Um menino no espaço - 2ª parte
1 De volta ao lar
Notas iniciais
Este link o direcionará para a primeira estória
Assim pouco mais das onze horas da noite, quando, com a bolsa de materiais e trajando uniforme escolar (short curto azul marinho e camisa branca, com emblema GEMT, bordado em azul no único bolso), adentrei a varanda de minha casa, que até parecia morta, sem nenhuma luz acesa. Com certeza, todos dormiam. Bati na porta e segundos depois, ela se abriu, onde pensando ser um bonito sonho, mamãe me abraçou chorando:
— Meu filhinho! Não é possível! Você aqui!
Era possível sim. Fazia quase um ano em que me encontrava ausente, sem que eles tivessem quaisquer notícias. Agora ali, com o coração até descompassado, eu também chorava de alegria.
Ouvindo o barulho, papai também se levantou e como mamãe, me abraçou emocionado.
— Filho, onde você estava? Nós ficamos quase loucos, procurando por você em todos os lugares deste mundo!
Seria muito difícil explicar a eles o que se passara. Eu retornava de uma longa viagem (longa mesmo).
— Regis, faz um ano que você sumiu de casa! — Alegou mamãe. — Um ano sem dar notícias, filho! O que houve com você? Você fugiu de casa?
— A senhora não acreditará em mim!
— Foi por causa de eu ter lhe castigado naquele dia! Não foi? Onde você se escondeu por todo esse tempo?
— Eu não fugi de casa, mamãe! Acredite em mim!
— Claro que acreditaremos em você, filho! —Exclamou papai. — Onde você esteve todo esse tempo?
— Estive muito longe daqui!
— Longe, onde? —Perguntou-me papai.
— Estive em outro planeta, que está a oitenta e sete anos-luz daqui.
— Outro planeta! — Admirou-se papai. — Como assim?
— Não importa filho! — Alegou mamãe, talvez não acreditando muito. — O importante é que você voltou. Deve estar cansado. Vamos dormir um pouco.
— Não estou cansado! Mas gostaria de um banho! Fazem setenta dias que não tiro estas roupas.
Guardei meu material escolar, que ainda estava em minhas mãos e em poucos minutos, desfrutava de um delicioso banho, no melhor chuveiro do mundo, da melhor casa do mundo, no melhor ambiente do mundo, na melhor família do mundo...
Mais de trinta minutos de banho, papai abriu a porta destrancada do banheiro e cobrou:
— Já não basta?
— Faz muito tempo que não tomo um banho gostoso assim, papai! — Insinuei rindo, desligando o registro da água.
— Vai se gastar, com tanta água!
Me embrulhei na toalha e segui para meu antigo quarto, onde, observado por meus pais, Leandro e Leticia, me enxuguei e devido o calor penapolense, vesti um antigo pijama curto, que me fôra entregue por mamãe.
Logo depois, ainda cercado por todos, abobados e ainda não acreditando em meu retorno surpresa, fui dormir na mesma caminha de outrora.
Como eu era apenas um menino e devido o prazer do aconchego de meu lar, acabei por adormecer rapidamente; porém, meus pais, devido o acontecido e com certeza, radiantes de felicidades, provavelmente passaram a noite toda, sem conseguir fechar os olhos.
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Na manhã seguinte, levantei-me às nove horas, vesti uma de minhas antigas roupas, que sempre consistia em short muito curto, que me fizera ganhar do amigo adulto Luciano, o apelido de francesinho e camiseta, desta feita sem cavas, já surrada pelo uso constante; na cozinha, encontrei meus cinco irmãos reunidos com mamãe, que naturalmente, tentavam juntos entender, o que teria acontecido comigo e meu feliz retorno surpresa.
— O fujão voltou pra casa. — Insinuou Carlos Henrique, meu irmão mais velho, com sorriso irônico.
Depois de um breve oi e receber um abraço apertado e demorado apenas de Paulinho, meu querido carrapatinho, fui direto ao banheiro, onde tomei um novo, porem rápido banho matinal, escovei muito bem meus dentes e em seguida, de volta à cozinha, observado por todos, tomei dois copos de café com leite e dois grandes pedaços de pão caseiro, dos que a própria mamãe fazia, recheado com manteiga original em lata e que estava a maior delícia do mundo, pois aquilo era algo que não fazia a um ano.
— O maninho tá morrendo de fome. — Tornou brincar Carlos Henrique. — Faz um ano que você não come?
— Deste pão, faz! — Dei de ombros.
Após este café, mamãe me abraçou, perguntando-me:
— Como você foi parar neste tal planeta, que você disse?
— Fui raptado mamãe, por Tony e Rud, em uma gigantesca espaçonave preta e dourada. A Beth, que estava comigo, veio da escola por outro caminho e então, eles me raptaram.
— Te raptaram por quê? Eles te maltrataram?
— Não, me batendo.
— Te tratavam bem? Cuidavam de você?
— Eu sofri muito, mas foi de saudade.
— Por que te levaram?
— Porque eles me amam muito, mamãe.
— Te amam?
— É! O senhor Frene, me ama como a um filho e todos os outros Susterianos também. O senhor Frene, me vê na Terra, a todo o momento. Agora por exemplo, com certeza ele está nos vendo. Ele só me devolveu, pra demonstrar uma grande prova de amor.
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Naquela mesma manhã, devido a saudade, fui andar na antiga bicicleta marca Phillips de papai, seguindo pela rua da casa de Beth, onde acabei encontrando-a, que pensando ser um fantasma, se assustou, a me ver.
— Regis, onde você esteve?
— É uma longa história, Beth.
— Eu achava que você tivesse morrido naquele mato.
— Não morri! Vê? — Ironizei rindo. — Estou aqui em carne e osso!
— As pessoas te procuraram muito, por todo lado, mas nunca te encontraram. Achavam que algum maníaco tivesse te matado e escondido o corpo.
— Credo! Maníaco? Eu hem!
— Ninguém some assim! Como você fez!
— Não sou tolo pra cair nas garras de um maníaco! — Neguei com sorriso, tentando mostrar esperteza.
— E foi tolo caindo nas garras de quem? — Riu também ela, com sarcasmo.
— Você cresceu Beth! Era de meu tamanho! Agora está maior!
— Você é que não cresceu nada! Continua igual ao dia em que desapareceu.
— É! Onde eu estava, às pessoas não crescem assim tão rápido!
— Eu já estou no quarto ano e você repetiu. É claro!
— Eu sei! Você faltou à aula hoje?
— Não! Estou estudando à tarde! Você não estudará mais comigo!
— Eu sei! Você tem dez anos e eu também! Só que aparento ter nove! Ah! De onde eu venho, eu já teria quinze anos!
— Deixe de ser mentiroso!
— Não é mentira não! Lá o ano é mais curto do que aqui e o engraçado é que o dia é bem mais longo e também não existem noites.
— Então deve ser muito gostoso por lá!
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Não vou relatar muitos detalhes, mas naquela mesma tarde, papai me explicou que teria feito certa promessa maluca, para que eu voltasse para casa e com isto eu teria que ser submetido a uma pequena cirurgia.
— Vê lá papai! — Neguei. — Não tenho nenhuma doença!
Ele explicou que seria uma cirurgia muito simples e que me ajudaria na higiene pessoal. Que os judeus circuncidam seus bebês machos e em nosso caso, deixamos tal tarefa, a cargo dos médicos especialistas, que chamam o sacrifício de cirurgia de fimose e eu estaria condenado a pagar sua maldita promessa.
— Mas papai, — Reclamei com lágrimas. — se a promessa é do senhor, por que sou eu que terei que pagar?
E depois de alguma insistência, acabei concordando com tal cirurgia, embora, apesar dele dizer circuncisão e fimose, meus simples dez anos de idade, ainda não me deixava saber, em que parte do corpo, teria que sofrer nas lâminas de um afiado bisturi.
Ao descobrir:
— Nunca! — Protestei convicto. — Não serei capado igual a um leitãozinho!
Porem, não adiantava reclamar muito. Dez dias depois, devido insistentes apelos de papai, apesar de não ser judeu, não ter prometido nada a nenhum santo sanguinário e que meu pequeno probleminha, seria facilmente resolvido com a ajuda de mamãe, ou por mim mesmo, em simples massagem local, acabei mesmo, com muito medo, vergonha e algumas lágrimas, submetido a tal sacrifício, enfrentando injeção anestésica e bisturi afiado, de um tal doutor Rogério Bastos.
Neste período também, com a ajuda de mamãe e carinho de dona Regina, a mesma professora do ano anterior, consegui retornar à escola; pois o ano letivo, mal se iniciara. Estávamos no final do mês de Fevereiro de oitenta e um. Beth, ainda era minha parceira de caminhada para a escola, porem, não colega de classe. Eu voltara a frequentar a mesma terceira série, com praticamente todos, novos colegas de sala, salvo Ricardo e Marcelo, que, assim como eu, teria reprovado no ano anterior. Desta feita, estudava no período da tarde, pois a escola resolveu separar as crianças por faixa etária: de primeira à quarta série, entre sete a dez anos de idade, no período da tarde e de quinta à oitava série, entre onze a quatorze anos, em média, no período da manhã.
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Devido contar passagens sobre meu sequestro a quase todos os meus amigos, a conversa, aos poucos, acabou indo parar nos ouvidos de repórteres de televisão, que abelhudos, ou simplesmente cumprindo seu dever, vieram investigar o ocorrido, acabando sendo mostrado não só para o Brasil, mas até no exterior, onde, os governadores se interessaram e também vieram investigar. Com isto, minha história, acabou parando nos ouvidos de quem mais se interessava por etês e ovinis[1]: os engenheiros da NASA (americana). E foi por isto, que representantes do governo brasileiro, nos visitaram e disseram ao papai:
— O governo americano, convidou Regis e o senhor, pra fazer uma visita à NASA, com tudo pago.
Antes que papai dissesse alguma coisa, decidi imediatamente:
— Não quero ir, papai!
— Como não, garoto! — Estranhou o homem. — Todos os garotos, sonham em conhecer a NASA.
— Eu não sonho! — Neguei prontamente.
— Será importante pra a humanidade, menino!
— Eu não quero ir! — Neguei, saindo da sala.
— Espere! — Insistiu o homem. — A NASA fica na Flórida... Orlando!
— E daí? — Dei de ombros.
— Disneylandia!
— E daí?
Papai continuou conversando com aquele engravata-do e eu, sabendo que podia confiar nele, fui brincar com outros amiguinhos.
Poucas horas mais tarde, retornando para casa, papai veio a meu encontro dizendo:
— Regis, nós viajaremos aos Estados Unidos, dentro de uma semana, mais ou menos.
— Nós, quem?
— Eu, você e o doutor Marcelo.
— Quem é doutor Marcelo?
— Aquele homem que esteve aqui.
— Eu não irei!
— Será importante filho! Ao mundo e a você!
— Importante pra mim! Me investigarem? Já passei por isto, papai! Me deixaram sem roupa! Não quero!
— Eles só querem te ouvir. Estudar alguma coisa que você viveu e aprendeu. Saber onde você realmente esteve... Como foi abduzido...
— Abi... Abid... O que?
— Abduzido filho! É a mesma coisa que arrebatar, roubar, levar... Coisas assim!
— E por que então o senhor não diz: como foi levado?
— Porque quando se refere a seres extraterrestres os cientistas usam este termo.
— Não quero ir, papai!
— Nós também queremos saber, onde você realmente esteve!
— Não acredita em mim?
— Eu acredito em você! — Me abraçou. — Mas precisamos saber mais!
— Já contei ao senhor, tudo o que passei. Se precisar saber mais é só me perguntar! Não aprendi nada que interessa a eles.
— Aprendeu sim, filho! Não vai te acontecer nada! Eles só irão conversar com você.
— Não quero ir! — Neguei, fazendo careta.
— Você não estará sozinho! — Insistiu papai. — Eu também estarei com você!
— Já disse que não quero ir!
Disse que não iria, mas fui. Nunca vi um passaporte e um visto de entrada para os Estados Unidos da América (país rigoroso com a entrada de estrangeiros, diferente do Brasil, que fica de braços abertos para o mundo), ficar pronto em tão curto espaço de tempo.
Era terça-feira de manhã, quando um carro do governo do estado de São Paulo, estivera em casa, com duas pessoas; uma delas apanhou um aparelho esquisito e dentro de casa, pediu licença e foi esfregando aquilo em mim.
— O que é? — Perguntei-lhe.
— Testa pra ver se você está com radioatividade.
— Sai de mim, sô! Não tenho nada disso não!
— Precisamos examinar. Em Angra faremos um teste em seu sangue.
Olhei triste para papai e reclamei indisposto:
— Já disse que não queria ir!
— Nada de mal vai lhe acontecer, garoto! — Afirmou o homem. — Pode acreditar!
— Já está acontecendo! Primeiro vem essa porcaria, depois, enfiarão agulhas em meu braço... Depois, com certeza, me mandarão ficar pelado... — Não que seja mari-quinha, mas já estava com lágrimas. — Papai!
Se existisse algum tipo de radiação em meu corpo ou organismo, já teria matado dezenas de pessoas. Já que alguém queria proteger o mundo, deveria ter feito tal exame em mim, no dia em que cheguei dos céus.
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Naquela mesma tarde, já em Angra dos Reis, no hospital da usina nuclear, foram feitos alguns testes em meu corpo, inclusive, como eu temia, tirando meu sangue e me fazendo fazer xixi, mesmo sem querer; depois, como eu já reclamara antes, não me fizeram ficar pelado, podendo permanecer apenas de cueca, para um pequeno exame ultrassonográfico. Mas felizmente, ou sei lá, nada de muito importante, foi encontrado em meu corpo, apenas vestígios de uma radiação inofensiva, presente em meu organismo.
Na manhã de quarta-feira, já com os testes em mãos, seguimos para os Estados Unidos da América, rumo à NASA, aonde chegamos naquela mesma tarde.
Ao contrário de que eu e papai esperávamos, ele com o doutor Marcelo, ficaram hospedados em um hotel muito chique, no mesmo complexo do centro espacial Kennedy, no Cabo Canaveral, em Orlando na Flórida e eu, no próprio edifício da NASA, no mesmo complexo, a apenas cem metros de distância.
Foi Charles, de aproximadamente trinta anos de idade, moreno, que falava um português muito arrastado, que me levou a meus aposentos. A porta se abriu automá-ticamente e nós entramos. Era um quarto aconchegante, com televisão, telefone, banheiro, bonita cama de casal, frigobar de hotel, cheinho de guloseimas, entre doces, salgados e refrigerantes, alem de uma estante cheia de livros, todos escritos em Inglês. Acho que queriam me tapear, ou conquistar...
— É aqui que você ficará. — Disse-me Charles.
— Até quando?
— No máximo uma semana.
— Por que papai não está comigo?
— Ele não ajudaria em nada! Talvez, até atrapalharia.
— Por que então ele precisou vir?
— Quando terminarmos os estudos, você poderá ficar mais uma semana e então poderá passear com ele.
— Não, obrigado!
— Estamos na Disneylandia, o mundo mais cobiçado por todas as crianças do planeta!
— Quero ir embora logo!
— Por que tanta pressa?
— Quando vai começar os tais estudos?
— Amanhã cedinho.
— Não poderia ter ficado com meu pai no mesmo hotel? É tão próximo!
— É melhor você ficar aqui! Não tenha medo!
— É verdade que aqui o horário é diferente do Brasil?
— Sim, é verdade. Agora são oito e quinze da noite aqui; no Brasil, são dez e quinze.
[1] E.T e OVNI (Extra terrestre e objeto voador não identificado).
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