Um novo olhar

8 As veredas de uma decisão


Notas iniciais
Oláááááá´! Boa leitura!

“Konoha, 30 de março, cinco da tarde

Eu só preciso dizer pra ela... se eu conseguir dizer pra Sakura posso enfrentar qualquer um. Só que... que... estou com medo. É idiota, mas estou com medo. Mesmo que ela tenha dito que eu não deveria continuar por causa dela, mesmo que tenha me desobrigado a cumprir minha promessa... Me sinto um lixo por fugir dela. Agora sou um cara que quebra promessas...

Um cara que quebra promessas...

Quem vai confiar em mim? Eu não mereço confiança.

Na manhã seguinte, Naruto levantou com a força para encerrar o assunto dentro de si mesmo. Confirmar o que Sakura já sabia era simples. Colocar-se diante dela, assumir que seu interior havia escolhido se proteger e não via mais Sasuke como irmão. Aquela imagem havia se derretido feito a cera de uma vela. Restava como as sobras da certeza de uma amizade.

Simples não era, falar. De certo todo seu corpo tremeria para dizer o já dito indiretamente. Arrancar a última esperança que Sakura ainda carregava. Decretar o fim da confiança que ela lhe depositava. Abraçar a alcunha de traidor.

Necessário por fim numa agonia que o acompanhava por semanas.

Não sou mais criança. Mesmo que ela me odeie... mesmo que todos me odeiem... Não vou deixar passar de hoje. Se eu não for homem suficiente para fazer isso hoje eu... Não. Não existe essa possibilidade. Porque vai ser agora.”

O diário foi deixado na cama sem o cuidado que Naruto geralmente lhe dedicava. As páginas corriam levadas pelo vento, exibindo uma coleção de palavras de dor. Uma grafia confusa ocupava as primeiras folhas daquele caderno improvisado, muitas linhas em branco, muitos espaços sem sentido. Uma dezena de folhas depois, a grafia apresentava o esforço de quem tentava registrar de forma legível os pensamentos que povoavam a mente. Levemente mais ordenados, apresentavam-se ao redor de um fio que os conduzia a algumas conclusões. Ainda havia dor, ainda se notava que o dono daquelas palavras se debatia por culpa de seus sentimentos, porém a calma sutilmente escorria para elas. Outro sopro do vento, e viu-se letras bem desenhadas que refletiam em suas formas as variações das emoções. A última frase, por exemplo, tinha um traço firme, todas as letras bem amarradas e espaçadas harmonicamente quase como que por cálculo. O ponto final estava um pouco mais fundo que o restante dos caracteres, porém limpo e preciso como os demais.

Apressou-se para encontrar Sakura. O receio de que ela estivesse cansada demais para ouvi-lo perturbou-o. O destino não poderia ser tão irônico a ponto de lhe tomar aquela chance justo quando seu peito estava cheio de coragem. Arrebatou-a da companhia de Ino sem o menor pudor. Tomou-a pela mão adentrando por um caminho entre árvores até alcançar um minúsculo descampado.

O luar empalidecia Sakura que fitava Naruto com assombro. O semblante dele não deixava espaço para qualquer reação agressiva da garota. Estava sério, carregado de firmeza, a imagem perfeita de quem por nada voltaria atrás. O completo oposto do Naruto bobo e atrapalhado que gaguejava quando tocava em certos assuntos.

“Eu pensei muito e me decidi.” Ele deixou passar alguns segundos pensando que Sakura se manifestaria, no entanto, ela se manteve atenta e estática. “Não consigo mais continuar nessa busca pelo Sasuke. Não quero mais. Isso já me fez muito mal e eu cansei de ir atrás de alguém que não me trata como amigo. Sei que você tinha esperança que eu mudasse de ideia, mas não dá mais, Sakura.”

O silêncio se acomodou entre eles, ocupando o espaço que as palavras não eram capazes de ocupar. Cabia perfeitamente nos olhares fixos, no rosto sereno de Naruto, na expressão de tristeza que Sakura tentava disfarçar.

“Vou entender se você me odiar.”

“Não tenho motivo pra isso.”

“Eu estou quebrando a promessa.”

“Não...” Ela balançou a cabeça devagar. “ você está me dizendo que não consegue mais mantê-la. Você poderia simplesmente fingir que esqueceu ou quebrá-la simplesmente. É preciso coragem para isso...”

“É o mínimo que eu poderia fazer...”

Sakura deixou seus olhos explorarem aquele Naruto desconhecido. Sentiu-se bem com ele após passar o estranhamento.

“Eu andei pensando que nunca fiz muito sobre o Sasuke...” Ela admitiu com um toque de vergonha na voz. “Deixei nas suas costas a obrigação de trazê-lo de volta enquanto ficava torcendo para você conseguir. Eu pensava que queria isso tanto quanto você, mas não coloquei metade do meu esforço... Não faz sentido, né?” Entregou um sorriso fraco. “O pior disso é não tomar pra mim essa busca depois de ouvir que você desistiu. Como se meus pés estivessem presos em Konoha, não me imagino saindo mundo afora atrás do Sasuke...”

Naruto não conseguiu conter o olhar de compaixão. Parecia-lhe um tanto de falta de sanidade Sakura ainda desejar trazer Sasuke de volta. De súbito foi tomada por um vislumbre de si mesmo meses atrás: o garoto que perseguia desesperadamente um amigo que não demonstrava a menor hesitação em lhe desferir um golpe mortal. Também fora insano, por muitos anos.

“Eu preciso resolver outra coisa” Naruto disse retomando a seriedade. “Vou acabar com outro assunto pendente.”

“Ok...” Sakura respondeu com vontade de perguntar.

“Eu devo uma resposta a Hinata.” Naruto soltou ao perceber a curiosidade de Sakura.

“Resposta?!”

“Sim. Eu nunca disse nada sobre a declaração de amor que ela fez. Passei esse tempo todo como um idiota, agindo como se aquilo não tivesse acontecido. Chegou a hora de dar uma resposta a ela.”

“Fico feliz que tenha decidido falar com ela...” O incômodo fazia as palavras de Sakura soarem fracas.

“Não vai ser uma conversa agradável. Não queria magoá-la, mas acho que não tem jeito.”

“Eu pensei que... O que vai dizer pra ela?”

“Que meu coração é de outra pessoa.” exprimiu com a voz rouca.

“Naruto, você sabe que...”

“Eu sei, você sabe, Hinata também sabe. Todos sabemos e agimos como se não soubéssemos, escondendo o que é tão claro! É ridículo! Por isso vou dizer da melhor forma que eu puder que não correspondo os sentimentos dela porque eu amo você.” Sorriu.

“Naruto...”

“Você vai me dizer que ama o Sasuke. Eu sei. Mas isso não vai me fazer jogar meu coração na mão de qualquer pessoa para esquecer você.”

“Naruto, para! Você não tá me deixando falar.”

“Você vai repetir todas as coisas que não quero ouvir, mas estou cansado de saber.” Enfiou as mãos nos bolsos do casaco.

“Quer saber? Esquece. É melhor você ir logo falar com a Hinata. Está ficando tarde.”

“Verdade... Bom, acho que você não vai querer voltar comigo, então vou na frente. Tenha cuidado.”

Naruto caminhou leve, deixando para trás uma Sakura desconcertada. Seu peito tinha agora tanto espaço, o coração pulsava tão tranquilo. Sua postura era diferente, seus passos confiantes. O semblante havia retomado seu brilho e o sorriso brincava em seus lábios como uma marca da liberdade que o inundava.

Notas finais
É isso aí. Fim! Obrigada a quem leu.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!