Um rinoceronte
8 Um dono de bar, um homem estupefato, uma mulher.
Naquele dia, um homem entrou num bar com uma expressão estupefata e aflita. Diante do olhar de todos que ali estavam, cambaleou até o balcão, no qual se apoiou. O dono do bar estendeu-lhe um copo cheio de qualquer coisa, e encarou-o, cheio de expectativa no olhar.
— Nos últimos três dias, três rinocerontes! – o homem estupefato declarou, derrotado. O dono do bar suspirou e enlaçou sua esposa, que também estava atrás do balcão, com o braço.
— Quem se transformou hoje? – a esposa do dono do bar perguntou.
— O padeiro. Já está na praça dos rinocerontes, que se expandiu mais um bocado. Agora são tantos! Lembram-se quando havia apenas um? Quando cultuávamos a ele como um deus? Mal sabíamos que era uma praga! – o homem estupefato disse, e deu um gole em sua bebida. O dono do bar e sua esposa concordaram tristemente.
O intervalo entre as transformações era cada vez menor. De um mês para duas semanas; de duas semanas para uma; de uma para meia; de meia semana para dois dias; de dois dias para um rinoceronte por dia. A população de seres humanos diminuía cada vez mais para ceder espaço à população de rinocerontes. E a confiança do prefeito e seu secretário, antes tranquilizadora, naquele momento apenas irritava os cidadãos.
— Como podem estar tão confiantes diante desse caos? – perguntou-se o dono do bar, indignado – A cidadela está indo por água abaixo e eles aparecem sorrindo como se nada houvesse para as inspeções. Eu por mim nunca confiei nessa administração... Não encaram a situação com a urgência que tem.
Sua esposa e o homem estupefato concordaram silenciosamente.
— Talvez... Talvez! – o dono do bar socou o balcão, fazendo pular o copo do homem estupefato que ali repousava – Talvez o prefeito e aquele secretário estejam por trás disso tudo! Talvez eles tenham feito com que as pessoas se transformassem em rinocerontes! Talvez eles sejam culpados por tudo isso e não podemos deixar barato!
Sua esposa e o homem estupefato começaram a se exaltar junto com o dono do bar. Ele ia prosseguir falando mas foi interrompido pela risada arrastada do bêbado, que observava do fundo do bar. Um pouco desconfortável, aquele que falava coçou a cabeça.
— Por que está rindo? – perguntou ao bêbado. Ele não respondeu, apenas continuou rindo – Vamos, por que está rindo? Acha que o que estou dizendo é tão ridículo assim?
O fato de que o bêbado nada dizia, e apenas continuava gargalhando, irritava profundamente o dono do bar.
— Talvez esteja rindo porque sabe que estou certo! Porque está do lado deles nisso tudo, participa desse esquema maléfico de transformação em rinocerontes! Talvez seja um agente infiltrado! – bradava o dono do bar, tentando a todo custo e em vão cortar as risadas do bêbado.
— Querido, talvez seja melhor se acalmar – disse a esposa do dono do bar, mas ele não ouvia nada que não fossem as risadas do bêbado.
— Pare de rir, maldito!
— Meu bem, esse tipo de situação não pode acabar bem... É só um bêbado, vamos lá, nem sabe porque está rindo, provavelmente...
— Pare de rir! Venha rir na minha cara, se tem coragem, breaco! É só mais um deles! É só mais um deles!
Não aguentando mais, o dono do bar pulou o balcão para avançar sobre o bêbado, a pele lentamente se enrugando e acinzentando. Aterrorizada, sua esposa procurava detê-lo segurando o seu braço com a ajuda do homem estupefato.
— Meu querido, isso não está te fazendo bem! Está ficando cinza! Está ficando cinza!
— Pare de rir, maldito!
— Vai virar rinoceronte, deixe o bêbado em paz!
— Pare de rir, maldito!
— Já está aumentando de tamanho, se encurvando, pare!
— Pare de rir, maldito!
— Os olhinhos escurecem e diminuem, a mão virando pata, pare!
— Pare de rir, maldito!
— O marfim começa a surgir, veja o marfim, pare!
O dono do bar já não falava, rosnava, bufava e grunhia.
— Como um animal! Por favor, meu bem, pare já!
Mas era tarde demais. O homem estupefato rapidamente segurou o braço da desesperada esposa do dono do bar, segurou o braço do bêbado, e correu com eles para fora dali enquanto o teto desmoronava com o crescimento de um imenso rinoceronte.
— Oh, não! – exclamou a esposa do dono do bar.
— Oh, céus! – exclamou o homem estupefato.
O bêbado havia parado de rir, e bocejava apoiado no homem estupefato.
— Quatro rinocerontes em três dias – suspirou o homem estupefato. A esposa do dono do bar deu-lhe um peteleco na parte de trás da cabeça, fazendo com que se encolhesse, e o mesmo com o bêbado.
— Se você fosse menos exagerado meu marido não teria se exaltado tanto! – disse para o homem estupefato.
— Se você não fosse tão amalucado e não ficasse rindo, breaco, meu marido não teria se irritado tanto! – disse para o bêbado.
— Ora, vejam que terrível situação! Um rinoceronte em plena cidadela, um rinoceronte, meu marido! E agora, vejam como caminha! Anda, vai até a Avenida Central, vai até a praça dos rinocerontes! Anda tranquilo, como se estivesse a passeio num parque, como se conhecesse cada esquina, porque conhecia! Caminha nessa lentidão imensa, rinocerôntica, sem saber que falamos dele, que o vemos, que o conhecemos! Descontrolou-se por um segundo e veja o que lhe aconteceu! Não posso aguentar, não posso! Era um tonto, de vez em quando, e eu gostava de caminhar sozinha pelas ruas da cidade, mas nunca lhe desejei algo assim! Eu já conhecia bem cada uma de suas manias, algumas me cansavam, mas nunca lhe desejei algo assim! Eu quis que abandonássemos o bar, abandonássemos a cidadela, que conhecêssemos o mundo, mas nunca lhe desejei algo assim! Mas que situação pavorosa, terrível, vejam como anda! Nunca desejei algo assim! Nunca desejei! Nunca desejei que minha pele se fizesse como se faz, cinzenta e enrugada! Nunca desejei crescer de tamanho como cresço! Nunca desejei esse marfim, esses olhinhos! Se a florista se fez rinoceronte por seu autoritarismo, se o sacristão se fez rinoceronte pela sua obsessão, se meu marido se fez rinoceronte por sua raiva, não sou eu quem me faço rinoceronte! Não sou eu que me faço animal, não sou eu que me chamo animal, não sou eu que me trato como tal! Eu, esposa de um homem, nunca desejei... Eu, mulher... Eu não me faço bicho, eu sou feita bicho por todos... Por todos!
O homem estupefato olhou em silêncio, o bêbado adormecido aos seus pés, enquanto ela terminava de se transformar em rinoceronte e seguir seu caminho até a praça. Presenciara muitas transformações, mas até então nenhum tinha surtido nele efeito semelhante ao que aquela surtia. Sentia-se desconfortável e incapaz de fazer qualquer comentário, coisa que sempre fazia. Era como se aquela transformação lhe dissesse respeito, como se fosse cúmplice. E ainda assim, estava ali de pé, imóvel, implacável.
— Eu me pergunto – disse finalmente a si mesmo – Qual era o nome da esposa do dono do bar.
Pensou por alguns instantes.
— Não faz diferença – concluiu.
E o homem estupefato, em sua passividade de sempre apenas observador, fez-se rinoceronte.
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