Um sabre cor de sangue
6 Capítulo 6 - Vertigem
Notas iniciais
Rey continuara a tremer mesmo nos braços de seu algoz. Amedrontada e aturdida, já não chorava, mas ainda sentia o rosto úmido pelas lágrimas, os olhos inchados. O toque direto da pele de Kylo Ren fora como uma tempestade de areia empurrando-a rumo ao cavaleiro, assolando tudo o que havia no caminho, arrastando para dentro dele a própria identidade de Rey, num fluxo irrefreável. A força daquela conexão era arrasadora, e Rey simplesmente não fora capaz de reagir. Jamais sentira-se tão próxima de alguém antes, e a vergonha era como brasa queimando em seu peito, por ter se permitido sentir algo por ele; pelo monstro, o inimigo, o assassino.
E mesmo odiando aquele abraço, mesmo desejando tomar o sabre de Kylo Ren e livrar a galáxia daquela criatura maldita de uma vez por todas, tudo o que conseguiu fazer foi deleitar-se no calor reconfortante que ele emanava. Aflita, colocou a mão espalmada sobre o peito dele, pensando em empurrá-lo. Mas ao tocar as camadas de tecido que formavam sua armadura percebeu-o penosamente humano: havia um coração acelerado sob a vestimenta rígida, e naquele momento ela não soube se realmente sentira as batidas com o tato ou de alguma outra forma. Mas não fazia diferença. Embriagada por aquelas sensações, esqueceu-se do mapa, ou do que estava fazendo naquela nave. Já não se importava mais em proteger seus pensamentos. Desejou ardentemente abrir-se para Kylo Ren, deixar que ele a devastasse. Duvidou que fosse capaz de lutar contra isto.
Após o que lhe pareceu um longo tempo, Rey sentiu que Kylo se movia. Lentamente ele arrefeceu a força do abraço e segurou no pulso dela. Mais uma vez o toque da pele dele era inebriante, afogando-a na torrente de sensações e pensamentos trocados entre ambos. Com suavidade, ele retirou a mão dela de seu tórax, e estreitou a garota ainda mais em seus braços. Fechando os olhos, Rey recostou a cabeça contra ele. De pé, a diferença de altura entre ambos era ainda mais proeminente, e ela pôde escutar o coração dele pulsando. Também o ouviu inspirar profundamente, e soube que Kylo estava sentindo o cheiro dos cabelos dela. Tolamente, desejou estar limpa.
Ele murmurou, a voz quase inaudível.
– Você cheira bem. Não precisa de um banho.
Desta vez a certeza de que ele lia seus pensamentos não fora acompanhada de tanta raiva, mas de embaraço. A vergonha não era somente dela – Rey também sentia a hesitação de Kylo Ren. Ele nunca experimentara nada como aquilo. Assim como ela, vivera uma vida permeada de angústia, de desejos rigidamente reprimidos em nome da autopreservação. Ele também estava aterrorizado e confuso. Naquele momento, a rebelde da Resistência e o cavaleiro da Primeira Ordem não passavam de dois jovens tímidos e ingênuos. Por aquele breve período, tudo o que haviam feito pareceu desimportante e pequeno diante da enormidade do que sentiam. Mesmo as atrocidades que Kylo Ren cometera pareceram distantes, e Rey tomou consciência de que o desejo enevoava tudo, principalmente a prudência.
Surpreendendo-a, Kylo a ergueu em seus braços. Levou-a para um dos cantos da sala de interrogatório, longe da mesa de contenção, e colocou-a sentada sobre o painel onde deixara seu elmo. Os pés dela não tocavam o chão, mas mesmo assim ele precisava abaixar-se para encará-la. Com esforço afastou-se dela alguns centímetros, sem deixar de fitá-la nos olhos. Os dois ofegavam. Ele retirou a outra luva e também a guardou dentro de seu manto. Rey o observou tirar do rosto uma mecha de seus cabelos negros; as mãos dele eram enormes. Ele lhe pareceu desajeitadamente bonito, como um menino que tivesse crescido demais. Rey notou que os olhos amendoados de Kylo estavam ávidos e úmidos, mas ele não voltou a tocá-la. A pele branca dele era quase translúcida.
– Eu não vou... eu não quero machucar você.
Ela soube que era verdade, e também que, em algum momento não muito distante daquele, Kylo Ren a machucaria mais do que qualquer outra pessoa, mais do que quando a abandonaram em Jakku, sozinha e indefesa. Estremeceu.
– Esqueça Han Solo. Esqueça a Resistência. Esqueça... – ele titubeou por um momento, e Rey sentiu que ele procurava algo na mente dela – esqueça Finn. Eu posso mostrar a você um poder inimaginável.
Ela permaneceu em silêncio, sem saber o que dizer, a tensão entre os dois crepitando no ar. A mecha de cabelo teimosamente encobriu o rosto dele mais uma vez. Antes que ele pudesse fazer algo, Rey ergueu a mão e enfiou os fios para trás da orelha dele. Então a garota sorriu. Captando o que ela havia pensado, ele também riu, o rosto relaxando um pouco.
– Sim, minhas orelhas são grandes.
Rey sentiu as bochechas queimarem, sabia que estavam vermelhas. Começou a se desculpar, num sussurro.
– Eu não quis...
Mas não concluiu. Abaixou o rosto, desviando do olhar dele. A situação lhe pareceu insólita, e tentou guardar os próprios pensamentos. Seria aquilo uma ilusão? Não podia se deixar levar. Kylo Ren não era aquele rapaz gentil, e ela não era uma mocinha apaixonada. A atração entre os dois não era natural, talvez fosse um feitiço, uma artimanha. Talvez ele estivesse usando seus poderes para controlar a mente dela, para fazê-la acreditar que ele podia ser doce e afável, e então roubar de uma só vez a informação que ela ocultara no fundo de suas lembranças. Mordeu o lábio inferior, a dúvida crescendo dentro dela.
– Rey, eu não preciso desse mapa agora... eu preciso de você.
A urgência na voz dele a assustou, mas Rey não pôde negar para si mesma que também sentia aquela sofreguidão. Ele segurou as mãos da garota, e ela se permitiu fruir a vertigem do compartilhamento de suas consciências. Soube que ele nunca havia estado com ninguém como agora o fazia com ela. Assim como para Rey, relacionamentos eram mistérios até então insondáveis para Kylo Ren. Sob o manto de guerreiro implacável, de obstinado e desumano senhor do Lado Sombrio, havia um homem que encarava o chamado da bondade como um flagelo. Ela o viu como uma faísca no escuro, lutando para não ser tragado por uma ofuscante luz branca. Enxergou-o ainda adolescente, com um elmo quebrado nas mãos, um capacete negro parecido com o que ele usava. Rey também o viu tornar-se adulto, uma criatura mascarada acompanhada por outros monstros de rostos escuros, o manto esvoaçando no meio de uma tempestade, encharcado de água e de sangue, iluminado de escarlate por seu sabre.
Estas e outras imagens confluíram enfim para uma só. Rey viu então um garotinho magrelo e assustado chorando silenciosamente num quarto que ela não conhecia. Uma porta se abriu, e um homem também chorando, que ela soube ser Han Solo muitos anos atrás, entrou e segurou o menino nos braços. O garoto se livrou do abraço e saiu correndo. O reconhecimento a envolveu como uma onda de dor, a compaixão maior do que o choque.
– Han Solo... ele é... ele é seu... – Ela não conseguiu dizer a palavra. Engoliu em seco. – Seu nome é Ben...
– Meu nome é Kylo Ren!
Ansioso, ele pressionou seu corpo contra o dela num beijo quente, maliciosamente desajeitado. Rey achou que fosse derreter. Ele a apertava com força, e Rey não resistiu ao abraço. Entregue, enlaçou o pescoço dele, acariciou os cabelos cheios. Ela soube – e, ao mesmo tempo, sentiu – que ele se arrepiara, e ambos desejaram se livrar do manto pesado que ele usava, aumentar o contato pele a pele. As imagens de dor e dúvida deram lugar ao simples vermelho do desejo. As sensações dela, extasiantes por si sós, tornaram-se ainda mais arrebatadoras em conjunto com as dele, que ela também percebia no próprio corpo. Uma das mãos de Kylo Ren deslizou das costas de Rey até sua nuca nua, trazendo o rosto dela para ainda mais perto. Rey não soube qual dos dois abriu a boca primeiro, mas teve a certeza de que poderia morrer de prazer quando suas línguas molhadas se entrelaçaram.
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