Um novo olhar
7 Enganoso é o coração. Há razão para segui-lo?
Notas iniciais
“Konoha, 17 de março, dez da noite
Eu não consigo mais não duvidar o tempo todo. Também não consigo não me sentir um lixo mas tem horas... tem horas que eu acho... que não sou uma pessoa tão ruim assim..
Naruto trocou o lápis pela janela. A lua não ajudava a aliviar os sentimentos que lhe perturbavam, contudo ele continuava a buscá-la nos momentos que a perturbação alcançava sua garganta. A luz do astro celeste derramava sua frieza sobre o rosto abatido realçando o cansaço provocado por uma confusão que durava semanas.
A urgência de salvar o amigo se dissolvia a cada vez que a mente do jovem questionava o significado de amizade e como esse laço deveria ser. Os pensamentos inevitavelmente chegaram à comparação de sua relação com Sasuke com a de outras pessoas. Sakura, Shikamaru, Lee...
Eles se comportavam tão diferente de Sasuke!
Obviamente, Naruto pensou na diferença de personalidade. Sasuke sempre foi mais seco e distante, calado, quieto. Julgar que ele não era seu amigo baseado nesses traços seria injusto. No entanto, a forma de demonstrar pinicava sua mente. Não se lembrava de demonstrações explícitas por parte de Sasuke.
... Eu tento me enganar o tempo todo com isso. Claro que sou um lixo! O Kakashi-sensei... eu sempre lembro do que ele disse. Não duvido que o Iruka-sensei diria o mesmo... E o ero-sennin... e todo mundo... Menos a Sakura
S a k u r a
Havia nas palavras dela um bálsamo, a redenção que Naruto ansiava. Ele ainda se digladiava contra a parte de si que abraçou a remição no mesmo instante em que a recebeu. Não merecia e não deveria ter aceitado, mas como se alegrava o pedaço de seu coração que a aceitou! Como se fosse puxado de um grande fosso, lavado e ganhado de novo o direito de pulsar sem dor.
Uma semana antes ele havia passado longos minutos em frente ao espelho. Encarava-se depois de horas em jejum. Era a metade da manhã e Naruto só tinha feito pensar e apontar o dedo para si mesmo. Sentiu asco, raiva, indignação, socou a parede, o chão. Chorou. Lágrimas pesadas. A garganta dolorida inflamava, a alma esmigalhada doía. Caco por caco.
“Você é um lixo...” A frase escorregou da boca carregada de nojo e cansaço, como se Naruto falasse para alguém cuja vida não tinha salvação.
Ali ele se amaldiçoou até a exaustão, demonizou a própria face, esqueceu-se de que possuía alguma virtude. Pobre miserável! Assim se sentia. Um verme rastejando na terra imunda, desprezível, sujo, digno de desprezo e morte. Porém a morte seria um presente. O escape ideal para quem não quer lidar com a pior parte de seu eu.
Se não tivesse visto-a como dádiva, talvez Naruto teria conversado com a morte. Contudo, consumir-se em culpa, apesar de uma agonia, tornou-se sua salvação. Mas se a vida fora poupada para sofrer, Naruto precisava acariciá-la com dor.
A mancha vermelha abrigava pontículos brilhantes e rubros, a parede ganhava a cor deles a cada nova batida. O latejar se tornou insuportável e a visão do próprio sangue corrompendo o branco lhe aflorou o pensamento de fazer correr mais daquele líquido.
Um segundo. A kunai em cima da mesa. O sangue na parede. A pele ardendo. As pessoas costumam cortar os pulsos. Dois segundos. A mão se apoiando no chão. O corpo se erguendo. A testa já não doía tanto. Mentira da mente. Três segundos. O frio do metal na ponta dos dedos. O olhar cinza. O silêncio do mundo. A voz dela cortou seu pensamento.
Era ilusão, desejo que Sakura chamasse o seu nome e o impedisse de fazer aquela tolice. Passeou o amargor pela boca, deglutindo a saliva pesada. Olhou para a lâmina, perguntando-se o que Sakura faria se ele cortasse o pulso. Ficaria estática por um momento, curaria seus ferimentos e faria novos quando soubesse da besteira que tinha feito.
“Tudo isso por...” voltou a perceber a dor. Passou a mão na testa e observou o misto de poeira e sangue. “Esse inferno na minha cabeça... Eu não aguento mais.”
As palavras de Sakura empurravam Naruto para o descanso, mas também para a alternativa de cessar a busca por Sasuke. Com o aval da pessoa que mais se importava em trazer o Uchiha de volta, a ideia abandonar a missão de “resgate” era não só tentadora, mas reconfortante, e com os sentimentos misturados de dúvida, Naruto sabia que suas únicas opções eram: parar ou continuar. Cabia-lhe somente escolher.
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