruxa não caiu na minha última jogada. Mas quando a vi sorrindo novamente, pude perceber que ela estava tentada a ver até onde eu poderia ir.

Quem poderia imaginar.

Aproveitando a situação chamo-a de covarde e digo que ela tem medo de mim. Assustei-me quando ela se levantou e por um momento achei que eu seria vítima da minha própria língua. Logo pensei em como eu era esperto, mas ao contrário. Mas não, enquanto me soltava, ela deixava bem claro que o fazia exatamente para entretê-la.

Os guardas que vieram conosco de Brum, estavam caídos no jardim, fora da casa, junto de outros corpos. Todos foram pegos por um feitiço que os deixavam paralisados e como os outros corpos, eles morreriam de fome ou pela natureza. Aquilo não a divertia, todos sempre caiam nas mesmas artimanhas, não tinha graça, ela contou.

Por isso me soltou, afinal eu era o tal do Dancan White, intrépido e corajoso guerreiro de Dandália. E mesmo que fosse o bebê chorão que estava mostrando, havia sido capaz de quebrar o feitiço sozinho, sem conhecimento ou ajuda.

O grilhão cai no chão e me levantei. Encaramo-nos, olho a olho, frente a frente. Ela era menor do que eu, mas minhas pernas tremiam tanto, que simplesmente parecia ser enorme.

"Pegue a espada e faça.." Ela falou, com seu sorriso irônico em sua boca aterrorizante, "Faça se tiver coragem", ela complementou, dando de costas e voltando a mexer a mistura em seu caldeirão.

Por longos segundos fiquei calado, observando o vai e vem de seus braços em movimentos circulares. Chamei-a, ordenando que se virasse, mas ele não o fez. Saquei minha arma, ergui minha espada acima de minha cabeça. Bradei que se virasse, pois não a mataria pelas costas.

Ela riu com deboche, e virou-se em total escárnio a minha voz tremulante.

A espada atingiu seu pescoço e seu sangue negro jorrou para todos os lados. Sua incredulidade transparecia não só em seu olhar, mas nos movimentos que fazia antes de desfalecer aos pés de seu caldeirão.

Engasguei por um instante. Meus olhos já se enchiam de lágrimas. Tentei me sentar, mais caí de costas na parede, ao lado de Pharvra, com as forças das minhas pernas falhando. Meu coração batia rápido demais, minha visão se fragilizava, minhas mãos tremiam e minha mente se confundia.

Lembrei-me de quando era pequeno. Sob Thurborn, a terra de meu povo. Nevava muito, como em nenhum outro lugar de Dandália poderia competir. Meu sobre nome é White, graças a isso, os campos brancos das quase imparáveis nevascas.

Meu pai era o capitão da guarda, um trabalho importante. Meus irmãos mais velhos e eu éramos ensinados a mesma profissão. Naquela noite, sem neve ou vento, de céu limpo e lua cheia, ele deixou a minha responsabilidade o fim de um espião. Um homem que foi enviado de outro povoado, um inimigo que queria nossas provisões.

Eu era muito jovem e ele, suplicava demais. O deixei ir, dizendo a todos que tinha dado a ele o tratamento condizente. No dia seguinte o exército de nossos inimigos no atacou. Meu pai, e muitos outros homens da guarda morreram.

E, por mais que depois fosse descoberto que o espião apenas queria saber o que tínhamos em nossos armazéns, eu nunca tirei a frase que o invasor falou para mim, antes de solta-lo: "Pegue a espada e faça... faça se tiver coragem".

Notas finais
Não sei quando o próximo capítulo vem, estou naquela novamente, sem nenhum pronto. Vamos ver, em três ou quatro dias, vamos ver. Mas espero que tenham gostado! Esse foi o capítulo mais difícil de escrever, tanto que; o apaguei todo e o reescrevi uma vez por não gostar do resultado final da primeira vez. Dito isso, não se afoguem com as chuvas!