Um futuro incerto, mas repleto de amor
90 Capítulo 90
Notas iniciais

Ben, Anita e Bernardo conversavam animados enquanto Marcela e Daniel namoravam noutro canto do pátio como eles disseram ...
–- Cara, já que você não tem compromisso nenhum agora de tarde vamos almoçar lá em casa. Tenho certeza que a Meg vai adorar – convidou Ben
–- Ah, não sei ... não quero incomodar! Já são tantas bocas que a Vera tem que dar conta que eu não quero dar mais trabalho. De noite a gente se encontra e comemoramos o aniversário dela – justificou Bernardo
–- Que incômodo? Parece até que não tem convivido com a gente nestes últimos meses, minha mãe adora aquela casa movimentada – ponderou Anita
–- Tá bom, me convenceram. No final da aula vamos todos juntos – falou Bernardo
–- Hum! Garantimos uma carona gatinho! – zombou Anita dando um selinho em Ben
–- Gente mudando de assunto, eu estava muito preocupado com essa mudança no comando na reitoria assim do nada, mas andei pesquisando sobre os candidatos e eles são muito capacitados. O mais cotado então tem uma carreira incrível e é muito estudioso. Estaremos em excelentes mãos, estou bem mais tranquilo – falou Ben
–- Oi pessoas lindas, podemos nos juntar? – perguntou Marcela chegando com Daniel
–- Não...! Aqui nessa rodinha só pode ficar cariocas de nascença, pessoas do interior do Estado não são bem-vindas. Se você quiser pode ficar Daniel – brincou Anita
–- Ih pelo visto o preconceito e a discriminação são os pratos do dia aqui neste campus hoje – falou Marcela se sentando com o namorado
–- E ai do que vocês estavam falando? – perguntou Daniel
–- Eu estava comentando sobre a qualidade dos candidatos a reitor, principalmente este senhor João Paulo Albuquerque. O cara é muito bom, não vejo a hora de acompanhar o trabalho dele de perto – respondeu Ben mostrando a foto do candidato na tela do celular
–- Ih, não sei se vai ser ele não Ben --- falou Marcela
–- Ué, porque você está dizendo isso? – perguntou Ben
–- Então ... eu não comentei que este campus hoje está muito preconceituoso? Acabamos de passar por uma rodinha daquele povinho elitista daqui sabe?
–- O que que tem? – perguntou Anita
–- Tem é que eles estão começando uma mobilização de repúdio a contratação desse reitor que o Ben citou – explicou Marcela
–- Mas porque? Pelo que o Ben leu para gente o cara é altamente preparado, tem um currículo impecável – falou Bernardo
–- Vocês nem desconfiam? – perguntou Marcela
–- Nem ideia – disse Ben
–- Gente que país, ou melhor, que mundo que vocês vivem? Acordem ... o cara é negro! – falou Marcela
–- O que! – exclamou Anita espantada
–- Não acredito que nos dias de hoje e dentro de uma universidade, onde as pessoas deveriam ser esclarecidas, ainda possa existir opiniões tão retrógadas – se revoltou Ben
–- Cara o preconceito racial está enraizado nesse país, muitas pessoas negam, mas fazem discriminação sim. É triste, mas é a realidade – disse Bernardo
–- Aonde está acontecendo isso Marcela? Eu vou lá! – disse Ben
–- Eu vou também ... vamos todos – falou Anita
–- Então vamos eu levo vocês – se prontificou Marcela
Quando chegaram perto da rodinha que planejava o complô contra o provável novo reitor, já não tinha mais quase ninguém. Muitos alunos já tinham voltado para a sala de aula por causa da proximidade do fim do intervalo. Mesmo assim ele puderam escutar parte de uma conversa acirrada que levava a crer que o tema ainda iria render muita discussão entre as correntes opostas
–- Isso que vocês estão armando aqui pelas costas do futuro reitor é uma pilantragem – falava Leonardo alterado – Muito me surpreende você fazer parte disso
–- Não tem nada de escondido não Léo, isso aqui foi apenas um primeiro contato para vermos quantas pessoas compartilham da nossa opinião. Agora vamos nos organizar e fazer um movimento oficial de oposição a essa indicação – falou uma aluna do curso de arquitetura
–- Até agora só ouvi palavras soltas. Será que você pode ao menos me apresentar uma razão razoável para ir contra a essa indicação? – pediu Leonardo
–- Léo nós temos os nossos motivos e estamos nos organizando, mas aceito a democracia, reúna pessoas que compartilhem da sua opinião e faça um movimento também e vamos ver quem ganha. Tenho uns amigos da Comunicação Social e eles estão responsáveis por fazer as publicações com as nossas ideias, você poderá ler. Não preciso ficar me explicando, ainda mais com plateia – disse ela observando a presença de bem Anita e companhia
–- Eu já entendi o real motivo de vocês e posso te garantir que com eles ninguém ganha, só se perde. Pode ter certeza que esse movimento preconceituoso e vazio de vocês não ficará sem resposta – disse Leonardo
–- Bom já vi que estou gastando saliva a toa, não vou perder meu tempo argumentando. Você estava aqui mais cedo e escutou as nossas idéias. Agora essa rodinha mais parece algo intimidador, vocês querem me jogar numa arena e eu não participarei, tchau – falou a estudante
–- Ué medo de público? Exponha seus argumentos, quem sabe não nos convença? – falou Ben irônico se intrometendo na conversa
–- Desculpe, mas eu nem sei quem é você, as duas meninas eu já vi e acho que são minhas calouras ... Mas você!-- disse a garota
–- Eu sou um aluno da UFRJ que nem você e posso vir a ser útil na sua revindicação -- explicou Ben
–- Léo o que está acontecendo? – perguntou Marcela
–- São essas patricinhas e filhinhos de papai que estão se reunindo para impedir que o novo reitor seja um negro, precisamos fazer alguma coisa para freia-los. Gente “Maria vai com as outras” e que nunca deu duro na vida – falou Leonardo
–- Epa quem está partindo com ofensas aqui é você, com licença! – falou a aluna
–- Toda! – disse Leonardo
–- Eu vi e ouvi esse burburinho quando passei por aqui mais cedo, mas se acalme isso não vai dar em nada. Esse bando vai espernear, mas o conselho da UFRJ é sério e não vai dar ouvidos a essa baboseira. Vai ser feito o melhor pela instituição – ponderou Marcela
–- Não ... Não podemos ficar de braços cruzados. Pode até ser que você tenha razão e esse movimento racista não tenha influência lá em cima, mas nós não podemos ficar quietos e deixar que pensem que a voz dos alunos da UFRJ é essa que se apresentou hoje. Me recuso que pensem que compartilho deste pensamento e você sabe que quem cala consente. – falou Leonardo
–- Eu concordo com você – disse Ben
Nesse momento se fez um silêncio e os amigos se entreolharam sem entender o apoio que Ben acabara de dar ao rival, até Leonardo se surpreendeu. Apenas Anita compreendeu a posição de Ben e lançou um olhar cúmplice ao namorado que continuou
–- Eu compartilho da sua indignação Leonardo, agora a pouco eu estava vendo o histórico do professor João Paulo e o cara é de longe o mais capacitado. Eu quero brigar por ele também, porque eu quero o melhor para mim e para a faculdade onde eu estudo – explicou Ben – Essa luta é também por uma causa muito maior
–- Justamente isso cara, eu na verdade ainda não tinha me dado o trabalho de ler sobre ele e nem sobre nenhum outro candidato. O que me irritou neste primeiro momento foram os comentários desrespeitosos e racistas. Agora sabendo que o cara é bom estou com mais garra ainda para a briga – disse Leonardo
–- Então eu acho que acaba de nascer um movimento – falou Ben olhando diretamente para Leonardo que concordou balançando a cabeça ainda não acreditando na trégua que o destino tinha preparado para os dois
–- Podem contar comigo – disse Anita orgulhosa
–- Com todos nós eu creio – falou Marcela recebendo o apoio de Daniel e Bernardo
–- Ótimo, já temos um núcleo por onde começar. Agora precisamos arrumar simpatizantes para a nossa causa – disse Ben
–- E tem que ser logo porque pelo que eu entendi o outro grupo já quer começar a fazer barulho amanhã – falou Anita
–- Que ridículo até panfleto o pessoal de comunicação social vai fazer. Porque as pessoas se dão ao trabalho de escrever coisas apenas para humilhar e atrapalhar o próximo? Que coisa mais mesquinha! – falou Leonardo
–- São baixos mesmo, mas nós vamos contra atacar com palavras e inteligência – concordou Ben
–- Bom o dever de casa para hoje é contatar as pessoas que conhecemos e tentar reunir todos que estão a nosso favor amanhã aqui – pediu Anita
–- Combinado! Agora vamos voltar para aula que o intervalo já terminou. Vamos nos falando durante o dia – falou Ben
–- Bom eu posso dizer que eu sou uma pessoa popular neste campus, posso dar vários telefonemas e tenho certeza que a maioria vai atender ao meu pedido – falou Daniel
–- Sei bem qual a sua popularidade – retrucou Marcela séria
–- Loira queremos números, não é? – perguntou Daniel
–- Me desculpe, mas não! Queremos qualidade, número quem quer é esse povo cabeça oca que estava aqui fazendo barulho. O que nós precisamos são de pessoas esclarecidas e que saibam argumentar. Não importa o quantitativo e sim a qualidade – falou Leonardo
–- “Toda unanimidade é burra.Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”, já dizia Nelson Rodrigues. Não precisamos disso, deixe que eles sejam e ajam como um bando – disse Ben
–- Bom eu já ia pro casarão mesmo, lá de tarde eu posso ajudar a Anita com os telefonemas. Eu também conheço muita gente que estuda aqui e sei selecionar as esclarecidas – se prontificou Bernardo
–- Assim está ótimo, vamos nos falando então – se despediu Leonardo
–- Tchau até amanhã – disse Marcela saindo com Daniel
–- Ben!? – chamou Leonardo
–- Sim – ele se virou abraçado a Anita
–- Obrigado por se propor a ajudar!
–- Não foi nada, eu não consigo ver injustiça, vou estar sempre do lado do que eu acho correto – disse o rapaz
–- Está certo! Até amanhã então – disse Leonardo que abortou da pretensão de estender a mão em cumprimento percebendo que ainda não era o momento
Autora: Carol
Fale com o autor