Um sopro de vida
4 Do imaculado ao total pecado
Notas iniciais
Noah Allen
Eu só venho aqui relatar que em três infernais anos, eu tive a experiência de o que é ter seu humilde paraíso transformado, não em um inferno bestial, mas sim num mórbido purgatório pessoal, onde as coisas haviam sido desenhadas especialmente para o meu sofrimento.
Eu havia mudado muito naqueles anos, o meu andar havia perdido toda a vivacidade, sendo esse sempre muito cambaleante como um boêmio,ou tenso como os esses tais de operários que povoam essas novas áreas periféricas que surgem destruindo ainda mais minha amada natureza, alimentando os novos vulcões de ferro que cuspiam fumaça, nesse céu já tão negro.
Os meus olhos não brilhavam mais com aquele maldito brilho juvenil esse havia sido sugado na mesma época que os restos mortais de minha tenacidade. A fagulha de vida havia se extinguido e sido substituída, por um ódio por aquilo que todos glorificavam, chamando de a maior invenção do homem.
Nunca gostei muito das coisas que o homem fez, a natureza por si só já é perfeita, não necessita que fiquemos constantemente provocando estupidas mudanças, que só servem para destruir o belo e original. Era obviamente contra os preceitos de um homem como eu, mudar todo um cenário já próspero em prol de um provável progresso e melhoria.
Tal progresso não parecia chegar, pessoas se amontoavam em zonas minusculas e de um odor terrível mesmo para um homem do mar como eu, algo proveniente das fezes se amontoavam nos estreitos becos, junto com o cheiro de álcool concentrada e alimentos a se deteriorar lentamente.
Só de pensar naquelas crianças,que antes corriam na praia junto ao vento e o mar, agora se enfurnavam em fábricas gigantes, tendo suas digitais apagadas pelo manuseio de carvão, ou seus membros decepados por terem sido enfiados em alguma máquina, na tentativa de economizar um rolo de linha ou coisa assim.
Me sentia enojado por aquelas cenas, mas para mim a pior parte ainda não era aquela, ver os rios descendo mais do que negros, cheios de substancias nocivas (desconhecidas por mim ou por qualquer um daqueles homens da ciência sempre tão donos da verdade), desaguando no meu tão amado mar, era com toda certeza o que mais doía.
Ver o azul vivo e brilhante de um mar alegre e calmo, se tornar opaco e revolto e completamente morto, até mesmo os peixes haviam perdido sua vivacidade, boiavam cadáveres até onde eu podia enxergar do alto do velho farol.Nem mesmo comidos estes poderiam ser, a não ser que alguém venha procurar um método devagar e doloroso de se suicidar.
A intoxicação do mar trouxe as piores consequências o possível, sem peixes não havia pesca, sendo assim nada de pescadores, ou mesmo de barco. Não existia mais um motivo para existir um farol se não havia o que guiar, então o farol foi fechado e minha remuneração cancelada, mas tinham me dado o direito de viver ali enquanto ainda estivesse a procura de um lugar melhor.
Foi assim que fui deixado, com uma torre de madeira podre,com a pintura totalmente descascada, ferrugem tao profunda que não havia nem a possibilidade de chegar próximo(não que nada disso houvesse surgido nesses três anos, minhas qualidades de trabalho sempre foram péssimas), um garoto de dezenove anos literalmente jogado a deriva num lugar estranhamente familiar.
O farol me trazia lembranças da minha família, principalmente do meu tio avô que havia me tirado dos meus pais para trabalhar com ele ali, um velho precisava de um aprendiz dedicado e sem perspectiva de futuro para tomar o seu legado, viu em um filho de um casal de camponeses algo perto do que almejava.
Parecia uma tarefa fácil, viver por acender e manter vivo um fogo qualquer, por um salário considerável, sem necessidade de caminhar de volta para casa todo dia, sendo o quarto um espaço no canto do segundo andar mobiliado com uma cama com colchão de feno e um pequeno criado mudo que havia sofrido com a umidade da área.
Tio Raign Allen era como um velho carrasco, me fazia trabalhar até o ponto mais alto da maré na tentativa de uma reconstrução de alguns pontos do farol(que coincidiam com a localização do seu quarto), então lá eu ia, serrando tabuas velhas do estoque que o rei mandava uma vez a cada milênio e levando cuspidas na cara do meu amado tio.
Os músculos do meu corpo de dez anos não aguentavam tal semi-estupro que dizia meu tio (maldito calvinista) dizia ser realizado com o objetivo de me tornar um homem digno do reino dos céus, como se eu quisesse me enfiar em tal espaço de tamanha monotonia que me parecia esse tal de paraíso.
Não chorei nenhum dia, nem na frente dele nem as suas costas, mesmo após as cuspidas ou as marteladas, nem quando sentia saudades de casa e de brincar com os cachos de mamãe enquanto deitava em teu conhecido ventre, ou quando tinha meus sonhos perversos de onde qualquer adulto com um pouco de sensatez acordaria em prantos.
Por mais religioso e sádico fosse o velho eu gostava de sua figura, tinha muitos mais anos do que eu possivelmente sabia contar, seu cabelo era abastado e grisalho, era levemente corcunda e extremamente magro,tinha uma risada deliciosa que me deliciava facilmente, mas não era de muitas palavras nem de muito afeto.
O tio morreu depois de uns dois anos que estava acompanhando ele, foi um funeral muito triste, queimei-o como o mesmo havia me ordenado e recolhi o que havia restado dele, espalhando aquilo pelas três pedras que ele mais gostava da praia inteira, mas as cinzas sempre insistiam em ser carregadas pelo vento direto ao mar.
Acho que foi aí que comecei a glorificar o mar, eu sentia que ali eu estava não só mais perto do que restara do velho, mas também de um pedaço de um monte de gente assim como nós: Pescadores, marinheiros, piratas. Alguns homens bons outros nem tanto,mas todos homens daquele imenso mar.
Morar sozinho era mais fácil do que morar com um idoso, como um farol não precisava trabalhar de dia, eu tinha um dia inteiro para poder ir entendo algumas coisas que pareciam tão óbvias e também ouvir as melhores mentiras que um humano poderia ouvir com meus amigos pescadores.
Eu recebia homens do mar quase todos os dias na recém reformada cozinha do farol, onde comíamos os mais deliciosos peixes que já vieram a existir, sempre tão frescos macios e suculentos, acompanhados normalmente de batatas ou de algum bolo de sobras que arriscava a fazer.
Os anos foram se passando e comecei a levar não só os homens do mar a minha casa, mas como também suas filhas, sempre lindas mulheres(quase sempre três ou quatro anos mais velhas) de seios fartos e olhos penetrantes e vivos, gostava principalmente das de olhos azuis mas se os mesmos brilhassem não fazia real diferença para mim.
O que gostava mesmo era o cheiro de água marinha contido em tais beldades, algo mais excitante que qualquer um dos afrodisíacos, era uma mulher completamente nua, com os cabelos lotados de anos de danos por causa do constante contato com água marinha.
Essas me excitavam de tal jeito, que poderíamos fazer amor a noite inteira que não me cansaria, só aumentaria o meu libido ver o rosto de mulheres quase atingindo o prazer máximo enquanto eu ritmava o ato com as ondas revoltas da noite.
Sentir a pele macia dos seios e a umidade entre as pernas era sempre uma das melhores coisas que eu podia fazer, porém nunca havia tido uma parceira fixa ou uma paixão mesmo que momentânea, como o mar mantenho-me sempre em movimento, mesmo que cause estragos, continue em movimento.
Agora lembrando dessas noites, um eu tão maltrapilho tenho de me satisfazer de um jeito solitário, já que nenhuma onda existia mais num oceano como aquele desse mundo de carvão e ferro. Tudo eram só lembranças de um tempo feliz que usava hoje para me torturar e finalmente chorar as lágrimas tanto contidas.
O mundo estava morrendo e eu não demoraria a seguir o fluxo deste oceano, me jogaria no meu como meu amado Reign e me tornaria parte dos irmãos de mar que sempre quis conhecer, mas quem seria o louco que acharia meu corpo em tal farol já abandonado em tão fétida praia.
Não havia lado bom naquele jogo, nem mesmo esperança de que o mesmo viesse a virar, sendo que a única escolha que eu tinha era ser esse adulto moribundo de hoje até que um dia eu decida parar de respirar ou acelerar isso de uma vez. A segunda opção era bem mais atrativa.
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