Um sopro de vida
1 I
Notas iniciais
Acho que meus olhos deviam estar bem inchados, com uma vermelhidão acentuada pela inútil esperança de que o foco em um único ponto me traria algo que fizesse minhas mãos mexerem, escrevendo em códigos há muitos já conhecidos é um tanto inquestionáveis quando a seu sentido ( porém o contrário quando o assunto se trata de sanidade mental por trás de quem as escreve).
As páginas rabiscadas se acumulavam em cima da mínima escrivaninha do quarto, papéis amassados, manchados de café e principalmente encharcados de tal superficialidade de sentimentos que me leva ao vomito de tão maçante, tinham o conteúdo emocional tão grande quanto uma receita de arenque conservado.
Me encontrava tremendo, minhas mãos já não se moviam, tinham espasmos ininteligíveis nas folhas brancas, que como buracos negros sugavam os pingos de sanidade que eu ainda guardava dentro do quase cadavérico eu, o suor frio descia pelas mangas do sweater que usava para me proteger do vento constante que saia da janela superior que há muito tempo estava emperrada.
Uma lágrima solitária escorreu de um dos meus olhos me embaçando a visão, a luz do abajur fazia com que a trilha deixada pela solitária lágrima se destacasse no meu rosto impassível, não demorou para que as outras lágrimas brotassem, caiam sem fazer nenhum som mesmo quando encontravam o chão frio, mentiam um silêncio como um de uma senhora da mais alta nobreza no enterro de seu próprio marido.
A caneta em minhas mãos foi ao chão, preenchendo o sótão com um abafado estalo metálico, as mãos que a empunhavam antes agora tremiam levemente, minhas pernas acompanhavam ela na mesma intensidade (ou senão parecida, como se isso importasse), minha vista estava parcialmente cansada, o relógio marcava 4:22, eu tinha passado as últimas seis horas em cima de folhas em branco, acho que seria mais uma noite sem dormir.
Tentei levantar mesmo que os joelhos tremessem, usando a cadeira de apoio consegui dar os primeiros passos, me sentia parcialmente bêbado, mas nada que um banho demorado não resolvesse. Meus pés descalços se arrastavam no assoalho, produzindo um ruído pequeno mas que já era o suficiente para preencher o silêncio do sótão da casa dos meus pais.
Cheguei perto da mesinha em que eu deixava o café (a única outra mobília naquele cômodo tirando a minha escrivaninha), após errar duas vezes ao tentar alcançar a alça da garrafa de café, ainda tateando fui a procura do copo, que caiu com um estalo no chão mas não quebrou(já havia aprendido a lição e comprado copos de plástico), abaixei ocasionando estalos nas articulações de todo o corpo.
Servi um grande copo, mas a grande decepção veio em seguida do primeiro gole, café morno, com toda certeza uma das dez coisas que mais odeio, descansei o copo na mesa sentindo meu estômago remoer aquele líquido, fazendo grunhidos estranhos, acho que já havia se passado alguns dias desde que trouxe aquela garrafa pro andar de cima, enquanto ainda consciente disso joguei o resto da garrafa na janela, direto nas begônias da vizinha.
Cheguei a escada que levava até o segundo andar da casa, tentei manter os pés leves ao pisar, o que não impediu os degraus de rangerem alto, maldita seja aquela velha casa caindo aos pedaços, não havia uma parede em qual a tinta já não estivesse descascando, ou uma maldita tábua de assoalho que não havia sido atacada por colônias de cupim, teria até medo de que elas cedessem ao pisar, se não fosse magro a ponto de passar no basculante do banheiro.
Um som extremamente irritante saia do quarto do meu irmão, havia dormido de novo ouvindo as músicas irritantes que ele dizia serem as únicas coisas que entendiam o quanto ele sofria, como se um garoto de classe média de doze anos soubesse o que é sofrer de verdade (dizia eu como se um de dezesseis soubesse), naquele noite era alguma coisa do Simple Plan, ou qualquer banda de punk-pop adolescente, todas soavam igual.
Ignorei o barulho e fui andando até o banheiro, liguei o chuveiro no máximo e esperei até que pudesse ver o vidro do boxe embaçar, tirei a roupa e quase sem querer passei a rotina diária de me olhar no espelho, aquilo parecia ridículo pra mim, mas se eu tinha 16 anos, eu tinha algumas preocupações características dessa idade tão fútil da vida humana, afinal estou aqui pra retratar a verdade e não a fantasias de um adolescente que se preocupava mais com as políticas protecionistas nos países de primeiro mundo do que com o seu próprio visual.
Aquilo era uma sessão de tortura, um ato induzido pela sociedade narcisista que vivemos, claro que falava aquilo por não encaixar nem de longe no padrão do que era ser belo, como todos aqueles contra o discurso de não valorização da beleza externa, era só mais um que estava infeliz consigo mesmo por ter maior número de pontos de QI do que número de curtidas na foto de perfil.
A verdade é que me estragava, meus hábitos noturnos haviam me dado olheiras tão profundas e escuras que sugavam a expressão do meu olhar, minha pele era pálida por causa da insistência que tinha de ficar dentro de casa mesmo morando a alguns quilômetros da praia, meus ossos eram aparentes por causa da minha magreza excessiva por ficar argumentando o tempo todo que não havia tempo para comer.
Tocava meu cabelo oleoso, tentando ajeitar o mesmo de um jeito que a franja não ficasse caindo sobre a testa, descia a mão pela coluna vertebral, contando as vértebras que pulavam de tão altas, depois repetia o mesmo processo com as costelas, me sentia atacado pela puberdade desde os 12 anos, com as crescentes camadas de pelo é as espinhas que brotavam pelas costas.
Quando senti que minha auto-estima já estava baixa o suficiente é o espelho já estava embaçado graças ao vapor que saia, decidi entrar finalmente no banho, no momento que a água atingiu minhas costas, cheguei a abafar um gemido de prazer, o sono que me habitava foi substituído por um prazer que inundava o meu ser por completo. Fechei os olhos e comecei a me amar por alguns minutos, só alguns poucos minutos do dia onde o prazer era completo.
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