Um rinoceronte

9 E o que queria dizer, senhor prefeito?


O prefeito e seu secretário estavam sentados no chão diante da igrejinha onde antes passava seus dias o sacristão. Os dois estavam em silêncio, como se esperassem alguma coisa. Não havia muito o que esperar, na verdade. O prefeito brincava com a ponta de seu bigode. O secretário limpava os óculos na barra da camisa.

— Estou feliz por estar ao seu lado agora, secretário – disse o prefeito, com o olhar distante – Estou feliz. Não gostaria de estar com qualquer outra pessoa, aqui, diante dessa cidadela de rinocerontes.

O secretário não respondeu, mas colocou os óculos e encarou o prefeito com atenção. O prefeito prosseguiu.

— Sempre acreditei que eu fosse muito capaz. Muito competente... Tornei-me candidato com essa certeza. Se não a tivesse, teria acabado fazendo qualquer outra coisa. Ou teria acabado não fazendo nada. Mas acho que não acredito mais nisso. Não acredito na minha competência. E como poderia acreditar? Sentado diante de uma cidadela cheia de rinocerontes, meus cidadãos-rinocerontes, e não posso, não sei absolutamente o que fazer. Parece que vejo sentado conforme as coisas fogem completamente de meu controle.

— Eu sinto muito, senhor prefeito.

— Não sinta! Não é preciso. Estou em paz com tudo isso. O que na verdade eu queria dizer era outra coisa.

— E o que queria dizer, senhor prefeito?

— Queria dizer que se sempre acreditei que era eficiente sem o ser é porque confundia a sua eficiência com a minha. Quero dizer, acho que em minha admiração por sua objetividade e capacidade de lidar com situações por mais absurdas que sejam, eu desejei que essas fossem características minhas. Mas também não é isso que eu queria dizer.

— E o que queria dizer, senhor prefeito?

— Queria dizer que se cometi muitos erros ao longo desses anos todos, o maior deles talvez tenha sido não reconhecer para mim mesmo que o verdadeiro prefeito provavelmente deveria ter sido você. Com certeza esteve sempre mais apto para o cargo, e entretanto por alguma vaidade minha nunca consegui tomar a atitude que você certamente tomaria, já que era a correta. Mas mais uma vez eu me perco nas palavras, secretário. Não é nada disso que eu queria dizer, e acho que apenas digo porque sou covarde demais para dizer o que realmente quero dizer.

— Eu não acho que o senhor seja covarde.

— Mas eu sou. Eu sempre fui. A pergunta que me faço é: o que é maior? Minha covardia ou a urgência? Quero dizer, estamos diante de um apocalipse rinoceronte, eu mesmo posso me tornar um rinoceronte a qualquer momento. E a última chance que terei tido para dizer qualquer coisa terá se perdido. Fui covarde cada instante de minha vida, mas eu o serei mais uma vez agora? Será meu último momento um momento de coragem?

— Eu não entendo o que quer dizer, senhor prefeito...

— Eu não quero que você me chame de senhor, secretário. Eu nunca te chamei de senhor. Não somos diferentes... E no que somos, você certamente está mais bem resolvido que eu.

— Ora, prefeito...

— Estou com toda a honestidade que tenho querendo dizer que o admiro um tanto, secretário... Na verdade, não sei o que teria sido de mim todos esses anos se não o tivesse comigo. Provavelmente teria sido o primeiro a virar rinoceronte. Eu queria dizer...

— O que queria dizer, prefeito?

— Eu queria dizer que agradeço. E queria dizer... Ora... Queria dizer...

O secretário sorriu e tomou a mão do prefeito na sua.

— Há coisas que não precisam ser ditas para serem entendidas. – ele disse. O prefeito sorriu.

Os dois, em sua ternura, não fizeram-se rinocerontes. Fizeram-se antes dois passarinhos que ainda haviam de voar juntos por muito tempo.