Um romance cristão
2 CAPÍTULO 2 - Olhe para cima!
—-- Você aceita mais suco ou água?
Ana levantou o copo que tinha em mãos, mostrando a água que ainda estava pela metade. A garota que tinha lhe oferecido suco não deveria ter mais de vinte anos, com olhos grandes e escuros e o cabelo castanho claro preso em uma trança que terminava um pouco abaixo da linha dos ombros, ela parecia estar profundamente disposta a ajudar. O nome dela era Milena, ou Melissa ou Mariana, ou algo parecido.
Elas estavam na cantina da igreja, que ficava nos fundos do galpão de anexo. Quando tinha entrado ali, há vinte minutos atrás, Ana se surpreendeu ao ver a garota que logo apareceu para cumprimentá-la. Ela era irmã do cara que a tinha ajudado. Marcos, era o nome dele e ao que parecia, eles estavam terminando de limpar a cozinha, por isso estavam ali até tarde, e quando ele saiu para colocar lixo para fora foi quando a encontrou.
—-- Ele já deve estar chegando. --- A garota puxou uma cadeira e se sentou do outro lado da mesa, de frente para ela. Olhando na tela do próprio celular, a menina deu uma bocejada. --- O posto de combustível não fica muito longe daqui.
Ana assentiu, bebendo mais um gole de água. A dor de cabeça tinha diminuído, mas sua têmpora ainda latejava um pouco, seus olhos ainda estavam pesados e seu raciocínio mais lento.
De uma só vez, ela virou o copo bebendo toda a água de uma só vez e depois colocou o copo vazio à sua frente. Olhando para o lado, ela viu seu celular carregando sobre uma bancada, ao lado do microondas. Eles tinham lhe emprestado um carregador e lhe oferecido algo para beber enquanto Marcos ia até o posto de combustível com um galão em mãos.
Deveria fazer uns trinta minutos que já estava ali, mas no fim das contas, a irmã de Marcos estava certa e não demorou muito para ele aparecer de volta.
A batida no portão fez as duas levantarem automaticamente.
—-- Abre a porta, Melissa.
Ah, então o nome dela era realmente Melissa.
Melissa correu até o portão e abriu, Marcos entrou rapidamente deixando o galão cheio no chão e esfregando as mãos uma na outra.
—-- Está frio lá fora.
Seus olhos verdes varreram o galpão até a encontrarem.
—-- Você comeu ou bebeu alguma coisa? --- Ele perguntou quando Ana se aproximou deles.
Ana assentiu.
—-- Você precisa de algo antes de irmos?
Ela maneou a cabeça em um não.
—-- Certo. --- Ele pegou o galão de volta com uma das mãos, e com a outra, afagou o topo da cabeça da irmã. --- Deixa o portão trancado até eu voltar.
—-- Está bem. --- Ela se afastou dele, ruborizada. Então, virando-se para Ana estendeu a mão até apertar a dela. --- Foi um prazer te conhecer, Ana.
—-- O p-prazer foi meu. --- Anna balbuciou. A gentileza daquela garota a tinha desconcertado, principalmente pelo fato dela mesma não ter sido o “modelo de gentileza” naquela noite com ninguém.
Quando eles saíram do prédio, a noite parecia mais clara, como aquela calmaria após a tempestade. No céu havia apenas algumas nuvens e as estrelas começavam a despontar. Ana apertou os braços ao redor dos ombros depois de esfregar os braços com as mãos, enquanto andavam pela calçada úmida. Os passos de Marcos eram mais largos que os dela, mas ele mantinha o ritmo permitindo que ela estivesse lado a lado para lhe mostrar o caminho em direção até onde o carro estava parado.
Mentalmente, Ana estava se esforçando para refazer o caminho de volta.
Direita, esquerda, direita novamente.
Ela cerrou os olhos quando passaram por um dos muitos postes com lâmpadas queimadas, mas aquele parecia diferente e familiar, com cartazes colados em volta. Ana olhou para o lado, uma rua larga e comprida e viu o brilho azul da lataria do carro.
—-- Aquele é o seu carro? --- Ele perguntou.
—-- É o carro do meu namorado.
Ele assentiu seguindo-a até o automóvel.
Ana tateou até encontrar as chaves e entregá-las para Marcos, e ele colocou o galão de gasolina no chão enquanto abriu a tampa do tanque de gasolina. Eles não tinham ali nenhum funil, mas tinham improvisado um protótipo usando uma garrafa de refrigerante que tinham pego na cozinha e cortado antes de sair.
Quando ele terminou, fechou a tampa e indicou a porta do carro com um aceno de cabeça.
—-- Posso?
Ana assentiu, apontando para o botão que destrava o carro. Marcos abriu a porta e encaixando as chaves no painel, as girou. Demorou alguns segundos a mais do que o esperado, mas o motor finalmente deu sinal de vida e Ana finalmente deixou os ombros relaxarem. Ele saiu do carro em seguida, desligando o motor.
—-- Pronto, carro abastecido. --- Ele estendeu a mão, lhe devolvendo as chaves, mas pareceu hesitar no último momento.
As luzes alaranjadas dos postes de iluminação ao redor falhavam um pouco, então Ana não conseguiu decifrar exatamente o que se passava pela mente dele quando ele a encarou com mais atenção naquele exato momento. Era como se estivesse considerando algo, analisando a situação, talvez desconfiado?
—-- Você consegue dirigir? --- Ele disparou.
Ana franziu o cenho, segurando as chaves.
—-- Consigo.
Ela foi em direção à porta do carro que já estava aberta, mas cambaleou um pouco antes de se sentar no banco do motorista. Ótimo.
—-- Eu agradeço a ajuda…--- Ela começou dizendo, puxando o cinto de segurança e por alguma razão, demorou um pouco além do esperado para conseguir afivelá-lo. Seus dedos agora pareciam tão pesados quanto seus olhos estavam pouco antes. --- M-mas eu posso assumir daqui.
Ela enfiou as chaves no painel e as girou, o carro ligou, mas logo morreu. Ana franziu o cenho. Novamente, girou as chaves, o carro ligou, mas o motor morreu nos segundos seguintes.
Marcos se inclinou sobre a porta aberta, mesmo que ela tentasse fechar a porta, o corpo dele estava posicionado estrategicamente entre ela e a maçaneta interna. E ela se perguntou se isso havia sido proposital.
—-- Não acha melhor ligar para alguém vir buscá-la? Seu namorado, algum parente ou amigo?
Ana cruzou os braços sobre o volante. Será que aquela noite não teria fim? O cara ao seu lado não parecia muito disposto e confiante com a ideia de vê-la dirigindo por aí. Ela olhou para frente, para a rua deserta. O asfalto estava molhado ainda, lembrando-a da chuva que havia caído horas antes…ou haviam sido minutos antes? Seus dedos estavam pesados, seus olhos também e embora a dor de cabeça tivesse diminuído, Ana sentia seu cérebro devagar, sem qualquer pressa entre os intervalos de seus pensamentos.
Ligue…
Relutante ainda, mas cansada demais para questionar ou fazer qualquer outra coisa que prolongasse sua estadia ali, ela abriu a bolsa e pegou seu celular. Na cozinha da igreja, a bateria tinha passado de zero para 35%. Não era o ideal, mas era o suficiente.
Ela destravou o celular e rolou a tela até chegar na letra P em sua agenda de contatos.
Quando seu pai atendeu do outro lado, Ana suspirou, em parte aliviada, em parte constrangida.
E não demorou tanto assim para seu pai chegar, descendo de um carro de aplicativo que saiu assim que ele fechou a porta, desaparecendo entre as ruas tão rápido quanto chegou. Ela o viu manear a cabeça quando a avistou, em seguida cumprimentar com um aperto de mão o cara que a tinha ajudado mais cedo. Marlus, o nome dele era esse? Ana não se lembrava, sua mente já estava funcionando bem abaixo da capacidade habitual naquele momento. Enquanto ela tinha jogado o corpo para o banco do passageiro, seu pai entrou no carro mas antes dele fechar a porta, o cara que a ajudou acenou e ela balançou a mão acenando de volta… ou teve apenas a impressão de que fez isso? Ela gostaria de ter agradecido novamente, mas inclinou sua cabeça apoiando-a no vidro da janela e fechou os olhos. O barulho da porta sendo fechada foi a última coisa que escutou, junto com a voz de seu pai dizendo que chegariam em casa em breve. E o cinto sendo afivelado ao redor dela foi a última coisa que sentiu.
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