Um romance cristão
3 CAPÍTULO 3 - O vento sopra onde quer…
Ana girou o corpo e se virou para o outro lado, puxando a coberta até a altura dos ombros.
Apesar da luz tocando seu rosto com insistência, demorou alguns minutos a mais até que ela abrisse os olhos. Ela piscou, uma, duas, três vezes até ver a fresta entre as cortinas; a janela aberta e lá fora, um vislumbre do céu.
Quando acordou o suficiente para ter consciência da dor no corpo e da sensação de boca seca, ela empurrou a coberta e se sentou, não demorou para Ana perceber que estava na casa de seus pais, em seu antigo quarto. Quando se levantou, sentiu uma leve pontada na têmpora, e esfregando os olhos, saiu do quarto em direção ao banheiro, e a cada passo Ana se lembrava dos acontecimentos da noite anterior: a festa, o desentendimento com Heitor, o carro enguiçado no meio do nada, e a ajuda de dois estranhos de uma igreja.
Ela exalou um suspiro pesado quando viu seu reflexo no espelho. Quando tinha saído de casa na noite anterior, Ana estava elegante usando um vestido social preto de gola alta, o rosto bem maquiado destacando principalmente seus olhos escuros com delineador marcante e esfumado, mas agora, toda a produção da noite passada não passava de um vestido amarrotado, os cabelos castanhos na altura dos ombros bagunçados e emaranhados nos brincos e o borrado ao redor dos olhos. Ana se aproximou do espelho, tinha manchas do delineador até mesmo em sua bochecha. Ah, definitivamente foi um erro não ter usado maquiagem à prova d’água.
E enquanto lavava o rosto, Ana se perguntou se seu rosto estava assim quando havia recebido ajuda daqueles dois estranhos da igreja e ruborizou com a ideia de ter estado daquela forma e ainda assim ter agido de forma tão cheia de si.
Depois de tomar um banho e vestir uma calça jeans e uma blusa bege com mangas compridas, ela prendeu os cabelos molhados e recém lavados em um rabo de cavalo baixo. Antes de sair da casa dos seus pais, Ana tomou um comprimido para dor de cabeça e havia pego seu celular que estava carregando na cozinha. Haviam cinco mensagens de ligações perdidas na tela, três de Heitor e duas de Elisa, que foram as que ela retornou primeiro.
—-- Oi, já estou a caminho… --- Ana disparou assim que a ligação completou, ela tinha pego as chaves do carro em cima da bancada e viu o carro SUV azul estacionado na rua acender as luzes rapidamente e destravar assim que ela apertou um botão. Ainda estava com o carro de Heitor.
—-- Oi, fiquei preocupada…--- Elisa respondeu. --- Já abri a loja, e já tivemos alguns clientes hoje.
Elisa era a sócia de Ana, as duas tinham uma loja de vestuário bem conhecida em um dos bairros mais valorizados da cidade. Ela tinha entrado com a ideia e os contatos, enquanto Ana cuidava da parte administrativa e gestão, além de ter entrado no negócio com quase setenta por cento do investimento. Ana deu uma olhada rápida na tela do celular novamente. O visor marcava 09:35.
—-- Desculpa... --- Ana abriu a porta do carro e entrou, afivelando o cinto. --- Chego aí em 20 minutos.
Assim que Elisa desligou, Ana desceu a tela e viu as outras três ligações perdidas. Ela digitou o número, mas apagou antes mesmo de ligar.
É, justamente essa ligação que teria que esperar mais um pouco.
❖❖✥✤✤✵✵✵❈❈❉❉❅❃❃
Já eram quase seis horas da tarde quando Ana se endireitou na cadeira, alongando os braços. Ela jogou a cabeça para trás, apoiando o pescoço no encosto almofadado e olhando para o teto. Aquele foi um longo dia de trabalho, apesar de tudo, foi bom ocupar sua mente quando algumas coisas não estavam resolvidas, por exemplo, sua situação com Heitor. Ela se sentou direito novamente e pegou o celular. O lembrete das três chamadas perdidas ainda estava lá.
Ela suspirou, jogando uma mecha de cabelo desobediente para trás da orelha, e antes que pudesse pensar mais, ela clicou no número que aparecia na tela. Demorou um pouco mais que o esperado, mas Heitor finalmente atendeu a ligação.
—-- Alô?
Até aquele momento Ana não tinha percebido que havia prendido a respiração, soltando o ar rapidamente, ela balbuciou:
—-- O-oi.
Silêncio.
—-- Tudo bem, Ana?
—-- Sim, sim.--Ela pigarreou, ajeitando-se na cadeira. --- E-eu estou com o seu carro ainda.
Ele riu. A risada dele estava abafada, como quando ele queria manter uma postura séria, mas ria.
—-- É, eu notei isso.
—-- Você já está saindo do trabalho? --- Ana olhou as horas novamente, eram 18:15.
—-- Hoje meu expediente acaba às 19:00 hoje.
—-- Então eu chego aí em meia hora, tudo bem por você, Heitor? Assim posso te entregar as chaves e podemos conversar um pouco.
Ele suspirou, e ela podia imaginá-lo passando as mãos pelos cabelos castanhos, calculando as palavras.
—-- Ok. Eu vou te esperar.
❖❖✥✤✤✵✵✵❈❈❉❉❅❃❃
Quando Ana estacionou o carro em frente ao prédio do escritório de Heitor, faltavam quinze minutos para as 19:00. O sol tinha se posto já há algum tempo, e o céu tinha um tom de azul escuro e profundo, como a cor azul oxford que ela usava em suas peças de roupa.
Ana se sentou em um banco de pedra na calçada, ao lado da fachada de uma floricultura que já tinha fechado as portas, e não demorou muito para ela reconhecer a silhueta atravessando a rua segurando o blazer e uma mochila nas mãos. Pouco antes de Heitor pisar na calçada, um carro buzinou e ele acenou.
Ana se levantou, mas parecendo cansado, Heitor se sentou no mesmo banco, esticando as pernas e apoiando as costas no encosto. Ele fechou os olhos por um segundo, e Ana se sentou de volta, ao seu lado.
—-- Dia estressante?
Ele abriu os olhos, olhando para frente, para algum ponto aleatório.
—-- Essa semana começou de um jeito bem intenso.
Ela se encolheu um pouco, a festa havia sido no domingo, e como domingo era o primeiro dia da semana, era óbvio que ele estava falando sobre a discussão dos dois também e não apenas do trabalho.
—-- Me desculpe pelo outro dia.--- Ana disparou sem rodeios.E ele finalmente a encarou, olho no olho. --- Por aquele dia na festa. Desculpe por ter falado daquela forma com você.
—-- Eu juro que estou tentando entender você, Ana.--- Ele se endireitou, virando o corpo em sua direção. --- Tenho tentado entender você e o dilema que você tem enfrentado, mas confesso que é difícil para mim entender principalmente como tudo isso começou.
—-- Eu sei…
—-- Nosso relacionamento estava indo bem, estamos indo bem profissionalmente, não temos problemas com nossas famílias… então, por quê?
Ana voltou a encarar o céu escurecido.
—-- Em algum ponto no meio de tudo isso.. -- Ela começou.--- Eu comecei a perceber que há algo em mim que todas essas coisas não vão conseguir preencher, Heitor, há um espaço esperando algo mais.
—-- Um propósito…
Aquela não foi uma pergunta, mas uma confirmação…
—-- Isso, algo do tipo.
Ana sentiu-se aquecida quando a mão de Heitor cobriu a sua. Até aquele momento, ela não tinha se dado conta de que estava com frio. Ele segurou a mão dela, o toque quente obrigando-a a voltar a encará-lo.
—-- Ana, sejam quais forem as suas preocupações, eu quero estar junto para superarmos isso juntos.--- Ele levou a mão dela até os lábios, beijando-a.
—-- Heitor, eu não posso simplesmente ignorar esse sentimento…
—-- Não estou pedindo que ignore, mas estou dizendo que nós dois podemos superar qualquer coisa. Eu prometo.
Ana recostou a cabeça no peito dele, e podia sentir o coração dele. Assim como o seu, eles batiam no mesmo compasso.
—-- Eu senti falta disso… --- Heitor sussurrou beijando sua testa, e em seguida, roçando a barba por fazer em sua bochecha, com um sorriso. --- Senti falta de estar assim com você.
Ana o beijou novamente, antes de voltar a inclinar o rosto sobre o peito de Heitor e se aconchegar sob os braços dele envolvidos ao seu redor.
Ela amava tanto Heitor, mas tinha medo de que, em algum momento, seus corações batessem por motivos diferentes.
Fale com o autor