Um sabre cor de sangue

7 Capítulo 7 - Rendição


Notas iniciais
“All the parts of me that lived inside Are drowning in the sea of waking life (...) All the things we yelled don't mean a thing When we're spinning out on dark and metal wind When we're flying like blue Mary's angels through shattered glass When we find the tall black shadow waiting there with outstretched hands He has given me a dress of red and you a skin of gray We'll be twisting here for hours til the light will give us day”

Kylo Ren não conseguiria interromper o beijo trocado com Rey ainda que o Líder Supremo em pessoa entrasse na sala de interrogatório e exigisse que ele largasse a catadora de sucata. Nem mesmo ouvi-la dizer o nome que seus pais haviam lhe dado fora capaz de contê-lo – na verdade, deixara-o ainda mais sedento. Ela era macia e pequena, e se agarrava a ele afetuosamente, acariciando-lhe os cabelos, fazendo com que ele se sentisse deliciosamente arrepiado.

Há muito tempo esquecera-se do que era carinho. Seu corpo cansado de tantas lutas desejava enroscar-se na garota e nunca mais deixá-la partir. Apesar de todo o seu treino nos caminhos da Força, ele não sabia que era possível usá-la daquele modo. A comunhão entre os dois era sobrenatural. O deleite dela aumentava o prazer dele simultaneamente, transformando-os em um vórtex de energia, em uma literal perturbação da Força.

Rey permitira que ele a guiasse, da forma como Kylo gostaria de instruí-la no uso do poder. Isto o tornava ainda mais ávido; senti-la assim entregue, receptiva, obediente. Do contato com os pensamentos dela, inferiu que a garota era uma completa inocente; isto fazia dele uma espécie de professor, ainda que ele mesmo conhecesse mais a teoria do que a prática quando o assunto era a libido humana. Talvez não existisse começo melhor para transformá-la em sua aprendiz no Lado Sombrio. Mas divagava, aquilo não importava agora. Concentrou-se em saborear os lábios dela, a língua molhada, a excitação crescente que partilhavam. Além disso, em meio àquele caos sensorial, tornava-se muito difícil controlar os impulsos que o arrastavam para as trevas – se não tomasse cuidado, poderia machucá-la.

É claro que ele entendia bem a mecânica da coisa. A partir de uma certa idade, qualquer moleque era capaz de fazê-lo – e ele não era um homem obtuso e sim... desinteressado. Pelo menos até aquele momento. Nenhuma outra pessoa fora capaz de atrai-lo até encontrar Rey, suada e despenteada no meio de uma floresta, tentando atingi-lo precariamente com um blaster. Sem pensar, mordeu o lábio da garota, mas controlou-se antes de feri–la. E ela gemeu, um som agudo que mobilizou o sangue no corpo de Kylo Ren, concentrando as sensações em seu ventre. Afastou-se para olhá-la, arfando. Rey abriu os olhos lentamente, também respirando em intervalos curtos, e passou a própria língua sobre o lábio que ele havia mordido.

– Por que você parou?

Ele respondeu ao sussurro dela com mais lascívia. Dos lábios da garota desceu para seu pescoço, sorvendo o suor de Rey, beijando-a até seus ombros estreitos. Ela arqueou o pescoço para trás, mais uma vez gemendo baixinho, expondo a garganta, agarrando as bordas do painel para equilibrar-se. Vagarosamente ele a lambeu, do esterno ao queixo, e voltou a beijá-la com urgência, abafando os sons de prazer que ela emitia. Deixando-se levar por seus instintos, Kylo Ren acariciou as coxas de Rey sem tirar seus lábios dos dela. Teve vontade de arrancar o tecido grosseiro do corpo frágil, e precisou de muito esforço para não despedaçar as roupas simples que a garota usava. Sentiu-a estremecer, sabendo que ela tinha noção da violência impaciente que ele tentava conter.

Determinado, subiu as mãos para a cintura dela, e com uma delas agarrou o cinto de Rey, segurando–a com força junto a ele. A outra tateou em busca dos seios pequenos, e tocá-los o deixou extasiado. Ela tentou escapar do beijo, tomar fôlego, mas Kylo não permitiu. Enfiou a mão por debaixo do xale que ela usava, e tentou ultrapassar a túnica inferior que a cobria. Absorto, não ouviu o tênue protesto de Rey, percebendo a relutância da garota apenas quando ela segurou a mão que tentava despi-la.

– Assim não... aqui não...

Por um momento ele se imaginou subjugando-a completamente. Um simples gesto, e a Força estraçalharia os panos que a cobriam, e ele poderia admirar a nudez dela sem pudores, atirar–se sobre ela com ferocidade... Rey encolheu-se, conhecendo as intenções dele imediatamente. Kylo Ren balançou a cabeça numa negativa muda, e beijou-a docemente, desculpando-se sem palavras. Ela aceitou a carícia, mas logo virou o rosto, impedindo–o de se aproximar. Rey ergueu as pernas para abraçar os próprios joelhos, aumentando a distância entre ambos. Sentada daquele jeito sobre o painel, parecia minúscula, uma menininha. Sem olhar para ele, queixou-se em voz baixa:

– Esta sala é terrível demais. Eu nunca poderia... relaxar, presa aqui.

Ele correu os olhos ao redor. Precisava admitir que, mesmo para os seus padrões, a cela e a mesa não formavam um conjunto exatamente romântico. Aliás, nada na base era propício a este tipo de atividade. Refletiu por alguns instantes. O quarto que ele ocupava não ficava longe da sala de interrogatórios. Não era incomum que ele interrompesse alguma sessão particularmente intensa para que o interrogado descansasse, ou para discutir mais detalhes com o Líder Snoke antes de continuar uma sondagem telepática. Talvez encontrassem stormtroopers no caminho, mas ele não teria dificuldade em lidar com eles. Fechou os olhos e tentou encontrar Hux ou algum dos outros comandantes. Demorou um pouco para conseguir percebê-los, pois sentia-se atraído para a mente de Rey, como um inseto para a luz. Só notou que havia prendido a respiração ao exalar longamente, após constatar que todos estavam longe, inclusive Phasma.

– Vamos para o meu quarto. – Com cuidado, ele a ajudou a descer do painel. – Eu acho melhor levá-la algemada.

Rey fez uma careta.

– Você ainda me vê como prisioneira?

– Eu só não quero ter de responder perguntas a seu respeito.

Abaixou-se e roubou um beijo dela. A garota se manteve irredutível.

– Eu vou na sua frente, rendida, mas algemada não.

Ele suspirou, mas não estava disposto a perder tempo discutindo. Pensou em usar a Força e desmaiá-la novamente.

– Não vai funcionar. – Ela disse, cruzando os braços em sinal de irritação. – E eu não quero ser obrigada a nada.

Ela tinha razão, ele não iria forçá-la a nada. Pelo menos por ora.

– Está bem. Eu não quero obrigá-la. Fique de cabeça baixa, e não fale com ninguém.

Rápido e preciso, Kylo Ren recolocou suas luvas e capacete. Segurou de forma calculadamente rude o braço dela, e a empurrou em direção à porta.

– Fique quieta.

Conforme ele previra, encontraram alguns pares de stormtroopers percorrendo os corredores, com armas em punho. Nenhum deles ousou questionar Kylo Ren; na verdade, pareciam nem se importar com a mocinha suja que ele arrastava pelos corredores, talvez rumo ao outro complexo de celas. Ainda que não fosse usual encontrar o cavaleiro transportando pessoalmente prisioneiros, seus métodos eram suficientemente heterodoxos para que nada parecesse estranho o bastante a ponto de despertar dúvidas.

Após alguns minutos caminhando pela base, com Rey silenciosa e cabisbaixa, a improvável dupla chegou à porta de Kylo Ren. Certificando-se de que estavam sozinhos no corredor, ele usou a Força para abrir a passagem, que não possuía nenhum tipo de fechadura ou painel de controle: assim, evitava curiosos e espiões. O interior do aposento era austero e soturno como seu dono, com paredes metálicas cheias de apetrechos tecnológicos e botões. Rey parara por um instante no meio do quarto, e ele soube que ela observava a cama exígua, os baús que armazenavam suas poucas posses, e a obsessiva organização do ambiente, em contraste com a ruína desordenada que ela chamava de lar em Jakku. Rey fixou o olhar no capacete amassado que ocupava um lugar de destaque no recinto.

– Você poderia...

Antes que ela terminasse de falar, Kylo Ren adiantou-se e segurou o equipamento quebrado.

– Não se preocupe, vou guardá-lo.

Apressado, escondeu o elmo de seu avô em um dos baús. Retirou o próprio capacete e parte do capuz que usava. Hesitou por um momento, mas também depositou seu sabre de luz em cima de uma mesa. E então se deu conta de que Rey e ele estavam sozinhos, completamente sozinhos, ao menos por algumas horas.

– E então? O que fazemos agora, Kylo Ren?

A voz dela traía uma mistura de curiosidade e nervosismo. Era a primeira vez que ela pronunciava seu nome, o nome correto. O desejo dentro dele cresceu de novo, queimando. Sem tirar os olhos dela, Kylo sorriu.

– Agora você vai me dar o que eu quero. E eu sempre consigo tudo o que eu quero.