Um novo começo.
16 Bem-vinda de volta.
Notas iniciais
TOBIAS
Tris andava de um lado para o outro no quarto. Com aquele ataque de nervosismo ela estava conseguindo me deixar nervoso também. Ela não parava de gritar desde o segundo que eu falei sobre Nita. Já havia me xingado das piores formas possíveis e eu estava a ponto de perder a cabeça.
Não fui eu quem pediu para Nita ser minha secretária. Houve reuniões do Conselho para decidir isso, e de todas as candidatas, Jeanine declarou que Nita era a mais competente. Eu tentei convencê-la de quem seria uma péssima ideia, mas estava de acordo com meu acordo e não tive como recusar.
– CHEGA! – gritei. – Será que dá para você ser um pouco profissional?
– Profissional? – ela perguntou irônica. – Como posso ser profissional com Nita sendo SUA secretária?!
– Eu não pedi isso, Tris! – me aproximei dela. Gritávamos tanto que já estava me irritando com aquilo.
– Isso é inaceitável, Tobias! Não posso simplesmente cruzar os braços e aceitar isso. Ela provou quem é e VOCÊ viu! O que eu vou pensar enquanto vocês estiverem trabalhando?! ME RESPONDE! – ela passava as mãos na testa e puxava seu cabelo para trás. – O QUE É QUE VOU PENSAR?
– TENHA MATURIDADE, TRIS! TALVEZ SE VOCÊ NÃO TIVESSE FALTADO AS PRIMEIRAS REUNIÕES DO CONSELHO, VOCÊ PODERIA OPINAR, MAS NÃO. VOCÊ NÃO CONSEGUE TER O MÍNIMO DE RESPONSABILIDADE. VOCÊ ESTÁ CEGA DE CIÚMES, ACEITE ISSO. CHEGA! – cuspi as palavras.
Tris me olhou assustada. Senti uma pontada de arrependimento, pois eu nunca havia falado com ela nesse tom de voz, muito menos desse jeito. Ela respirou fundo, olhou para mim e virou as costas. Fiquei imóvel e ela se dirigiu a porta.
– Aonde você vai? – perguntei.
– Não me espere para jantar. – foi a única coisa que ela disse.
E saiu do apartamento. Sentei na cama e passei as mãos no cabelo. Talvez, ter chamado Tris de irresponsável e imatura tenha sido exagerado. Olhei no relógio e eu tinha de estar no Palácio do Governo dentro de quinze minutos.
Fechei o apartamento e saí.
Cheguei à recepção e Johanna já estava a minha espera. Ela estava sentada no sofá, e quando me viu se levantou e me cumprimentou.
– Olá, Tobias! Por aqui. – ela caminhou e eu a acompanhei.
Entramos no elevador e o conduziu. Chegamos ao andar certo e nos dirigimos para uma sala. Ela abriu a porta e me convidou para entrar em sua frente. Fechou a porta atrás de si e se pôs ao meu lado.
– Bem-vindo a sua sala. – ela sorriu orgulhosa.
A sala era moderna. Havia uma mesa de vidro, duas cadeiras de visitas e a cadeira central. Posto à mesa havia um bloco de notas, canetas e um notebook. Cortinas e alguns objetos de decoração deixavam a sala mais sofisticada.
A sala parecia uma sala da Erudição.
– Obrigado. – falei sério.
Ainda estava chateado pela discussão com Tris. Johanna pareceu notar meu humor e pareceu confusa, contanto não fez nenhuma pergunta.
– Sinta-se a vontade. Ainda estamos organizando o novo departamento, então nós só começaremos próxima semana, está bem?
Assenti. Ela sorriu para mim e fechou a porta.
Me dirigi a cadeira central e sentei nela. Apoiei meus braços na mesa e pensei em Tris. Eu agi com grosseria e fui imbecil. Onde ela estaria agora?
De repente, a porta se abriu e Nita entrou.
Ela era bonita, mas hoje ela estava esplêndida. Usava uma saia preta que desenhava suas curvas, uma blusa social azul – que tinha botões desabotoados, ressaltando seus seios. Vestia também um blazer, da mesma tonalidade de sua saia. Ela usava maquiagem leve, de forma que não a deixou vulgar. E também usava saltos.
Esplêndida. Droga.
Ela sorriu para mim e eu desviei o olhar para a janela.
Ela se aproximou da mesa e me entregou alguns papéis.
– Aqui estão alguns documentos que você precisa assinar. Eu posso revisá-los para você, se não estiver interessado em ler...
– Nita, você sabe que não trabalhamos hoje, não sabe? – interrompi.
– Não, Tobias. Você não trabalha hoje. – ela enfatizou a palavra “você” e sorriu.
Ficamos em silêncio e eu suspirei. Ela ainda continuava em pé em frente a minha mesa.
– Você quer algo para beber? – ela me perguntou, dessa vez olhando para baixo e esfregando de leve as mãos na saia.
– Não, obrigado. Já estou de saída. – falei me levantando. – Nita, antes de começarmos a trabalhar, eu preciso esclarecer alguns pontos para você.
– Sim. – ela assentiu.
– Ponto número um: sejamos profissionais. Não teremos nenhuma relação que não esteja envolvida no trabalho. Também quero deixar claro que eu não escolhi você como secretária. Não fui sequer a favor disso e você sabe o porquê. Johanna a acha a mais competente, então se houver algum deslize eu mesmo a comunicarei e você perderá de fato seu emprego. Sem provocações e muito menos conversas relacionadas à Tris. – pausei. – Fui claro?
– Sim, senhor. – ela baixou a cabeça.
– Ótimo. – me dirigi à porta. — Boa tarde.
Não olhei para trás. Não suportava mais encará-la sem lembrar o que ela pretendia fazer a Tris. Sem lembrar o quanto fui covarde por quase matar uma mulher. Talvez eu devesse me desculpar com ela.
Talvez. Algum dia.
Enquanto isso, poderei pensar na minha mais nova ocupação e chegar a conclusão de que trabalhar com Nita seria um fardo.
Caminhei em direção ao Departamento da Polícia. Da cerca dava para ver que George estava treinando alguns homens. Quando ele me viu, se aproximou e me cumprimentou com um aperto de mão.
– Mudou de ideia, Quatro? – ele me perguntou.
– Não. – eu sorri.
– Então por que está aqui?
– Eu não sei.
Ele soltou uma risada e me convidou para entrar.
– Zeke se alistou. – ele falou enquanto caminhávamos. – Ele pareceu gostar daqui.
– Ele nasceu para isso. Será um ótimo policial. – falei, dando de ombros.
– Você também. – ele falou. – Se quiser mudar de ideia, minha proposta ainda está de pé.
– Acredite, eu não vou. – Falei e nós rimos. – Onde está Amah?
– No antigo departamento. Uriah ainda não fora transferido. Zeke está lá com eles também.
Uriah. Eu ainda estava o ignorando. Não conseguia encará-lo sem sentir tudo o que eu estou fazendo-o passar. Era uma consequência do quanto eu fui imbecil e me deixei influenciar por Nita.
Nita. Droga, eu estava pensando nela agora. No quanto arranjaria problemas com Tris enquanto estivéssemos trabalhando juntos.
Tris. Por Deus, onde estaria essa garota agora?
Olhei o meu relógio e minha mãe chegaria de viagem dentro de vinte minutos. Ela estaria me esperando na Margem para que eu a acompanhasse até o apartamento.
Me despedi de George, passei no estacionamento e peguei o carro. Saí em direção a Margem. Quando cheguei, minha mãe já estava lá com algumas malas. Estacionei o carro e saí dele.
– Evelyn. – cumprimentei.
– Filho. – ela sorriu para mim e me envolveu num abraço. Depositou um beijo na minha bochecha e eu sorri para ela.
Ela se soltou de mim e eu carreguei sua bagagem e pus no porta-malas do carro. Abri a porta para ela e ela se sentou no banco da carona. Dei a volta, entrei e pus a mão no volante. Depois olhei para ela. Ela observava atentamente o nada.
– Como será viver sem as facções? – ela voltou-se para mim.
– Normal, você vai adorar. – sorri para ela.
Voltei a atenção ao volante e fomos em silêncio até meu apartamento.
– Meu vizinho é um especialista em história, ele veio da fronteira. – digo, enquanto procuro as chaves em meus bolsos. – Ele chama Chicago de “a quarta cidade” porque foi destruída por incêndio há séculos, depois novamente pela Guerra da Pureza, e agora estamos na quarta tentativa de nos estabelecer aqui.
– A quarta cidade – Evelyn repete enquanto abro a porta. – Eu gosto disso.
Ela pôs a bolsa em cima do sofá e analisou o local.
– Obrigada por me deixar ficar com você por um tempo. Prometo que vou encontrar outro lugar em breve.
– Sem problemas. – digo.
Me sinto nervoso por ela estar aqui, mexendo nos pertences, passando pelos corredores, mas não podemos ficar distantes para sempre. Não quando eu prometi a ela que gostaria de tentar preencher essa lacuna entre nós.
– Por que não entrou para polícia? – ela me perguntou, sentando no sofá.
– Estou farto de armas. – dei de ombros.
– Certo. Você está usando suas palavras agora. – Evelyn diz, franzindo o nariz. – Eu não confio em políticos, você sabe.
– Você vai confiar em mim porque sou seu filho. De qualquer forma, não sou um político. Ainda não, eu acho. Apenas um assistente.
Ela permanece inquieta, e de repente sinto ela ficar tensa.
– Onde está seu pai? – ela perguntou, deixando claro o motivo da sua tensão.
– Não sei. Ouvi dizer que ele foi embora, mas não quis perguntar. De certa forma, isso não me importa.
Ela olhou para mim e não insistiu mais no assunto. Pegou sua bolsa e retirou um objeto de vidro azul. Parece água caindo, suspensa no tempo.
Lembro de quando ela me deu. Eu era jovem, mas não muito para perceber que era um objeto proibido na facção da Abnegação, algo inútil e, portanto, autoindulgente. Eu perguntei-lhe para que servia, e ela me disse, para nada obviamente. Mas poderia ser capaz de fazer algo aqui. Então ela colocou a mão no seu coração. Coisas bonitas às vezes fazem.
Durante anos fora um símbolo da minha rebeldia tranquila, minha pequena recusa em ser uma criança obediente e atenciosa da Abnegação, um símbolo do desafio da minha mãe também, mesmo que eu acreditasse que ela estava morta. Escondi debaixo da minha cama, e no dia que decidi deixar a Abnegação, coloquei-o na mesa para que meu pai pudesse vê-lo, ver a minha força, e a dela.
– Quando você se foi, isso me fez lembrar de você. – ela diz, segurando o vidro perto de si, com um sorriso fraco nos lábios. – Lembrou-me do quão corajoso você era, sempre foi. – ela põe o objeto próximo a uma pequena mesa ao lado do sofá. – Pensei que você poderia mantê-lo aqui. Eu pretendia dá-lo para você, depois de tudo.
Talvez se eu falasse algo minha voz não permanecesse estável, então apenas sorri e acenei com a cabeça. Uma lágrima escorreu do seu olho e ela sorriu para mim. Enxugou as mãos e se levantou.
– Vou preparar o jantar. – ela se dirigiu a cozinha.
Eu fui para o quarto de hóspedes e coloquei todas as suas malas lá. Analisei o quarto para ver se o mesmo permanecia intacto e se estava bom para recebê-la. Sorri orgulhoso e saí para tomar um banho.
Desço e vou para cozinha. Evelyn retira algo do forno que preparou e põe sobre a mesa, onde há pratos para três. Ela sorri a me ver chegar e indica uma cadeira para que eu sente.
– Onde está Tris? – ela me pergunta, servindo-se da janta.
– Ela não jantará conosco hoje. – falei e senti uma pontada no peito.
Parei de comer e fiquei observando o prato em silêncio. Será que Tris voltaria para casa hoje? Será que ela me deixaria dormir sozinho na primeira noite no nosso apartamento? Ao pensar nisso, fiquei triste.
Evelyn pareceu notar.
– Filho, é por minha causa? – ela perguntou, com uma expressão triste.
– Não. – respondi. – Eu acho. Ela não ficou chateada com a ideia de ter você aqui por um tempo. Se ficou, não demonstrou. Nós brigamos por outro motivo.
Evelyn assentiu, dando por encerrada nossa conversa. Terminei de jantar, ajudei a limpar a cozinha e ela desejou boa noite, indo dormir.
Olhei no relógio e já eram onze da noite. Resolvi sentar no sofá e esperar Tris.
TRIS
Caminhei em direção ao apartamento de Tobias. Minha raiva por ele havia diminuído, então resolvi voltar. Quando discutimos, eu me senti triste e furiosa pela forma como Tobias lidou com a situação.
Como ele pôde aceitar Nita como sua secretária, e depois disso, vir me chamar de irresponsável e imatura?
Em partes, ele estava certo. Eu realmente estava agindo por conta do ciúme. Quando conversei com Caleb, ele me aconselhou e me fez ver que Tobias não possuía culpa alguma, e me senti culpada por ter discutido com ele. Passei o dia com meu irmão, conversando, enquanto ele me falava dos seus projetos e do quanto estava animado para trabalhar como Cientista.
Eu não vi Christina, e deduzi que ela tivesse permanecido com Uriah.
Por fim, cheguei ao prédio e esperei o elevador. Cheguei ao andar, abri a porta do apartamento e entrei.
Encontrei Tobias deitado no sofá, dormindo. Fiquei observando-o encostada a parede, com os braços cruzados. Ele estava calmo. Sua respiração constante. Seus olhos fechados. Absurdamente lindo.
Me aproximei dele, me ajoelhei e depositei um beijo em sua bochecha. Ao sentir o toque, ele se levantou assustado.
– Desculpe, não quis acordar você. – falei, reprimindo o riso da sua reação.
– Tris... – ele me abraçou. – Não suma mais assim. Você me deixou preocupado.
– Desculpe. – falei, afundando a cabeça em seu ombro. – Eu precisava ficar sozinha.
Ele segurou meu queixo e me analisou. Ele tinha uma expressão séria.
– Eu estive pensando... – ele pausou. Suspirou e continuou. — Vou abandonar o emprego. Não posso arriscar perder você.
Analisei a possibilidade. Não. Eu não podia tirar isso de Tobias.
– Não. – falei, pondo as mãos em seu rosto. – Você não pode fazer isso.
– E como fica Nita? – ele franziu a testa.
– Eu... – procurei as palavras. – Eu também estive pensando, e bem... Acho que consigo lidar com isso. – sorri, encolhendo os ombros.
Ele pegou a minha mão e me dirigiu ao quarto. Fechou a porta e me beijou. Correspondi o beijo na medida do possível. Ele me conduziu até a cama, ainda me beijando. O beijo que começou calmo, agora estava feroz e repleto de desejo. Ele se deitou por cima de mim, não deixando que o seu peso me incomodasse.
Tirou sua camisa e respirei fundo. Tobias era extremamente lindo. Os ombros largos, os braços fortes com todos os músculos definidos. Sua barriga dura e definida. Uma calafrio se formou em minha barriga e eu senti que já estava excitada.
Encaixei minhas pernas na cintura de Tobias e o puxei para perto de mim. Ele começou a beijar meu pescoço, fazendo com que eu me arrepiasse. Impaciente, ele tirou minha blusa e a jogou em algum lugar do quarto. Começamos a nos beijar novamente, e quando notei já estávamos completamente despidos.
– Eu te amo. – ele sussurrou ao pé do meu ouvido.
De repente, ele já estava dentro de mim. Os suspiros, os gemidos, a respiração acelerada. Essas sensações já estavam sendo constantes e eu gostava disso. Gostava da forma como Tobias me amava. Gostava da forma como ele me fazia mulher.
Afundei minhas unhas em suas costas e ele gemeu. Não sei se foi por dor ou prazer. Ele continuou penetrando em mim e eu me contorcia de prazer. Estava tão perto do orgasmo que mal conseguia raciocinar. Desci minhas mãos pelo corpo de Tobias e o pressionei contra mim, para que ele fosse mais fundo.
Ele penetrou mais fundo. Eu nem sabia se era possível. Gemi de prazer e senti que havia chegado ao orgasmo. Segundos depois, Tobias também. Ele entrou dentro de mim uma última vez e em seguida deitou ao meu lado.
Tentamos controlar a respiração enquanto observávamos o teto.
– Se toda vez que brigarmos acabar em sexo, será um prazer discutir com você. – ele falou, se virando para mim com um sorriso nos lábios.
Deitei por cima dele e o beijei. Senti um sorriso se formar em ambos e permiti que ficássemos assim.
Adormeci assim, sendo envolvida pelos braços do homem que amo.
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