Um sabre cor de sangue
5 Capítulo 5 - Controle
Notas iniciais
Kylo Ren recostou-se contra a porta fechada atrás de si, trêmulo, o coração acelerado como depois de uma luta árdua. Ainda não conseguira entender o que havia se passado dentro da cela. Aquela garota não era uma simples catadora de sucata. A Força era forte nela – esta era a verdade, cristalina. Ele podia ouvir sua própria respiração ruidosa através do elmo; num esforço tremendo, precisou invocar todo o seu autocontrole para manter-se calmo, e subir as barreiras da própria mente o máximo possível. Percebeu que Rey ainda tentava algum contato telepático com ele, mas agora não fraquejaria mais. Fechou-se até sua mente tornar-se imperceptível para ela.
Como uma garota não treinada fora capaz de atravessar as trincheiras que ele cuidadosamente construíra ao redor de seus pensamentos mais íntimos? Ele não era nenhum aprendiz. Pouco a pouco a perplexidade se tornou uma inveja sufocante. Ele precisava do mapa escondido na memória de Rey, e não seria tão simples como ele imaginara retirar a informação de lá. Furioso, lançou mão de seu sabre de luz. Acionou o laser e o feixe logo iluminou de vermelho o corredor, mas Kylo controlou-se antes de descontar a ira em algum pedaço de equipamento; cabisbaixo, guardou a arma com um suspiro. Deveria conter sua raiva, transformá-la no ressentimento que usaria para se vingar da catadora de lixo.
O cheiro dela em seu manto era agora enlouquecedor. Sabia que ninguém mais na base conseguiria senti-lo, mas para o olfato de Kylo beirava o insuportável. A lembrança dela em seu colo, a presença dela em seu cérebro, dentro de seus pensamentos, mergulhando neles, livre e poderosa... tudo aquilo lhe provocava sensações que ele julgava muito inferiores para se permitir sentir. E, no entanto, ali estava ele, aniquilado pelo desejo de tocar nela, abraçá-la mais uma vez, conhecer o sabor da pele dela. Colocou a cabeça entre as mãos, exasperado, humilhado, exposto. Novamente a dúvida, a terrível divisão: Kylo parecia condenado a ser um homem eternamente partido, quebrado. Parte de si queria esvair a vida de Rey com as próprias mãos; a outra queria apertá-la em seus braços até se tornarem um só.
Perdido nestes pensamentos, a ideia lhe atravessou a mente como um raio: ele faria dela sua aprendiz. Ele poderia ensiná-la os caminhos mais obscuros da Força. Juntos, seria impossível impedi-los de retomar o legado de seu avô. Pensou em procurar o Líder Supremo imediatamente, contar-lhe de seus planos, mas ainda havia pouco o que oferecer a Snoke. Precisava ao menos do mapa. E precisava fazê-la sofrer – não há como adentrar o Lado Sombrio sem dor, isto ele sabia muito bem. Ouviu passos no corredor; pelo som, eram os stormtroopers que faziam a guarda daquela ala. Endireitou os ombros, decidido, e voltou para a sala de interrogatório.
Por um segundo ele imaginou que, de alguma forma, Rey teria conseguido se libertar da plataforma de contenção. Mas ela continuava presa. Notou arranhões nos pulsos finos, onde ela lutava contra as algemas. Ela ergueu os olhos em direção a ele, e desta vez Kylo gostou do desafio que viu neles. Com muita cautela, espreitou superficialmente os pensamentos da garota. Sorriu para si mesmo ao descobrir que Rey gostaria de ver o rosto dele mais uma vez e retirou seu capacete, largando-o casualmente sobre um painel. Sentou-se em frente a Rey, cruzando os braços, sério. Passou a língua pelos lábios, mas ela foi a primeira a falar.
— Eu já disse que não vou cooperar.
Ele respondeu lentamente, não sem algum sarcasmo:
— Eu posso fazê-la... cooperar.
Sentiu a garota tateando, tentando novamente encontrar uma brecha rumo aos pensamentos dele, mas manteve-se firme, concentrado. Sentia a frustração nela como uma casca encobrindo o medo. Rey temia que ele a matasse, e tentava desesperadamente usar de novo o poder que lhe permitira virar contra ele a telepatia do próprio Kylo Ren.
— Rey, isto não vai se repetir. Eu posso ver que você é muito mais que uma catadora de sucata enfiada até o nariz na areia suja de um buraco qualquer da galáxia, mas saiba que não permitirei que se repita.
Ela continuou a se debater contra as algemas metálicas, surpresa por não ter percebido que ele voltara a ler sua mente, mas nada disse. Kylo soube que ela lutava contra o desejo de chorar.
— Eu posso lhe mostrar como usar o poder que você tem dentro de si, Rey. Basta que você me entregue o que estou lhe pedindo. Eu não quero machucar você, não quero fazê-la chorar.
Ela o encarou com um misto de repulsa e súplica, os olhos cheios de lágrimas. Impassível, ele continuou.
— Mas se você não cooperar, eu serei obrigado a fazer estas coisas.
Sentia-se mais uma vez no controle da situação. Lágrimas silenciosas desceram pelas pálpebras dela, e uma imagem se formou em sua mente.
— Ele não pode salvá-la, Rey. Han Solo não poderá ajudá-la, ele não é capaz de ajudar nem a si mesmo.
Kylo Ren retirou a luva da mão direita e a escondeu em algum recesso de seu manto negro. Levantou-se devagar e tocou o rosto de Rey com infinita delicadeza, secando-lhe as lágrimas. Os pensamentos dela fluíram para dentro dele como um rio, e o cavaleiro teve dificuldade em contê-los. Medo, fúria, solidão. O toque dele também a afetara. Tomado pelos sentidos de Rey, Kylo viu-se ainda mais alto do que era, pálido e belo e trágico. Também aprendeu sobre o calor que ela percebia emanando dele.
Kylo soube que, sozinha nas noites frias do deserto, Rey desejara mais do que tudo alguém que pudesse aquecê-la, uma família, um amigo, um companheiro. O frio gravado nos pensamentos dela era mais que o reflexo da temperatura; era um trauma, era a expressão física da solidão que ela sentia. E o contato com Kylo, intenso e quente, pela primeira vez fazia com que ela não se sentisse tão enregelada e sozinha. Ele fechou os olhos.
“É a Força, Rey. Ela se derrama para fora de mim, é o calor que você sente em meu corpo.”
Kylo não pronunciou as palavras; em vez disso, sussurrou-as direto na mente da garota. Sentiu que ela o odiou por isso mas, ao mesmo tempo, ansiou que ele continuasse. Confusa, ela também se partia em duas, dividida entre abrir-se totalmente para ele e gritar para expulsá-lo. Em vez disso, implorou num fio de voz:
— Pare... por favor...
“Deixe-me ver o mapa, Rey.”
— Eu... já disse. Não vou trair... a Resistência...
Ele retirou a mão e olhou para ela. O corte súbito da ligação entre os dois o atordoou por alguns instantes, mas foi muito mais devastador para Rey. Kylo Ren sentiu dolorosamente o vazio que deixara na mente dela. A garota tremia, e ele experimentou na própria pele o frio dela, gelando-o até os ossos. Deixando para trás o autocontrole, gesticulou nervosamente e as algemas que a prendiam abriram-se sozinhas. O corpo dela pendeu para frente, exausto e lânguido. Antes que ela caísse, Kylo Ren a tomou nos braços.
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