Um sopro de vida
3 Pilulas Verdes
Notas iniciais
As tábuas do maldito assoalho carcomido por aqueles malditos insetos, afundavam ao toque de meus pés molhados, que deixavam pegadas bem nítidas como se tudo tivesse virado areia, minhas narinas estavam empregadas com aquela calma maresia nauseante e em minha boca o gosto salgado de água marinha que era simplesmente terrível.
Com a respiração ofegante consegui dar meus passos desesperados (ainda retardados pelo terreno arenoso ) até a área da cozinha, agora ouvindo o barulho das malditas ondas a ir e vir e os pescadores anciãos a contar mentiras para criancinhas inocentes, ouvia também os suspiros de medo e surpresa dessas que me torturavam como fantasmas.
Meu estado psicológico só piorou ao ver meu reflexo no espelho, meus cabelos negros e ondulados como o de um sujo qualquer, se fundiam com grandes e fartas mechas ruivas, que formavam caracóis que iam descendo pela extensão da minha pele, que até então era tão pálida ganhava certo tom dourado.
O pior que como vítima de alguma anomalia genética, ao contrário do meu olho esquerdo que brilhava no tom de castanho normal, o direito brilhava num anormal azul piscina que te tão belo chegava a ser torturante pelo quanto destoava do resto de um eu tão remendado quanto um personagem de um filme do Tim Burton.
Do olho azul eu enxergava uma paisagem completamente diferente da que eu conseguia enxergar do castanho, mesmo que embaçada eu conseguia distinguir os vultos de gaivotas, e homens vestidos de amarelo quase por inteiro, deixando só as botinas negras para fora, eu via borrões coloridos e gritantes a passar por perto.
Com o resto de força que me restava eme meio a tal confusão, só me restou forças para erguer o braço em busca dos verdinhos, eu estava trêmulo fazendo com que derrubasse muitos dos potes de remédios e pomadas que lotavam minha casa desde que minha mãe havia decidido lutar contrário um inimigo imaginário chamado menopausa.
No meio aos gritos de gaivotas, ver o pote transparente lotado de pontinhos verdes foi como se alguns desses mil deuses tivesse descido na terra, só pra indicar os comprimidos de Risperdal que por algum dos sete infernos se encontrava no fundo da prateleira. Me pondo na ponta dos meus dedos já invadidos pela coloração dourada e com toda força agarrei o frasco como se tivesse me segurando a minha própria vida, e puxei com tanta brutalidade que fiz com que muitos potes caíssem assim como me fez cair.
Jogado na areia fofa, eu senti o gosto do sal se misturar com o sangue formando uma substância tão terrível que não consegui segurar minha própria ânsia, batizando a areia com um suco de bile e café que se espalhava com a mesma facilidade que foi absorvida pelos grânulos ferventes que ali se encontravam.
Levei quantos comprimidos pude agarrar com uma mão(sabia que ainda se pegasse muitos mais da metade iria cair por causa dos tremores constantes realizados por minha mão), os engoli com o resto do suco de bile que ainda se encontrava na minha boca, fazendo com que meu corpo realizasse espasmos enquanto aquela massa ia se locomovendo pelo meu trato digestivo.
Quando abri os olhos(os dois azuis como águas-marinhas lapidadas) tudo era mar, um profundo e sem fim azul, que me envaida me sufocando cada hora um pouco mais, meus olhos brigavam pra ficar abertos em meio à imensidão azul, eu sentia os litros de água do mar entrando pela minha boca.
Sentia o abraço da morte, a respiração era rarefeita, a pressão sobre mim enorme e só seguia aumentando, sentia como se algo metálico se prendesse ao meu tornozelo fazendo com que eu fosse constantemente puxado pra baixo, e quem era eu para lutar contra a imensidão perfeita do oceano. Agora era o fim, se um dia encontrarem meu corpo acho que terá sal encrustados nos meus brônquios.
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