Um sabre cor de sangue

4 Capítulo 4 - Vozes


Notas iniciais
"And I'm hearing something scratching on the inside Could I feel the sea beckoning me Oh, could it be can I see? (...) And I'm feeling like a moody situation and I feel the waves laughing with contempt Could I feel my senses leaving me?"

– Fale-me sobre o droide.

Livre do elmo negro, a voz do captor de Rey soou límpida e grave, em idioma Básico, sem nenhum sotaque que ela pudesse identificar. Não parecia haver nenhuma hostilidade também, mas isto apenas fez com que se sentisse mais desconfortável. Ela respirou fundo e umedeceu os lábios.

– É uma unidade do tipo BB, com um drive especial de selenium, sistema propulsor com um giroscópio e –

O homem a interrompeu no mesmo tom neutro.

– Não tenho interesse nas especificações técnicas dele. O que eu quero estava salvo na memória do droide. É um mapa de navegação intergalática, ou melhor, um trecho do mapa maior que já possuo. Eu sei que você o viu, e eu preciso que o descreva para mim.

Ele era articulado e muito formal, e Rey subitamente deu-se conta de que não passava de uma reles catadora de lixo, uma coisinha suja que vivia trocando sucata por comida num planeta irrelevante. Talvez não tivesse mesmo chance de resistir a este grande comandante, guerreiro ou sabe-se lá o quê. Arrependeu-se de ter ajudado BB-8, de ter abandonado Jakku. Pensou em Finn e seus olhos arderam. Raramente chorava, mas temia que, se começasse, não conseguiria mais se controlar. Manteve-se calada, tentando acalmar as batidas do próprio coração. Não podia fraquejar.

Ele a observava atentamente, seu olhar intenso e perscrutador. Ela estava sob completo escrutínio, como se nada pudesse escapar à intromissão dele. Aquilo era desesperador. Ele parecia rastejar para dentro da cabeça dela de forma lenta e deliberada, impondo sua presença aos pensamentos da garota. Ela não sabia como pará-lo. Talvez tivesse preferido ser torturada fisicamente.

– Eu sei que você viu o mapa. E que você, uma simples catadora de sucata, conseguiu fazer com que o droide lhe mostrasse algo tão importante. Agora só preciso que você me conte sobre este mapa. E eu sempre consigo o que eu quero.

Rey piscou, evitando momentaneamente a primeira lágrima.

– Se você consegue, então não precisa que eu conte nada.

O final da frase soara mais esganiçado do que ela pretendia, mas naquele momento foi o suficiente para lhe deixar um pouco menos decepcionada consigo mesma. Ele continuava a encará-la sem demonstrar nenhuma emoção. Ergueu a mão enluvada em direção à cabeça de Rey.

– Eu vou conseguir o que eu quero.

Tocou o rosto da garota como fizera na floresta de Takodana, delicadamente. O couro da luva era quente e macio, quase uma carícia. Rey estremeceu, aturdida ao flagrar-se imaginando como seria o toque direto da pele dele. Com enorme esforço repeliu este pensamento.

– Você é tão solitária... – ele se pôs a murmurar, com suavidade – Com tanto medo de partir.

Um leve sorriso se formou nos lábios dele.

– À noite, tentando dormir, você imagina... imagina um oceano. Posso ver a ilha.

Rey não foi capaz de conter o choro. Lágrimas pesadas rolaram por suas bochechas, de ódio, de vergonha, de impotência. E ela baixou a cabeça, desviando dos olhos terríveis daquele inimigo, ainda que não conseguisse escapar de seu toque. Odiou-o mais do que tudo, e desejou que alguém pudesse salvá-la.

– E também vejo Han Solo.

Ela não pôde ver o sorriso presunçoso murchar no rosto do homem com o manto negro, mas pela primeira vez havia algum sentimento genuíno na voz dele, algo que ela identificou como amargura.

– Você sente que ele é como o pai que nunca teve. Esqueça isso. Posso assegurar que ele a deixaria desapontada.

Sentindo-se ultrajada, ela reuniu o que lhe restava de coragem e exigiu, mais uma vez olhando para ele, furiosa e chorando:

– Saia... da minha... cabeça.

Ele abaixou-se para ainda mais perto dela, aumentando de forma intolerável a proximidade física e psíquica entre ambos. Intensificou o contato. O corpo dele era quente de um modo estranho, como se emanasse algum tipo de energia. Novamente ela pensou ter visto chamas vermelhas bruxulearem dentro dos olhos de cor escura.

– Rey – ouvir seu nome sair daqueles lábios provocou-lhe um arrepio – eu sei que o mapa está aí, e eu vou conseguir pegá-lo de um jeito ou de outro.

Rey cerrou os dentes.

– Eu não vou dar nada pra você.

– É o que veremos.

E de repente ele estava dentro da mente dela, um visitante indesejado e detestável vasculhando impiedosamente suas lembranças, pensamentos, emoções. Grosseiramente, ela tentou formar algum tipo de barreira, algo que pudesse contê-lo. Sabia que sua resistência era tosca em comparação à investida do inimigo, quando então teve a ideia. Concentrou-se o máximo que pôde em proteger aquilo que mais importava, deixando que ele esquadrinhasse o resto de sua vida interior sem oferecer nenhum tipo de empecilho.

Ocupado em devassar os segredos que ela parecia ser incapaz de ocultar, Kylo Ren (este era o nome pelo qual ele gostava de ser chamado, ela soube) baixou a própria guarda. E então foi Rey quem se aproveitou para bisbilhotar por meio do caminho que ele mesmo havia aberto. Mais do que isso, ela foi arrastada para o turbilhão que eram os pensamentos dele, um mar de raiva, angústia, medo. Foi como se, escapando dos grilhões que a aprisionavam, Rey mergulhasse livre em águas negras e profundas, novamente senhora de si.

Quando os olhos da garota – os olhos de sua própria mente – se acostumaram à escuridão, ela pôde divisar as imagens que formavam a alma atormentada daquele homem. Por dentro, ele estava devastado por dúvidas, consumido entre os lados opostos de um poder imenso, sem saber como escolher. Rey o viu ajoelhado diante de um trono gigante, o rosto humilhado. Viu um pequeno cristal quebrado, vermelho, brilhando de forma intensa mas instável, como uma estrela prestes a explodir. Viu a si mesma no colo dele, inconsciente e entregue, e pôde sentir o que ele sentia, o receio, a hesitação... o desejo. Kylo Ren era um oceano de martírio autoimposto, mas Rey não teve medo de se afogar. Ao emergir dele, experimentou um poder que jamais sentira antes. Sabia que agora sua voz não falharia.

– Você... você tem medo. De que nunca será tão forte quanto... Darth Vader!

Ele afastou-se de Rey como se a garota fosse fogo, como se tivesse tomado um choque. Rey sentiu seu medo, ele estava atordoado e confuso. Ele lhe pareceu tão jovem, frágil até. Ela agora ofegava de júbilo, vitoriosa. Ainda conseguiu ver outras coisas na mente dele antes que o cavaleiro pudesse recompor as próprias barreiras. Ela sorriu, sem desviar dos olhos dele. Kylo Ren recolocou sua máscara, desajeitada e apressadamente, e saiu, largando sua prisioneira sozinha. Rey ainda sorria quando finalmente se lembrou de que o garoto vacilante que deixara a cela era, na verdade, um cavaleiro da Primeira Ordem, que certamente teria outras formas de fazê-la falar. O riso desvaneceu. A agonia tomou a forma de um aperto em seu peito, um vazio em seu estômago. Arriscou-se a vasculhar seus arredores com a mente, tentando outra vez encontrar Kylo Ren, ler o que se passava dentro dele; mas desta vez sentiu apenas frio.