Um novo começo.
26 Estou sendo seguida.
Notas iniciais
TRIS
Largo o envelope na cama e o observo. As palavras que eu não tive a chance de ouvir de Tobias podem estar todas ali. Pode ser algo bom, entretanto há chance de ser algo ruim. Aproximo minha mão e hesito. Estou lutando contra mim mesma. Olho o relógio e vejo que se eu não sair agora não chegarei a tempo à reunião. Não me importo. Preciso saber o que há dentro do envelope. Pego-o e abro cuidadosamente, evitando rasgar qualquer parte do papel amarelado. Retiro a carta que tem dentro e ponho o envelope de volta na cama. Ainda sentada, eu desdobro o papel e começo a ler.
Querida Tris,
Minhas mãos tremem enquanto escrevo para você. Há pouco tempo Johanna me deu a notícia de que você corre perigo. Não sei quanto disso é verdade, mas eu não posso arriscar. Não posso arriscar perder você mais uma vez. Lembro do dia que prometi a você que não deixaria que nada acontecesse a você. Estou cumprindo minha promessa. Estou prestes a cometer meu maior erro. Proteger você não é um erro, que fique claro. Jamais será um erro. O erro que cometerei é da forma que farei isso. Vou cometer a maior mentira já dita por mim. Vou manda-la embora da minha vida e você o fará. Vou dizer que não a amo mais e você acreditará. Farei você me odiar e também me odiarei por isso, mas estou tão confuso com tudo que está acontecendo que não consigo pensar em outra forma de deixa-la segura. Espero que um dia você possa me perdoar por tudo o que eu farei você acreditar.
Palavras são passageiras, nós dois sabemos disso. Entretanto, se não for pedir muito, quero que guarde todas as que direi aqui. Estou correndo o risco de você não acreditar em nada que for escrito, mas eu não me importo. Não me importo porque acredito que você só encontrará essa carta quando a guerra acabar e tudo já estiver seguro. Seguro para você, óbvio. Atacaremos dentro de uma semana ou até antes disso, e não minto ao dizer que minha vida está em risco. Posso morrer, Tris, mas eu não me importo. Você estará segura e isso é a única coisa que importa para mim. Quero morrer, porque se eu sobreviver, temo que você não me aceite de volta. Não suportaria conviver com seu desprezo novamente. Quando você terminar de ler essa carta eu espero estar morto, pois há o risco de você não acreditar em nada que estou escrevendo. Estou sendo sincero, mas agora que te perdi –eu sei que a perdi- não vejo problema em morrer. Estou torcendo para que tudo aconteça dessa forma.
Quero que saiba que nunca parei de pensar em nós dois, um segundo sequer. Sei o que você pensa, Tris. Sei que você pensa que em algum momento eu me envolvi com Nita. Eu admiti isso para você, mas não era verdade. A verdade, Tris, é que eu jamais faria algo assim. Não importa o que você fizesse. Não importa se viéssemos a nos separar em algum momento, eu jamais faria isso. Nunca a substituiria desse jeito. Qualquer um que tomasse seu lugar seria um substituto fraco. Nada se iguala a você ou ao que sinto por você. Eu te amo tanto que tenho medo desse sentimento. É algo novo, que só pude descobrir no momento em que conheci você; que convivi com você; que me apaixonei por você.
Sabe quando eu descobri o que era dor? Dor não é o que eu senti no treinamento da Audácia. Dor não é o que eu senti ao levar um tiro. Dor não é o que eu senti quando minha mãe me abandonou. Dor não é nem sequer o que Marcus me fazia sentir através das cinturadas que ele me dava. Eu soube o que era dor quando você quase morreu na enfermaria do departamento. Dor foi quando você foi embora naquela noite do nosso apartamento. Dor foi quando você disse que me odiava. Eu soube o que era dor em todos os momentos que você abriu mão de mim. Abriu mão de nós. E tudo doeu mais quando tive a certeza de que eu não podia fazer nada. A dor era aquilo que doía meu todo coração e que eu teria que conviver e morrer com ela.
Não sei o que acontecerá comigo agora. Apesar de estarmos preparados, é como se eu sentisse que não vou sobreviver, Tris. E não quero morrer lamentando por nunca ter dito nada que você pudesse levar para sua vida. Eu tenho fé de que você está segura e de que sobreviverá a isso, então eu quero te dizer. Quero te dizer que eu sabia que era você. Eu soube que era você quando segurei sua mão e encarei seus olhos verdes na primeira vez que nos encontramos. Eu não sabia naquele momento, mas eu senti que algo aconteceu comigo e que eu jamais deveria abrir mão de você.
Todos nós merecemos nos sentir vivos e eu agradeço a você por ter me dado isso. Você não me fez sentir vivo novamente. Você me fez sentir vivo pela primeira vez. Sei o que está esperando por mim agora e por isso quero te dizer tudo. Se você ainda me ama, Tris – eu sei que ainda me ama – você tem que me prometer que estará preparada. Que será corajosa. Ainda que eu morra vou me lembrar de você. Vou te amar sempre.
Enquanto eu escrevo não consigo parar de pensar nas nossas vidas se tudo estivesse acabado quando você conseguiu vencer. Quando você disparou o soro da memória e fez com que tudo se resolvesse. Cheguei a nos imaginar vivendo uma vida a dois. Cheguei a imaginar você de branco, com véu e grinalda – apesar de saber que não casaríamos desse jeito. Cheguei até a te imaginar com nossa criança dentro de você. Te juro, Tris, que eu seria o cara mais sortudo se isso realmente acontecesse.
Eu sou sortudo. Não gosto de admitir, mas eu sou. Sou sortudo porque tive a chance de conhecer a Tris. Não aquela que vivia saltitando pelas ruas vazias da Abnegação. Não a Tris que era um borrão cinza. Eu tive a chance de conhecer a verdadeira Tris. A Tris que é corajosa. A Tris que deu a vida por seu irmão, quando ele ainda assim o traiu – eu ainda não o perdoei por isso. A Tris que se arriscou por seus amigos. A Tris que nunca parou de lutar por aquilo que acreditava ser certo. A verdadeira Tris. E sou mais sortudo porque pude me apaixonar perdidamente por ela.
Hoje à noite, Tris, será a mais difícil para mim. Nós jantaremos e ficará tarde para você voltar, então você passará a noite comigo. Eu sei que acontecerá assim. Está tudo planejado. Eu perguntarei a você se será nossa última noite juntos, mas essa pergunta é mais uma afirmação. Quero ter uma lembrança boa nossa e ela acontecerá hoje. Nossa última noite juntos e não poderei falhar. Não sei o que acontecerá, mas sinto que nós nos sairemos bem. Você ainda me ama e hoje à noite nós nos amaremos ainda mais. Será nossa última noite.
Me perdoe por ter dito tudo isso desse jeito. Eu não queria que acontecesse dessa forma, mas eu não tive escolha. Espero que você acredite em algo do que falei aqui e que nunca me esqueça. Você é parte de mim. Mesmo que o tempo se vá, ou a morte torne-se minha amiga, para sempre será uma parte de mim. A melhor parte de mim.
Direi uma última vez: seja corajosa.
PS.: Se algo acontecer comigo – eu sei que irá – não se sinta culpada por não ter dito que me amava uma última vez. Não precisava dizer. Eu sempre soube disso.
Com amor, sempre,
Tobias.
Minhas mãos tremem quando eu acabo de ler toda a carta. Estou chorando e meu coração dói. Ele está dizendo a verdade e eu sei disso. Soluço várias vezes e aperto a carta próximo ao meu coração. Sinto suas batidas aceleradas. Não consigo parar de chorar. Não consigo acreditar como pude ser tão estúpida e acreditar em tudo que ele disse tão fácil. Eu sabia que ele me amava e fui estúpida ao acreditar nas mentiras que ele falou. Era de se esperar que ele faria algo assim para me proteger. Eu faria o mesmo por ele.
Pego o envelope e o abro. Quando vou colocar a carta dentro dele, noto que há algo prateado dentro. O pego e é um anel. Um idêntico ao que Tobias usava desde a última vez que eu o vi. O que pode diferenciar é que nesse há o número quatro gravado em romano. Ele é delicado e lindo. Há um bilhete colado ao anel. Tiro com cuidado e leio.
Assim como meu coração, ele sempre foi seu.
Sinto que as lágrimas ainda não pararam de descer. Ponho o anel em meu dedo anular esquerdo e o admiro. Estou encantada. Serviu perfeitamente. Guardo a carta no envelope e o ponho de volta no bolso interior da jaqueta. A deixo em cima da cama e saio correndo do apartamento.
Pego um trem e ele me leva até a margem. Durante todo caminho eu não consigo pensar em nada além das palavras de Tobias. Eu o amo tanto e não suportaria se algo acontecesse a ele. Se tiver que acontecer, acontecerá a nós dois. Se ele morrer, eu morro também. É assim que as coisas devem ser e eu espero não chegar tarde demais.
Já consegui controlar meu choro. Sorrio ao lembrar de tudo que eu li. Sorrio ao saber que Tobias pensou em mim. Que ele me imaginou grávida de nossas crianças. Sorrio, porque se conseguirmos sobreviver, eu serei a pessoa mais feliz do mundo.
De repente, sinto algumas dores na barriga e nas costas. Me seguro ao apoio do trem e respiro devagar. A dor passa tão rápido quanto veio. Quando chego à margem, desço do trem e ele retorna a Chicago antiga, fazendo sempre esse percurso. Me sinto cansada, mas continuo caminhando. O caminho até o apartamento de Tobias é longo e não tenho tempo para fazer pausas. Se algo o acontecer...
Paro. Sinto como se eu estivesse sendo seguida. Olho ao redor, mas não há ninguém. Lembro-me de que os rebeldes costumam viver por aqui e esse pensamento me dá medo. Ignoro essa sensação e continuo seguindo. Paro mais uma vez porque sei que estou sendo seguida. Olho para trás, para os lados e para frente. Não há ninguém. Começo a andar mais rápido. Estou quase correndo.
De repente, sinto uma pancada na parte de trás da minha cabeça e tudo escurece.
TOBIAS
– Pai?! – pergunto surpreso.
– Exatamente. – ele sorri e seus olhos brilham. – Foi um descuido, não nego, mas não posso dizer que não estou feliz. Eu estou feliz demais, cara. Sério. Já consigo me imaginar educando e brincando com meu filho...
– Espera. – interrompi. – Você já sabe o sexo da criança?
– Não. – ele riu. – Mas tenho certeza de que será um menino. Meu garoto. Shauna diz que não se importa com o sexo da criança, mas eu sei que ela quer uma menina. – ele não consegue parar de sorrir. – Acho que eu não me importo também, mas seria legal se meu primeiro filho fosse um menino.
– Fico feliz por você. – falei sincero.
Dei um abraço forte nele e alguns tapas nas costas. Quando paramos de nos abraçar, ele se encostou novamente no carro e cruzou os braços. Me encarou e disse:
– Sinto muito por vocês dois. Eu queria que vocês tivessem tido a oportunidade que Shauna e eu estamos tendo agora. Apesar das dificuldades, essa criança facilitará muito. Ela apareceu no momento certo, porque se Shauna não descobrisse que estava grávida, com certeza nós dois estaríamos na mesma situação. Acho que nossas brigas eram por causa da gravidez que estava começando a afetar seus hormônios. – ele brinca e eu rio.
De repente, olho para Christina, que está correndo ofegante, junto com Caleb e Cara. Ela se aproxima rápido de nós e fala:
– Eles a pegaram, Tobias... – ela tenta recuperar o fôlego. Sua voz sai cortada devido a sua respiração que está alterada. – Eles a pegaram. – ela repete.
Junto as sobrancelhas e olho para ela confuso. Seguro seus braços e a abraço. Ela está histérica. Seus olhos estão marejados e sinto que estão molhando minha camisa.
– Chris, se acalma. – peço gentilmente. – Não consigo entender nada do que você diz. Quem pegou quem?
Ela se afasta de mim e seca algumas lágrimas. Está nervosa e sua expressão é assustada e horrorizada. Seja o que for, é algo sério.
– Tris. – meu coração gela. – Os rebeldes. – ela pausa e recupera o fôlego. — Eles pegaram Tris.
Sinto meus joelhos perderem a força e meus pés não conseguem me manter o equilíbrio. Me apoio em um carro e sinto algo estranho dentro de mim. Não é possível. Tris está segura. Eu a mandei embora porque sabia que depois do que eu a disse ela não voltaria e estaria segura. A menos que...
A menos que ela tenha achado a carta, penso.
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