Um novo começo.
22 Quatro.
Notas iniciais
UMA SEMANA DEPOIS
TOBIAS
Uma semana se passou desde que Tris fora embora. Ainda tento me acostumar com a ideia de que ela realmente tomou sua decisão, mas eu não consigo. Não consigo me manter longe dela. Não consigo sequer parar de pensar nela.
Quando eu a conheci, sabia que havia algo nela que eu precisava, eu só não sabia o que era. Conforme fomos convivendo, eu descobri. Era apenas ela. Eu precisava dela na minha vida.
Mas ela não parecia se importar com isso. Não, não mesmo. Pelo contrário, Tris passara a me tratar com indiferença. Falava apenas o que era necessário nos treinos e me evitava na maior parte do dia. Não deixei transparecer, mas aquilo doía. Doía muito.
Nessa semana eu não tenho feito muita coisa. Nita desapareceu depois do que aconteceu no escritório e isso foi épico. Voltei no outro dia no Palácio e ela não estava mais. Não esperava outra atitude dela. Ela era covarde. Covarde ao ponto de desaparecer sem contar a verdade para Tris. Covarde para me enfrentar. Ou talvez estivesse apenas com medo. Com medo do que eu faria com ela se a encontrasse. E ela estava certa por estar com medo. Eu não a pouparia dessa vez.
No momento, eu ainda trabalho sem secretária, mas isso não afeta quase nada. Tenho saído muito com Johanna, em busca de aliados. Fico satisfeito ao ver que já temos três cidades aliadas. Nossa força está aumentando e isso é bom.
Depois de tomar meu banho e vestir uma roupa, saio para o Departamento de Polícia. Ultimamente, eu tenho estado sem apetite algum. O treino hoje seria pela manhã. Eu gostava de ser o tutor, mas era cansativo. A única disposição que eu tinha para levantar cedo e ir lá tinha nome. Tris. Eu sabia que a veria.
Perder o controle da situação quando eu estava perto de Tris era fácil. Não queria forçar as coisas, mas ficar ao lado dela sem poder tocá-la era torturante e eu estava me esforçando para conseguir me manter normal.
Tris tinha tomado sua decisão, e hoje acordei disposto a não interferir mais na sua escolha. Não forçaria mais. Não a pressionaria mais. Eu estava decidido. A melhor forma de provar o quanto a amo é essa. Deixa-la ir.
É doloroso, mas posso fazer isso por ela.
TRIS
Cheguei um pouco cedo no Departamento de Polícia. Não havia quase ninguém. Fui até a área do treinamento e estava vazia. Sorri, pois seria melhor assim. Queria praticar os socos. Melhorar meus ataques. E principalmente, liberar o rancor que havia dentro de mim.
Queria parar de pensar nele. Queria conseguir me concentrar em algo que ele não pudesse me distrair, porque doía. Pensar nele doía. Sentir saudades dele doía. Tudo doía. Mas o que mais doía era o que ele fizera. A imagem do beijo dele com Nita iam e vinham na minha mente, e era em momentos assim que eu sabia que havia tomado a decisão certa.
Não volte atrás, Tris.
Me aproximei do punching ball e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo. Suspirei e comecei a depositar socos ali. Trabalhei com o cotovelo também, pois na Iniciação, Quatro havia me dito que era uma parte do meu corpo que favorecia nos ataques.
Quatro. Eu me referia a ele assim, pois não me via mais no direito de chama-lo de Tobias, até porque só nos víamos nos treinos e ele era apenas meu tutor, como na Iniciação.
Nunca o chamei assim em voz alta. Não sabia como ele iria reagir.
Enquanto eu socava sem parar, senti que estava sendo observada. Olhei para o canto da porta e ele estava lá, parado, me observando. Não o observei muito e voltei minha atenção para o punching ball. Ouvi seus passos e soube que ele estava se aproximando de mim. Me concentrei em não deixar transparecer meu nervosismo.
Ele cruza os braços e fica apenas me observando. Sei o que ele está fazendo. Ele está agindo como meu tutor e isso me alivia um pouco. Ele fica atrás de mim e eu continuo socando. De repente, sinto sua mão sob minha barriga e seu toque me faz arrepiar. Espero que ele não tenha notado.
– Você parece nunca pegar o jeito. – sinto que ele está sorrindo torto. – Mantenha sempre a tensão aqui. – ele pressionou minha barriga. Não de um jeito doloroso, mas de forma gentil.
– Vou me lembrar disso. – falei, evitando-o encarar.
Ele ficou ao meu lado, analisando cada movimento meu. Me passou algumas instruções sobre como atacar melhor e eu ouvi atentamente. Quer dizer, na maior parte do tempo. A outra parte eu me distraía com ele. Com o fato de estarmos sozinhos na sala. Com seu físico forte e na saudade do seu abraço quente. Do seu beijo...
– Tris? – ele falou, chamando-me atenção.
– Sim?
– Qual a última coisa que eu falei? – agora ele me pegou.
– “Tris?” – rebati.
Ele sorriu e eu também.
– Tudo bem, chega por hoje. Acho que você deveria descansar; você pode ir embora se quiser. De todos, é a mais habilidosa, sem contar que é experiente, então acho que se você perder um treino não fará diferença. Aliás, você já treinou muito por hoje. – ele falou.
Eu não queria deixa-lo. Não queria voltar para o apartamento de Caleb e ficar longe dele. E chorar de saudade, como eu tenho feito ultimamente. Mas eu também não quero ficar aqui, porque é mais doloroso. Ele está tão perto e ao mesmo tempo tão longe.
A decisão foi sua, não volte atrás.
Ele me olha uma última vez e não consigo identificar o que há em seu olhar. Caminha até a porta, mas antes que ele saia, eu falo:
– Obrigada, Quatro. – e quando me dou conta eu já havia pronunciado o antigo apelido.
Ele parou e baixou a cabeça. Um silêncio se estendeu sobre nós. Sei só se passam alguns segundos, mas parecem muito mais intensos. Me senti estranha ao pronunciar seu apelido e me arrependi na mesma hora. Talvez eu tivesse ido longe demais.
Ele se virou para mim e nesse momento eu não vi mais meu tutor.
Eu vi apenas Tobias.
Seus olhos eram tristes, mas ele continuava sério.
– Não piore as coisas, Tris. – ele falou e me deixou sozinha.
E naquele momento eu me senti menor ainda.
Queria ir atrás dele, pedir desculpas e chorar em seu abraço. Era a única coisa que eu queria fazer no momento. Mas não. Não me permiti. Não me permiti ir até ele e implorar para que ele me aceitasse de volta. Eu tomei a decisão. Eu quis que as coisas fossem assim. E eu não voltaria atrás. Meu orgulho está sendo maior e eu não posso fazer nada.
Eu não vou voltar atrás. Não importa o que aconteça, essa foi a minha decisão.
TOBIAS
Saí da sala de treinamento com o coração em pedaços. Mais uma vez, Tris conseguira partir ele. Eu nem sabia que isso era possível. Quando ela pronunciou meu apelido foi como se selasse nosso rompimento. Tudo estava acabado. Eu soube naquele momento. E foi quando a dor da qual eu estava tentando me livrar a poucos dias voltou, e dessa vez muito mais forte.
Fui para uma outra sala de treinamento, afim de aliviar a dor. Por mais que eu odeie meu pai, ele me ensinara uma coisa que homens não devem fazer: chorar. Desde que me afastei dele, em muitos momentos de fraquezas eu tinha me permitido chorar. Mas agora o pensamento me veio à cabeça. Eu não vou fazer isso. Eu não vou chorar. Vou encarar tudo como um homem.
Me aproximei do punching ball e depositei ali toda minha raiva. Comecei a socar com mais força e até conseguir sentir alguma dor física. Quando senti, não foi o suficiente. Queria mais e mais. A adrenalina começou a pulsar em minhas veias. Já sentia o suor pingando do meu corpo, mas eu não me importava. Eu não me importava mais com nada.
Senti os nós dos meus dedos sangrarem. O arder da minha pele também não foi o suficiente para eu parar. Eu estava gostando de tudo que estava saindo de mim. Não pensava em Tris. Não pensava no meu pai. Não pensava em nada. Eu estava tão concentrado em encher aquela coisa de pancadas que mal notei que estava sendo observado.
Clap. Clap. Clap. Ouvi as palmas de alguém. Me virei e vi Zeke apoiado na parede da porta, com os braços cruzados, me observando.
– Não sei porquê você ainda treina. – ele falou. – Tá tão óbvio que você é ótimo. Não entendo porquê você ainda não quer trabalhar por aqui.
– Já expliquei que quero ficar longe da violência. – falei, procurando algo em que eu pudesse escorar meu corpo.
– Não é o que parece. – ele sorriu e se aproximou.
Sentei em uma cadeira de madeira que estava próxima e ele pegou algumas facas que estavam sob a mesa, e então começou a atirá-las no alvo. De dez facas, ele conseguiu acertar duas, e ainda assim, não no centro do alvo.
– Também não sei como você consegue fazer isso. – ele riu. – Eu nunca peguei o jeito.
– Percebi. – falei, dando de ombros.
Eu não quero discutir com meu amigo. Não depois de tudo que causei ao seu irmão, que também era meu amigo, e ele me perdoou. Não posso culpar Zeke por tudo que está acontecendo, mas se ele não calar a boca eu juro que vou socar sua cara. Não quero conversar com ninguém.
– É impressionante como ela consegue te deixar. – ele falou.
Sabia que ele estava falando de Tris, só não sabia como ele soube que ela era o motivo do meu estresse e da minha raiva.
– Do que você tá falando?
– Qual é, cara, todo mundo notou que vocês não estão mais juntos. – ele parou de encarar o alvo e voltou-se para mim.
– Não quero conversar sobre meu o término do meu relacionamento com Tris. — comecei. – Não quero conversar sobre isso com ninguém. Estou tão mal que, se eu começar a falar sobre isso, vou chorar igual um marica e eu não vou fazer isso na sua frente. Nem na frente de ninguém.
– Eu já imaginava. – ele disse. – Não vim aqui para conversar sobre sua namorada...
– Ex-namorada. – corrigi.
– Sim. – ele prosseguiu. – Sua ex-namorada. Também não vim aqui para falar sobre a minha namorada. As coisas com Shauna não estão indo muito bem também, se serve de consolo. Estou tão ferrado quanto você. – Ele sorriu e eu também. – Vim aqui para lutar, Quatro. Me mostre o que sabe fazer.
Eu sabia o que ele estava tentando fazer. Zeke queria que eu me distraísse com algo e era tão meu amigo que estava disposto a levar pancadas, se isso fosse aliviar minha tensão.
– Não vou bater em você. – falei.
– Eu não estou pedindo permissão, isso é uma ordem. – ele esperou uma resposta, mas eu permaneci em silêncio. – Ou melhor, isso é um desafio. Acho que você lembra como nós, da Audácia, lidamos com desafios, não lembra?
Ele sorriu ao ver que eu não tinha mais escolha. Me levantei e ele já estava posicionado no centro do campo de luta. Enxuguei minhas mãos na calça e me posicionei também. Com os punhos cerrados, coloquei eles frente ao meu rosto.
– Você vai se arrepender disso. – falei, com um sorriso nos lábios.
– Não me importo. – ele sorriu também. – Porém não acho que vou me arrepender. Estou esperando você conseguir acertar qualquer coisa em mim, mas a única coisa que você fez até agora foi falar.
Começamos a andar em círculos, um frente ao outro. Sorri, fiz uma reverência a ele e disse:
– Primeiro as damas.
Ele sorriu também e em questão de segundos me acertou. Um soco próximo ao queixo. O golpe só despertou adrenalina em mim. Ele depositou mais alguns golpes no meu corpo, mas quando me dei conta, eu já o estava atacando.
Soquei sua barriga e seu rosto e chutei sua perna, mas Zeke era bom. Talvez tanto quanto eu e logo conseguiu me derrubar. Ficou por cima de mim e eu usei meus punhos como proteção. A dor era o que eu sentia de menos. A única coisa que eu queria fazer era soca-lo até deixa-lo inconsciente. A luta fazia isso comigo. Despertava um lado violento e quase incontrolável dentro de mim.
Ele me socou inúmeras vezes e parecia estar se divertindo com tudo isso. Senti o sangue escorrer do meu nariz e tinha um corte em minha sobrancelha. Os nós dos meus dedos estavam machucados, e essa luta só piorava mais ainda a situação deles. Mas não me importava com isso.
Com um golpe, consegui ficar por cima dele e o enchi de pancada. Ele me insultava e me provocava, fazendo com que eu me envolvesse mais na luta. Mesmo comigo em cima dele, Zeke conseguia me acertar.
Imobilizei suas mãos e com minhas pernas imobilizei as suas. Olhei fixo nos olhos dele, tentando acalmar a respiração e um sorriso se formou no canto dos lábios dele, que agora estava ferido. Bastante ferido.
– Nada mal, Quatro. – ele falou.
Entendi isso como o fim da luta, então me levantei e o ajudei a se levantar também. Ele limpou a poeira dos ombros e das calças e eu fiz o mesmo. As dores da luta já estavam começando a aparecer e eu agradeci mentalmente a Zeke por isso. Fazia tempo que eu não me sentia assim.
– Trouxe o lendário Quatro de volta. Palmas, pessoal. – Ele fez som de uma multidão e não consegui deixar de rir do quanto ele estava sendo patético.
– Você é um imbecil. – falei.
– Ajudou ou não ajudou? – Ele me perguntou sério.
Eu não admitiria isso tão fácil. Zeke iria tirar proveito da situação pelo resto da minha vida e eu não daria isso a ele. Seu rosto estava bastante machucado. O canto do olho estava começando a ganhar a cor azul-esverdeado e logo aquilo ficaria roxo. Havia um corte em sua sobrancelha e o nariz estava sangrando, mas ele pegou a ponta da camisa e colocou sobre o machucado, afim de estancar o sangue. Havia também machucados nos seus braços e cotovelos. Entretanto, ele agora sorria.
Balancei a cabeça negativamente para ele, mas não consegui esconder meu sorriso. Eu tinha aliviado toda a tensão que estava sob minhas costas, e uma boa parte dela tinha sido graças a Zeke.
Caminhei até a porta e parei. Sem olhar para trás, suspirei e disse:
– Obrigado, Zeke. De verdade.
Sei que ele viu meu olhar de gratidão.
– Disponha, irmão. – ele falou.
E então eu saí da sala e fui ao apartamento. Cheguei lá e tomei um banho demorado. Quando a água e o sabonete entravam em contato com meu corpo o ardor era inevitável. Por um momento curto cheguei a lamentar pela luta. Mas depois sorri no chuveiro pensando no quanto tinha sido bom. No quanto eu tinha me distraído.
Saí do banho e vesti minhas roupas. Teria que estar no Palácio logo, já que temos notícias sobre os rebeldes. Johanna diz que eles vão atacar a qualquer momento, mas quanto mais o tempo passa, mais calmo tudo fica. E acho que é aí que está todo o problema.
Cheguei ao Palácio e fui até a sala de Johanna. Iríamos discutir sobre o que fazer a respeito. Entrei na sala e ela estava sentada em sua cadeira. Fez um gesto e eu me sentei frente a ela. Ela apoio os cotovelos na mesa e me encarou.
– Não sei mais o que fazer. – ela falou.
– Deveríamos dar o primeiro passo. Temos força o suficiente agora e você sabe disso. Deveríamos investir nas investigações sobre onde ele estão reunidos e atacar logo em seguida. Podemos acabar com isso em questão de horas, Johanna. – falei.
– A questão é que eles não estão reunidos em apenas um lugar. São muitos e estão por toda parte. – ela retrucou.
– Agora sim temos um problema.
– Eles têm nos deixado mensagens por toda parte. Nos muros do Palácio, em patrimônios públicos, nas praças... Vão atacar em breve e eu estou com medo de que não estejamos prontos. Como está o treinamento?
– Ótimo. Temos soldados qualificados e posso garantir a você que temos uma boa chance de vencermos a guerra. Amah está reforçando o treinamento em duas cidades, e George nos dá apoio aqui e se encarrega de treinar a outra.
– Acha que conseguiremos?
– Não tenho dúvida. – sorri.
Aquilo pareceu aliviar pouca parte da tensão que ela tinha e ela sorriu para mim com gratidão. Com todas as preocupações, notei que ela estava cheia de rugas e a cicatriz se destacava. Seus olhos estavam cansados. Entretanto, ela ainda mantinha de pé sua postura forte.
– Nunca achei que seria tão difícil. – ela falou, se referindo a liderança.
– Você é uma ótima líder, se serve de consolo. – falei, segurando sua mão.
Johanna sorriu para mim e apertou, em um gesto materno. Era assim que eu a enxergava. Com o passar do tempo, nossa aproximação ficou forte e eu nutri sentimentos por ela. Nutri carinho. Ela me passava segurança e paz, e apesar de suas decisões e erros, eu gostava dela. E a respeitava.
Ela notou os machucados nos meus dedos e olhou para mim preocupada.
– Eu pretendia não comentar sobre isso quando você entrou e eu olhei seu rosto, mas isso aqui está muito machucado. O que você andou fazendo?
– Treinamento. Nada com o qual você deva se preocupar. Sua cabeça está cheia de coisas e você não precisa fazer isso. – sorri para ela. – Não se preocupe comigo. Eu sei me cuidar.
– Se o treinamento está tão duro assim eu sugiro que pare. Você está se desgastando e eu não quero isso.
– Eu já falei que não precisa se preocupar, Johanna.
Ela suspirou e deu de ombros. Embora gostasse muito dela, era desnecessário essa preocupação e um pouco irritante.
– Está dispensado. Por hoje, digo. Descanse e se divirta. Você tem estado muito ocupado com tudo isso e não quero interferir na sua juventude. Há um bar próximo daqui e Zeke pediu para avisa-lo para que você fosse hoje. E ele foi bem claro sobre o fato de que você deve ir. – ela enfatizou a palavra “deve”.
– Tudo bem. – sorri e me levantei. – Você deveria fazer o mesmo. Digo, sair e se divertir um pouco. É bom, às vezes.
Ela sorriu e negou com a cabeça. Eu sugeri sabendo que ela não aceitaria. Johanna leva muito a sério a liderança e eu admiro isso nela. O fato de ser uma mulher em um cargo tão importante a deixa mais determinada ainda.
Saí do Palácio e já tinha escurecido. Voltei ao apartamento para pegar uma jaqueta, ventava muito e o frio queimava meus machucados. Lavei as mãos e passei um remédio nos nós dos meus dedos. Limpei com alguns produtos da maleta de primeiros socorros e esperei secar.
Evelyn dormia no sofá. Ela tinha limpado toda bagunça que eu havia feito no apartamento no dia em que Tris foi embora e tinha me dado colo naquela noite. No dia seguinte, eu discuti com ela e desde então nós nos falávamos poucas vezes.
Me aproximei dela e beijei sua testa. Eu tinha sido ingrato quando ela só tentava me ajudar. E hoje eu me sentia leve. Me senti culpado por tê-la tratado mal. Acariciei seus cabelos e ela suspirou calmamente, não interrompendo o sono.
Saí de casa e andei até o bar. Era o único que havia ali próximo então não tinha como errar o caminho. Cheguei lá e Zeke se aproximou com duas garrafas de cerveja nas mãos. Passou o braço por cima do meu ombro e eu senti o cheiro do álcool. Ele já estava bêbado.
– Finalmente você chegou! – ele falou soltando o hálito no meu rosto. – Aproveite a noite dos caras!
Ele me entregou uma garrafa e eu tomei o primeiro gole. O gosto amargo dela gelado desceu pela minha garganta. Zeke me ensinou a gostar de cerveja. A primeira vez que ele me fez tomar eu quase o matei pelo gosto horrível. Com o passar do tempo, eu me acostumei com o gosto e sempre saíamos para beber. Eu estava feliz de estar aqui com ele e muito grato por tudo que ele estava fazendo para me distrair.
Ele me acompanhou até a mesa e George e Amah também estavam lá, sentados e bebendo. Conversamos, bebemos e nos divertimos. Fomos ao fundo do bar e jogamos sinuca. Zeke e eu ganhamos e como brinde eles pagariam mais bebida para nós. A essa altura da noite eu não havia bebido apenas cervejas, mas de tudo. Não estava completamente bêbado. Teriam que me embebedar a madrugada toda para conseguirem que eu não ficasse sóbrio. Eu estava consciente de tudo que estava acontecendo a nossa volta e ria do fato deles estarem tão bêbados a ponto de cambalearem enquanto caminhavam.
Foi só quando eu estava voltando para a mesa que eu a notei.
Ela estava lá, em uma mesa um pouco distante da nossa, com Christina, Uriah, Cara, Peter e Matthew. Estavam rindo de alguma coisa e o braço de Matthew estava por cima do ombro de Tris, os deixando muito próximos.
Meu sangue ferveu e meus instintos, tanto o protetor como o violento, despertaram. Fiquei ainda mais sóbrio e acompanhava cada movimento deles. Comecei a caminhar em direção a mesa deles, mas senti o puxão de Zeke pela gola da minha camisa.
– Não estrague as coisas, Quatro. – ele me olhou sério.
Apesar de estar muito bêbado, eu vi o quanto ele estava sendo sincero. Respirei fundo e sentei em nossa mesa. As horas passavam e eu não conseguia tirar a atenção da mesa de Tris. Tentava me concentrar nas bebidas da nossa mesa e no que Zeke, Amah e George conversavam e riam, mas eu não conseguia. Não consegui tirar os olhos da mesa deles nem por um segundo.
Christina estava no colo de Uriah e raramente eles não estavam envoltos em um beijo. Cara e Peter tinham saído para algum lugar juntos e Tris ria de alguma coisa que Matthew contava para ela. Respirei fundo e mais uma vez tentei manter a calma.
Bebi mais um pouco, tentando ficar muito bêbado para conseguir ignorar tudo. Mas não. Quanto mais eu bebia mais eu ficava sóbrio. Não faz o menor sentido isso e eu já estava sentindo a raiva no meu sangue.
Foi então que ele a colocou em seu colo e começou a beijar o pescoço dela.
E eu senti. Senti o que ela sentiu quando me viu com Nita. Mas ao contrário dela, eu não gostei daquilo. E ela parecia gostar do que Matthew fazia. Ela inclinava a cabeça para trás enquanto ele ainda beijava seu pescoço.
Não consegui mais manter a calma. Ela estava sendo estúpida e eu me lembro de ter dito para ela não ser. Empurrei a cadeira que eu estava sentado e quase voei na direção deles.
Ninguém iria me impedir.
Não importa o que Tris fizesse, não importa se ela tinha acabado nosso relacionamento. Não importa se ela nunca mais queira me ver. Não importa se eu estava chateado com ela.
Nesse momento, nada mais importa.
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