Um mahou shoujo muito louco

2 Não dá para competir com uma garota bonita e inteligente


O fim de semana passou tranquilamente, sem ameaça golon ou coisa do tipo. Na segunda-feira, Fulaninha e sua família estavam tomando seu café da manhã juntos, todos já arrumados para a escola ou trabalho.

O primeiro a sair foi o pai e, minutos depois, a mãe da garota percebeu que ele havia esquecido seu almoço.

— Ih, seu pai esqueceu a comida de novo! Pior é que ele está com colesterol alto, se ficar comendo porcarias de rua vai acabar ficando doente – a mulher reclamou, segurando o pote com a comida.

— Eu levo pra ele! – Fulaninha levantou a mão, empolgada.

— Mas você vai ter tempo pra isso? Não quero você perdendo aula – a mãe ficou desconfiada.

— Fica tranquila, eu tenho uma hora e meia de almoço e a faculdade não fica longe, se o horário ficar apertado eu chamo um Ubert.

A mãe concordou. Fulaninha pegou o pacote, sua mochila e aproveitou a carona da mãe, já que dessa vez não estava atrasada.

****

Quando o sinal do meio dia bateu, Fulaninha saiu correndo. Pegou um ônibus e meia hora depois estava na universidade em que seu pai trabalha como professor e pesquisador. Não era a primeira vez que esteve lá e conhecia bem o local, então foi até a sala do pai, onde o encontrou entrando para colocar seu material após terminar uma aula.

— Pai! – ela chamou, acenando.

— Fulaninha! O que veio fazer aqui?

— Esqueceu o almoço – ela entregou o pote para ele.

— Obrigado – ele fez uma cara de desapontado.

— Algum problema?

— Você promete guardar segredo?

— Claro.

— De vez em quando eu esqueço a comida de propósito. Eu gosto da comida da sua mãe, mas um churrasquinho de rua de vez em quando não vai me matar.

— Não vou contar pra ela, eu prometo! Mudando de assunto, por acaso, assim… – ela ficou hesitante – você viu o…

— Boa tarde professor, vamos almoçar? – apareceu um rapaz alto, com cabelos prateados bem penteados, vestido com uma calça preta, camisa polo e sapatênis.

— Olá Ai Ai Ai Yukito! – disse o professor – Já vou, vem comer com a gente Fulaninha?

— É claro – ela tinha um sorriso de orelha a orelha e olhava fixamente para o rapaz.

Aquele era Ai Ai Ai Yukito, aluno do curso de astronomia e estagiário do professor De Tal, conhecido também como pai da Fulaninha. E por falar nisso, ele é o motivo da garota querer tanto ir no trabalho do seu pai, Ai Ai Ai Yukito é a paixão secreta dela, mesmo os dois tendo se visto poucas vezes e nunca terem conversado sozinhos.

Os três foram a um restaurante que ficava em frente à universidade. Sentaram em uma mesa com quatro lugares e fizeram o pedido ao garçom. O professor e o estagiário falavam de coisas que a Fulaninha não entendia, o que não era um problema já que ela adorava simplesmente ouvir a voz do crush.

— Dá licença, posso sentar aqui?

Quem falou foi uma garota aparentando ter uns quinze anos. Era bem baixinha, cabelos pretos longos com uma trança e óculos.

— Oi Eufêmica, não precisa dessa formalidade toda só porque o professor está aqui. Senta aqui com a gente – falou Ai Ai Ai.

— Você é aluna da astronomia? Você parece tão nova – perguntou o professor, ou pai, tanto faz.

— Sou sim – ela disse rapidamente.

— Ela é do primeiro período, entrou na faculdade com dezesseis anos! Ficou famosa depois de ter tirado dez em Cálculo com o professor Pinho – informou Ai Ai Ai.

— Nossa, estou impressionado! Já sabe resolver integral? – perguntou o professor.

— Sim, e estou começando a pesquisar sobre integrais múltiplas – disse a garota.

— Eu só como pão integral – disse Fulana, tentando se integrar no assunto.

O pai, o Ai Ai Ai e a Eufêmica olharam para Fulaninha sem entender o que tinha a ver com o assunto.

— Que bom Fulaninha – falou o pai – Mas então, você já sabe em qual área quer se especializar? Já pensou em astrofísica extragalática?

A conversa continuou, Fulana não entendendo nada e literalmente se mordendo de ciúme cada vez que Ai Ai Ai Yukito elogiava a colega.

Enfim eles almoçaram e voltaram aos seus afazeres. O pai da Fulaninha chamou um Ubert para ela voltar para a escola.

****

Fulana chegou à escola bem no horário em que o sinal bateu. Sua amiga Suelensen a esperava.

— Nossa Fulaninha, você saiu toda feliz pra ver o Ai Ai Ai… quer dizer, pra levar o almoço do seu pai e voltou com essa cara de bunda. O que aconteceu.

— Nada de mais…

— Te conheço, você vive rindo de tudo e agora está séria. Mas se não quer contar não vou insistir.

A professora começou a escrever no quadro e as garotas copiavam. Cinco minutos depois, Fulana foi falar de novo com a amiga.

— Você me acha burra?

— Burra não, lerda. No seu lugar eu já teria dado uma chave de perna naquele cara da faculdade há uns dois meses.

— Não é disso que eu tô falando. Sabe, hoje conheci uma garota que entrou na faculdade com dezesseis anos e o Ai Ai Ai Yukito tava todo se derretendo pra ela.

— Fica tranquila, garotas inteligentes costumam ser feias. Ela era feia?

— Pior é que não. Ela é bonita, parece até uma personagem de anime.

— Isso não é bom. Quer uma solução? Um soco na boca, se ela ficar sem os dentes da frente vai ficar feia e pronto, problema resolvido.

— Não, eu não vou bater nela! E do jeito que eu não tenho coordenação é capaz deu errar o soco e acertar a minha própria boca.

— Tô dizendo, se não ficar ligada vai perder o boy pra sempre.

— Parem de papo e copiem logo o dever! – a professora interrompeu a conversa das garotas.

****

De noite, Fulana estava no seu quarto, quando Nee Obio chegou perto dela ronronando.

— Como foi no trabalho do seu pai? – ele perguntou.

— Normal.

— É mesmo? Então você gostou de conhecer a Eufêmica.

— Quem? Ah tá, a nerdzinha, nem prestei muita atenção nela.

— Minha cara amiga, eu estou há anos estudando o comportamento de terráqueas de quatorze a dezessete anos e sei quando vocês mentem. E aliás eu estava lá e vi como você ficou.

— Você anda me seguindo?

—Tenho sempre que estar por perto, ataques golons podem acontecer a qualquer hora. Mas não é esse o assunto agora, você quer mesmo saber se ela é sua rival no amor?

— Como assim?

— Coletar informações sobre o potencial inimigo. Provavelmente ela tem um perfil no Feicebuque, que tal dar uma olhada?

Fulaninha não falou nada, mas imediatamente pegou seu celular, abriu o aplicativo da rede social e pesquisou por Eufêmica. Como é um nome incomum foi fácil de encontrá-la.

— Hum, ela faz poucas postagens… Bem, diz que ela morava em outra cidade e veio pra cá por causa da faculdade. Eu acho que a Estadual não tem alojamento, então ela deve ter alugado um apartamento por aqui.

— Ótimo, você tem vocação pra Xerox Holmes – comentou Nee.

— Tá, mas isso não ajuda em muita coisa. O Ai Ai Ai Yukito é amigo dela no Feicebuqui, mas nenhuma marcação de fotos juntos…

— Que procurar por ela? Tipo, ver como ela se comporta, saber se ela e o Ai Ai Ai se veem fora da faculdade…

— Não acha que stalkear a garota já é de mais? Tô começando a achar a ideia da Suelensen de dar um soco na Eufêmica menos invasiva.

— Relaxa, é só ser discreta. Amanhã depois da escola podemos espionar juntos, qualquer coisa eu uso o meu charme pra distraí-la.

— Ok, vou confiar em você.

****

No dia seguinte, Fulana se encontrou com o Nee Obio depois da escola e foram até a Universidade.

— Chegamos, mas e agora? Saímos por aí procurando por ela aleatoriamente? – perguntou Fulaninha.

— Te darei um acessório novo que vai ajudar. Vamos a um banheiro que eu te mostro.

A garota e o gato foram ao banheiro e entraram em uma cabine, fechando a porta logo em seguida.

— Ah Fulaninha, logo que eu cheguei nesse planeta eu fiquei empolgado em me valer desse corpo de gato pra entrar livremente em banheiros femininos. Era legal ver belas mulheres trocando de roupa, mas até que comecei a ver coisas que eu não gostei. Acho que sabe do que estou falando – ele olhou para o vaso sanitário.

— Dá pra mudar de assunto? – Fulaninha reclamou.

— Claro. Se transforme.

— O quê? Não posso sair por aí igual a uma cosplayer maluca.

— Ninguém vai ver. Anda logo.

Ela pegou sua pedra, deu o grito ridículo e se transformou em garota mágica. Na verdade pouca coisa mudou, apenas roupa e maquiagem mesmo. Lá de dentro ela ouviu comentários vindos do lado de fora.

— Uma doida entrou falando com um gato e agora gritou não sei o que de poder – disse alguma mulher.

— Deve ser estudante de Filosofia. Vamos embora antes que saia e ataque a gente – falou outra.

Dentro da cabine, Fulana e o gato alienígena continuaram.

— Tá bom, o que faço agora? – ela perguntou.

— Eu coloquei um óculos rosa na sua mochila. Coloque-o.

A garota obedeceu.

— Agora pegue seu celular, procure alguma foto da Eufêmica no feicebuique.

Fulaninha levou dois minutos para cumprir a tarefa.

— Pronto, e agora?

— Aperte na foto e compartilhe por bluetooth com um dispositivo chamado “Óculos Localizador Ultra Secreto”.

Ela fez o que Nee falou.

— Ultra secreto e nem pediu senha?

— Depois vejo esses detalhes. Está vendo alguma coisa diferente?

— Tem um pontinho azul piscando na tela, também tem tipo um mapa e escrito 200E 30U.

— É onde ela está, duzentos metros ao oeste e trinta metros acima.

— E pra onde é isso? Nem sei onde é o oeste.

— Já jogou RPGs em videogames?

— Não.

— É igualzinho. Vamos sair do banheiro, qualquer coisa eu te ajudo.

Ela saiu, com sua vestido cor de rosa cheio de fru fru, óculos rosa e sendo seguida por um gato muito feio. Andava pelos corredores procurando a localização da Eufêmica, sendo olhada por todos que passavam e até apreciada por alguns rapazes.

Demorou um pouco, mas finalmente chegou na posição 0 0, que era o terraço de um dos blocos da Universidade, e ela pôde ver Eufêmica com mais cinco pessoas mexendo em um telescópio. Fulaninha ficou observando escondida e assim que anoiteceu, todos começaram a fazer observações e anotá-las, provavelmente algum trabalho em grupo. Uma hora depois todos guardaram o material e começaram a ir embora.

Fulana seguiu Eufêmica pela escada, até que Eufêmica olhou pra trás.

— Por que está me seguindo, filha do professor De Tal?

Fulaninha se assustou e não sabia onde enfiar a cara.

— É… eu…

— Eu te vi desde quando estava fazendo o trabalho e sinceramente acho que você não está interessada em fazer observações astronômicas — Eufêmica falava com uma calma amedrontadora.

— Eu quero… — Fulaninha tentava pensar em uma desculpa — te chamar pra um concurso de cosplay!

—Ah?

— É, você parece uma tsundere, poderia fazer dupla comigo!

— Eu não sei do que você está falando.

As garotas foram interrompidas pelo Nee Obio, que segurava com a boca o radar verde localizador de golons. Ele começou a dar leves arranhões na perna da Fulana.

— Agora não Nee, depois eu brinco com você!

— Isso é alerta de uma ataque golon — o gato falou.

Eufêmica não disse nada, apenas pegou Nee no colo e apertou sua barriga e outras partes do seu corpo.

— Viu Fulaninha, ela sim sabe como tratar um lindo gato — falou Nee.

— Nossa, não achei que encontraria um extra-terrestre aqui — falou Eufêmica, deixando os outros perplexos.

— Como você descobriu? —perguntou Fulana.

— Apertando percebi que não é um robô. Não poderia ser um mutante, nossa ciência ainda não evoluiu a ponto de criar ou modificar um ser vivo a tal ponto, então só pode ser de outro planeta.

Bonita e inteligente, eu te odeio! — Fulana resmungou baixinho.

— Deixa a conversa pra depois. Venha Fulalinha, há golons aqui perto devem estar tramando alguma coisa. Vem com a gente garota inteligente?

— É claro, nunca perderia a chance de passar algum tempo com um alien.

Nee começou a correr seguindo a localização do seu radar, sendo seguido pelas garotas. Foram até outro bloco, desceram escadas e chegaram até uma sala trancada, onde havia uma placa escrito “laboratório de biotecnologia”.

— Está aqui dentro — disse o gato.

— Eu dou um jeito SUPER RAIO ROSA BRILHANTE!

Fulaninha disparou um raio na fechadura e a porta se abriu instantaneamente. O trio entrou e se deparou com um gorila pegando pequenos macacos que estavam em jaulas e colocando em uma sacola.

— Deixe em paz esses macaquinhos seu macaco grande! — falou a heroína.

— Humano fêmea com pele rosa… É você que acabou com nosso último plano. Toma totoma!

O gorila bateu nos próprios peitos e começou a atacar Fulana. A garota desviou do primeiro golpe, mas depois foi atingida por uma sequência de vários socos que a fizeram ir ao chão.

— Ai… isso dói.

Fulaninha estava machucada, se não estivesse em com sua forma de combate certamente estaria inconsciente. Mas apesar disso estava confiante e se levantou com elegância.

— Você tem força bruta, mas como garota mágica tenho algo mais poderoso: SUPER RAIO ROSA BRILHANTE!

Ela apontou o anel e nada aconteceu.

— Ué, o que houve?

—Uga Uga, você é só um humano fêmea fraco. Vou acabar logo com isso.

O gorila bateu nela, mas bateu muito mesmo, deixando a garota caída, ferida e mal conseguindo se mover.

— Ela vai morrer desse jeito, faz alguma coisa gato alienígena — Eufêmica tentava interferir.

— Eu não posso, mas você pode — Nee jogou uma pedra azul para ela.

— O que eu faço com isso?

— Segure e grite alto “Dê-me o poder”.

—DÊ ME O PODER!

A pedra se deslocou para o peito da garota. A transformação inciou assim como a da Fulaninha, música vindo do nada, muito brilho e roupas que desaparecem. Todavia, a roupa que se formou era um vestido estilo colegial de anime, com body branco, saia curta azul, assim como botas de canos médios e luvas. Aneis, brincos e maquiagem completaram o visual.

— Outro? — disse o gorila — tanto faz, mato qualquer um que tentar me impedir.

O gorila começou a correr na direção da Eufêmica, que traquilamente apontou seu anel para ele.

— Vai fazer o que, gritar e apanhar que nem o outro humano fêmea? — zombou o gorila.

— SUPER RAIO AZUL BRILHANTE!

Um raio azul saiu do anel e atingiu o monstro, que foi pulverizado pelo ataque.

— Eu nem precisei te ensinar como lançar o raio, estou impressionado — elogiou Nee.

— Ela usa roupa rosa e falava super raio rosa brilhante, como a minha roupa é azul induzi que seria super raio azul brilhante.

Eles ouviram um gemido de dor, era Fulaninha.

— Vou cuidar de você.

Eufêmica a pegou no colo e carregou para sua casa, que ficava a dois quarteirões do campus. A colocou na cama e providenciou curativos e um remédio pra dor. Logo depois, pegou o telefone.

— Ai Ai Ai Yukito? Sim, sou eu, a Eufêmica. Você pode me dar o número do professor De Tal? Não estou livre hoje a noite, desculpe. Pode me mandar por mensagem sim, obrigada.

Assim que a mensagem com o número do pai da Fulana chegou, ela ligou para ele e disse que sua filha havia caído de uma escada e que se machucou sem muita gravidade. Deu o endereço e De Tal disse que a buscaria rapidamente.

— Como eu suspeitava, você é a azul — disse Nee Obio.

— É bom conhecer um ser de outro planeta, tenho muitas perguntas para fazer.

— Vamos cuidar da Fulaninha, outro dia respondo tudo.

— Eu tô bem — Fulana sentou na cama, mostrando vitalidade — mas me responda Nee, você disse que para conseguir usar a tecnologia do seu planeta tinha que ser uma garota que tira nota baixa em matemática e que só chega atrasada na escola, certamente não é o caso dela.

— Isso é para a rosa. Para sincronizar com o traje azul é necessário que seja uma garota muito inteligente. Pelo que observei ontem, imaginei que ela poderia ser a guerreira azul.

— Ei, então quer dizer que viemos aqui pra testar se ela poderia sincronizar com o traje azul? Você me enganou dizendo que era pra bisbilhotar e descobrir se ela e o Ai Ai AiYukito tinham algum lance!

Assim que terminou de dizer a frase, Fulaninha percebeu que falou de mais e ficou vermelha e gaguejando, tentando se explicar.

— Aff — eufêmica suspirou — eu vim de outra cidade, estou longe da minha família e meus pais trabalham pra caramba pra me manter na faculdade. Estou aqui para estudar, não estou interessada em festas e muito menos em arranjar namorado. Eu sei que fiquei famosa no campus pela minha idade e por tirar notas boas, de vez em quando tem caras dando em cima de mim mas eu só quero fazer minha faculdade em paz. E lutar contra macacos alienígenas ladrões de cobaias.

— Desculpa — disse Fulana, de cabeça baixa.

— Eu não tenho nenhum interesse no Ai Ai Ai Yukito e sinceramente acredito que ele também não gosta de mim dessa maneira, acho que ele só quer mais alguém pro grupo de pesquisa que ele participa. Se você gosta dele vá em frente.

— Obrigada.

Fulaninha ainda estava sem graça, porém aliviada por saber que Eufêmica não era sua rival. Um pouco depois seu pai chegou, agradeceu à universitária e levou a filha para casa.